sábado, 28 de dezembro de 2013
A fantástica escrivaninha alemã
Feita há mais de 200 anos com ferramentas manuais pelos mestres carpinteiros alemães Abraham e David Roentgen.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
sábado, 21 de dezembro de 2013
O Natal nunca foi uma festa pagã
“Nesta época do ano nós somos bombardeados com propaganda anticatólica questionando o abençoado dia do nascimento de Cristo como 25 de dezembro. Dizem-nos com arrogância que essa data era originalmente uma festa pagã. A Igreja Primitiva teria “escolhido” esta data para “cristianizar” uma festa romana do sol. De acordo com essa teoria, a data do Natal foi estabelecida somente no século IV, quando nós temos a primeira evidência da Natividade sendo celebrada em Roma em 336. A conclusão: as origens do Natal são pagãs, e nós não sabemos realmente a data do nascimento do Salvador da humanidade.
Não nos deixemos ficar impressionados tão rapidamente com essas mentiras cujos objetivos são somente diminuir a homenagem que prestamos a Nosso Senhor Jesus Cristo e denegrir a Igreja Católica. De fato, o oposto é verdadeiro. A tese da origem pagã do Natal é que é um mito sem substância histórica.
Sem festival na Roma antiga em 25 de dezembro
A noção de que o Natal teve origem pagã começou a se espalhar no século XVII com os puritanos ingleses e os presbiterianos escoceses, que odiavam tudo o que era católico. Os puritanos odiavam tanto o Catolicismo que eles se revoltaram contra a chamada Igreja Anglicana porque, mesmo com suas heresias, eles a consideravam muito similar à Igreja Católica.
Eles tinham aversão a dias de festa e em particular eles detestavam a festa do Natal com suas cerimônias, celebrações e costumes alegres. Como a Bíblia não deu data específica para o nascimento de Cristo, os puritanos argumentavam que isso era um artifício pecaminoso da Igreja Católica Romana que deveria ser abolido.
Mais tarde, pregadores protestantes, como o alemão Paul Ernst Jablonski, tentaram demonstrar em obras pesudo-acadêmicas que 25 de dezembro era na realidade uma festa pagã romana, e que o Natal foi mais um exemplo de como a Igreja Católica medieval “paganizou" e corrompeu o “puro” cristianismo primitivo.
Por volta da mesma época, o jesuíta Jean Hardouin, com sua excêntrica teoria da falsificação universal, que colocou em dúvida cada fonte histórica conhecida, ajudou os puritanos em sua teoria de que o Natal tinha origens pagãs. Mas essa pesquisa foi largamente desacreditada dadas suas afirmações absurdas. Por exemplo, ele afirmava que todos os Concílios da Igreja que aconteceram antes de Trento eram fictícios e quase todos os textos clássicos da Grécia e Roma Antigas eram falsos, feitos por monges no século XIII. Tais declarações são descaradamente absurdas, dados os incontáveis documentos originais demonstrando o oposto.
As duas principais reivindicações para o Natal ter origens pagãs asseveram que a Igreja primitiva escolheu 25 de dezembro a fim de desviar os fiéis dos dias de festividade pagã romana. A primeira reivindicação assevera que isso substituiu o antigo feriado da Saturnália, uma época de festas e estridentes danças e cantos acontecidos em dezembro em honra do deus pagão Saturno.
Agora, o festival da Saturnália sempre terminava o mais tardar em 23 de dezembro. Por que a Igreja Católica iria querer tirar a atenção dos seus fiéis de uma celebração pagã, escolheriam uma data dois dias após a festa já ter terminado e quem quis já havia exagerado? Não faz sentido. Nenhum acadêmico sério acredita nessa alegação.
Natal estabelecido antes do festival pagão do sol
A segunda reivindicação é a de que a Igreja Católica estabeleceu o Natal em 25 de dezembro para substituir uma festa solar inventada pelo Imperador Aureliano em 274 d.C., o Dies Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto).
O fato de que o Natal entrou no calendário mundial (o calendário romano aceito) em 354 – que foi depois do estabelecimento do festival pagão – não significa necessariamente que a Igreja escolheu este dia para substituir o feriado pagão. Duas razões principais concordam com esta conclusão:
Primeira: deve-se simplesmente admitir que os cristãos primitivos começaram a celebrar o Natal apenas no século IV. Até o Édito de Milão ter sido publicado em 313, os católicos eram perseguidos e se encontravam nas catacumbas. Portanto, não havia festividade pública. Mas eles celebravam o Natal entre eles mesmos antes do Édito, como confirmam os hinos e preces dos primeiros cristãos.
Segunda: essa reivindicação é baseada em pressupostos falaciosos. Como o erudito Thomas Talley aponta em seu livro The Origins of the Liturgical Year [As Origens do Ano Litúrgico], o Imperador Aureliano inaugurou o festival do Nascimento do Sol Invicto tentando dar vida nova – um renascer – a um Império Romano moribundo. É muito mais provável, ele argumenta, que a ação do Imperador tenha sido uma resposta à crescente popularidade e força da religião Católica, que estava celebrando o Nascimento de Cristo em 25 de dezembro, e não o contrário.
Não há evidência de que a celebração de Aureliano precedia a festa de Natal, e há mais razão para acreditar que estabelecer esse dia de festa – que nunca teve apoio popular e logo morreu – foi um esforço para dar um significado pagão a uma data que já era importante para os católicos romanos.
Datas baseadas nas Escrituras
Mas vamos deixar o território de conjecturas e retornar aos registros históricos. Há ampla evidência para demonstrar que, mesmo que a data do Natal não tenha se tornado oficial até 354, claramente ela foi estabelecida muito tempo antes de Aureliano ter instituído seu dia de festa pagã.
A concepção de São João Batista é a âncora histórica para saber a data do Natal, baseada em cálculos detalhados e cuidadosos de datas feitos pelos primeiros Pais da Igreja.
O antigo tractatus De solstitiia registra a tradição do Arcanjo Gabriel aparecendo a Zacarias no Templo quando ele estava servindo como sumo sacerdote no Dia da Expiação (Lc 1,8). Isso situa a concepção de São João Batista durante a Festa dos Tabernáculos no fim de setembro, como disse o Arcanjo Gabriel (Lc 1,28) e seu nascimento nove meses mais tarde no momento do solstício de verão.
Como o Evangelho de Lucas afirma que o Arcanjo Gabriel apareceu à Virgem Maria no sexto mês após a concepção de João (Lc 1,26), isso situa a concepção de Cristo no equinócio de primavera, ou seja, no momento da Páscoa Judaica, no fim de março. Seu nascimento seria assim no fim de dezembro no momento do solstício de inverno.
Que estas datas, baseadas na Tradição e na Escritura, são confiáveis é confirmado por recente evidência tirada dos Manuscritos do Mar Morto, cujos autores estavam bastante preocupados com datas de calendários, essenciais para estabelecer quando deveriam celebradas as festas da Torá. A data encontrada nos Manuscritos torna possível saber os serviços rotativos dos sacerdotes no Templo nos tempos do Antigo Testamento e mostram definitivamente que Zacarias serviu como sacerdote do Templo em setembro, confirmando assim a tradição da Igreja Primitiva.
A Igreja Católica determinou 25 de março como a data da concepção de Nosso Senhor muito antes de Aureliano decidir fazer sua festa solar. Por exemplo, por volta de 221 d.C, Sexto Julio Africano escreveu a Chronographiai na qual ele afirma que a Anunciação foi em 25 de março. Uma vez que a data da Encarnação estava estabelecida, era uma simples questão de adicionar nove meses para chegar a data do nascimento de Nosso Senhor: 25 de dezembro. Essa data não seria oficial até o fim do quarto século, mas ela foi estabelecida muito tempo antes de Aureliano ou Constantino. Ela não tinha nada que ver com festivais pagãos.
Nós podemos estar certos de que os primeiros apologistas católicos e Pais da Igreja, que viveram próximos do tempo dos Apóstolos, estavam totalmente cientes das datas associadas com o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todos eles tinham fontes de calendários em mãos e eles não permitiriam que qualquer inverdade fosse introduzida na liturgia católica. A data do nascimento de Cristo foi transmitida por eles como sendo 25 de dezembro, um domingo.
Discursando sobre o verso de Lucas 2,7, Pe. Cornélio a Lápide comenta sobre a arquitetura dessa escolha: “Cristo nasceu no domingo, porque esse foi o primeiro dia do mundo.… Cristo nasceu numa noite de domingo, em ordem com Suas maravilhas, para que o dia em que Ele disse Haja luz, e houve luz, fosse o mesmo dia em que, à noite, a luz brilhasse na escuridão para os de coração justo, isto é, o sol da justiça, Cristo o Senhor.””
(Marian T. Horvat, Christmas Was Never a Pagan Holiday)
http://borboletasaoluar.blogspot.com.br/2013/12/o-natal-nunca-foi-um-festa-paga.html
Não nos deixemos ficar impressionados tão rapidamente com essas mentiras cujos objetivos são somente diminuir a homenagem que prestamos a Nosso Senhor Jesus Cristo e denegrir a Igreja Católica. De fato, o oposto é verdadeiro. A tese da origem pagã do Natal é que é um mito sem substância histórica.
Sem festival na Roma antiga em 25 de dezembro
A noção de que o Natal teve origem pagã começou a se espalhar no século XVII com os puritanos ingleses e os presbiterianos escoceses, que odiavam tudo o que era católico. Os puritanos odiavam tanto o Catolicismo que eles se revoltaram contra a chamada Igreja Anglicana porque, mesmo com suas heresias, eles a consideravam muito similar à Igreja Católica.
Eles tinham aversão a dias de festa e em particular eles detestavam a festa do Natal com suas cerimônias, celebrações e costumes alegres. Como a Bíblia não deu data específica para o nascimento de Cristo, os puritanos argumentavam que isso era um artifício pecaminoso da Igreja Católica Romana que deveria ser abolido.
Mais tarde, pregadores protestantes, como o alemão Paul Ernst Jablonski, tentaram demonstrar em obras pesudo-acadêmicas que 25 de dezembro era na realidade uma festa pagã romana, e que o Natal foi mais um exemplo de como a Igreja Católica medieval “paganizou" e corrompeu o “puro” cristianismo primitivo.
Por volta da mesma época, o jesuíta Jean Hardouin, com sua excêntrica teoria da falsificação universal, que colocou em dúvida cada fonte histórica conhecida, ajudou os puritanos em sua teoria de que o Natal tinha origens pagãs. Mas essa pesquisa foi largamente desacreditada dadas suas afirmações absurdas. Por exemplo, ele afirmava que todos os Concílios da Igreja que aconteceram antes de Trento eram fictícios e quase todos os textos clássicos da Grécia e Roma Antigas eram falsos, feitos por monges no século XIII. Tais declarações são descaradamente absurdas, dados os incontáveis documentos originais demonstrando o oposto.
As duas principais reivindicações para o Natal ter origens pagãs asseveram que a Igreja primitiva escolheu 25 de dezembro a fim de desviar os fiéis dos dias de festividade pagã romana. A primeira reivindicação assevera que isso substituiu o antigo feriado da Saturnália, uma época de festas e estridentes danças e cantos acontecidos em dezembro em honra do deus pagão Saturno.
Agora, o festival da Saturnália sempre terminava o mais tardar em 23 de dezembro. Por que a Igreja Católica iria querer tirar a atenção dos seus fiéis de uma celebração pagã, escolheriam uma data dois dias após a festa já ter terminado e quem quis já havia exagerado? Não faz sentido. Nenhum acadêmico sério acredita nessa alegação.
Natal estabelecido antes do festival pagão do sol
A segunda reivindicação é a de que a Igreja Católica estabeleceu o Natal em 25 de dezembro para substituir uma festa solar inventada pelo Imperador Aureliano em 274 d.C., o Dies Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto).
O fato de que o Natal entrou no calendário mundial (o calendário romano aceito) em 354 – que foi depois do estabelecimento do festival pagão – não significa necessariamente que a Igreja escolheu este dia para substituir o feriado pagão. Duas razões principais concordam com esta conclusão:
Primeira: deve-se simplesmente admitir que os cristãos primitivos começaram a celebrar o Natal apenas no século IV. Até o Édito de Milão ter sido publicado em 313, os católicos eram perseguidos e se encontravam nas catacumbas. Portanto, não havia festividade pública. Mas eles celebravam o Natal entre eles mesmos antes do Édito, como confirmam os hinos e preces dos primeiros cristãos.
Segunda: essa reivindicação é baseada em pressupostos falaciosos. Como o erudito Thomas Talley aponta em seu livro The Origins of the Liturgical Year [As Origens do Ano Litúrgico], o Imperador Aureliano inaugurou o festival do Nascimento do Sol Invicto tentando dar vida nova – um renascer – a um Império Romano moribundo. É muito mais provável, ele argumenta, que a ação do Imperador tenha sido uma resposta à crescente popularidade e força da religião Católica, que estava celebrando o Nascimento de Cristo em 25 de dezembro, e não o contrário.
Não há evidência de que a celebração de Aureliano precedia a festa de Natal, e há mais razão para acreditar que estabelecer esse dia de festa – que nunca teve apoio popular e logo morreu – foi um esforço para dar um significado pagão a uma data que já era importante para os católicos romanos.
Datas baseadas nas Escrituras
Mas vamos deixar o território de conjecturas e retornar aos registros históricos. Há ampla evidência para demonstrar que, mesmo que a data do Natal não tenha se tornado oficial até 354, claramente ela foi estabelecida muito tempo antes de Aureliano ter instituído seu dia de festa pagã.
A concepção de São João Batista é a âncora histórica para saber a data do Natal, baseada em cálculos detalhados e cuidadosos de datas feitos pelos primeiros Pais da Igreja.
O antigo tractatus De solstitiia registra a tradição do Arcanjo Gabriel aparecendo a Zacarias no Templo quando ele estava servindo como sumo sacerdote no Dia da Expiação (Lc 1,8). Isso situa a concepção de São João Batista durante a Festa dos Tabernáculos no fim de setembro, como disse o Arcanjo Gabriel (Lc 1,28) e seu nascimento nove meses mais tarde no momento do solstício de verão.
Como o Evangelho de Lucas afirma que o Arcanjo Gabriel apareceu à Virgem Maria no sexto mês após a concepção de João (Lc 1,26), isso situa a concepção de Cristo no equinócio de primavera, ou seja, no momento da Páscoa Judaica, no fim de março. Seu nascimento seria assim no fim de dezembro no momento do solstício de inverno.
Que estas datas, baseadas na Tradição e na Escritura, são confiáveis é confirmado por recente evidência tirada dos Manuscritos do Mar Morto, cujos autores estavam bastante preocupados com datas de calendários, essenciais para estabelecer quando deveriam celebradas as festas da Torá. A data encontrada nos Manuscritos torna possível saber os serviços rotativos dos sacerdotes no Templo nos tempos do Antigo Testamento e mostram definitivamente que Zacarias serviu como sacerdote do Templo em setembro, confirmando assim a tradição da Igreja Primitiva.
A Igreja Católica determinou 25 de março como a data da concepção de Nosso Senhor muito antes de Aureliano decidir fazer sua festa solar. Por exemplo, por volta de 221 d.C, Sexto Julio Africano escreveu a Chronographiai na qual ele afirma que a Anunciação foi em 25 de março. Uma vez que a data da Encarnação estava estabelecida, era uma simples questão de adicionar nove meses para chegar a data do nascimento de Nosso Senhor: 25 de dezembro. Essa data não seria oficial até o fim do quarto século, mas ela foi estabelecida muito tempo antes de Aureliano ou Constantino. Ela não tinha nada que ver com festivais pagãos.
Nós podemos estar certos de que os primeiros apologistas católicos e Pais da Igreja, que viveram próximos do tempo dos Apóstolos, estavam totalmente cientes das datas associadas com o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todos eles tinham fontes de calendários em mãos e eles não permitiriam que qualquer inverdade fosse introduzida na liturgia católica. A data do nascimento de Cristo foi transmitida por eles como sendo 25 de dezembro, um domingo.
Discursando sobre o verso de Lucas 2,7, Pe. Cornélio a Lápide comenta sobre a arquitetura dessa escolha: “Cristo nasceu no domingo, porque esse foi o primeiro dia do mundo.… Cristo nasceu numa noite de domingo, em ordem com Suas maravilhas, para que o dia em que Ele disse Haja luz, e houve luz, fosse o mesmo dia em que, à noite, a luz brilhasse na escuridão para os de coração justo, isto é, o sol da justiça, Cristo o Senhor.””
(Marian T. Horvat, Christmas Was Never a Pagan Holiday)
http://borboletasaoluar.blogspot.com.br/2013/12/o-natal-nunca-foi-um-festa-paga.html
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Amor à verdade e ódio ao erro
“Todo aquele que ama a verdade odeia o erro. Falar assim parece tanto uma ingenuidade como um paradoxo. Mas o ódio ao erro é a pedra de toque para reconhecer se uma pessoa ama a verdade. Se alguém não ama a verdade, pode – até certo ponto – dizer que a ama e talvez até se fazer acreditar. Mas fique tranqüilo que cedo ou tarde dará sinais de não odiar o erro e com isto se entenderá que não ama a verdade.
Quando um homem, que costumava amar a verdade, não mais a ama, não declara logo a sua defecção; começa a odiar sempre menos o erro. Com isto se trai.
As complacências secretas fazem parte de uma das histórias menos conhecidas pelo mundo.
Quando um homem perde o amor pela doutrina que professava até ontem, seja boa, seja má, conserva o símbolo da doutrina. Mas sente morrer em si a aversão a todas as doutrinas contrárias.
Pelo mesmo fato de ser a caridade uma coisa sublime, a realidade por excelência e a medula dos ossos da criatura, por isso, também o abuso da caridade e o mau uso do seu nome devem ser, especialmente e de modo singular, perigosos. “Optimi corruptio pessima”. Quanto mais belo for o nome, tanto mais é terrível. Portanto, se se revolta contra a verdade armado com o poder que recebeu para a vida, que serviços não prestará à morte?
Ora, volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que, em lugar de atacar o erro, se chega a um acordo com este, sob o pretexto de poupar o homem. Volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que se serve deste para ceder na execração do mal. Habitualmente o homem gosta de ceder. A fraqueza é uma coisa agradável à natureza decaída; além disso, a falta de horror ao erro, ao mal, ao inferno, ao demônio, esta falta parece quase uma desculpa pelo mal em nós mesmos, e aí se prepara um pretexto para escusar aquilo que acariciamos em nossa alma. Em geral, a atenuação se localiza e o homem se amansa no confronto da debilidade que o quer invadir, quando começa a chamar “caridade” à acomodação universal com todas as fraquezas, ainda que distantes.
Aqui está um dito de Davi que nunca se escuta: “Que diligitis Dominum, odite malum” (“Vós que amais o Senhor, odiai o mal”).
Quando o mal entrou no mundo nasceu alguma coisa de irreconciliável. A caridade, o amor para com Deus, exige, supõe, implica, ordena o ódio aos inimigos de Deus. Mesmo a nível humano, a amizade não se mede pela vivacidade da ternura, mas antes pela comiseração no sofrimento. Se o amigo está contente, pode-se mesmo faltar à ternura por um momento, e, no entanto, permanecem amigos. Se o amigo sofre na sua pessoa ou na sua honra, devido a um acidente, a uma ofensa qualquer e se se ressente apenas francamente com o seu mal, já não se é mais amigo.
O grande Josafá, cujas dimensões desconhecidas espantam, foi reprovado pelo Senhor; tinha-se aliado com o rei de Israel. Aliar-se com o inimigo é o crime escondido, o delito profundo. Existem crimes evidentes, crimes aparentes. Mas a intimidade que possui tudo tem um crime contra si, que é se aliar com o inimigo. A medida do amor consiste em execrar o inimigo comum. O rei de Israel era inimigo de Deus, mas Josafá se tinha esquecido do que Deus execrava.
A aliança, a aproximação, a vizinhança espiritual do inimigo são crimes contra a intimidade! Ora, esta é a glória quando se trata de Deus, e é mais íntimo de Deus aquele que tem a maior reverência a Sua Majestade. Eis porque o pecado contra o Santo Nome faz os santos estremecerem de horror! Aqueles que sentiram o sopro da glória não se podem reconciliar com os crimes contra a glória. A caridade os impele; eis porque são intratáveis, uma vez que ela os obriga, como uma nobreza superior, a não consentir nas obras do ódio. Quem pactua com o erro não pode conhecer o amor na sua plenitude nem na sua força soberana.
Depois de uma longa guerra, quando não se pode mais com ela, quando o cansaço pode causar a vontade de acalmar-se, os reis foram vistos, fatigados pelos combates, cederem esta ou aquela fortaleza. São concessões que fazem acabar a guerra sem disparar os canhões. Mas as verdades não se tratam como fortalezas. Quando se quer fazer a paz, em espírito e verdade, deseja-se a conversão e não a acomodação. A justiça é inteiramente aquilo que é.
Nas relações entre os homens, quando uma aproximação parece realizar-se sem que o culpado tenha mudado em coisa nenhuma, quando se crê que um aperto de mão possa substituir o arrependimento e o sentimento de culpa, esta aproximação falaz acaba por revelar as dificuldades que traz consigo. É uma segunda separação muito mais profunda do que a precedente. E acontece o mesmo com a doutrina. A paz aparente, que a complacência compra e paga, é contrária tanto à caridade como à justiça, porque cava um abismo onde antes havia um pequeno fosso. A caridade requer sempre a luz, e a luz evita também as sombras do compromisso. Toda a beleza é uma coisa inteira. A paz é, talvez, no final das contas, a vitória mais segura sobre si mesma.
Que se diria de um médico que, por caridade, poupasse a doença de um cliente? O médico poderia dizer ao doente: “Depois de tudo, senhor, é preciso ter caridade. O câncer que o corrói interiormente talvez o faça de boa fé. Vamos! Seja mais gentil; não se deve ser tão duro. Ponha-se no lugar do câncer; nele talvez esteja um animal que tem necessidade de consumir-lhe a carne e o sangue, e o senhor terá a coragem de negar-lhe aquilo que lhe aproveita? O pobrezinho poderia morrer de fome! Por outro lado sou inclinado a crer que o câncer esteja de boa fé e o aconselho a ter um comportamento mais caridoso”.
É o crime do século dezoito: não odiar o mal e fazer-lhe propostas. Mas há uma única proposta para fazer ao mal: a de desaparecer. Qualquer compromisso com ele é uma vitória parcial, mas a vitória total do mal, porque ele não quer expulsar o bem, mas coabitar com ele. Um instinto secreto adverte-o de que, cedendo alguma coisa, cede tudo. E desde o momento em que não é mais odiado, sente-se adorado.
A paz, como se disse, é a vitória segura de si mesma. É uma eliminação. Uma eliminação tão completa que não se tem mais de lutar.”
(Ernesto Hello, L'Homme)
http://excerptos.blogspot.com.br
Quando um homem, que costumava amar a verdade, não mais a ama, não declara logo a sua defecção; começa a odiar sempre menos o erro. Com isto se trai.
As complacências secretas fazem parte de uma das histórias menos conhecidas pelo mundo.
Quando um homem perde o amor pela doutrina que professava até ontem, seja boa, seja má, conserva o símbolo da doutrina. Mas sente morrer em si a aversão a todas as doutrinas contrárias.
Pelo mesmo fato de ser a caridade uma coisa sublime, a realidade por excelência e a medula dos ossos da criatura, por isso, também o abuso da caridade e o mau uso do seu nome devem ser, especialmente e de modo singular, perigosos. “Optimi corruptio pessima”. Quanto mais belo for o nome, tanto mais é terrível. Portanto, se se revolta contra a verdade armado com o poder que recebeu para a vida, que serviços não prestará à morte?
Ora, volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que, em lugar de atacar o erro, se chega a um acordo com este, sob o pretexto de poupar o homem. Volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que se serve deste para ceder na execração do mal. Habitualmente o homem gosta de ceder. A fraqueza é uma coisa agradável à natureza decaída; além disso, a falta de horror ao erro, ao mal, ao inferno, ao demônio, esta falta parece quase uma desculpa pelo mal em nós mesmos, e aí se prepara um pretexto para escusar aquilo que acariciamos em nossa alma. Em geral, a atenuação se localiza e o homem se amansa no confronto da debilidade que o quer invadir, quando começa a chamar “caridade” à acomodação universal com todas as fraquezas, ainda que distantes.
Aqui está um dito de Davi que nunca se escuta: “Que diligitis Dominum, odite malum” (“Vós que amais o Senhor, odiai o mal”).
Quando o mal entrou no mundo nasceu alguma coisa de irreconciliável. A caridade, o amor para com Deus, exige, supõe, implica, ordena o ódio aos inimigos de Deus. Mesmo a nível humano, a amizade não se mede pela vivacidade da ternura, mas antes pela comiseração no sofrimento. Se o amigo está contente, pode-se mesmo faltar à ternura por um momento, e, no entanto, permanecem amigos. Se o amigo sofre na sua pessoa ou na sua honra, devido a um acidente, a uma ofensa qualquer e se se ressente apenas francamente com o seu mal, já não se é mais amigo.
O grande Josafá, cujas dimensões desconhecidas espantam, foi reprovado pelo Senhor; tinha-se aliado com o rei de Israel. Aliar-se com o inimigo é o crime escondido, o delito profundo. Existem crimes evidentes, crimes aparentes. Mas a intimidade que possui tudo tem um crime contra si, que é se aliar com o inimigo. A medida do amor consiste em execrar o inimigo comum. O rei de Israel era inimigo de Deus, mas Josafá se tinha esquecido do que Deus execrava.
A aliança, a aproximação, a vizinhança espiritual do inimigo são crimes contra a intimidade! Ora, esta é a glória quando se trata de Deus, e é mais íntimo de Deus aquele que tem a maior reverência a Sua Majestade. Eis porque o pecado contra o Santo Nome faz os santos estremecerem de horror! Aqueles que sentiram o sopro da glória não se podem reconciliar com os crimes contra a glória. A caridade os impele; eis porque são intratáveis, uma vez que ela os obriga, como uma nobreza superior, a não consentir nas obras do ódio. Quem pactua com o erro não pode conhecer o amor na sua plenitude nem na sua força soberana.
Depois de uma longa guerra, quando não se pode mais com ela, quando o cansaço pode causar a vontade de acalmar-se, os reis foram vistos, fatigados pelos combates, cederem esta ou aquela fortaleza. São concessões que fazem acabar a guerra sem disparar os canhões. Mas as verdades não se tratam como fortalezas. Quando se quer fazer a paz, em espírito e verdade, deseja-se a conversão e não a acomodação. A justiça é inteiramente aquilo que é.
Nas relações entre os homens, quando uma aproximação parece realizar-se sem que o culpado tenha mudado em coisa nenhuma, quando se crê que um aperto de mão possa substituir o arrependimento e o sentimento de culpa, esta aproximação falaz acaba por revelar as dificuldades que traz consigo. É uma segunda separação muito mais profunda do que a precedente. E acontece o mesmo com a doutrina. A paz aparente, que a complacência compra e paga, é contrária tanto à caridade como à justiça, porque cava um abismo onde antes havia um pequeno fosso. A caridade requer sempre a luz, e a luz evita também as sombras do compromisso. Toda a beleza é uma coisa inteira. A paz é, talvez, no final das contas, a vitória mais segura sobre si mesma.
Que se diria de um médico que, por caridade, poupasse a doença de um cliente? O médico poderia dizer ao doente: “Depois de tudo, senhor, é preciso ter caridade. O câncer que o corrói interiormente talvez o faça de boa fé. Vamos! Seja mais gentil; não se deve ser tão duro. Ponha-se no lugar do câncer; nele talvez esteja um animal que tem necessidade de consumir-lhe a carne e o sangue, e o senhor terá a coragem de negar-lhe aquilo que lhe aproveita? O pobrezinho poderia morrer de fome! Por outro lado sou inclinado a crer que o câncer esteja de boa fé e o aconselho a ter um comportamento mais caridoso”.
É o crime do século dezoito: não odiar o mal e fazer-lhe propostas. Mas há uma única proposta para fazer ao mal: a de desaparecer. Qualquer compromisso com ele é uma vitória parcial, mas a vitória total do mal, porque ele não quer expulsar o bem, mas coabitar com ele. Um instinto secreto adverte-o de que, cedendo alguma coisa, cede tudo. E desde o momento em que não é mais odiado, sente-se adorado.
A paz, como se disse, é a vitória segura de si mesma. É uma eliminação. Uma eliminação tão completa que não se tem mais de lutar.”
(Ernesto Hello, L'Homme)
http://excerptos.blogspot.com.br
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Ana Hatherly: Esta Noite Morrerás
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
São João Eudes e o maior sinal da ira de Deus
“O maior sinal da ira de Deus sobre um povo e a mais terrível punição que sobre ele pode descarregar neste mundo é permitir que, em castigo por seus crimes, venha a cair nas mãos de pastores que mais o são de nome do que de fato, que mais exercitam contra ele a crueldade de lobos famintos que a caridade de solícitos pastores, e que, em lugar de o alimentar cuidadosamente, o dilacera e devora com crueldade; que, em vez de levar o povo a Deus, o vende a Satanás; que em lugar de o encaminhar para o Céu, o arrasta com eles para o inferno; e, em vez de serem o sal da terra e a luz do mundo, são seu veneno e suas trevas.
Porque nós, sacerdotes e pastores, disse São Gregório, o grande, seremos condenados diante de Deus como "assassinos das almas que, todos os dias, vão para a morte eterna pelo nosso silêncio e nossa negligência". Diz também este mesmo Santo: “Nada há que tanto ultraje a Nosso Senhor (e, por conseguinte, que mais provoque Sua ira e atraia mais maldições sobre os pastores e sobre o rebanho, sobre os sacerdotes e sobre o povo) como os exemplos de uma vida depravada dados por quem Ele estabeleceu para correção dos demais; quando pecam os que devem reprimir pecados; quando os sacerdotes não cuidam da salvação das almas, quando não se preocupam mais do que em satisfazer as suas inclinações, quando todas as suas afeições terminam em coisas da terra; quando se alimentam com avidez da vã estima dos homens; quando para satisfazerem as suas ambições abandonam os trabalhos de Deus para se entregarem aos do mundo; quando, ocupando um lugar de santidade, se ocupam de questões terrenas e profanas e não mais pregam a verdadeira fé, a única que indica o Caminho, a Verdade e a Vida.
Quando Deus permite que isto suceda é prova muito certa de que está encolerizado contra o seu povo, sendo este o maior castigo que lhe pode enviar neste mundo. Por isso Nosso Senhor diz incessantemente a todos os católicos: "Convertei-vos a Mim e dar-vos-ei pastores segundo o Meu Coração". O maior efeito da misericórdia de Deus dirigido a Seu povo e a mais preciosa graça que pode outorgar-lhe é dar-lhe sacerdotes segundo Seu Coração, que não buscam mais do que Sua glória e a eterna salvação das almas.”
http://missatridentinaembetim.blogspot.com.br
Porque nós, sacerdotes e pastores, disse São Gregório, o grande, seremos condenados diante de Deus como "assassinos das almas que, todos os dias, vão para a morte eterna pelo nosso silêncio e nossa negligência". Diz também este mesmo Santo: “Nada há que tanto ultraje a Nosso Senhor (e, por conseguinte, que mais provoque Sua ira e atraia mais maldições sobre os pastores e sobre o rebanho, sobre os sacerdotes e sobre o povo) como os exemplos de uma vida depravada dados por quem Ele estabeleceu para correção dos demais; quando pecam os que devem reprimir pecados; quando os sacerdotes não cuidam da salvação das almas, quando não se preocupam mais do que em satisfazer as suas inclinações, quando todas as suas afeições terminam em coisas da terra; quando se alimentam com avidez da vã estima dos homens; quando para satisfazerem as suas ambições abandonam os trabalhos de Deus para se entregarem aos do mundo; quando, ocupando um lugar de santidade, se ocupam de questões terrenas e profanas e não mais pregam a verdadeira fé, a única que indica o Caminho, a Verdade e a Vida.
Quando Deus permite que isto suceda é prova muito certa de que está encolerizado contra o seu povo, sendo este o maior castigo que lhe pode enviar neste mundo. Por isso Nosso Senhor diz incessantemente a todos os católicos: "Convertei-vos a Mim e dar-vos-ei pastores segundo o Meu Coração". O maior efeito da misericórdia de Deus dirigido a Seu povo e a mais preciosa graça que pode outorgar-lhe é dar-lhe sacerdotes segundo Seu Coração, que não buscam mais do que Sua glória e a eterna salvação das almas.”
http://missatridentinaembetim.blogspot.com.br
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
A eleição do Cardeal Siri no conclave de 1958
“Em 1954 o Conde Della Torre, editor do jornal vaticano L’Osservatore Romano, advertiu Pio XII das simpatias comunistas de Roncalli. Outros membros da “Nobreza Negra” expressaram preocupações semelhantes.
Roncalli também não escapou à atenção do FBI e da CIA. As agências começaram a acumular arquivos volumosos sobre ele e as atividades suspeitas de outros “progressistas” dentro do Vaticano, inclusive Monsenhor Battista Montini (o futuro Paulo VI).
(...) Pio XII nomeou o Cardeal Giuseppe Siri como seu sucessor preferido. Siri era radicalmente anticomunista, um tradicionalista intransigente em matéria de doutrina da Igreja, e um hábil burocrata...
Em 1958, quando os cardeais foram trancados na Capela Sistina para eleger um novo papa, eventos misteriosos começaram a acontecer. Na terceira votação, Siri, de acordo com as fontes do FBI, obteve os votos necessários e foi eleito o Papa Gregório XVII. A fumaça branca subiu da chaminé da capela para informar aos fiéis que um novo papa havia sido escolhido. A notícia foi anunciada com alegria às seis da tarde na rádio do Vaticano. O locutor disse: “A fumaça é branca... Não há a menor dúvida. Um papa foi eleito”...
Mas o novo papa não aparecia. Começou-se a perguntar se a fumaça era branca ou cinzenta. Para acabar com as dúvidas, Monsenhor Santaro, secretário do Conclave de Cardeais, informou à imprensa que a fumaça havia realmente sido branca e que um novo papa havia sido eleito. A espera continuou. À noite a rádio do Vaticano anunciou que os resultados permaneciam incertos. Em 27 de outubro de 1958, o Houston Post publicou a manchete: “Cardeais não Conseguem Eleger o Papa em 4 Votações: Confusão nos Sinais de Fumaça Causa Notícias Falsas.”
Mas as notícias haviam sido válidas. Na quarta votação, de acordo com as fontes do FBI, Siri de novo obteve os votos necessários e foi eleito supremo pontífice. Mas os cardeais franceses anularam o resultado, dizendo que a eleição causaria tumultos generalizados e o assassinato de bispos proeminentes atrás da Cortina de Ferro.
Os cardeais resolveram eleger o Cardeal Frederico Tedischini como um “papa de transição”, mas Tedeschini estava muito doente para aceitar a posição.
Finalmente, no terceiro dia de votação, Roncalli recebeu o apoio necessário para se tornar o Papa João XXIII.”
(Paul L. Williams, The Vatican Exposed)
Comentário do Pe. Paul Kramer:
“O erro dos que acreditam que Siri foi papa consiste em sua incapacidade de entender que, antes de Paulo VI, o Papa Eleito não se tornava papa até ser coroado. Essa era a lei vigente à época. Paulo VI mudou essa lei para provavelmente evitar que um Papa Eleito fosse pressionado a abdicar antes da coroação.”
Roncalli também não escapou à atenção do FBI e da CIA. As agências começaram a acumular arquivos volumosos sobre ele e as atividades suspeitas de outros “progressistas” dentro do Vaticano, inclusive Monsenhor Battista Montini (o futuro Paulo VI).
(...) Pio XII nomeou o Cardeal Giuseppe Siri como seu sucessor preferido. Siri era radicalmente anticomunista, um tradicionalista intransigente em matéria de doutrina da Igreja, e um hábil burocrata...
Em 1958, quando os cardeais foram trancados na Capela Sistina para eleger um novo papa, eventos misteriosos começaram a acontecer. Na terceira votação, Siri, de acordo com as fontes do FBI, obteve os votos necessários e foi eleito o Papa Gregório XVII. A fumaça branca subiu da chaminé da capela para informar aos fiéis que um novo papa havia sido escolhido. A notícia foi anunciada com alegria às seis da tarde na rádio do Vaticano. O locutor disse: “A fumaça é branca... Não há a menor dúvida. Um papa foi eleito”...
Mas o novo papa não aparecia. Começou-se a perguntar se a fumaça era branca ou cinzenta. Para acabar com as dúvidas, Monsenhor Santaro, secretário do Conclave de Cardeais, informou à imprensa que a fumaça havia realmente sido branca e que um novo papa havia sido eleito. A espera continuou. À noite a rádio do Vaticano anunciou que os resultados permaneciam incertos. Em 27 de outubro de 1958, o Houston Post publicou a manchete: “Cardeais não Conseguem Eleger o Papa em 4 Votações: Confusão nos Sinais de Fumaça Causa Notícias Falsas.”
Mas as notícias haviam sido válidas. Na quarta votação, de acordo com as fontes do FBI, Siri de novo obteve os votos necessários e foi eleito supremo pontífice. Mas os cardeais franceses anularam o resultado, dizendo que a eleição causaria tumultos generalizados e o assassinato de bispos proeminentes atrás da Cortina de Ferro.
Os cardeais resolveram eleger o Cardeal Frederico Tedischini como um “papa de transição”, mas Tedeschini estava muito doente para aceitar a posição.
Finalmente, no terceiro dia de votação, Roncalli recebeu o apoio necessário para se tornar o Papa João XXIII.”
(Paul L. Williams, The Vatican Exposed)
Comentário do Pe. Paul Kramer:
“O erro dos que acreditam que Siri foi papa consiste em sua incapacidade de entender que, antes de Paulo VI, o Papa Eleito não se tornava papa até ser coroado. Essa era a lei vigente à época. Paulo VI mudou essa lei para provavelmente evitar que um Papa Eleito fosse pressionado a abdicar antes da coroação.”
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
A Igreja Católica e a escravidão
“Vivemos em uma época conturbada. Qualquer coisa afirmada levianamente ganha auréola de verdade. Por exemplo, recentemente, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) disse que sessenta por cento dos congressistas brasileiros utilizavam serviços de prostitutas e que, por isso, eles gostariam de gozar essa atividade em “locais mais seguros”. Conclusão: para o deputado, deveríamos regulamentar a vida das meninas. Rapidamente a notícia ganhou as manchetes dos jornais. Contudo, dias depois, Wyllys voltou atrás – em uma matéria infinitamente menor, claro: disse que baseou sua afirmação em sua “percepção da sociedade brasileira”, e que, de fato, desconhecia casos de pagamento de prostitutas por colegas.
Bem, cito o deputado do PSOL porque o próprio se valeu de um trecho de uma mensagem do papa Bento XVI no XLVI Dia Mundial da Paz para mais uma de suas afirmações bombásticas. O papa defendera a “estrutura natural do matrimônio” – a união entre um homem e uma mulher – quando negou que quaisquer outras formas radicalmente diversas de união fossem igualmente consideradas, pois elas “prejudicam, desestabilizam e obscurecem a função insubstituível do casamento”. Fazer essa equiparação constituía uma “ofensa contra a verdade da pessoa humana e uma ferida grave infligida à justiça e à paz”. Parafraseando o papa, o deputado afirmou que “ferida grave infligida à justiça e à paz foi a escravidão de negros africanos apoiada pela Igreja Católica”.
Nesse caso, Jean Wyllys não está só. Essa é uma das acusações costumeiras feitas à Igreja. Teria ela, segundo seus detratores, apoiado o sistema escravocrata, especialmente o ocorrido na África no período moderno (séculos XVI-XIX). Isso é verdade? Não. A verdade é exatamente o contrário disso. Vamos (mesmo que brevemente) aos fatos?
Na Bíblia há várias passagens relativas a escravos (especialmente o Antigo Testamento). Quase sempre são prescrições atenuantes. Por exemplo: não se deve entregar um escravo fugitivo, nem utilizá-lo em tarefas degradantes ou serviços desnecessários; ao escravo é reservado o dia de descanso (sábado). Em resumo: apesar de reconhecer a escravidão, a religião a atenuava. Essa foi basicamente a herança do mundo antigo no que diz respeito aos preceitos religiosos.
Com a ascensão social e política da Igreja na Idade Média e a conseqüente cristianização das monarquias, a pressão a favor dos pobres, das mulheres e dos escravos tornou-se maior. Por exemplo, uma lei do século VI (sob influência da Igreja) afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um altar católico: seu dono deveria pagar uma pesada multa caso fizesse isso. Nesses séculos conhecidos pelos especialistas como Alta Idade Média (V-X) o Catolicismo que se difundiu na Europa pressionou aquelas sociedades a considerar a escravidão algo ultrajante aos seres humanos, já que, pela fé em Jesus Cristo, somos todos filhos de Deus.
Apesar disso, a escravidão só lentamente diminuiu – para dar lugar, pouco a pouco, à servidão. Com ela, a dignidade humana estava muito acima da escravidão. Nessa, o escravo era uma coisa que falava; naquela, o servo tinha deveres (e muitos!) – mas também direitos (como, por exemplo, a inalienabilidade da terra).
Mas os homens são dificilmente civilizados (e com revezes regulares). Mesmo com a pregação regular da Igreja, na Europa medieval a escravidão continuou tão comum que teve que ser reiteradamente condenada pela Igreja (Concílios de Koblenz, em 922, de Londres, em 1022, e no Conselho de Armagh, ocorrido na Irlanda em 1171). Naquele Concílio de Londres, por exemplo, foi decidido: “Que futuramente, na Inglaterra, ninguém queira entrar naquele comércio nefasto no qual estavam acostumados a vender homens como animais irracionais” (artigo 27).
O problema era que as antigas leis romanas, seu código civil, reorganizado nos anos 529-534 pelo imperador bizantino Justiniano I como Corpus Iuris Civilis (Conjunto do Direito Civil), regulamentava a escravidão. Segundo ele, embora o estado natural da Humanidade fosse a liberdade, os direitos dos povos poderiam, no entanto, substituir a lei natural e escravizar pessoas. Basicamente um escravo era: 1. alguém cuja mãe era escrava, 2. qualquer pessoa capturada em batalha, 3. qualquer um que se vendeu para pagar uma dívida (fato comum nos primeiros séculos medievais).
Com a ascensão do Cristianismo, o direito também se cristianizou. Os advogados medievais, a partir do século XI, chegaram à conclusão que a escravidão era contrária ao espírito cristão. Isso para cristãos (e que não me venha nenhum fariseu acusar a Igreja de não legislar para não cristãos). Em contrapartida, por exemplo, foi o Islã quem difundiu largamente a escravidão. Vejamos isso com mais pormenor.
Começo com uma citação do grande historiador Fernand Braudel (1902-1985): “O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o Islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos”.
Aqui chegamos à escravidão negra. Muitos séculos ANTES da chegada dos brancos europeus à África, tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam largamente o escravismo, exatamente como os berberes (e demais etnias muçulmanas). Os europeus do século XVI tinham verdadeiro pavor de deixar o litoral ou mesmo desembarcar de seus navios e avançar para longe da costa e capturar escravos. Estes eram trazidos pelos próprios africanos, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras entre as tribos, ou mesmo puro seqüestro. Isso pode ser facilmente comprovado, por exemplo, com a descrição do império de Mali feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai. Ademais, havia tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente de escravos. Às vezes, para interromper a chuva, mulheres negras (e escravas) eram crucificadas.
Entrementes, a Igreja Católica, reiteradamente, condenava a escravidão. Há inúmeras bulas papais a respeito: Sicut Dudum (1435) – Eugênio IV manda libertar os escravos das ilhas Canárias; em 1462, Pio II instrui os bispos a pregarem contra o tratamento de escravos negros etíopes, e condena a escravidão como um “crime tremendo”; Paulo III, na bula Sublimus Dei (1537) recorda aos cristãos que os índios são livres por natureza (isto é, ao contrário dos negros, eles não praticavam a escravidão); em 1571 o dominicano Tomás de Mercado declarou desumana e ilícita a escravidão; Gregório XIV (Cum Sicuti, de 1591) e Urbano VIII (Commissum nobis, de 1639) condenaram a escravidão.
Paro no século XVII. Há muito mais. Mas qual é o resumo da ópera? Devemos estudar o passado, não inventá-lo.”
(Ricardo da Costa, A Igreja Católica e a Escravidão)
http://www.ricardocosta.com
Bem, cito o deputado do PSOL porque o próprio se valeu de um trecho de uma mensagem do papa Bento XVI no XLVI Dia Mundial da Paz para mais uma de suas afirmações bombásticas. O papa defendera a “estrutura natural do matrimônio” – a união entre um homem e uma mulher – quando negou que quaisquer outras formas radicalmente diversas de união fossem igualmente consideradas, pois elas “prejudicam, desestabilizam e obscurecem a função insubstituível do casamento”. Fazer essa equiparação constituía uma “ofensa contra a verdade da pessoa humana e uma ferida grave infligida à justiça e à paz”. Parafraseando o papa, o deputado afirmou que “ferida grave infligida à justiça e à paz foi a escravidão de negros africanos apoiada pela Igreja Católica”.
Nesse caso, Jean Wyllys não está só. Essa é uma das acusações costumeiras feitas à Igreja. Teria ela, segundo seus detratores, apoiado o sistema escravocrata, especialmente o ocorrido na África no período moderno (séculos XVI-XIX). Isso é verdade? Não. A verdade é exatamente o contrário disso. Vamos (mesmo que brevemente) aos fatos?
Na Bíblia há várias passagens relativas a escravos (especialmente o Antigo Testamento). Quase sempre são prescrições atenuantes. Por exemplo: não se deve entregar um escravo fugitivo, nem utilizá-lo em tarefas degradantes ou serviços desnecessários; ao escravo é reservado o dia de descanso (sábado). Em resumo: apesar de reconhecer a escravidão, a religião a atenuava. Essa foi basicamente a herança do mundo antigo no que diz respeito aos preceitos religiosos.
Com a ascensão social e política da Igreja na Idade Média e a conseqüente cristianização das monarquias, a pressão a favor dos pobres, das mulheres e dos escravos tornou-se maior. Por exemplo, uma lei do século VI (sob influência da Igreja) afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um altar católico: seu dono deveria pagar uma pesada multa caso fizesse isso. Nesses séculos conhecidos pelos especialistas como Alta Idade Média (V-X) o Catolicismo que se difundiu na Europa pressionou aquelas sociedades a considerar a escravidão algo ultrajante aos seres humanos, já que, pela fé em Jesus Cristo, somos todos filhos de Deus.
Apesar disso, a escravidão só lentamente diminuiu – para dar lugar, pouco a pouco, à servidão. Com ela, a dignidade humana estava muito acima da escravidão. Nessa, o escravo era uma coisa que falava; naquela, o servo tinha deveres (e muitos!) – mas também direitos (como, por exemplo, a inalienabilidade da terra).
Mas os homens são dificilmente civilizados (e com revezes regulares). Mesmo com a pregação regular da Igreja, na Europa medieval a escravidão continuou tão comum que teve que ser reiteradamente condenada pela Igreja (Concílios de Koblenz, em 922, de Londres, em 1022, e no Conselho de Armagh, ocorrido na Irlanda em 1171). Naquele Concílio de Londres, por exemplo, foi decidido: “Que futuramente, na Inglaterra, ninguém queira entrar naquele comércio nefasto no qual estavam acostumados a vender homens como animais irracionais” (artigo 27).
O problema era que as antigas leis romanas, seu código civil, reorganizado nos anos 529-534 pelo imperador bizantino Justiniano I como Corpus Iuris Civilis (Conjunto do Direito Civil), regulamentava a escravidão. Segundo ele, embora o estado natural da Humanidade fosse a liberdade, os direitos dos povos poderiam, no entanto, substituir a lei natural e escravizar pessoas. Basicamente um escravo era: 1. alguém cuja mãe era escrava, 2. qualquer pessoa capturada em batalha, 3. qualquer um que se vendeu para pagar uma dívida (fato comum nos primeiros séculos medievais).
Com a ascensão do Cristianismo, o direito também se cristianizou. Os advogados medievais, a partir do século XI, chegaram à conclusão que a escravidão era contrária ao espírito cristão. Isso para cristãos (e que não me venha nenhum fariseu acusar a Igreja de não legislar para não cristãos). Em contrapartida, por exemplo, foi o Islã quem difundiu largamente a escravidão. Vejamos isso com mais pormenor.
Começo com uma citação do grande historiador Fernand Braudel (1902-1985): “O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o Islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos”.
Aqui chegamos à escravidão negra. Muitos séculos ANTES da chegada dos brancos europeus à África, tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam largamente o escravismo, exatamente como os berberes (e demais etnias muçulmanas). Os europeus do século XVI tinham verdadeiro pavor de deixar o litoral ou mesmo desembarcar de seus navios e avançar para longe da costa e capturar escravos. Estes eram trazidos pelos próprios africanos, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras entre as tribos, ou mesmo puro seqüestro. Isso pode ser facilmente comprovado, por exemplo, com a descrição do império de Mali feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai. Ademais, havia tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente de escravos. Às vezes, para interromper a chuva, mulheres negras (e escravas) eram crucificadas.
Entrementes, a Igreja Católica, reiteradamente, condenava a escravidão. Há inúmeras bulas papais a respeito: Sicut Dudum (1435) – Eugênio IV manda libertar os escravos das ilhas Canárias; em 1462, Pio II instrui os bispos a pregarem contra o tratamento de escravos negros etíopes, e condena a escravidão como um “crime tremendo”; Paulo III, na bula Sublimus Dei (1537) recorda aos cristãos que os índios são livres por natureza (isto é, ao contrário dos negros, eles não praticavam a escravidão); em 1571 o dominicano Tomás de Mercado declarou desumana e ilícita a escravidão; Gregório XIV (Cum Sicuti, de 1591) e Urbano VIII (Commissum nobis, de 1639) condenaram a escravidão.
Paro no século XVII. Há muito mais. Mas qual é o resumo da ópera? Devemos estudar o passado, não inventá-lo.”
(Ricardo da Costa, A Igreja Católica e a Escravidão)
http://www.ricardocosta.com
sábado, 30 de novembro de 2013
John Dunstable
“Com Dunstable como juiz, Urânia aprendeu a revelar os segredos do Céu. Esse homem foi tua glória, ó Música; ele dispersou tua arte suave através do mundo. A estrela se transmigra para as estrelas; que os cidadãos celestes recebam-no como um deles.”
(John Wheathampstead, abade de Saint Albans, Epitáfio em Memória de John Dunstable)
(John Wheathampstead, abade de Saint Albans, Epitáfio em Memória de John Dunstable)
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Hans Küng e a Nova Ordem Mundial
“No Parlamento das Religiões do Mundo, em 1993, Hans Küng, a quem a Santa Sé proibiu o ensino da teologia católica, apresentou o projeto da Ética Planetária com o prévio aval da UNESCO, do Fórum Econômico Mundial de Davos e do World Wide Fund for Nature (WWF). A primeira edição da nova ética de Küng foi prefaciada pelo príncipe Philip de Edimburgo, na época presidente da WWF. Hans Küng tornou-se assim uma das cabeças visíveis do processo para impor esta nova ética cósmica, enunciada no estilo da maçonaria, composta de uma mistura de gnose, expressões de bons desejos e da vaga e alienante espiritualidade new age. A Ética Planetária é uma boa resposta ao projeto da UNESCO de ética universal de valores relativos. O próprio Küng a define como “uma síntese de superação de todas as religiões do mundo”.
O projeto de Küng foi aprovado pelo Parlamento das Religiões como “um consenso mínimo sobre os valores fundamentais de caráter vinculante, de normas irrevogáveis e de atitudes morais fundamentais”.
O conteúdo da Ética Planetária está cheio de ambigüidades, e nele se acentuam palavras que os próprios autores se encarregaram de esvaziar de conteúdo, de modo que cada indivíduo possa interpretá-las à sua maneira, segundo sua tradição cultural ou de acordo com seus interesses. É um legado contra o “fanatismo e a intolerância, em favor da tolerância universal”, que não se realiza em nenhum princípio, porque, de acordo com o próprio Küng, os princípios devem ser elaborados em um consenso posterior pouco ou nada tendo de padrão irrevogável.
Tal como a Carta da Terra, este projeto ignora a existência de Deus e, naturalmente, sua transcendência em relação à criação. Nem mesmo a existência da alma humana como uma entidade separada fica clara. Como resultado, exclui a existência da verdade absoluta, impondo à humanidade um processo sem fim de busca de consensos sobre princípios morais que permanecerão até que aqueles perdurem para, em seguida, em virtude de novos consensos, serem mudados, substituídos. Como é facilmente dedutível, neste processo sem fim está incluído o consenso sobre a vida e a morte, relativizando o valor e o respeito pela vida humana desde a concepção até a morte natural.
As atitudes morais fundamentais são reduzidas a palavras sem significado claro: paz, justiça, eqüidade, dignidade, compaixão, tolerância, solidariedade, diálogo, respeito à pluralidade e outras, as quais são ambíguas em si mesmas, como o termo crentes, que abrange todos os seres humanos que acreditam em algo ou alguém, o que, na linguagem da ética global, equivaleria a uma espécie de sincretismo universal.
No primeiro capítulo, Küng diz: “Estes princípios são baseados na suposição de que a Nova Ordem Mundial não pode sobreviver sem uma ética global”. Ou seja, sem alguns princípios éticos novos a serviço do projeto político de dominação. É a religião a serviço do poder. Os elogios do presidente do Diretório do Fundo Monetário Internacional em relação a Küng o confirmam.
Aparentemente, a Ética Planetária encontra um público favorável no mundo das finanças internacionais e a Carta da Terra no campo internacional socialista. Mas esta é apenas uma impressão, pois os nomes de Hans Küng e Leonardo Boff e outros aparecem nas mesmas redes e nos mesmos fóruns. Na verdade, ambos os projetos têm as mesmas intenções: a subversão da ordem natural e a destruição das raízes cristãs da cultura através do relativismo moral e do igualitarismo religioso. É o homem que constrói o seu código ético em guerra aberta contra Deus – o antigo projeto das lojas maçônicas.
A Carta da Terra e a Ética Planetária não são projetos que concorram entre si; são, na verdade, alternativos ou complementares. Têm o mesmo objetivo: a demolição da Igreja Católica e a construção de outra igreja, uma caricatura a serviço da nova ordem mundial.
(Juan Claudio Sanahuja, Poder Global e Religião Universal)
Tradução de Lyège Carvalho
O projeto de Küng foi aprovado pelo Parlamento das Religiões como “um consenso mínimo sobre os valores fundamentais de caráter vinculante, de normas irrevogáveis e de atitudes morais fundamentais”.
O conteúdo da Ética Planetária está cheio de ambigüidades, e nele se acentuam palavras que os próprios autores se encarregaram de esvaziar de conteúdo, de modo que cada indivíduo possa interpretá-las à sua maneira, segundo sua tradição cultural ou de acordo com seus interesses. É um legado contra o “fanatismo e a intolerância, em favor da tolerância universal”, que não se realiza em nenhum princípio, porque, de acordo com o próprio Küng, os princípios devem ser elaborados em um consenso posterior pouco ou nada tendo de padrão irrevogável.
Tal como a Carta da Terra, este projeto ignora a existência de Deus e, naturalmente, sua transcendência em relação à criação. Nem mesmo a existência da alma humana como uma entidade separada fica clara. Como resultado, exclui a existência da verdade absoluta, impondo à humanidade um processo sem fim de busca de consensos sobre princípios morais que permanecerão até que aqueles perdurem para, em seguida, em virtude de novos consensos, serem mudados, substituídos. Como é facilmente dedutível, neste processo sem fim está incluído o consenso sobre a vida e a morte, relativizando o valor e o respeito pela vida humana desde a concepção até a morte natural.
As atitudes morais fundamentais são reduzidas a palavras sem significado claro: paz, justiça, eqüidade, dignidade, compaixão, tolerância, solidariedade, diálogo, respeito à pluralidade e outras, as quais são ambíguas em si mesmas, como o termo crentes, que abrange todos os seres humanos que acreditam em algo ou alguém, o que, na linguagem da ética global, equivaleria a uma espécie de sincretismo universal.
No primeiro capítulo, Küng diz: “Estes princípios são baseados na suposição de que a Nova Ordem Mundial não pode sobreviver sem uma ética global”. Ou seja, sem alguns princípios éticos novos a serviço do projeto político de dominação. É a religião a serviço do poder. Os elogios do presidente do Diretório do Fundo Monetário Internacional em relação a Küng o confirmam.
Aparentemente, a Ética Planetária encontra um público favorável no mundo das finanças internacionais e a Carta da Terra no campo internacional socialista. Mas esta é apenas uma impressão, pois os nomes de Hans Küng e Leonardo Boff e outros aparecem nas mesmas redes e nos mesmos fóruns. Na verdade, ambos os projetos têm as mesmas intenções: a subversão da ordem natural e a destruição das raízes cristãs da cultura através do relativismo moral e do igualitarismo religioso. É o homem que constrói o seu código ético em guerra aberta contra Deus – o antigo projeto das lojas maçônicas.
A Carta da Terra e a Ética Planetária não são projetos que concorram entre si; são, na verdade, alternativos ou complementares. Têm o mesmo objetivo: a demolição da Igreja Católica e a construção de outra igreja, uma caricatura a serviço da nova ordem mundial.
(Juan Claudio Sanahuja, Poder Global e Religião Universal)
Tradução de Lyège Carvalho
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