quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A feliz marginalização

“A Igreja conciliar, que está destinada a se auto demolir, faz um grande esforço para subsistir. Em que consiste a sua tenacidade? Consiste em que a sua hierarquia usa de todo o poder da hierarquia católica que ocupa, detém e desvia.
Desde a instauração da missa de Paulo VI, essa hierarquia perseguiu, continuamente, os sacerdotes fieis à missa verdadeira, ao catecismo verdadeiro, à verdadeira disciplina sacramental, e também perseguiu os religiosos fieis à sua Regra e a seus votos. Vários são os sacerdotes que morreram de desgosto por dever – por obediência, acreditavam eles – adotar os novos ritos e usos. Vários também foram aqueles que morreram no ostracismo, pressionados canônica e psicologicamente, porém felizes em dar um testemunho inflexível do rito católico, da fé íntegra e de Cristo-Rei. As ameaças, o medo, as censuras e outras punições não os abalaram. Contudo, é triste constatar quantos são aqueles que cederam a esses métodos de violência, à chantagem da “desobediência” e da destituição exercida por seus superiores.
E nisso colocamos o dedo na ferida da malícia liberal desses superiores: Não se diz, com toda razão, que não há alguém mais sectário que um liberal? Não tendo princípios para fazer com que a ordem reine, fazem com que reine um regime de submissão pelo terror.
A malícia da hierarquia conciliar é rematada pelo uso que faz da mentira e do equívoco. Assim, o Motu Proprio do Papa Bento XVI, ao ter dito que a missa tradicional nunca tinha sido suprimida e que sua celebração é livre, amarrou essa liberdade a algumas condições que lhe são contrárias, chegando até o cúmulo de chamar a missa autêntica e a sua falsificação modernista, respectivamente, de “forma extraordinária e forma ordinária de um mesmo rito romano”....
A mentira prossegue com o suposto “perdão” das pseudoexcomunhões dos quatro bispos sagrados por Dom Marcel Lefebvre em 1988, como se elas tivessem acontecido validamente.
Todavia, por impressionante contraste, a hierarquia conciliar nunca foi capaz de fazer com que o quinto mandamento de Deus – Não matarás – fosse respeitado. Os bispos já quase não o ensinam, e com isso, os países outrora católicos são aqueles mesmos onde o aborto está mais em voga.
A encíclica Humanae vitae, do papa Paulo VI, foi quase ocultada pelos Bispos, acarretando o uso freqüente da pílula anticoncepcional pela maioria das moças e das mulheres católicas. Os costumes imundos do mundo atual são apenas o transbordamento do vício ao qual a hierarquia conciliar não soube opor nenhum obstáculo.
Essa Igreja conciliar atrai para sua pseudocomunhão uma massa de cristãos que, na realidade, vivem no pecado e no paganismo prático.
Não pertencer à Igreja conciliar é uma graça de Deus e um testemunho providencial
Bem-aventurados aqueles que não estão nessa “comunhão de profanos”, que providencialmente são excluídos ou ameaçados de serem excluídos! Feliz marginalização e feliz abandono! A vocação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, desde sua fundação pela Igreja Católica, em 1970, e do decreto romano de louvor que a honrou em 1971, nunca foi a de receber as bênçãos e os reconhecimentos dessa Igreja conciliar! Era, sem dúvida, necessário que essa sociedade sacerdotal, com toda a família da Tradição, fosse como a tocha acesa e que não é colocada debaixo do alqueire conciliar; mas sim sobre o candeeiro mais visível, a fim de que ilumine a todos aqueles que estão na casa de Deus. Era provavelmente preferível, segundo os caminhos da Providência, que essa parte sã da Igreja Católica, tendo se tornado, como o Divino Mestre, pedra de escândalo, pedra rejeitada pelos construtores da “dissociedade” eclesial conciliar, se tornasse a pedra angular da catedral católica indestrutível. Nosso testemunho inflexível em relação à verdadeira Igreja de Cristo, ao sacerdócio e à Realeza do Cristo Sacerdote e Rei exige, com certeza, da parte da Igreja conciliar, a exclusão e o ostracismo pronunciados contra nós e contra o que nós representamos. Mas, como São José indo para o seu exílio egípcio carregava o Menino Jesus e Sua Santíssima Mãe, que constituíam o germe da Igreja Católica, assim, em seu exílio, a família da Tradição carrega em si a Igreja Católica, sem ter, com certeza, a exclusividade dessa gloriosa função - mas tendo a coluna e o coração, íntegra e incorrupta. Portanto, essa família carrega também em si o Pontífice Romano; nela, o sucessor de Pedro conseguirá se libertar, um dia, do longo cativeiro, e sairá de todas as suas ilusões, para proclamar como antes fez o primeiro Papa, em Cesaréia de Filipo, ao seu Mestre: “Tu es Christus, Filius Dei vivi!” (Mt 16,16).
Assim sendo, se nós formos uns complicados, lamentaremos estar privados da comunhão conciliar ou de sua aparência de comunhão eclesial, e estaremos sem cessar inquietos e infelizes, em busca de uma solução. Se, ao contrário, tivermos uma fé e simplicidade de criança, procuraremos simplesmente qual é o testemunho que devemos dar da fé católica. E o encontraremos: é, primeiro, o testemunho de nossa existência, de nossa permanência, de nossa estabilidade, junto com o de nossa profissão de fé católica íntegra e o de nossa rejeição dos erros e das reformas conciliares. Um testemunho é sempre absoluto. Se dou testemunho da missa católica, do Cristo-Rei, é necessário que eu me abstenha das missas e das doutrinas conciliares. É como o dilema do oferecimento do grãozinho de incenso aos ídolos, pedido aos réus católicos pelos tribunais pagãos: é um único grão ou absolutamente nenhum. Então, para nós, “é absolutamente nenhum”! E, depois, esse testemunho é também sofrer a perseguição - é normal que venha da parte dos inimigos dessa fé íntegra, que desejam derrotar nossa oposição radical à nova religião. E digo sofrer, mas sofrer tanto tempo quanto Deus permita que eles perseverem nos seus desígnios maliciosos! Não foi Deus mesmo quem colocou essa inimizade entre a descendência do demônio e os filhos de Maria? Inimicitas ponam! (Gn 3,15).
Portanto, quando, no recolhimento da oração, percebemos essa vocação própria que é a nossa, adaptada por Deus à atual crise, consentimos em perfeita retidão e em grande paz: retidão incapaz de ter qualquer cumplicidade com o inimigo; paz sem amargura. Corremos até essa vocação, nós nos lançamos nela e dizemos, como Santa Teresinha do Menino Jesus: “Na Igreja minha Mãe, encontrei a minha vocação!” E pedimos a essa santa magnânima: “Obtende-nos a graça de ter dentro da Igreja e para a Igreja uma alma de mártir ou, pelo menos, de confessor da Fé”!”
(Dom Bernard Tissier de Mallerais, A Igreja Conciliar Subsiste)

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Stanley Jaki e a relação dos cientistas com a filosofia (II)

“A Ciência moderna tem, nos termos da Teoria Geral da Relatividade de Einstein, um método que está livre de contradições com a gravitação interativa de tudo que é material. Daí se segue que, desde o ponto de vista da ciência, a idéia de universo é uma idéia legítima. Por que essa conclusão é tão importante? Porque Immanuel Kant, em seu ataque ao argumento cosmológico, declarou que este não apresenta razões concludentes, porque a idéia de universo é uma idéia falsa. De fato, Kant escreveu que o conceito de universo é o fruto ilegítimo dos desejos metafísicos do intelecto. Os cientistas modernos que se dedicam ao estudo da cosmologia devem, contudo, basear seus estudos na Teoria Geral da Relatividade de Einstein e, portanto, admitir que o universo é um conceito legítimo segundo a perspectiva científica. Dessa forma, a Cosmologia moderna arruína a objeção de Kant ao argumento cosmológico. E mais, a ciência moderna apresenta o universo como algo extremamente específico, tanto no espaço como no tempo. Conseqüentemente, e ao contrário do que afirmou Kant, a ciência não propõe dificuldades na hora de formular uma pergunta tão própria da Metafísica como é “Por que o universo é assim e não de outra maneira?” Qualquer pessoa minimamente informada da história do pensamento ao longo dos séculos passados poderá perceber sem problemas que essa contribuição da ciência ao argumento cosmológico é de suma importância.
- O senhor não crê que, embora talvez de modo inconsciente, as idéias filosóficas de cada cientista em particular influem em seu trabalho?
- Em todas as épocas, seja no século XIX, no XVIII ou no XIII, a maioria dos cientistas compartilhava os pontos de vista de grande parte dos outros grupos profissionais. Também é verdade que, na maior parte dos casos, as hipóteses empregadas nos trabalhos não são um reflexo da atividade científica. E quando são, costuma ocorrer que se empregam formulações muito primitivas das questões filosóficas. Portanto, é muito difícil tentar aprender filosofia através das obras dos prêmios Nobel. É quase tão perigoso como ir a um açougue em busca de luzes para compreender melhor a obra de Goya, pelo simples fato de que em muitos açougues se vê carne ensangüentada.
Hoje em dia, há poucas coisas mais perigosas ou nocivas que ler obras escritas por pessoas que foram galardoadas com o Prêmio Nobel de Biologia, Química, ou Física, e que tentam tornar acessível a Ciência. São ainda mais nocivas quando lidas com a idéia de aprender ética por meio delas. Fixemo-nos – por exemplo – em Acaso e Necessidade, de Jacques Monod. No livro, Monod nunca definiu o conceito de acaso. Se o título do livro já manca, desde o ponto de vista filosófico, por que lê-lo? O mesmo ocorre com os livros de Ilya Prigogine sobre a Filosofia da Ciência. O autor afirma que, como a Ciência não pode predizer os estados ulteriores de processos similares ao do fluxo turbulento, estes não são produto de nenhuma causa. Esse é um argumento filosófico muito pobre.
- O livro de Stephen Hawking teve muito sucesso em todo o mundo. A que se deve?
- Provavelmente a que o ambiente cultural contemporâneo se caracteriza por seu agnosticismo e por seu ateísmo. Em tais ambientes, busca-se na Ciência a confirmação de que Deus não existe. Porque se não há um Deus, pode-se fazer o que se quiser. Para um agnóstico ou um materialista, isso é algo muito reconfortante. Chegados a este ponto, só existem sistemas, modelos ou formas alternativas de vida que são usados segundo convenha.
- Qual sua opinião sobre o fato de que muitos cientistas aceitam a interpretação de Copenhague do mecanismo do quantum?
- Tal interpretação é uma falácia. Baseia-se na premissa de que uma ação intermediária que não se pode medir com exatidão não se pode produzir com exatidão. É uma falácia porque na primeira parte da premissa a palavra exatidão se emprega em seu sentido operativo, e na segunda parte em sentido ontológico. Isso é errado, porque entre ambos os campos não pode haver relação.
Muito antes que Heisenberg formulasse o Princípio da Incerteza e de que lhe desse aquele valor anticausal em 1927, muitos físicos famosos, entre eles o próprio Heisenberg, já haviam rejeitado o Princípio da Causalidade em outros campos. O que aconteceu foi que em lugar de encontrar na ciência uma demonstração ou refutação da causalidade, o que encontraram foi uma espécie de revestimento de cientificismo para sua incredulidade na causalidade. Tal revestimento e uma refutação científica são duas coisas bem diferentes. Buscou-se a aparência de ser algo científico porque a mentalidade da cultura moderna se baseia no pragmatismo e no relativismo. Tal mentalidade busca uma gratificação imediata, e trata de ignorar as conseqüências a longo prazo (fundadas na causalidade) das ações do indivíduo. Para poder sustentar esta mentalidade deve-se ter um ponto de vista mediante o qual as coisas pareçam ser incoerentes. A aparência de cientificismo que adota a rejeição da causalidade sustenta essa reivindicação pseudocultural da incoerência das coisas e das ações.
Em outras palavras, segundo essa perspectiva o fim da vida é passar por muitos momentos em que recebemos gratificações imediatas, sem necessidade de examinar a relação entre um momento e outro, ou suas conseqüências. Dito de outro modo: deve-se ter em conta que a mentalidade moderna está doente como conseqüência do pecado original e que isso será assim sempre. Usemos os argumentos que usarmos, o mundo continua sendo o que era, o que é e o que continuará sendo, em relação a sua atitude negativa diante dos argumentos filosóficos puros e da religiosidade sincera.
- Que diferença existe entre a mente humana e o computador mais perfeito?
- Se se considera que a mente humana equivale ao cérebro, que é um conjunto de moléculas, pode-se estabelecer um paralelismo entre o cérebro e um computador. Mas quem demonstrou que a mente humana se reduz ao cérebro? Se tudo é assunto próprio da mente humana, então, como pode a mente chegar à idéia do nada? Ou como pode a mente conceber funções matemáticas que não podem ser expressas em termos quantitativos exatos, tais como, por exemplo, a tendência ao infinito no cálculo integral ou o reino dos números irracionais ou imaginários? Se a mente é simplesmente um conjunto de moléculas, como se explica que chegue a tais idéias, e muito especialmente à idéia do nada? O nada é uma das invenções mais espetaculares do poder metafísico da mente humana. Quando se escreve, se transforma em algo, mas apesar de tudo significa que não há nada.
Se a mente humana se reduz ao cérebro, resulta impossível lidar com coisas tão essenciais na vida da mente como são as abstrações (implícitas em toda palavra) e os fatos na vida espiritual.
- E que tem a dizer a Ciência sobre a evolução biológica?
- A Ciência pode esclarecer que houve um passado biológico de pelo menos 3 bilhões de anos. Pode estabelecer que há certa sucessão entre várias espécies e gêneros. Mas quando a Ciência emprega termos como espécies, gêneros e filos, traz à colação os poderes metafísicos da mente. Não se podem ver os diferentes reinos animais nem as espécies. Todas essas idéias, tão essenciais na biologia evolutiva, são generalizações. A biologia evolutiva está repleta de conceitos metafísicos. E mais, a ciência biológica não pode dizer nada sobre o propósito da evolução. Para começar, a Ciência não demonstrou empiricamente a origem de uma espécie a partir de outra. Quando aceito a evolução, e desde que a aceito partindo dos poderes metafísicos de minha mente, considero que isso é um reflexo maravilhoso desses poderes metafísicos. Mas de forma alguma um método científico me pode dizer o propósito da evolução e, sem sombra de dúvida, não me serve para nada uma evolução baseada na probabilidade, porque probabilidade é outro modo de dizer ignorância. Há muito que já se devia ter eliminado essa palavra da terminologia filosófica e científica.
- Por que os teoremas de Gödel sobre o incompleto são tão importantes?
- Considerados em si mesmos, tais teoremas afirmam apenas que as matemáticas não podem ser consideradas como um conjunto de proposições verdadeiras a priori e, portanto, necessárias. Isso, contudo, admite uma conseqüência muito importante para a cosmologia científica, que em parte é empírica e em parte, teórica. Do ponto de vista teórico, a cosmologia científica tem muito de matemática. Conseqüentemente, nenhuma expressão de cosmologia científica pode ser considerada como necessariamente certa, baseando-nos em sua simplicidade matemática. Apesar disso, alguns cosmólogos modernos (Hawking, por exemplo) têm esperança de dar com alguma teoria cosmológica que demonstre que o universo tem que ser necessariamente como é e o que é. Um universo que existe necessariamente não precisa de um criador. A importância dos teoremas de Gödel deve estar clara agora. Devido a isso é impossível sustentar o mais importante princípio do paganismo clássico e moderno, a saber, que o universo é o ser primário.
No entanto, se o universo, que é a totalidade das coisas, não pode ser considerado como o primário ou essencial, fica aberto o campo à busca filosófica e teológica desse Princípio que é o Criador do universo. Ou existimos necessariamente ou somos criados. A terceira alternativa, que tudo existe por acaso, não merece nem sequer ser considerada. O acaso é um sinônimo de nossa ignorância. Isso foi ensinado por muitos sábios, inclusive o Cardeal Newman (ano passado celebramos o centenário de sua morte). Newman estava muito perto do ponto principal de nossa conversa quando escreveu: “Há só um pensamento maior que o de nosso universo, e esse pensamento é o de seu Criador”.”
(Stanley Jaki, Los Científicos y la Filosofia, entrevista a Molly Baldwin e Patricia Pintado Mascareño)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Stanley Jaki e a relação dos cientistas com a filosofia (I)

“Stanley Jaki nasceu em Györ (Hungria) em 1924 e é Professor Emérito da Universidade Seton Hall de New Jersey. Ingressou na Ordem Beneditina em 1942. Doutor em Teologia e Física, durante os últimos trinta e cinco anos realizou numerosos estudos especializados em história e filosofia da ciência. É Doutor Honoris Causa por seis universidades.
Em 1970 foi-lhe outorgado o Prêmio Lecomte de Nouy. Em 1987 recebeu o Prêmio Templeton por suas publicações. Desde 1989 é Fellow do Centro de Investigação Teológica de Princeton. Foi nomeado recentemente Membro da Academia Pontifícia de Ciências. Publicou 22 livros, entre os quais se destacam The Relevance of Physics (1966) e The Road of Science and the Ways to God (1978). Em castelhano se publicou Ciência, Fé e Cultura (MC, 1990, ver Atlantida, 1990, pág. 484).
O estilo do professor Jaki é muito pessoal e pleno de um fino senso de humor: seu ensinamento é ilustrado com abundantes exemplos. Joga com variados recursos do idioma, em uma exposição plena de metáforas e delicados matizes. Sua obra resulta desmistificadora. Quem deseja discutir suas conclusões encontra abundantes ocasiões para fazê-lo, mas deve empregar um instrumento que Jaki domina com desenvoltura: os fatos, a realidade histórica.
- Sr. Jaki, o senhor disse que nas mesas de todas as salas de aula e laboratórios deveriam ser gravadas as palavras de Maxwell: “Uma das provas mais difíceis para uma mente científica é conhecer os limites do método científico”. Quais são os limites do método científico?
- Os limites da Ciência (e ao falar de Ciência me refiro a sua forma mais exata, ou seja, à Física) são fixados por seu próprio método. O método da Física versa sobre os aspectos quantitativos das coisas em movimento. Só podemos aplicar legitimamente o método da Física quando captamos traços quantitativos nas coisas. Mas quando diante das coisas nos surgem perguntas como “E isso é bonito?”, “Isso existe?” ou “Isso é moralmente bom?”, nos perguntamos coisas que o método da Física não pode responder. Atualmente é muito importante – em momentos em que muitos desejam respostas científicas a suas perguntas – que esta limitação do método científico seja manifestada com freqüência e firmeza por físicos insignes. Os físicos têm uma grande autoridade epistemológica. Se um Prêmio Nobel de Física diz algo, mesmo que não esteja relacionado com seu campo específico de estudo, em pouco tempo suas declarações são publicadas na imprensa. Pode falar de tudo que existe debaixo do sol, pode até dizer besteiras, mas diga o que disser, as pessoas duvidam de si mesmas antes de duvidarem de um Nobel de Física. Alguns físicos abusaram muito da confiança que as pessoas depositam neles. De certo modo, dado que este abuso se tornou algo bastante habitual, descobrimos uma pista que nos conduz aos maiores males da cultura moderna ocidental: um interesse quase exclusivo nas quantidades. Quando se trata de analisar uma questão moral tornou-se moda recorrer às estatísticas: Quantas pessoas agem deste modo e quantas de outra maneira? Depois, se é que se chega a alguma conclusão, afirma-se que é preferível a atuação da maioria à da minoria.
Em outras palavras, o perigo que existe – em potência – no método científico é que sob sua influência podemos enquadrar a sensibilidade em certos padrões previamente fixados. Como um padrão ou modelo pode ser medido, podemos cair na tentação de pensar que, uma vez obtidos certos resultados quantitativos, já achamos a solução à nossa pergunta. Agindo desse modo talvez eliminemos os aspectos mais importantes da pergunta, especialmente se é de estética, moral ou sobre a existência como tal. Por exemplo, um cientista olha através de seu microscópio. Ao longo desse processo aplica legitimamente o método científico. Mas esse método não pode sequer assegurar-lhe que o microscópio esteja diante dele. Ponho ênfase no verbo ser ou estar, o mais metafísico de todos os verbos. Com esse verbo o método da ciência não tem nada a ver.
[Distinção entre quantitativo e qualitativo]
- Que pensa o senhor sobre a necessidade de unir nos planos de estudo das universidades os estudos humanistas e os científicos?

- Opino que os estudos humanistas e os científicos devem estar separados. Não se deve tentar fundi-los porque partem de pressupostos diferentes e empregam métodos também diferentes. Em Humanidades, por exemplo, quando estudamos Dante, não perguntamos: Quantas letras há em tal ou qual obra de Dante? Pergunta que no campo científico seria lógica. Ao estudar obras literárias nos move um propósito muito específico; para tal estudo o método científico serve muito pouco. As grandes obras literárias oferecem, em geral, lições de moral, de ética. Versam sobre os desígnios humanos, o destino, as reações dos diferentes indivíduos diante de questões de consciência. Nenhuma dessas perguntas pode ser solucionada empregando um método científico. Devemos cultivar tanto os aspectos quantitativos das coisas como os que não são mensuráveis: os aspectos qualitativos dessas mesmas coisas, desses processos e experiências. Como as Humanidades partem de um método que não é científico e os aspectos quantitativos das coisas exigem outro método, ambos devem ser tratados de formas diferentes. O problema de nossa cultura é que estamos condicionados por 200 ou 300 anos de ciência e, portanto, é muito difícil tratar somente de questões de tipo quantitativo, ainda que tenhamos em mente o valor tão importante que se dá em nosso século à ciência.
[Não unir o que Deus separou]
Gostaria de repetir algo que já ressaltei muitas vezes, a saber, que nenhum homem deve unir o que Deus separou. De que maneira ou em que sentido Deus separou essas coisas? O sentido é que existe uma irredutibilidade conceitual entre os aspectos quantitativos e qualitativos das coisas. À guisa de exemplo poderíamos considerar a ação de assassinar. Tal ação – pega-se uma faca e se a enfia nas costas de alguém – pode ser descrita corretamente em termos quantitativos. Pode-se medir o tamanho da faca, a profundidade da ferida ou o momento exato em que expirou a vítima. Apesar disso, esses dados não nos levariam a descobrir se a pessoa morta era inocente, ou se a ação foi lícita ou ilícita moralmente, ou mesmo se a pessoa que cometeu o crime sentiu ou não remorso. Os aspectos físicos ou morais de uma mesma ação não podem se equiparar conceitualmente. A isso me refiro ao afirmar que “ninguém deve unir o que Deus separou”. Esses aspectos não estão separados no sentido de que não têm nada a ver um com o outro. Mas ao tentarmos compreender esses aspectos – diferentes –, devemos ter em conta que temos em nossas mãos conceitos totalmente diferentes. Nesse sentido as Humanidades não podem se tornar Ciências, nem estas poderão ser jamais um ramo dos estudos humanistas.
- O senhor afirmou que o grande “crime” deste século é dizer que o único conhecimento verdadeiro é aquele que se pode medir quantitativamente. Quais são as conseqüências mais importantes desse “crime”?
- É um crime no sentido de que essas aplicações unilaterais do método quantitativo chegam a privar o ser humano de sua sensibilidade aos aspectos incomensuráveis da existência. A principal conseqüência é a relativização dos pontos de vista morais. Em lugar de nos movermos em uma perspectiva moral, segundo a qual uma ação é intrinsecamente boa e outra é intrinsecamente má, agora seguimos um modelo behaviorista. Essa é a base do relativismo moderno que se fundamenta na crença de que existem vários padrões de comportamento, ou, como diz a frase popular americana, “estilos de vida alternativos”. Não se fazem mais perguntas.
- Como o senhor descreveria a atitude da Igreja diante da Ciência ao longo da história?
- A atitude da Igreja diante da Ciência foi muito benéfica. Considerada em si mesma, tal atitude não tem que ser útil à Igreja como tal, dado que o campo da Igreja não é o mundo da Ciência. Como se dizia nos tempos de Galileu, e como de fato o próprio Galileu afirmou citando Santo Agostinho: “a razão de ser da Igreja não é explicar às pessoas como funciona o Céu, mas como chegar ao Céu”.
- Que se deve fazer se as conclusões a que chega a Ciência são contrárias aos ensinamentos da Igreja?
- Toda conclusão científica é sempre quantitativa. Como tal, não tem conteúdo moral. Não tem sequer conteúdo ontológico. Pressupõe um estado ontológico. Quando um cientista avança além da aplicação apropriada do método científico, deve-se-lhe chamar a atenção e advertir que ultrapassou os limites de sua competência. Em outras palavras, quando nos encontramos diante de conclusões científicas e ensinamentos da Igreja que estão se confrontando, o pior que se pode fazer é perder a calma. Deve-se especificar a natureza das próprias objeções, sejam quantitativas ou não. No primeiro caso, não pode ir contra os ensinamentos da Igreja. No outro caso, não é uma objeção científica, mas filosófica, ética ou pseudofilosófica, e como tal deve ser tratada.
Temos o caso do aborto. A Medicina moderna chegou tão longe que é possível realizar um aborto sem prejudicar a mãe, quando o feto tem poucas semanas. Isso é algo medicamente comprovado. Contudo, só porque se chegou a esse ponto não significa que o aborto seja moralmente lícito. E agora analisemos um caso de furto. Há ladrões mui hábeis que agem com tal maestria que ninguém se dá conta do ocorrido. Nesses casos, o ato deixa de ser considerado um roubo, pelo simples fato de ter sido realizado com uma astúcia exemplar?
Sempre se deve lançar mão de duas distinções fundamentais: Se se fala simplesmente de quantidades ou se nos referimos a uma série de coisas não mensuráveis e com conteúdo moral.
[A existência de Deus é cientificamente demonstrável?]
- O senhor afirma que as premissas filosóficas das que se parte no uso criativo do método científico são semelhantes às premissas filosóficas mediante as quais se pode demonstrar a existência de Deus. É, portanto, correta a afirmação de que essas premissas são próprias de ontologias realistas, e que portanto a Ciência demonstra a existência de Deus?
- O método científico não demonstra a existência das coisas, muito menos a de Deus. Voltemos à base de tudo. Como disse antes, assim que o cientista afirma “há um microscópio diante de mim”, está falando como um filósofo, tenha ou não conhecimento de filosofia. A essência de toda prova da existência de Deus está ligada à existência do universo ou do cosmos. Se existe um universo, e o há, então a razão de sua existência só pode ser encontrada em um fator externo ao universo. Esse fator é Deus. (Gostaria de precisar que tomamos universo no sentido estrito da palavra, que o universo é a soma de tudo. Não pode haver dois universos. A pluralidade de universos é uma contradição em si mesma.)”
(Stanley Jaki, Los Científicos y la Filosofia, entrevista a Molly Baldwin e Patricia Pintado Mascareño)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Profecia do Arcebispo Fulton Sheen de 1948

“Ele [Satanás] estabelecerá uma contra-igreja que vai macaquear a Igreja, porque ele, o Diabo, é o macaco de Deus. Ela terá todas as notas e características da Igreja, mas ao inverso e esvaziada de seu conteúdo divino. Será um corpo místico do Anticristo que em todas as exterioridades se parecerá com o corpo místico de Cristo... Então se verificará um paradoxo - as mesmas objeções com as quais os homens no século passado rejeitaram a Igreja serão as razões pelas quais eles agora aceitarão a contra-igreja.”
(Arcebispo Fulton Sheen, Communism and the Conscience of the West)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O conservador moral é um progressista

“Há dois tipos de conservadores nos campos do catolicismo: conservadores morais (mas liberais em dogma), e os simplesmente conservadores (ou católicos tradicionais).
Os conservadores morais (liberais em dogma) são aqueles católicos cujo catolicismo se resume a ser do movimento chamado pró-vida. Esses “conservadores” são perigosos, pois reduzem o catolicismo a ser pró-vida e ao mesmo tempo são liberais em assuntos dogmáticos. Por exemplo, o conservador moral ataca o aborto, mas opina que talvez o melhor seja que os sacerdotes se casem, modernizar a Igreja etc. O conservador moral luta contra a “cultura da morte”, mas crê que a presença de Cristo na Missa é questão de opinião. O conservador moral luta contra a pílula anticoncepcional, mas diz que a Virgem ter sido sempre virgem é apenas a opinião de teólogos. O conservador moral ataca o matrimônio gay, mas parece-lhe uma crueldade da Igreja que os divorciados não possam comungar. Por fim, o conservador moral é firme opositor da eutanásia, mas quer uma Igreja que modernize seus dogmas superados pela “ciência”.
O problema é que hoje em dia parece (para muitos) que ser pró-vida e inimigo do que chamam de “cultura da morte” é suficiente para ser um católico completo. Mas ser católico é imensamente mais e exige imensamente mais que o mero fato de estar filiado ao movimento pró-vida.
Então, cuidado! O catolicismo é antes de tudo uma fé, alguns postulados sobre Deus e suas relações com a humanidade. Desses postulados surge, em conseqüência, uma conduta, uma vida. Mas o ponto de partida é uma mensagem que fala à inteligência. Esse é um dos pontos negados pelo modernismo, que é a pior heresia de toda a história, pois busca destruir todo o edifício católico.
Não basta o conservadorismo moral para se ter uma verdadeira identidade católica; é necessária também a fidelidade dogmática.
Fidelidade ou conservadorismo dogmático é o que mantém com zelo a dogmática católica tal como foi definida ao longo dos séculos. Essa dogmática, o corpo de ensinamentos dogmáticos, configura uma visão da realidade, que não é “uma” visão a mais, mas “a” visão real, realíssima.
Em poucas palavras, o catolicismo, em primeiro lugar e antes de tudo, fala à inteligência do ser humano mostrando-lhe a realidade, e só depois o move...
Mas essa palavra que o catolicismo dirige ao homem em sua inteligência supõe nele a capacidade de “inteligir”, de receber essa voz.
Ora, filosoficamente falando, os pressupostos dessa inteligência são nada mais, nada menos que o realismo gnoseológico e metafísico.
Daí que a única filosofia compatível com a fé seja a filosofia realista, a que afirma a realidade extramental dos entes. Filosofia que não só afirma, sustenta e defende o realismo dos entes, mas a capacidade da inteligência para conhecer essa realidade.
Dessa estrutura conceitual surgem algumas conseqüências a nível de conduta, que formam o campo da moral. Mas não se trata de uma moral pensada como um conjunto de normas impostas caprichosamente ao homem, para limitar sua liberdade.
Trata-se, isto sim, de uma moral que é o correlato prático do reconhecimento teórico da natureza humana e suas exigências específicas.
Pelo já dito se compreende como fica mutilado e distorcido um catolicismo reduzido apenas ao movimento pró-vida.
A atitude pró-vida no católico é conseqüência de suas atitudes teóricas ou dogmáticas, e não sua certidão suficiente de catolicismo.
É por isso que o conservador unicamente moral é um católico que deixou de sê-lo, que reduziu seu catolicismo ao mínimo, a um catolicismo raquítico (que estrita e objetivamente já não o é).
Por outro lado, o simplesmente conservador (chamado aqui dessa forma não por ser uma corrente ou facção, mas porque conserva o dogma e a moral íntegros como o exige a Igreja), é simplesmente o católico completo, o católico consciente da estreita correlação entre o dogma e a moral (quer dizer o puramente católico, a quem deveríamos estritamente chamar somente assim: católico).
Se o simplesmente conservador é o católico completo, por que então inventar outro nome e chamá-lo de simplesmente conservador? A razão está na confusão (e no erro) que há hoje em dia em que se considera motivo suficiente do catolicismo ser um conservador moral.
Então, quando hoje alguém se autodenomina católico, faz-se quase necessário perguntar, católico pela metade ou a sério?
Em poucas palavras, o simplesmente conservador (ou simplesmente católico) aceita o pacote completo, enquanto o conservador moral escolhe do pacote a parte que mais lhe agrada.
Muitas vezes o conservador moral age dessa maneira porque quer agradar e sabe que o movimento pró-vida é comum com outras “confissões”.
No movimento pró-vida podem-se encontrar pessoas das mais diversas confissões religiosas, inclusive pessoas sem religião alguma.
De fato, é muito comum que os pró-vida repitam e repitam até a exaustão que sua luta é ciência e não religião, o que de certa forma é verdade.
Então o conservador moral sabe que na luta pró-vida está unido a muitos, e não isolado, que é o que faz o dogma, isola separando (a verdadeira religião das falsas seitas cristãs ou outras errôneas denominações).
Fé e moral íntegras: um binômio irrenunciável para o católico
Se vocês prestam bem atenção ao que vamos dizendo, poderão compreender o espírito que anima o mero conservadorismo moral...
O Papa São Pio X, último Papa santo, havia assinalado duas bases teóricas para o modernismo, que é um erro gravíssimo:
1) agnosticismo e
2) imanência vital.
Agnosticismo: Esta falsa tese sustenta que só conhecemos “fenômenos”, jamais conhecemos a realidade de nada em si mesma, só a “realidade” para nós, subjetivamente. Dizem erroneamente que é impossível saber por meio da inteligência se Deus existe, ou se existe a alma, ou se esta é imortal.
Imanência vital: Este erro sustenta que a religião e a fé são fruto da interioridade humana, criações humanas para remediar um pouco sua “indigência”. Na fé – dizem – o importante não são as teses, as “verdades”, os dogmas, mas os sentimentos e as emoções. O importante, para os que defendem esse erro, não é saber se Deus existe, mas senti-lo próximo de nós. A religião – supõem-no falsamente – é coisa de sentimento e não um conjunto de verdades sobre Deus. Crêem que a teologia e a filosofia não têm nada a ver com a religião, o que importa para eles é sentirmo-nos bem e abraçarmo-nos todos.
Nota: Naturalmente esses princípios estão condenados pela Igreja Católica.
Agora compreenderão vocês por que o conservador moral não valoriza a dogmática católica, mas a relega a um segundo ou terceiro lugar.
Em resumo: o conservador moral é um modernista e, portanto, sua postura está condenada pela suprema autoridade da Igreja.
Todos devemos ser pró-vida, mas não confundamos as coisas; ser católico é infinitamente mais que o mero fato de ser pró-vida.
E estejamos todos em guarda contra o agnosticismo e a doutrina da imanência vital, que são os dois erros que hoje mais obscurecem as inteligências.”
(Leonardo Rodríguez, Dos Tipos de Católicos. ¿Es Suficiente Ser Provida?)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Pe. Álvaro Calderón e a subordinação da ordem temporal à espiritual segundo São Tomás

“A relação dos poderes espiritual e temporal na Igreja pode ilustrar-se mediante a analogia:
O espiritual está para o temporal na Igreja como a alma está para o corpo no homem
A analogia com a alma e o corpo

Quando São Tomás tem que explicar a intervenção do poder espiritual nos assuntos temporais, recorre à analogia da alma e do corpo. À objeção que diz: “a potestade espiritual é distinta da temporal, mas, às vezes, os prelados, que têm potestade espiritual, se intrometem nas coisas que pertencem ao poder temporal”; responde: “a potestade secular se submete à espiritual como o corpo à alma; e por isto não há juízo usurpado se um prelado espiritual se intromete nas coisas temporais com respeito àqueles assuntos nos quais a potestade secular lhe está submetida, ou que a potestade secular deixa a seu cuidado”.
As coisas análogas certamente não são iguais em tudo, mas todas as analogias acima consideradas não são metafóricas, senão próprias, pelo que valem naquilo que têm de mais característico. Ao comparar a constituição do espiritual e do temporal na Igreja com a alma e o corpo no homem, quer-se afirmar, primeiro e principalmente, que:
•Não são duas realidades completas na sua ordem, senão dois co-princípios que constituem um todo único. Assim como o corpo e a alma não são duas substâncias que existem de modo separado, senão que são dois princípios que se complementam para que exista a única substância composta que é o homem, assim também a ordem espiritual e a temporal não são duas sociedades que possam existir de modo separado como realidades completas, senão que são dois elementos complementares da única e mesma realidade social: A Igreja.
•À objeção que diz que a Igreja e o Estado são duas sociedades perfeitas responde-se que são sociedades perfeitas no aspecto jurídico, no sentido em que ambas as potestades são supremas na sua ordem, mas ambos ordenamentos jurídicos têm por sujeitos os mesmos homens e ambos são necessários para alcançar o mesmo e único fim último sobrenatural.
•No segundo lugar, afirma-se que são princípios realmente distintos, com origem distinta e capazes de se separarem: Assim como a alma tem sua origem em Deus e o corpo nos pais, e depois de unidos poderiam separar-se, deixando a alma a sua condição de temporal e passando o corpo a cadáver, assim também o poder espiritual vem de cima e o poder temporal tem suas raízes na história pátria e poderiam separar-se, ficando no Céu a Igreja triunfante e na terra cadáveres de cidades. Mas, assim como a separação total do corpo e da alma implica a morte do homem, também a separação completa do poder espiritual de toda sociedade temporal implicaria a morte da Igreja militante, o que Cristo prometeu que não iria acontecer.
Não é fácil compreender este duplo aspecto aparentemente contraditório pelo qual se tem uma realidade única mas ao mesmo tempo uma distinção real, e só o gênio de Aristóteles pode expressá-lo com as noções de matéria e forma (potência e ato). Para compreender melhor de que modo podem constituir uma mesma coisa, temos que considerar como estes dois princípios se abraçam em mútua causalidade. Temos então que:
•Assim como a alma é forma que vivifica e move o corpo, e o corpo é matéria e instrumento da alma, o mesmo acontece com as ordens espiritual e temporal.
•E assim como a alma e o corpo constituem uma única substância e não têm fins diferentes senão que concorrem ao único fim do homem; assim também a ordem espiritual e temporal constituem um único organismo social e não têm fins diferentes senão que concorrem ao único fim da Igreja: a salvação das almas.
Se agora olhamos para trás, tudo o que temos dito indica onde está o erro: considera-se as duas ordens não como co-princípios, mas como realidades completas. Mas, como dissemos, quando o corpo perde o espírito, não fica um bruto perfeito com sensibilidade; isto é, quando a ordem política não está vivificada pelo poder espiritual da Igreja, tampouco temos uma sociedade natural, senão um cadáver de cidade.
A distinção é subordinação dos ministérios
Estabelecido o anterior, São Tomás diz de que modo Cristo, na sua sabedoria, quis distinguir os dois ministérios, espiritual e temporal: ‟A administração deste reino, a fim de não confundir as coisas terrenas e as coisas espirituais, tem sido encarregada, não aos reis terrenos senão aos sacerdotes, e principalmente ao Sumo Sacerdote, sucessor de Pedro, Vigário de Cristo, que é o Romano Pontífice, a quem têm que obedecer, como ao mesmo Jesus Cristo, todos os reis do povo cristão. Pois a ele, a quem pertence o cuidado do fim último, hão de estar subordinados aqueles a quem incumbem os cuidados dos fins anteriores, e por ele hão de ser dirigidos”.
O cuidado, então, do fim último ou bem comum transcendente pertence ao poder eclesiástico; por outro lado, a busca dos bens imanentes ou fins intermédios, especialmente a justiça ou vida virtuosa da multidão, e também os bens de cultura e prosperidade, correspondem ao poder político. Agora bem, com certeza e sem dúvida possível, a subordinação de fins que aqui está suposta é per se e não per accidens. A doutrina de São Tomás acerca da subordinação das causas e especialmente a dos fins em ordem ao fim último, é muito clara e está desenvolvida em muitos lugares da suas obras. ‟Vemos que as causas ordenam-se de dois modos, essencialmente e acidentalmente:
a) Essencialmente, quando a intenção da causa primeira faz referência ao último efeito, passando por todas as causas intermédias. Como quando o artesão move a mão, e a mão o martelo, que expande o ferro golpeado, ao que se dirige a intenção do agente.
b) Acidentalmente, quando a intenção da causa só se dirige ao efeito próximo. Está fora da intenção do primeiro agente o fato de que novamente por esse efeito se faça algo mais além do que já foi feito, assim como, quando alguém acende uma vela, está fora de sua intenção que essa vela acenda uma outra e assim sucessivamente. Diz-se que o que acontece fora da intenção acontece de modo acidental”.
O fim do poder político estaria subordinado “per accidens” ao fim transcendente se o governante procurara por si mesmo a prosperidade, cultura e virtude de seu povo, sem atender à ordem que estes bens têm com o fim último da salvação. Um rei que governa sem se importar se seu povo vai ou não ao Inferno, é como o capitão do Titanic que só procura o bom passar dos passageiros sem se importar se vai em direção ao porto ou contra o iceberg. Portanto, se os fins estão subordinados per se e essencialmente, também o estão as potestades. Todos os reis e governantes da Terra devem receber da Igreja a razão e medida de seus fins imediatos.
Conclusões:
A Igreja e a Cidade:

Deus pôs como princípio de salvação do gênero humano o mistério da união da natureza divina e humana na única pessoa do Verbo encarnado; mas, dado o caráter social da natureza humana, este mistério devia prolongar-se no mistério do Corpo Místico pela união da sociedade divina e da sociedade humana na única quasi pessoa da Igreja. Figura deste mistério foi o povo escolhido do Antigo Testamento; e o exemplar primeiro desta união das ordens sociais é a Sagrada Família, na qual a hierarquia eclesiástica – Jesus, Maria e José – é perfeitamente inversa à social – José, Maria e Jesus -; mas perfeitamente unida e em paz.
Não se pode pensar a ordem espiritual como constituindo um todo – a Igreja – que depois terá certas relações como outros todos de ordem temporal – os Estados. Como temos repetido talvez até cansar, estas duas ordens são co-princípios quasi substanciais a modo de matéria e forma do Reino de Deus na terra. Não pode haver Cidade sem Igreja nem Igreja sem Cidade.
Isto pode ver-se claramente na mesma instituição dos Sacramentos que são os princípios divinos que comunicam a vida da Cabeça a todo o Corpo Místico. Como indica São Tomás ‟a vida espiritual tem certa conformidade com a vida corporal… e na vida corporal se aperfeiçoa alguém de dois modos: de um primeiro modo com respeito à própria pessoa; de um outro modo com respeito à comunidade da sociedade na qual se vive, visto que o homem é naturalmente animal sociável”. Assim, Nosso Senhor instituiu os cinco primeiros sacramentos em ordem à vida das pessoas individuais, enquanto que em relação à vida de comunidade instituiu o sacramento da Ordem, pelo que se estabelece a hierarquia eclesiástica, e o sacramento do Matrimônio, pelo que se santifica e se incorpora à Igreja a célula mesma de toda a ordem civil. O sacramento do Matrimônio é, portanto, o principio santificador de todo o tecido social, porque todos os poderes civis são certa continuação da pátria potestade.
A Igreja na Cidade:
A Igreja não pode alcançar convenientemente seus fins espirituais sem a cooperação dos poderes civis. É verdade que a Igreja tem a fortaleza de Cristo e é capaz de subsistir ainda no meio de reinos não cristãos. Mas a Igreja sem a Cidade é a Igreja dos mártires, porque os poderes civis não batizados pela Igreja caem inevitavelmente sob o domínio de Satanás e se tornam perseguidores: “Quem não está comigo está contra mim”. E são muito poucas as almas com espírito de mártires, capazes de resistir à violência, senão física, ao menos moral das leis e costumes contrários à lei de Cristo.
Para compreender o que dissemos não é necessário, por desgraça, imaginar os primeiros séculos de cristianismo; hoje já vivemos numa sociedade apóstata cada vez mais anticristã, e as exigências espirituais para salvar-se vão sendo cada vez maiores.
Não é necessário ter vivido muito para perceber que a grande maioria dos homens segue a lei e o costume social: se é costume ir à Missa, então se vai, e se há lei de divórcio, se divorciam. Por isso, quando a Igreja está na Cidade – como a alma no corpo – a maioria das pessoas se salva, mas quando não está, só se salvam almas de exceção.
A Cidade na Igreja:
O Estado não pode alcançar de nenhum modo seus fins se não estiver na Igreja – como a parte no todo. A Cidade sem Cristo é só um cadáver de cidade, alimento dos demônios carronheiros. Ao ter ficado a natureza humana ferida pelo pecado, os homens ficaram impossibilitados de se ordenar ao bem comum, o que só pode ser feito pela graça, e o poder político se transformou em tirania dos poderosos sobre os deveres: “Teu marido te dominará”. Ainda que o homem não perca toda a bondade natural e possam os reis procurar certos bens temporais, ao merecer pelo pecado ficar sob o domínio de Satanás, a carne e o mundo serão irremediavelmente instrumentalizados pelos demônios para ruína temporal e eterna do gênero humano.
Mas a ordem política ressuscitou, como Lázaro, depois de quatro dias de mil anos, quando Jesus Cristo ordenou: “Dai a César o que é de César”. Desde esse momento começaram a existir cidadãos sob as ordens do César que obedeciam por amor ao Reino de Deus. “Todos hão de estar submetidos às autoridades superiores – pede São Paulo aos romanos – pois não há autoridade senão sob Deus… É preciso submeter-se não só pelo temor do castigo, mas por consciência” e São Pedro: “Por amor do Senhor, estai sujeitos a toda instituição humana… temei a Deus e honrai o imperador.”
Tão bons vassalos não deixaram de obter bons senhores fundando os sólidos reinos cristãos. Mas… ai desta casa varrida e embelezada por Cristo! O demônio do paganismo voltou com outros sete espíritos piores que ele, os demônios da apostasia, e o fim da ordem social vem a ser pior que os começos.”

http://www.fsspx.com.br/exe2/a-subordinacao-da-ordem-temporal-a-espiritual-segundo-sao-tomas/

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Controle populacional e Nova Ordem Mundial (II)

“Planejamento familiar”: A linguagem do inimigo
A família numerosa era sinônimo de família cristã durante o pontificado de Pio XII e antes dele. Mas os anos 60 trouxeram uma mudança. As profundas mudanças sociais representadas pela revolução sexual foram tão profundas que nem a Igreja Católica as evitou. A propósito, a nova orientação eclesiástica depois do Concílio Vaticano II não será também definida pelas mudanças e novidades? Até na Igreja, tudo deve ser apresentado de uma maneira nova — temos a Nova Missa (o novo rito da Missa), a nova evangelização, o novo Código de Direito Canônico, temos mudanças na maneira como a Igreja encara as falsas religiões e o mundo moderno, etc., etc.
Neste contexto, não surpreende que também com respeito à procriação encontremos uma linguagem e uma metodologia semelhantes às que são usadas pelos nossos inimigos. Embora a famosa encíclica Humanae Vitae mantivesse os ensinamentos tradicionais contra a contracepção artificial, neste importante documento papal encontramos as palavras seguintes:
As mudanças que se têm verificado são de importância considerável e variadas na sua natureza. Em primeiro lugar, há um rápido aumento da população, que fez com que muitos receiem que a população mundial irá crescer mais depressa do que os recursos disponíveis.
O fato de poder ter havido um crescimento demográfico com resultados potencialmente desastrosos não é posto em causa na encíclica. Desde então, continuamos a ler ou a ouvir dos púlpitos comentários sobre a “paternidade responsável”, sobre como é sinal de responsabilidade limitar o número dos filhos, mesmo não havendo razões sérias para evitar a gravidez e ter mais um filho. Nos círculos católicos conservadores, que não aprovam o uso da contracepção, popularizam uma prática largamente aceite pelos jovens católicos de hoje, os programas de “planejamento familiar natural” (PFN).
Pela minha experiência pessoal de há alguns anos, posso atestar o fato de que nunca me disseram nada sobre as condições em que é legítimo limitar as relações maritais aos dias de infertilidade. Quando li a literatura do PFN, vi que tratava sobretudo de como evitar a gravidez, em vez de ajudar a compreender melhor o ciclo da mulher para facilitar a concepção. O que é perturbador é que encontrei a mesma linha de pensamento do PFN numa literatura, escrita em tcheco, a favor de contracepção. O PFN é ali apresentado como um meio de os casais de mentalidade religiosa ou ecológica evitarem a gravidez!
Não estou a dizer que o PFN é idêntico à contracepção artificial; estou a dizer que pode ser mal usado com grande facilidade para fins condenáveis.
Como se conseguiu esta mudança de mentalidade, uma mudança da abertura perante a vida para evitar o nascimento sem haver uma razão séria para tal? Devemos compreender que a Igreja Católica era o maior obstáculo aos programas de controle da população e ao seu sucesso em todo o mundo. A Igreja e os seus ensinamentos sobre a procriação tinham, portanto, de ser atacados, e atacados de dentro, pelos próprios católicos. Os revolucionários precisavam desesperadamente de alguns católicos bem conhecidos que trabalhassem a favor da mudança de mentalidade a partir do interior das estruturas católicas.
John Rock e a Pílula
Por detrás do projeto de eugenia da população encontram-se nomes famosos pelo que eles chamam “filantropia”: os Rockefellers, a Fundação Ford, e outros financeiros bem conhecidos da revolução moderna. Isto certamente já saberão. Mas sabiam que foram estas bolsas que alimentaram um obstetra católico, o Dr. John Rock, no seu trabalho, coroado de sucesso, de fabricar a Pílula? Sim, a Pílula foi inventada por um católico!
Rock estudou a função, o tempo e o desencadeamento químico da ovulação e da concepção. O seu trabalho levou a uma compreensão mais clara dos ciclos de fertilidade, o que forneceu um ponto de partida para o desenvolvimento do método do “ritmo” do controle da natalidade. Em 1939, fundou a primeira “clínica de ritmo” nos Estados Unidos, para pacientes do Hospital Livre de Boston para Mulheres. Rock sublinhou que a sua “clínica de ritmo” tinha por fim ajudar as mulheres não-férteis, permitindo-lhes que identificassem a melhor altura para a concepção. A sua intenção — no tempo em que era jovem — era auxiliar os casais a atingirem a gravidez, não a evitá-la.
O seu trabalho sobrepunha-se ao de Gregory Pincus, outro investigador de Boston, que estava a experimentar o efeito da progesterona em coelhos. Nesta altura, porém, Pincus e Rock tinham objetivos diferentes. Pincus não desejava aumentar a possibilidade da gravidez, mas evitá-la. Queria desenvolver uma pílula que detivesse a ovulação nos seres humanos.
Em 1951, Margaret Sanger, que há muito fazia uma campanha a favor do controle da natalidade, apresentou Gregory Pincus a Katharine McCormick, uma viúva rica que se tinha dedicado à causa do controle da natalidade. Katharine McCormick deu a Pincus um cheque de 40.000 dólares para desenvolver o seu trabalho. Acabaria por contribuir com mais de um milhão de dólares para ajudar uma investigação que era demasiado controversa para ser subsidiada por fontes convencionais. Mas Pincus tinha um problema. Como não era médico acreditado, não podia fazer legalmente experiências com fármacos. Lembrou-se de colaborar com o seu conterrâneo de Boston, John Rock. Sabia que Rock tinha tido algum sucesso com um tratamento hormonal para controlar os tempos e frequências da ovulação nas mulheres não-férteis.
Em 1952 Gregory Pincus pediu a John Rock que trabalhasse com ele para fazer com que o tratamento fosse eficaz como contraceptivo oral. O Dr. Rock já tinha mais de 60 anos e estava a aproximar-se da aposentadoria quando Pincus lhe fez a sua proposta controversa. Como acreditava tão firmemente na necessidade do controle mundial da população e de as mulheres casadas poderem evitar gravidezes indesejadas, John Rock concordou. Esta história trágica não tem um fim feliz. Não foi só o caso de um católico ter ajudado a espalhar a praga da mentalidade contraceptiva; Rock acabou por abandonar a religião e morreu apóstata.
Mesmo assim, o seu envolvimento direto na produção da pílula contraceptiva teve um grave impacto mental na população católica. A revolução sexual dos anos 60 foi, podemos afirmá-lo, um ataque demográfico, não só contra outras nações em todo o mundo, mas também contra os católicos. E teve tal sucesso que, numa década ou duas, neutralizou efetivamente a única oposição eficaz ao regime eugênico demo-liberal, a Igreja Católica.
Há gente a mais? Ratos a mais?
Como nós todos já sabemos, o cenário da bomba da população era falso. Não só não há um verdadeiro problema de crescimento da população, mas o que se tem tornado um problema grave, pelo menos nos países do Ocidente, é a falta de nascimentos e não o excesso. Recentemente, a União Européia deu o alarme sobre a taxa de natalidade, que está perigosamente baixa, e que terá como resultado uma quebra de 20 milhões de trabalhadores em 2030. Não havia países europeus com uma taxa de fertilidade inferior a 1,3 filhos por mulher em 1990. Em 2002, havia 15 países, e mais seis estavam abaixo de 1,4. Atualmente, nenhum país europeu está a manter a sua população através da natalidade, e só a França — com uma taxa de 1,8 — ainda tem potencial para tal. Os países do antigo bloco soviético tiveram grandes reduções nas taxas de natalidade durante a última época, com uma média alarmante de 1,2 filhos por mulher na República Tcheca, Eslovênia, Letônia e Polônia — ainda mais baixa do que nos países recordistas da Europa Ocidental, a Espanha, Grécia e Itália, todos eles mantendo uma taxa de 1,3 partos por mulher há pelo menos uma década. Nunca nos últimos 650 anos, desde o tempo da Peste Negra, as taxas de natalidade e fertilidade caíram tanto, tão depressa, para tão baixo, por tanto tempo, em tantos países.
Uma pessoa verdadeiramente católica é incapaz de dizer que há “gente a mais”. Isso quereria dizer que há alguém, um grupo, ou toda uma nação, que é supérfluo, e que seria melhor se não vivessem. Isto é produto de uma mentalidade materialista. Os seres humanos afetam as vidas uns dos outros, às vezes ajudando, outras vezes prejudicando, e não podemos debruçar-nos sobre os nossos números com um tal distanciamento. Contam para alguma coisa. Mas e os ratos? Há ratos a mais quando incomodam o bem- estar dos humanos, não é? Poderemos usar a mesma frase se se tratar de gente? Isso fazia com que houvesse pessoas que afirmassem a sua primazia sobre outras pessoas, da mesma maneira como os homens afirmam a sua primazia sobre os animais. Mas é este, precisamente, o espírito das conferências sobre o crescimento da população: que há algumas nações que se multiplicam como ratos e que incomodam o bem-estar destas elites ricas, sem filhos e hedonistas do regime do Iluminismo.
A ideologia do controle da população reduz o valor da vida humana à produtividade material e à eficiência. É assim que se mede a qualidade de vida, pelo grau de utilidade que possa ter para a sociedade. Esta citação do famoso livro de Dennis Meadows Limites do Crescimento fala claramente: “O ponto da questão não é apenas se a raça humana irá sobreviver, mas ainda mais se poderá sobreviver sem cair num estado de existência sem préstimo.” Ah, e nós somos tão humanistas que, em vez de deixar que uma pessoa viva nesse estado, fazemos todo o possível para que não chegue a viver. O fato de não existir é melhor para ela. O nada é, portanto, melhor do que o Ser, no mundo pervertido da modernidade maniquéia.
Mas Deus não pode ter “gente a mais”. A única atitude totalmente cristã em relação à maternidade é esta: “O Senhor poderá dar ou não; o Senhor poderá tirar ou não; bendito seja o Nome do Senhor.” Esta conversa de “gente a mais” usurpa uma prerrogativa divina.
Contra-Contracepção
Os pecados e as más ações têm conseqüências. A carência populacional e os problemas econômicos que vamos todos sofrer num futuro próximo são uma delas. Mas o que é muito pior é o preço espiritual que estamos a pagar. A falta de crianças nas nossas sociedades reflete a falta de confiança na Providência de Deus e, por conseguinte, um afastamento cada vez maior do nosso Criador e Redentor e da ordem da salvação.
Até o Cardeal Ratzinger, no livro da sua entrevista com Vittorio Messori, atestou o fato de que o período que se seguiu ao Concílio Vaticano II não trouxe a revivificação da Igreja que se esperava, mas, em vez disso, trouxe o caos. Assim, em vez de multiplicarmos as graças que correm, enfrentamos uma situação em que este fluxo de graças foi bloqueado. Há obstáculos que são colocados a obstruir o fluxo de graças — falta de oração, falta de formação religiosa como deve ser, e os pecados contra os Mandamentos (entre eles o Sexto, de que estamos a tratar nesta palestra), tudo isto leva à desorientação diabólica de que falou a Irmã Lúcia de Fátima. Isto significa que há menos graças a penetrar nos corações do rebanho dos batizados. E porque é que eu falo disto numa palestra sobre o controle da população?
Há uma relação entre o grau ou intensidade da vida sobrenatural da alma e a perfeição ou virtudes da vida natural — a graça desenvolve-se a partir da natureza. Quando não se segue a lei natural, as graças deixam de ter um efeito positivo. As mudanças liberalizantes trazidas pelas “reformas” do Concílio Vaticano II são para a vida sobrenatural e para o elemento humano da Igreja o que a contracepção é para a vida natural de uma família.
O que nós, católicos, devemos fazer é declarar guerra à mentalidade contraceptiva que é uma praga do nosso tempo. Separemo-nos do “espírito da época”, sejamos contra- revolucionários ao abrirmo-nos à vida, confiando em Deus e em Nossa Senhora, Que amam todos e cada um dos Seus filhos, e para Quem não há uma só alma imortal que não seja desejada.”
(Michal Semin, Para Onde Foram Todos os Católicos?)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Controle populacional e Nova Ordem Mundial (I)

“Na minha palestra anterior, na sexta-feira, falei dos aspectos diabólicos da mentalidade moderna, o espírito do Iluminismo, a Revolução moderna e os desafios que representam para os católicos em todo o mundo. Hoje quero concentrar-me num aspecto particular da Revolução, que tem a ver com a sexualidade humana e a sua regulação social — o controle da população. Não podemos compreender o fenômeno do controle da população sem termos em conta a revolução sexual do Século XX.
No número de maio de 2006 de Chronicles, Thomas Fleming apresentou um ensaio sobre os resultados da revolução sexual, chamado Vinho Novo em Odres Velhos. Escreveu que “A revolução que nos fez o que somos começou durante a grande revolta contra o Cristianismo que se chama o Renascimento, e entrou numa fase aguda com a Revolução Francesa. Embora tenha assumido muitas formas e tenha sido apontada a uma variedade de alvos... quase não se desviou do seu objetivo mais básico: a libertação do que um dos revolucionários mais virulentos chamou a libido...”
Quando Nossa Senhora nos avisou em Fátima sobre os erros da Rússia, estaria também a falar dos erros relativos ao campo da sexualidade humana? Provavelmente, porque foi a União Soviética comunista o primeiro país a legalizar o aborto e promover abertamente a contracepção e outros pecados contra o Sexto Mandamento. A Europa Ocidental, influenciada pelas idéias do Iluminismo e do Liberalismo, trouxe também um grande ataque contra os ensinamentos da Moral Cristã, com a legalização do divórcio e a luta para separar o Estado da Igreja. Hoje estamos a observar uma disseminação em escala mundial destes mesmos erros da Rússia e há muito pouca oposição a eles.
Mas a liberalização da libido será apenas um assunto pessoal, um fruto natural da ética hedonista, ou haverá algo de mais sinistro nos bastidores? Claro que o hedonismo é parte de todo o cenário, porque o hedonismo é um produto natural da rejeição da metafísica no pensamento ético. Quando o comportamento humano não é regulado por normas morais objetivas, que possam ser descobertas e conhecidas pelos seres humanos, os apetites acabam por dominar a razão e a vontade.
A ética hedonista é um dos muitos frutos envenenados do Iluminismo, com a sua noção pervertida de “liberdade”, no sentido de licença, que é o direito de fazer tudo o que se quer. A libertação sexual não começou na década de 1960; aquela década só representa o clímax de forças desencadeadas muitas décadas antes. E. Michael Jones, no seu livro Libido Dominandi: Libertação Sexual e Controle Político, apresenta de forma sólida e bem documentada o seguinte cenário: a liberalização da sexualidade humana durante e depois da queda da Cristandade é um ato consciente e orquestrado da parte de quem o quer usar como meio para controlar as massas. A filosofia materialista e mecanicista da modernidade fez nascer a vontade nua, emancipada das normas morais fundamentadas transcendentalmente. Mas o materialismo não pode inspirar, e o problema de como controlar o homem e dirigir a sociedade na ausência das restrições morais tradicionais manteve-se.
Libido Dominandi é, em grande parte, uma denúncia da desonestidade intelectual da modernidade, começando com a idéia de que libertação sexual é igual a liberdade. Pelo contrário, a libertação sexual significou, e continua a significar, um aumento enorme do poder dos governos, dirigidos pelas elites do dinheiro, assim como um aumento cada vez maior do controle subliminal.
“Só há duas opções,” escreveu Jones:
“Ou nos controlamos segundo a lei moral, ou as nossas paixões passam a controlar-nos — ou alguém passa a controlar-nos através da manipulação das nossas paixões. Ou há o governo da razão e do auto-controle, ou há a revolução sexual e a tirania. O regime moderno sabe isto, e explora esta situação para seu proveito. Por outras palavras, a ‘liberdade sexual’ é, de fato, uma forma de controle social, uma maneira de manter o regime no poder através da exploração das paixões de pessoas que, em seguida, se identificam com o regime que ostensivamente lhes permite gratificar essas mesmas paixões.
“Assim sendo, não nos deve surpreender que o proponente mais importante da libertação sexual no Iluminismo tivesse sido também o primeiro a descrever o sexo como uma forma de controle político. Estou a referir-me ao Marquês de Sade, que estava preso na Bastilha no verão de 1789, a escrever novelas pornográficas e a engordar com a comida que ele pagava para lhe ser trazida do exterior. A partir de julho, construiu um megafone primitivo a partir de uma folha de papel, e incitou a multidão que rodeava a prisão a assaltá-la e a libertá-lo e a mais seis outros presos. As suas novelas posteriores, escritas durante o período da Revolução, explicam que, se a república revolucionária quiser vencer a Cristandade, as paixões humanas devem ser totalmente libertadas, para que possam derrubar a ordem social.
“O potencial para o controle e a insurreição sofre uma mudança quântica quando a sexualidade deixa de ser regulada e tem liberdade para atuar como estimulante de perpétua agitação. De fato, como o regime revolucionário se baseia na subversão da moral, só pode existir se explorar a sexualidade desta maneira. O que propõe às massas como se fosse a liberdade é, na realidade, apenas uma forma de controle social e político. É a partir deste ângulo que devemos ver a legalização da pornografia. Não é só uma espécie de efeito secundário infeliz do regime revolucionário, que deve ser tolerado se quisermos todos gozar de liberdade, o que é o argumento dos liberais em todo o mundo.
“A pornografia é a essência de um regime político revolucionário, porque só controlando as paixões dos cidadãos consegue manter o seu controle sobre eles. Gratificando os desejos ilícitos, evoca a gratidão dos escravos e cria o controle político a partir dessa gratidão.”
Mas o que tem isto a ver com o controle da população, que é o foco principal da minha palestra? O controle da população é um programa de regulação dos nascimentos, orquestrado pelo regime, por meio da libertação sexual. O controle do número dos nascimentos só é possível se se subverter e perverter o objetivo da sexualidade humana, que é a procriação, fazendo das paixões o rei do corpo e alma de cada um.
O controle da população é, portanto, o sine qua non da Nova Ordem Mundial, sobre a qual Marylin Ferguson, luminária da Nova Era, disse:
“Pela primeira vez na história, a humanidade tem acesso ao painel de controle da mudança, à compreensão da maneira como se produzem as transformações … O paradigma da Conspiração do Aquário concebe a humanidade como enraizada na natureza e encoraja o indivíduo autônomo numa sociedade descentralizada, considerando-nos como feitores de todos os nossos recursos, interiores e exteriores. Vê- nos como herdeiros das riquezas da evolução, capazes de imaginação, invenção e experiências que temos mas ainda mal lobrigamos.”
Mudança, novidade, transformação, evolução — são tudo palavras de código do regime liberal moderno. Baseado nos dogmas da filosofia moderna, não há uma natureza humana fixa, nada que defina a humanidade e a finalidade da vida humana, independentemente do tempo, cultura e costumes locais. A vida humana, o homem, é apenas um elemento no continuum panteísta do processo evolutivo. Esta é a fonte ideológica da “cultura da morte” — aborto, contracepção, experimentação com embriões, fertilização in vitro, mas também as políticas dos gêneros ou a roupa unisexo, e, claro, o controle da população de inspiração eugênica.
As Nações Unidas e o controle da população
Desde a sua criação em 1945, altura em que substituiu o Vaticano como árbitro internacional de influência, as Nações Unidas tornaram-se a sede de um futuro governo mundial. E o sine qua non deste estado coletivista mundial é, como já indiquei, o controle total da população mundial. Não foi por coincidência que, um mês depois da criação do Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC) na primavera de 1945, as Nações Unidas estabeleceram uma Comissão da População para recolher dados demográficos e estudar as relações demográficas com os fatores econômicos e sociais. Semearam influências poderosas da Nova Era em todas as agências especializadas e interligadas da ONU, incluindo a Organização Internacional do Trabalho (ILO), a Organização Alimentar e Agrícola (FAO), a Organização Econômica, Científica e Cultural das Nações Unidas (UNESCO), a Organização Mundial da Saúde (WHO), o Fundo Internacional de Emergência das Crianças das Nações Unidas (UNICEF), e o Banco Mundial, todos eles subscrevendo institucionalmente a ideologia da sobrepopulação.
Este “novo paradigma” não se limita, de modo nenhum, a estas organizações supra-nacionais, elas também dominam os centros de poder de muitas nações-estados; trabalham lado a lado para fazer do “novo paradigma” a estrutura política e legal de toda a humanidade. A razão para imporem programas de controle da população, como condição para a ajuda humanitária e de desenvolvimento aos países mais pobres, não é apenas para limitar o número dos menos ricos ou alegadamente mais atrasados (os programas eugênicos de controle da população foram, desde o princípio, inspirados por um racismo declarado), mas sobretudo como meio de controle político e social. Os poderes estabelecidos sabem que, no fim de contas, o crescimento da população é um fato positivo, e não um embaraço, e sentem-se ameaçados, tanto política como militarmente, devido à confrontação crescente entre o Ocidente rico mas moribundo e os chamados países subdesenvolvidos, com taxas de natalidade muito mais altas.
Assim, depois de ter causado a quebra da população nos países do Ocidente através do movimento da libertação sexual, o regime do Iluminismo precisa minar o crescimento populacional noutros países, para manter em equilíbrio as estruturas globais do poder. Foi do receio de que estas nações ou culturas, que não seguem o plano ideológico do Iluminismo, pudessem sobrepovoar as nações que sucumbiram à mentalidade darwiniana, que nasceu a idéia do controle da população.
Na sua fase inicial, chamava-se movimento eugênico, mas, como Hitler deu má fama ao nome, depois da 2ª Guerra Mundial a Sociedade de Eugenia mudou o nome para Planejamento Familiar. Mas os objetivos continuam a ser os mesmos; só os meios é que mudaram. As mesmas pessoas que apoiavam e financiavam o programa da eugenia capturaram os meios de comunicação e começaram a apresentar o controle demográfico como uma preocupação com a “saúde” e a libertação.
Até que ponto, devíamos perguntar a nós próprios, foram os católicos de hoje seduzidos por esta sereia falsa e perigosa da necessidade de “limitar o crescimento demográfico”? Como todos sabemos, a Igreja lutou sempre contra a relutância maniquéia em relação à procriação, apelando aos católicos para que fossem generosos a dar vida a novos seres humanos. Como disse Pio XII na sua alocução de 1958:
Onde quer que se encontrem famílias numerosas em grande número, elas apontam para: a saúde física e moral de um povo cristão; uma fé viva em Deus e confiança na Sua Providência; a santidade fecunda e feliz do casamento católico.
(Michal Semin, Para Onde Foram Todos os Católicos?)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Escola pública

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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Judaísmo e Marxismo

“Não é por acaso que o Judaísmo deu à luz o Marxismo, e não é por acaso que os judeus prontamente assumiram o Marxismo; tudo isso estava em perfeito acordo com o progresso do Judaísmo e dos judeus. Os judeus deveriam perceber que Jeová não mora mais nos céus, mas em nós mesmos aqui na terra; não devemos procurar por Jeová como se ele estivesse acima e fora de nós, mas vê-lo exatamente dentro de nós. (...) Como os judeus são o melhor e o mais culto povo sobre a terra, eles têm o direito de subordinar a si mesmos o restante da humanidade e de se fazerem senhores da terra inteira. Ora, de fato, esse é o destino histórico dos judeus. (...) Judaísmo é comunismo, internacionalismo, a irmandade universal dos homens, a emancipação das classes trabalhadoras e da sociedade humana. É com essas armas espirituais que os judeus vão conquistar o mundo e a raça humana.”
(Rabbi Harry Waton, A Program for The Jews and An Answer To All Anti-Semites: A Program for Humanity)