“Confesso que fiquei perplexo lendo esta frase ontem: “Não existe um Deus católico.”
Embora a expressão “Deus católico” seja insólita, negá-la no contexto em que foi negada tem conseqüências desastrosas. Realmente.
O Antigo Testamento está repleto da expressão o Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, atestando que o Deus vivo e verdadeiro se revelava ao povo eleito, depositário de suas promessas e ensinamentos, e se distinguia dos ídolos dos falsas religiões que aterrorizavam os povos pagãos.
Completando-se com a encarnação do Verbo de Deus a Revelação Divina, a qual se encerra com a morte do último apóstolo, e sendo a Igreja Católica a depositária de tal revelação, dizer que não se crê em um “Deus Católico” parece-me favorecer a heresia monolátrica, isto é, a crença em um deus único, concebido pela mente humana, distinto do Deus Uno e Trino, que se revelou, encarnou, fundou a Igreja Católica para perpetuar sua obra de salvação do mundo.
Dizer “não existe um Deus Católico”, no ambiente atual de ecumenismo maçônico e diálogo interreligioso sem fronteiras, só contribui para a demolição da fé católica e reforça a marcha do mundo contemporâneo rumo ao deísmo, ao panteísmo, à gnose universal. Afirmar “não existe um Deus Católico” é um convite dirigido aos “irmãos” pedreiros livres e aos “homens de boa vontade” para trabalharem todos juntos na fundação de uma nova religião de uma nova era da humanidade, em que o homem será a sua própria lei.
A infelicidade de tal afirmação cresce ainda mais quando se tem presente que nos dias de hoje o Deus da Metafísica, o Ser Absoluto, o primeiro Motor Imóvel, a Causa Primeira incausada, o Ato Puro dos estudiosos da Ontologia, que serve de base para uma exposição racional do mistério da Revelação Divina, desapareceu completamente da cultura contemporânea. De modo que negar o “Deus Católico” não significa ceder lugar ao Ser Absoluto na mente dos homens de hoje, mas sim ceder lugar à “energia cósmica” que alguns imaginam como um demiurgo.
Acresce que na mesma entrevista o bispo de Roma disse que “cada um tem a sua própria concepção de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe.” Ora, isto equivale a proclamar a soberania absoluta da consciência individual, que já não terá sua autoridade e legitimidade à proporção em que aplica fielmente a lei de Deus na direção da vida humana.
Sinceramente, estou convencido de que a chave para entender o drama dos nossos tempos não está tanto em meditar as promessas de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, quanto na meditação da passagem do Evangelho segundo Lucas: “Mas, quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra? “(Lc. 18, 8). Sim, as portas do inferno não prevalecerão, mas os homens maus têm um poder enorme de corromper a fé e desfigurar a Igreja e reduzi-la a frangalhos.
Se se dispensa um “Deus Católico”, se cada um pode seguir o bem como o concebe, será necessária a Igreja para a salvação? No máximo, será um auxílio para aqueles que querem construir uma utopia de um mundo novo, de um mundo melhor de liberdade, igualdade e fraternidade. Em tal perspectiva, que restará da Igreja? Restarão grupos esparsos de homens que conservam a fé imutável no Deus Uno e Trino.
Que Deus tenha misericórdia de nós. As tentações são muitas. Que Nossa Senhora das Vitórias, neste mês do Rosário, esmague as esquadras do modernismo, como em Lepanto esmagou o inimigo infiel.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, Não Existe Um Deus Católico?)
http://santamariadasvitorias.org/nao-existe-um-deus-catolico/
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
terça-feira, 1 de outubro de 2013
As relíquias de São Pedro
“Em todos os tempos a Igreja de Roma ocupou um lugar totalmente privilegiado na Igreja católica. Quando ainda vivia em Éfeso o Apóstolo São João, os coríntios escreveram ao Papa São Clemente de Roma para dirimir as suas controvérsias. Este apelo à autoridade romana renovou-se regularmente no decurso dos séculos, por exemplo, no momento da controvérsia sobre a data da Páscoa, com o Papa São Victor, e quando surgiu a controvérsia sobre o batismo dos hereges, no tempo do Papa Santo Estevão. Esta prática era, de fato, o reflexo da primazia conferida por Cristo a São Pedro, primazia que foi definida ante todo o mundo pelos concílios. Mas esta primazia de Roma, além do seu aspecto teológico, tem um aspecto histórico: São Pedro veio a Roma, ocupou a sede episcopal desta cidade, morreu nela, e foi ali enterrado.
É verdade que, nos tempos da reforma protestante, se colocou em dúvida esta certeza histórica, como mostram as palavras de Lutero: “Eu atrevo-me a dizer, pois o ouvi em Roma, que ninguém sabe com certeza onde repousam os restos de São Pedro e São Paulo, nem tampouco se estão aí de fato. O Papa e os cardeais sabem perfeitamente que é algo duvidoso”. (Contra Papatum Romanum, a diabolo inventum – Contra o Papado Romano, invento do diabo).
Para não descuidar os fundamentos históricos e apologéticos da nossa fé católica, vamos estabelecer os pontos seguintes: o martírio de São Pedro em Roma e a existência do seu túmulo sob o altar-mor da basílica de São Pedro.
O MARTÍRIO DE SÃO PEDRO EM ROMA
São Pedro veio a Roma e em Roma morreu
Antes de estabelecer de um modo positivo o fato do martírio de São Pedro em Roma, convém recordar esta prova negativa: que ninguém assinalou nunca para a tumba de São Pedro um lugar diferente de Roma.
Mas podemos ir mais longe, já que a Sagrada Escritura nos permite estabelecer positivamente o fato do martírio de São Pedro em Roma. Assim, a 1ª epístola de São Pedro: “Saúda-vos a igreja que está em Babilônia” (5, 13). A Tradição estabelece que São Pedro ocupou sucessivamente as sedes episcopais de Jerusalém, Antioquia e Roma; mas também demonstra que nunca esteve em Babilônia. Assim pois, como saúda da parte da igreja que está em Babilônia?
A resposta não oferece dúvidas para os contemporâneos dos judeus do século I: Babilônia era o nome que São Pedro dava a Roma por causa da sua corrupção. Assim, com este texto tão curto, São Pedro situa-nos no itinerário da sua estadia em Roma.
Estes elementos foram definitivamente confirmados pelos primeiros Padres apostólicos, como São Clemente de Roma, o terceiro sucessor de São Pedro na sé romana, que nos fala da perseguição de Nero e do martírio de São Pedro e São Paulo como fatos históricos (1ª carta aos Coríntios, 1, 5-6). E Santo Inácio de Antioquia que, de caminho para Roma, assinala numa carta aos romanos o martírio de São Pedro e São Paulo nesta cidade (Carta aos Romanos 4).
São Pedro morreu crucificado
Outra passagem da Sagrada Escritura, o último capítulo do Evangelho de São João, permite-nos vislumbrar que gênero de suplício ia sofrer S. Pedro, pois Nosso Senhor lhe predisse: “Em verdade te digo que quando eras jovem tu mesmo te cingias e andavas onde querias; mas quando fores velho estenderás as tuas mãos e outro te levará para onde não queres. Disse isto para indicar com que morte ia dar glória a Deus. Dito isto, acrescentou: segue-me” (21, 18-19).
Com estas palavras se anunciou ao chefe dos Apóstolos que ia seguir Nosso Senhor (“Segue-me”) e também a maneira como ia morrer (“Estenderás as tuas mãos”). A tradição que refere que foi crucificado de cabeça para baixo funda-se nos Fatos de Pedro (apócrifo) e na História Eclesiástica de Eusébio de Cesárea (3, 1-2).
São Pedro nas colinas vaticanas
O Vaticano é um lugar que se situa na margem direita do Tibre. Julgado como insalubre, o lugar foi destinado a vários usos, mas a maior parte do terreno fazia parte dos jardins de Nero. Nesse lugar encontrava-se o circo do imperador (começado na realidade por Calígula e terminado por Nero), alguns palácios à borda do Tibre, casas de pastores e cemitérios.
Vários autores cristãos do século II atestam que São Pedro deu a sua vida por Cristo neste circo de Nero. Mas muito mais importante é o testemunho de Tácito nos seus Anais (15, 38-45), onde nos conta o incêndio que devastou Roma de 18 a 28 de Julho do ano 64. Nero tinha a idéia de reconstruir rapidamente a cidade, e os seus projetos fizeram recair sobre ele as suspeitas de ter causado o incêndio. Nesse momento, Nero acusou os cristãos do delito e fê-los martirizar nos jardins do Vaticano. Tácito confirma-nos igualmente que um dos suplícios do circo de Nero foi a crucifixão.
O TÚMULO DE SÃO PEDRO EM ROMA
As escavações de São Pedro
Desde tempos imemoriais, a tradição situava o túmulo de São Pedro sob o altar da basílica vaticana. Assim, o sábio Gayo, já em tempos do Papa Zeferino (198-217), fala-nos dos “despojos de São Pedro no Vaticano” (Eusébio de Cesárea, História Eclesiástica II, 25, 5-7). Contudo, apesar das construções sucessivas da basílica vaticana, não se tinha realizado nenhuma investigação sistemática, com receio de cometer um sacrilégio ou pela crença numa maldição.
Houve que esperar até 28 de Junho de 1939 para que o Papa Pio XII desse ordem de começar as escavações. O árduo trabalho prolongou-se desde 1939 a 1949, sob a direção de Mons. Ludwig Kaas, secretário ecônomo da fábrica de São Pedro, com um grupo de pessoas que não eram especialistas.
Em 1951 deu-se à luz o resultado oficial das escavações, segundo o qual existia uma interrogação acerca do túmulo que se tinha encontrado, pois estava vazio e não se tinha achado nenhum rasto explícito da presença de São Pedro (Dictionnaire d’Arquéologie Chrétienne et de Liturgie [D.A.C.L.], XV, 3291-3346).
Em 1952 iniciou-se outra série de escavações, nas quais participou, a título de especialista em epigrafia, Margarita Guarducci. Estas escavações permitiram descobrir toda uma necrópole no Vaticano. Quando o circo de Nero foi abandonado, o terreno foi invadido por monumentos funerários. Esta necrópole foi descoberta a nove metros e meio do nível atual da basílica, e compunha-se de mausoléus de pagãos ricos e de cristão conversos.
Não há dúvida que esta necrópole havia gozado de uma importância particular para Constantino, que foi o construtor da primeira basílica no ano de 321, pois, para poder construí-la na colina vaticana, teve que enterrar esta necrópole que ainda se utilizava e aplanar a colina em toda a sua extensão. Por que tantos inconvenientes e trabalhos para situar a basílica nesse preciso lugar, se não porque tinha um valor particular?
O túmulo de São Pedro
O túmulo do Apóstolo era primeiramente uma simples fossa, que nos anos 150-160 foi coberta com um monumento funerário. Este monumento, encostado a um muro vermelho, estava situado do lado Oeste do campo «P». A datação deste monumento fez-se graças às telhas que cobriam a cloaca descoberta sob o «clivus» que estava do lado oeste do muro vermelho.
O monumento era formado por dois nichos sobrepostos, separados por uma espécie de tábua sustentada por duas pequenas colunas. No solo encontrava-se uma abertura fechada por uma lousa móvel. De notar que os fundamentos do monumento formam um nicho, semelhante aos que são visíveis sobre o túmulo de São Pedro. Semelhante a outros monumentos da época, esta edificação parece estar particularmente relacionada com um lugar: o do sepulcro dos Apóstolos. Este fato é confirmado pela carta de Gayo, o qual, para refutar as pretensões de superioridade de uma seita montanista oriental que devia possuir a tumba do Apóstolo Filipe, responde: “Mas eu posso mostrar-te os despojos dos Apóstolos se queres vir ao Vaticano ou à via de Ostia, verás os despojos dos que fundaram esta igreja” (Eusébio de Cesárea, História Eclesiástica II, 25, 3-7).
Em meados do século III, construiu-se um muro «g» perpendicular ao muro vermelho do seu lado direito, e logo, à esquerda, um muro similar, para respeitar a simetria. Este muro «g» foi coberto de inscrições antes de ser, nos tempos de Constantino, recoberto por um monumento quadrangular que apenas deixava ver as colunas e os nichos do lado oeste. No muro «g» abriu-se um «loculus», isto é, um nicho, recoberto de mármore.
Entre os anos 322 e 337 construiu-se a basílica constantiniana. O Papa São Gregório Magno (590-604) mandou recobrir o monumento de Constantino com um altar e o Papa Calisto II (1119-1124) fez o mesmo com o altar de São Gregório.
Em 1506 iniciaram-se os trabalhos da atual basílica, cujo altar (de Clemente VIII) recobriu o de Calisto II. Desta maneira, do altar atual ao túmulo original, havia sobreposição.
O fato de que este monumento continha os restos de São Pedro está confirmado pelas inscrições descobertas na necrópole e no muro «g». Por exemplo, no mausoléu dos Valérios há uma inscrição em que se pede a Pedro por aqueles cristãos que estão enterrados perto do seu corpo: “Petrus roga pro sanc(ti)s hom(ini)bus Chrestianis ad co(r)pus tuum sep(ultis)”. Neste mesmo muro «g» acham-se muitos «graffiti» (como a sobreposição de um P e de um E) que aludem a Pedro. Por último, um dos «graffiti» em grego no muro «g» diz claramente “Petr[os] eni”: Pedro está aqui. Este último «graffiti» está intimamente relacionado com o muro «g» e o «loculus».
O Corpo de São Pedro
A descoberta do sepulcro de São Pedro exatamente sob a basílica vaticana põe definitivamente fim às calúnias contrárias a esta tradição imemorial.
Mas nem todos os elementos foram satisfatórios, pois o túmulo do monumento estava vazio. Só se encontraram ossadas em três lugares: 1) no campo «P» que é o lugar da fossa e o espaço ao seu redor; 2) sob os fundamentos do muro «g»; e 3) no «loculus» do muro «g».
Todos estes ossos, ignorados durante certo tempo, foram examinados unicamente a partir de 1953. Nesse momento soube-se que os ossos que se haviam encontrado sob os fundamentos dos muros correspondiam a dois homens e a uma anciã, e os ossos achados no campo «P» correspondiam a quatro indivíduos.
Entre o mês de Outubro de 1962 e Junho de 1963 procedeu-se ao exame antropológico dos ossos achados no «loculus» e que se tinham conservado numa caixa de madeira. E aqui foi a surpresa.
Estes ossos correspondem ao esqueleto de um homem robusto de uns 60 ou 70 anos de idade. Encontraram-se misturados com estes ossos restos de um tecido de púrpura incrustado de ouro, um pouco de terra, ossos de animais, moedas e pedacinhos de mármore (cf. D.A.C.L. XV, 3326).
Tudo concorda com fatos históricos já conhecidos:
- a terra e os ossos de animais correspondem ao enterro de São Pedro no campo «P»;
- a púrpura, cor imperial, manifesta o respeito para com as relíquias do chefe dos Apóstolos que haviam tido quem construísse o monumento constantiniano; os fios do tecido são tingidos de púrpura verdadeira e envoltos em finíssimas lâminas de ouro.
- as moedas foram introduzidas no «loculus» pelas fissuras do reboco, pois o «loculus» nunca foi aberto;
- o mármore é o que recobria o interior do «loculus».
Todas estas relíquias, cujas características correspondem às de São Pedro, foram novamente colocadas no «loculus» em 27 de Junho de 1968, por vontade do papa Paulo VI.
Ossos de animais!
Observou-se em seguida a presença também de alguns ossos de animais domésticos, boi, porco, ovelha e galinha. Apresentam as mesmas características que os ossos humanos quanto às alterações físicas. Como os ossos humanos, são marcados pela umidade e a analise do pó que se pegou a eles revela que provêm do mesmo lugar, da mesma terra. Mostram em definitivo o extremo cuidado dos que recolheram os ossos de São Pedro no fim do século III ou nos primeiros anos do século IV. Procurando esses ossos na fossa que foi a primeira sepultura do Apóstolo, não quiseram correr o risco de deixar de lado qualquer um deles e guardavam todos os ossos que lá encontravam.
Outra surpresa foi a de encontrar com esses ossos do “loculus”, outros, limpos e brancos, sem sinal de umidade. Analisando-os o professor Correntini não tardou em achar que eram todos de um só animal… um ratozinho! A pergunta que surgiu então foi saber como um ratozinho pôde conseguir entrar e morrer no nicho. Uma nova analise do “loculus” permitiu evidenciar que jamais ele foi aberto ou violado, ninguém mexeu no muro e nas paredes de mármore até o século XX. Agora, descobriram fissuras no muro “g”, algumas terminando no nicho. E não só isso, senão a presença nelas de moedas de séculos anteriores! Ao mesmo tempo em que se explicava a presença do ratozinho se solucionava a objeção das moedas encontradas no nicho com datas cumpridas entre o século IV e o século XII! Comprovou-se que as moedas lançadas pelos devotos e peregrinos caiam muitas vezes pelas fissuras e se perdiam não só até o campo da fossa inicial de São Pedro senão também nos muros fendidos. Quando no século XII o Papa Calisto II mandou recobrir o altar de São Gregório com outro novo, também tapou a janelinha que permitia aos peregrinos satisfazer suas piedosas devoções… e não podiam mais lançar moedas para dentro!
CONCLUSÃO
Em 1964, todo esse admirável trabalho de pesquisa paciente estava concluído. Margarita Guarducci entregou um dossiê completo ao Papa Paulo VI com todos os resultados, análises e conclusões dos cientistas. Todas as objeções estavam examinadas e resolvidas. Não tinha mais lugar para as dúvidas, só se esperava a palavra oficial e pública do sucessor de São Pedro. Essa voz se fará ouvir com certeza, mas não no ano 1964, não durante o concílio Vaticano II, não na providencial presença em Roma da maior parte da Hierarquia da Santa Igreja, não tampouco na presença dos observadores ortodoxos e protestantes convidados pelo Papa nessa ilustre assembléia. Não, infelizmente o Papa não aproveitará essa oportunidade excepcional para mostrar a tudo o mundo que o ensino da Tradição e a fé do Papa Pio XII estavam amplamente confirmados pelos trabalhos das escavações debaixo da basílica de São Pedro.
Haverá de esperar o ano 1968, a festa dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, para ouvir da boca do Papa Paulo VI a afirmação explícita da presença das relíquias de São Pedro no seu túmulo. Dez anos depois, poucas semanas antes de morrer, na altura também da festa dos dois grandes Apóstolos, o Papa afirmará de novo essa presença bendita de São Pedro em Roma. Ao menos lembremo-nos disto quando alguns modernistas tentam afirmar o contrário!
Mas deixemos que Margarita Guarducci, cujo livro “Saint Pierre retrouvé” resumimos (Ed. Saint Paul, 1974 – uma tradução em português está atualmente em preparação), nos dê a conclusão:
“Sem clamor algum [em 27 de junho de 1968], quase em silêncio, São Pedro regressou à sua igreja. Preencheu-se um grande vazio.
Hoje, quando o Papa celebra a missa na basílica, encontram-se de novo debaixo do seu altar, no lado do Evangelho, os restos do seu primeiro predecessor, daquele homem que conheceu Cristo, ouviu a sua voz, foi testemunha dos seus milagres, participou na Última Ceia e recebeu, do Mestre ressuscitado e antes de subir ao céu, o mandamento de apascentar os seus cordeiros.
Os despojos do Eleito de Cristo, do príncipe dos Apóstolos, encontram-se outra vez onde descansaram durante mais de dezesseis séculos, no «loculus» de mármore no interior do monumento rodeado de pórfiro, em que o primeiro imperador cristão os havia colocado com todas as honras, com o fim de conservá-los para a veneração dos séculos vindouros” (op. cit., pg. 149).”
http://www.fsspx.com.br/exe2/as-reliquias-de-sao-pedro/
É verdade que, nos tempos da reforma protestante, se colocou em dúvida esta certeza histórica, como mostram as palavras de Lutero: “Eu atrevo-me a dizer, pois o ouvi em Roma, que ninguém sabe com certeza onde repousam os restos de São Pedro e São Paulo, nem tampouco se estão aí de fato. O Papa e os cardeais sabem perfeitamente que é algo duvidoso”. (Contra Papatum Romanum, a diabolo inventum – Contra o Papado Romano, invento do diabo).
Para não descuidar os fundamentos históricos e apologéticos da nossa fé católica, vamos estabelecer os pontos seguintes: o martírio de São Pedro em Roma e a existência do seu túmulo sob o altar-mor da basílica de São Pedro.
O MARTÍRIO DE SÃO PEDRO EM ROMA
São Pedro veio a Roma e em Roma morreu
Antes de estabelecer de um modo positivo o fato do martírio de São Pedro em Roma, convém recordar esta prova negativa: que ninguém assinalou nunca para a tumba de São Pedro um lugar diferente de Roma.
Mas podemos ir mais longe, já que a Sagrada Escritura nos permite estabelecer positivamente o fato do martírio de São Pedro em Roma. Assim, a 1ª epístola de São Pedro: “Saúda-vos a igreja que está em Babilônia” (5, 13). A Tradição estabelece que São Pedro ocupou sucessivamente as sedes episcopais de Jerusalém, Antioquia e Roma; mas também demonstra que nunca esteve em Babilônia. Assim pois, como saúda da parte da igreja que está em Babilônia?
A resposta não oferece dúvidas para os contemporâneos dos judeus do século I: Babilônia era o nome que São Pedro dava a Roma por causa da sua corrupção. Assim, com este texto tão curto, São Pedro situa-nos no itinerário da sua estadia em Roma.
Estes elementos foram definitivamente confirmados pelos primeiros Padres apostólicos, como São Clemente de Roma, o terceiro sucessor de São Pedro na sé romana, que nos fala da perseguição de Nero e do martírio de São Pedro e São Paulo como fatos históricos (1ª carta aos Coríntios, 1, 5-6). E Santo Inácio de Antioquia que, de caminho para Roma, assinala numa carta aos romanos o martírio de São Pedro e São Paulo nesta cidade (Carta aos Romanos 4).
São Pedro morreu crucificado
Outra passagem da Sagrada Escritura, o último capítulo do Evangelho de São João, permite-nos vislumbrar que gênero de suplício ia sofrer S. Pedro, pois Nosso Senhor lhe predisse: “Em verdade te digo que quando eras jovem tu mesmo te cingias e andavas onde querias; mas quando fores velho estenderás as tuas mãos e outro te levará para onde não queres. Disse isto para indicar com que morte ia dar glória a Deus. Dito isto, acrescentou: segue-me” (21, 18-19).
Com estas palavras se anunciou ao chefe dos Apóstolos que ia seguir Nosso Senhor (“Segue-me”) e também a maneira como ia morrer (“Estenderás as tuas mãos”). A tradição que refere que foi crucificado de cabeça para baixo funda-se nos Fatos de Pedro (apócrifo) e na História Eclesiástica de Eusébio de Cesárea (3, 1-2).
São Pedro nas colinas vaticanas
O Vaticano é um lugar que se situa na margem direita do Tibre. Julgado como insalubre, o lugar foi destinado a vários usos, mas a maior parte do terreno fazia parte dos jardins de Nero. Nesse lugar encontrava-se o circo do imperador (começado na realidade por Calígula e terminado por Nero), alguns palácios à borda do Tibre, casas de pastores e cemitérios.
Vários autores cristãos do século II atestam que São Pedro deu a sua vida por Cristo neste circo de Nero. Mas muito mais importante é o testemunho de Tácito nos seus Anais (15, 38-45), onde nos conta o incêndio que devastou Roma de 18 a 28 de Julho do ano 64. Nero tinha a idéia de reconstruir rapidamente a cidade, e os seus projetos fizeram recair sobre ele as suspeitas de ter causado o incêndio. Nesse momento, Nero acusou os cristãos do delito e fê-los martirizar nos jardins do Vaticano. Tácito confirma-nos igualmente que um dos suplícios do circo de Nero foi a crucifixão.
O TÚMULO DE SÃO PEDRO EM ROMA
As escavações de São Pedro
Desde tempos imemoriais, a tradição situava o túmulo de São Pedro sob o altar da basílica vaticana. Assim, o sábio Gayo, já em tempos do Papa Zeferino (198-217), fala-nos dos “despojos de São Pedro no Vaticano” (Eusébio de Cesárea, História Eclesiástica II, 25, 5-7). Contudo, apesar das construções sucessivas da basílica vaticana, não se tinha realizado nenhuma investigação sistemática, com receio de cometer um sacrilégio ou pela crença numa maldição.
Houve que esperar até 28 de Junho de 1939 para que o Papa Pio XII desse ordem de começar as escavações. O árduo trabalho prolongou-se desde 1939 a 1949, sob a direção de Mons. Ludwig Kaas, secretário ecônomo da fábrica de São Pedro, com um grupo de pessoas que não eram especialistas.
Em 1951 deu-se à luz o resultado oficial das escavações, segundo o qual existia uma interrogação acerca do túmulo que se tinha encontrado, pois estava vazio e não se tinha achado nenhum rasto explícito da presença de São Pedro (Dictionnaire d’Arquéologie Chrétienne et de Liturgie [D.A.C.L.], XV, 3291-3346).
Em 1952 iniciou-se outra série de escavações, nas quais participou, a título de especialista em epigrafia, Margarita Guarducci. Estas escavações permitiram descobrir toda uma necrópole no Vaticano. Quando o circo de Nero foi abandonado, o terreno foi invadido por monumentos funerários. Esta necrópole foi descoberta a nove metros e meio do nível atual da basílica, e compunha-se de mausoléus de pagãos ricos e de cristão conversos.
Não há dúvida que esta necrópole havia gozado de uma importância particular para Constantino, que foi o construtor da primeira basílica no ano de 321, pois, para poder construí-la na colina vaticana, teve que enterrar esta necrópole que ainda se utilizava e aplanar a colina em toda a sua extensão. Por que tantos inconvenientes e trabalhos para situar a basílica nesse preciso lugar, se não porque tinha um valor particular?
O túmulo de São Pedro
O túmulo do Apóstolo era primeiramente uma simples fossa, que nos anos 150-160 foi coberta com um monumento funerário. Este monumento, encostado a um muro vermelho, estava situado do lado Oeste do campo «P». A datação deste monumento fez-se graças às telhas que cobriam a cloaca descoberta sob o «clivus» que estava do lado oeste do muro vermelho.
O monumento era formado por dois nichos sobrepostos, separados por uma espécie de tábua sustentada por duas pequenas colunas. No solo encontrava-se uma abertura fechada por uma lousa móvel. De notar que os fundamentos do monumento formam um nicho, semelhante aos que são visíveis sobre o túmulo de São Pedro. Semelhante a outros monumentos da época, esta edificação parece estar particularmente relacionada com um lugar: o do sepulcro dos Apóstolos. Este fato é confirmado pela carta de Gayo, o qual, para refutar as pretensões de superioridade de uma seita montanista oriental que devia possuir a tumba do Apóstolo Filipe, responde: “Mas eu posso mostrar-te os despojos dos Apóstolos se queres vir ao Vaticano ou à via de Ostia, verás os despojos dos que fundaram esta igreja” (Eusébio de Cesárea, História Eclesiástica II, 25, 3-7).
Em meados do século III, construiu-se um muro «g» perpendicular ao muro vermelho do seu lado direito, e logo, à esquerda, um muro similar, para respeitar a simetria. Este muro «g» foi coberto de inscrições antes de ser, nos tempos de Constantino, recoberto por um monumento quadrangular que apenas deixava ver as colunas e os nichos do lado oeste. No muro «g» abriu-se um «loculus», isto é, um nicho, recoberto de mármore.
Entre os anos 322 e 337 construiu-se a basílica constantiniana. O Papa São Gregório Magno (590-604) mandou recobrir o monumento de Constantino com um altar e o Papa Calisto II (1119-1124) fez o mesmo com o altar de São Gregório.
Em 1506 iniciaram-se os trabalhos da atual basílica, cujo altar (de Clemente VIII) recobriu o de Calisto II. Desta maneira, do altar atual ao túmulo original, havia sobreposição.
O fato de que este monumento continha os restos de São Pedro está confirmado pelas inscrições descobertas na necrópole e no muro «g». Por exemplo, no mausoléu dos Valérios há uma inscrição em que se pede a Pedro por aqueles cristãos que estão enterrados perto do seu corpo: “Petrus roga pro sanc(ti)s hom(ini)bus Chrestianis ad co(r)pus tuum sep(ultis)”. Neste mesmo muro «g» acham-se muitos «graffiti» (como a sobreposição de um P e de um E) que aludem a Pedro. Por último, um dos «graffiti» em grego no muro «g» diz claramente “Petr[os] eni”: Pedro está aqui. Este último «graffiti» está intimamente relacionado com o muro «g» e o «loculus».
O Corpo de São Pedro
A descoberta do sepulcro de São Pedro exatamente sob a basílica vaticana põe definitivamente fim às calúnias contrárias a esta tradição imemorial.
Mas nem todos os elementos foram satisfatórios, pois o túmulo do monumento estava vazio. Só se encontraram ossadas em três lugares: 1) no campo «P» que é o lugar da fossa e o espaço ao seu redor; 2) sob os fundamentos do muro «g»; e 3) no «loculus» do muro «g».
Todos estes ossos, ignorados durante certo tempo, foram examinados unicamente a partir de 1953. Nesse momento soube-se que os ossos que se haviam encontrado sob os fundamentos dos muros correspondiam a dois homens e a uma anciã, e os ossos achados no campo «P» correspondiam a quatro indivíduos.
Entre o mês de Outubro de 1962 e Junho de 1963 procedeu-se ao exame antropológico dos ossos achados no «loculus» e que se tinham conservado numa caixa de madeira. E aqui foi a surpresa.
Estes ossos correspondem ao esqueleto de um homem robusto de uns 60 ou 70 anos de idade. Encontraram-se misturados com estes ossos restos de um tecido de púrpura incrustado de ouro, um pouco de terra, ossos de animais, moedas e pedacinhos de mármore (cf. D.A.C.L. XV, 3326).
Tudo concorda com fatos históricos já conhecidos:
- a terra e os ossos de animais correspondem ao enterro de São Pedro no campo «P»;
- a púrpura, cor imperial, manifesta o respeito para com as relíquias do chefe dos Apóstolos que haviam tido quem construísse o monumento constantiniano; os fios do tecido são tingidos de púrpura verdadeira e envoltos em finíssimas lâminas de ouro.
- as moedas foram introduzidas no «loculus» pelas fissuras do reboco, pois o «loculus» nunca foi aberto;
- o mármore é o que recobria o interior do «loculus».
Todas estas relíquias, cujas características correspondem às de São Pedro, foram novamente colocadas no «loculus» em 27 de Junho de 1968, por vontade do papa Paulo VI.
Ossos de animais!
Observou-se em seguida a presença também de alguns ossos de animais domésticos, boi, porco, ovelha e galinha. Apresentam as mesmas características que os ossos humanos quanto às alterações físicas. Como os ossos humanos, são marcados pela umidade e a analise do pó que se pegou a eles revela que provêm do mesmo lugar, da mesma terra. Mostram em definitivo o extremo cuidado dos que recolheram os ossos de São Pedro no fim do século III ou nos primeiros anos do século IV. Procurando esses ossos na fossa que foi a primeira sepultura do Apóstolo, não quiseram correr o risco de deixar de lado qualquer um deles e guardavam todos os ossos que lá encontravam.
Outra surpresa foi a de encontrar com esses ossos do “loculus”, outros, limpos e brancos, sem sinal de umidade. Analisando-os o professor Correntini não tardou em achar que eram todos de um só animal… um ratozinho! A pergunta que surgiu então foi saber como um ratozinho pôde conseguir entrar e morrer no nicho. Uma nova analise do “loculus” permitiu evidenciar que jamais ele foi aberto ou violado, ninguém mexeu no muro e nas paredes de mármore até o século XX. Agora, descobriram fissuras no muro “g”, algumas terminando no nicho. E não só isso, senão a presença nelas de moedas de séculos anteriores! Ao mesmo tempo em que se explicava a presença do ratozinho se solucionava a objeção das moedas encontradas no nicho com datas cumpridas entre o século IV e o século XII! Comprovou-se que as moedas lançadas pelos devotos e peregrinos caiam muitas vezes pelas fissuras e se perdiam não só até o campo da fossa inicial de São Pedro senão também nos muros fendidos. Quando no século XII o Papa Calisto II mandou recobrir o altar de São Gregório com outro novo, também tapou a janelinha que permitia aos peregrinos satisfazer suas piedosas devoções… e não podiam mais lançar moedas para dentro!
CONCLUSÃO
Em 1964, todo esse admirável trabalho de pesquisa paciente estava concluído. Margarita Guarducci entregou um dossiê completo ao Papa Paulo VI com todos os resultados, análises e conclusões dos cientistas. Todas as objeções estavam examinadas e resolvidas. Não tinha mais lugar para as dúvidas, só se esperava a palavra oficial e pública do sucessor de São Pedro. Essa voz se fará ouvir com certeza, mas não no ano 1964, não durante o concílio Vaticano II, não na providencial presença em Roma da maior parte da Hierarquia da Santa Igreja, não tampouco na presença dos observadores ortodoxos e protestantes convidados pelo Papa nessa ilustre assembléia. Não, infelizmente o Papa não aproveitará essa oportunidade excepcional para mostrar a tudo o mundo que o ensino da Tradição e a fé do Papa Pio XII estavam amplamente confirmados pelos trabalhos das escavações debaixo da basílica de São Pedro.
Haverá de esperar o ano 1968, a festa dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, para ouvir da boca do Papa Paulo VI a afirmação explícita da presença das relíquias de São Pedro no seu túmulo. Dez anos depois, poucas semanas antes de morrer, na altura também da festa dos dois grandes Apóstolos, o Papa afirmará de novo essa presença bendita de São Pedro em Roma. Ao menos lembremo-nos disto quando alguns modernistas tentam afirmar o contrário!
Mas deixemos que Margarita Guarducci, cujo livro “Saint Pierre retrouvé” resumimos (Ed. Saint Paul, 1974 – uma tradução em português está atualmente em preparação), nos dê a conclusão:
“Sem clamor algum [em 27 de junho de 1968], quase em silêncio, São Pedro regressou à sua igreja. Preencheu-se um grande vazio.
Hoje, quando o Papa celebra a missa na basílica, encontram-se de novo debaixo do seu altar, no lado do Evangelho, os restos do seu primeiro predecessor, daquele homem que conheceu Cristo, ouviu a sua voz, foi testemunha dos seus milagres, participou na Última Ceia e recebeu, do Mestre ressuscitado e antes de subir ao céu, o mandamento de apascentar os seus cordeiros.
Os despojos do Eleito de Cristo, do príncipe dos Apóstolos, encontram-se outra vez onde descansaram durante mais de dezesseis séculos, no «loculus» de mármore no interior do monumento rodeado de pórfiro, em que o primeiro imperador cristão os havia colocado com todas as honras, com o fim de conservá-los para a veneração dos séculos vindouros” (op. cit., pg. 149).”
http://www.fsspx.com.br/exe2/as-reliquias-de-sao-pedro/
sábado, 28 de setembro de 2013
Luís Vaz de Camões: Que Vençais no Oriente tantos Reis
Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da Índia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;
Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.
Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;
O que vos dá mais fama inda no mundo,
É vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratidões, tão grande inveja.
Que de novo nos deis da Índia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;
Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.
Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;
O que vos dá mais fama inda no mundo,
É vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratidões, tão grande inveja.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Luís Vaz de Camões: Cá nesta Babilônia
Cá nesta Babilônia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;
Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;
Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;
Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;
Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Um padre responde à carta do Bispo Fellay aos amigos e benfeitores
"Em 15 de abril veio a público o texto do Bispo Fellay que logo depois apareceria na Carta aos amigos e benfeitores da Fraternidade. Se considerado isoladamente, esse texto é particularmente forte, pois consiste principalmente de citações do Arcebispo Lefebvre. O Bispo Fellay reconheceu a “análise atual” de nosso fundador, que ainda é “o fio condutor de sua ação e posição doutrinal” na Fraternidade. “Sua muito justa percepção, teológica e prática, continua a ser válida.” A profissão de fé que abre o famoso discurso de 21 de novembro de 1974 “é também a de todos os membros da Fraternidade.” Enfim, “atualmente, seguindo a mesma linha, só podemos repetir o que o Arcebispo Lefebvre e depois dele o Pe. Schmidberger afirmaram. Todos os erros que eles denunciaram nós denunciamos.” Pronto, que isso sirva para acalmar os mais desconfiados!
Mas... se esse texto é analisado não como um texto isolado, mas no atual contexto da Tradição, não se pode deixar de perguntar: Pode-se acreditar no Bispo Fellay? Ou mais precisamente, deve-se acreditar no Bispo Fellay em sua declaração de 15 de abril de 2012 ou em sua carta de 15 de abril de 2013? De um 15 de abril ao outro, o contraste é impressionante. “A análise de Monsenhor Lefebvre” está realmente sendo “o fio condutor da ação e posição doutrinal” do Superior Geral da Sociedade em 2012? “A situação da Igreja está praticamente inalterada” na Páscoa de 2013: não é isso o que lemos no editorial de Cor Unum de março de 2012.
Então como é que se deve entender o texto de abril passado? Não podemos temer que esta mudança para a direita se destina a confirmar e pôr para dormir os que ainda resistem à política de união com Roma? Para que se possa acreditar no Bispo Fellay, três condições são necessárias:
1. Um sincero e inequívoco “mea culpa”: O Bispo Fellay reconheceu que “a Fraternidade encontrou-se em uma posição delicada (que eufemismo!) durante grande parte de 2012” (e hoje?). Mas imediatamente explicou que as dificuldades vieram das “exigências” e “falta de clareza” de Roma. O Superior Geral e a Casa Geral não teriam nada a ver com isso? É indispensável que o Bispo Fellay explicitamente se retrate de certos escritos e eventos do ano passado: entre muitos outros, simplesmente citaremos a vergonhosa resposta de 14 de abril aos três bispos, a escandalosa declaração do dia 15, a dolorosa declaração do Capítulo Geral, as odiosas sanções que caíram sobre um bispo, padres (exilados ou expulsos) e religiosos (atraso de ordenações)...
2. A reafirmação solene, em declaração dirigida simultaneamente à Santa Sé e a todos os bispos, padres e fiéis da Tradição, do princípio: “nenhum acordo prático sem acordo doutrinal”. Cuidadosamente especificando o significado das palavras para evitar qualquer ambigüidade e garantir que ninguém imagine que haveria "acordo doutrinal" pelo simples fato de que Roma nos aceita como somos.
3. A crítica firme e pública da Roma de hoje e de seu atual papa. O Arcebispo Lefebvre não se alegrava de denunciar os erros, mas não hesitava atacar, com respeito mas vigorosamente, os instigadores de erros, não apenas os bispos, mas até mesmo o papa. Na conclusão de seu texto, o Bispo Fellay parece quieta e timidamente criticar (sem ousar nomeá-lo) o papa Francisco, mas não denuncia os inúmeros escândalos que marcaram as primeiras semanas de seu pontificado. E DICI nos traz de volta a história de Enéias e Pio, uma tentativa de comparação pelo Pe. Celier em relação a Bento XVI em 2005. Depois de oito anos, o número dos que usam “óculos cor-de-rosa” aumentou dramaticamente.
Concluímos propondo em alta voz o que muitos padres e fiéis pensam em silêncio: quando um Superior coloca um trabalho que lhe foi confiado em tão grande perigo, é conveniente que, após reconhecer seus erros, ele renuncie ao cargo. Essa é pelo menos uma “condição desejável” para salvar a pequena parte ainda saudável na Fraternidade [de São Pio X]. Talvez até mesmo uma "condição sine qua non”.”
Original em francês: http://www.lasapiniere.info/dun-15-avril-a-lautre-mgr-fellay-est-il-credible/
Mas... se esse texto é analisado não como um texto isolado, mas no atual contexto da Tradição, não se pode deixar de perguntar: Pode-se acreditar no Bispo Fellay? Ou mais precisamente, deve-se acreditar no Bispo Fellay em sua declaração de 15 de abril de 2012 ou em sua carta de 15 de abril de 2013? De um 15 de abril ao outro, o contraste é impressionante. “A análise de Monsenhor Lefebvre” está realmente sendo “o fio condutor da ação e posição doutrinal” do Superior Geral da Sociedade em 2012? “A situação da Igreja está praticamente inalterada” na Páscoa de 2013: não é isso o que lemos no editorial de Cor Unum de março de 2012.
Então como é que se deve entender o texto de abril passado? Não podemos temer que esta mudança para a direita se destina a confirmar e pôr para dormir os que ainda resistem à política de união com Roma? Para que se possa acreditar no Bispo Fellay, três condições são necessárias:
1. Um sincero e inequívoco “mea culpa”: O Bispo Fellay reconheceu que “a Fraternidade encontrou-se em uma posição delicada (que eufemismo!) durante grande parte de 2012” (e hoje?). Mas imediatamente explicou que as dificuldades vieram das “exigências” e “falta de clareza” de Roma. O Superior Geral e a Casa Geral não teriam nada a ver com isso? É indispensável que o Bispo Fellay explicitamente se retrate de certos escritos e eventos do ano passado: entre muitos outros, simplesmente citaremos a vergonhosa resposta de 14 de abril aos três bispos, a escandalosa declaração do dia 15, a dolorosa declaração do Capítulo Geral, as odiosas sanções que caíram sobre um bispo, padres (exilados ou expulsos) e religiosos (atraso de ordenações)...
2. A reafirmação solene, em declaração dirigida simultaneamente à Santa Sé e a todos os bispos, padres e fiéis da Tradição, do princípio: “nenhum acordo prático sem acordo doutrinal”. Cuidadosamente especificando o significado das palavras para evitar qualquer ambigüidade e garantir que ninguém imagine que haveria "acordo doutrinal" pelo simples fato de que Roma nos aceita como somos.
3. A crítica firme e pública da Roma de hoje e de seu atual papa. O Arcebispo Lefebvre não se alegrava de denunciar os erros, mas não hesitava atacar, com respeito mas vigorosamente, os instigadores de erros, não apenas os bispos, mas até mesmo o papa. Na conclusão de seu texto, o Bispo Fellay parece quieta e timidamente criticar (sem ousar nomeá-lo) o papa Francisco, mas não denuncia os inúmeros escândalos que marcaram as primeiras semanas de seu pontificado. E DICI nos traz de volta a história de Enéias e Pio, uma tentativa de comparação pelo Pe. Celier em relação a Bento XVI em 2005. Depois de oito anos, o número dos que usam “óculos cor-de-rosa” aumentou dramaticamente.
Concluímos propondo em alta voz o que muitos padres e fiéis pensam em silêncio: quando um Superior coloca um trabalho que lhe foi confiado em tão grande perigo, é conveniente que, após reconhecer seus erros, ele renuncie ao cargo. Essa é pelo menos uma “condição desejável” para salvar a pequena parte ainda saudável na Fraternidade [de São Pio X]. Talvez até mesmo uma "condição sine qua non”.”
Original em francês: http://www.lasapiniere.info/dun-15-avril-a-lautre-mgr-fellay-est-il-credible/
terça-feira, 17 de setembro de 2013
O Estado imbecil do liberalismo
“O conceito da liberdade ilimitada e arbitrária, e o conceito agnóstico do mundo inacessível ao entendimento humano, aonde se relegam as verdades religiosas, produziram como aplicação política um monstro singular que se chama Estado neutro. A neutralidade do Estado em matéria religiosa! Em uma sociedade dividida em crenças, quer se refiram à ordem natural ou à sobrenatural, o Estado não pode ter mais que três posições e adotar três atitudes: pode representar a maioria das crenças dessa sociedade, pode representar um fragmento, ainda que seja a maioria delas, ou pode tentar a representação daquilo em que coincidam todos.
No primeiro caso, fará do comum regra, que tratará de estender-se e converter-se em única. No segundo, elevará a exceção a regra comum, não expressando a opinião dos mais, mas impondo a dos menos, embora, logicamente, invocando a democracia e a vontade coletiva. No terceiro caso, a representação do que é comum acima do que é diferente é a que se costuma invocar para disfarçar o segundo, que é o que se pratica. Pode existir esse Estado neutro?
Quando a divisão entre as crenças é tão profunda que da ordem sobrenatural transcende às primeiras verdades da ordem natural; quando os homens não estão de acordo nem acerca de sua origem, nem de sua natureza, nem de seu destino, nem, por conseguinte, acerca de suas relações, nem das normas de sua conduta, então a oposição é tão grande, que o Estado que cruze os braços em presença dessas diferenças se encontrará colocado em uma situação muito estranha: ele se declarará indiferente ante as diferenças, e não será raro que os crentes e os não-crentes dêem de ombros e se declarem também indiferentes, com uma indiferença que faça causa comum com o desprezo, a uma entidade que não toma parte naquelas coisas que mais interessam aos homens.
Estado neutro! Um Estado que não sabe nada nem afirma nada acerca das crenças em um mundo sobrenatural e das relações com ele, que não sabe nada acerca das origens do homem, que ignora qual é a natureza humana, qual é seu destino e quais são as normas de sua vida individual e social, é um Estado tão estranho, que, ao não afirmar nada do que aos homens mais importa, ao elevar a dogma a ignorância, que por ser de coisas supremas é a suprema ignorância, vem a declarar-se inútil e imbecil.
Imbecil, sim, porque o Estado idiota, como o chamava graficamente Campoamor, é aquele que não sabe nada dos problemas que o sepulcro levanta e dos problemas que o sepulcro resolve. Declara-se incapaz de governar alguém quem diz, referindo-se à ordem religiosa e à ordem moral e ao fundamentalmente jurídico: “Eu não posso afirmar nada dessas coisas, porque não sei de nada.” E qual é a conseqüência imediata desse conceito de Estado neutro? A de não intervir nesses problemas que ele mesmo declara que ignora, a de declarar-se incompetente e deixá-los aos que os conhecem, já que ele emite para si mesmo uma certidão de incompetência e até de imbecilidade.
E, no entanto, faz tudo ao contrário. É o Estado que mais intervém. E por que intervém? Porque sua neutralidade em relação a todas as crenças que lutam e que combatem na sociedade não é mais do que o resultado de um juízo em que as declara duvidosas, reduzindo-as a meras opiniões; e ao trasladar seu parecer aos atos e às leis, impõe esse juízo, afirmando a negação ou a dúvida, quer dizer, impondo a impiedade ou impondo o ceticismo como dogmas negativos de um Estado que, além de ser idiota, vem a declarar-se Pontífice ao revés.
Esse Estado intervém no ensino; e – coisa singular, senhores! - o Estado, que não é agricultor; o Estado, que não é industrial; o Estado, que não é comerciante, embora tenha a obrigação de cooperar e de favorecer o comércio, a agricultura e a indústria, o Estado se declara a si mesmo, não cooperador nem fomentador do ensino, mas pedagogo supremo e até mestre único. E que contradição tão singular! Não sabe nada dos problemas mais transcendentais, dos que foram sempre os primeiros em todos os momentos da História, e ao mesmo tempo não tolera competências e quer ser mestre único das gerações presentes e vindouras! Pode-se conceber que um Estado que afirme uma ordem natural e sobrenatural, que um Estado crente como o das idades cristãs, e até um Estado budista, ou um Estado muçulmano, trate, servindo como um instrumento à crença que professa, de levá-la à prática e de infundi-la; mas que um Estado que se declara a si mesmo interconfessional, que declara que não sabe nada do que ninguém deve ignorar, nem por obrigação, nem por cultura, se declare a si mesmo incompetente, primeiro, e o mais competente, depois, para intervir no ensino, isso é o absurdo. E, no entanto, vede como intervém. A gradação é a seguinte: primeiro se declara facultativo no ensino o ensino religioso; depois se declara neutra a escola, e mais tarde se suprime a religião até nas escolas privadas, centralizando o ensino nas públicas, e dispersando os mestres religiosos para que atrás da ignorância religiosa venha o ódio da escola francamente atéia.”
(Juan Vázquez de Mella y Fanjul, Examen del Nuevo Derecho a la Ignorancia Religiosa)
No primeiro caso, fará do comum regra, que tratará de estender-se e converter-se em única. No segundo, elevará a exceção a regra comum, não expressando a opinião dos mais, mas impondo a dos menos, embora, logicamente, invocando a democracia e a vontade coletiva. No terceiro caso, a representação do que é comum acima do que é diferente é a que se costuma invocar para disfarçar o segundo, que é o que se pratica. Pode existir esse Estado neutro?
Quando a divisão entre as crenças é tão profunda que da ordem sobrenatural transcende às primeiras verdades da ordem natural; quando os homens não estão de acordo nem acerca de sua origem, nem de sua natureza, nem de seu destino, nem, por conseguinte, acerca de suas relações, nem das normas de sua conduta, então a oposição é tão grande, que o Estado que cruze os braços em presença dessas diferenças se encontrará colocado em uma situação muito estranha: ele se declarará indiferente ante as diferenças, e não será raro que os crentes e os não-crentes dêem de ombros e se declarem também indiferentes, com uma indiferença que faça causa comum com o desprezo, a uma entidade que não toma parte naquelas coisas que mais interessam aos homens.
Estado neutro! Um Estado que não sabe nada nem afirma nada acerca das crenças em um mundo sobrenatural e das relações com ele, que não sabe nada acerca das origens do homem, que ignora qual é a natureza humana, qual é seu destino e quais são as normas de sua vida individual e social, é um Estado tão estranho, que, ao não afirmar nada do que aos homens mais importa, ao elevar a dogma a ignorância, que por ser de coisas supremas é a suprema ignorância, vem a declarar-se inútil e imbecil.
Imbecil, sim, porque o Estado idiota, como o chamava graficamente Campoamor, é aquele que não sabe nada dos problemas que o sepulcro levanta e dos problemas que o sepulcro resolve. Declara-se incapaz de governar alguém quem diz, referindo-se à ordem religiosa e à ordem moral e ao fundamentalmente jurídico: “Eu não posso afirmar nada dessas coisas, porque não sei de nada.” E qual é a conseqüência imediata desse conceito de Estado neutro? A de não intervir nesses problemas que ele mesmo declara que ignora, a de declarar-se incompetente e deixá-los aos que os conhecem, já que ele emite para si mesmo uma certidão de incompetência e até de imbecilidade.
E, no entanto, faz tudo ao contrário. É o Estado que mais intervém. E por que intervém? Porque sua neutralidade em relação a todas as crenças que lutam e que combatem na sociedade não é mais do que o resultado de um juízo em que as declara duvidosas, reduzindo-as a meras opiniões; e ao trasladar seu parecer aos atos e às leis, impõe esse juízo, afirmando a negação ou a dúvida, quer dizer, impondo a impiedade ou impondo o ceticismo como dogmas negativos de um Estado que, além de ser idiota, vem a declarar-se Pontífice ao revés.
Esse Estado intervém no ensino; e – coisa singular, senhores! - o Estado, que não é agricultor; o Estado, que não é industrial; o Estado, que não é comerciante, embora tenha a obrigação de cooperar e de favorecer o comércio, a agricultura e a indústria, o Estado se declara a si mesmo, não cooperador nem fomentador do ensino, mas pedagogo supremo e até mestre único. E que contradição tão singular! Não sabe nada dos problemas mais transcendentais, dos que foram sempre os primeiros em todos os momentos da História, e ao mesmo tempo não tolera competências e quer ser mestre único das gerações presentes e vindouras! Pode-se conceber que um Estado que afirme uma ordem natural e sobrenatural, que um Estado crente como o das idades cristãs, e até um Estado budista, ou um Estado muçulmano, trate, servindo como um instrumento à crença que professa, de levá-la à prática e de infundi-la; mas que um Estado que se declara a si mesmo interconfessional, que declara que não sabe nada do que ninguém deve ignorar, nem por obrigação, nem por cultura, se declare a si mesmo incompetente, primeiro, e o mais competente, depois, para intervir no ensino, isso é o absurdo. E, no entanto, vede como intervém. A gradação é a seguinte: primeiro se declara facultativo no ensino o ensino religioso; depois se declara neutra a escola, e mais tarde se suprime a religião até nas escolas privadas, centralizando o ensino nas públicas, e dispersando os mestres religiosos para que atrás da ignorância religiosa venha o ódio da escola francamente atéia.”
(Juan Vázquez de Mella y Fanjul, Examen del Nuevo Derecho a la Ignorancia Religiosa)
sábado, 14 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
A pedagogia do crime
“A primeira e principal lição foi sendo ministrada aos poucos. Era difícil, mas não impossível. Tratava-se de fazer com que a sociedade ingerisse enrolada, como rocambole, a idéia de que a criminalidade deriva das injustiças do modelo social e econômico. Aceita essa tese, era imperioso importar alguns de seus desdobramentos para o campo do Direito. Claro. Seria perverso tratar com rigor ditas vítimas da exclusão social. Aliás, a palavra "exclusão" e seu derivado "excluído", substituindo "pobre" e "pobreza", foram vitais para aceitação da tese e sua absorção pelo Direito Penal.
Espero ter ficado claro aos leitores que a situação exposta acima representa uma versão rasteira da velha luta de classes marxista. Uma luta de classes por outros meios, travada fora da lei, mas, paradoxalmente, sob sua especial proteção. Por isso, a impunidade é a aposta de menor risco desses beligerantes. Por isso, no Brasil, o crime compensa. Por isso, também, só os muito ingênuos acreditarão que um partido que pensa assim pretenda, seriamente, combater a criminalidade. Afine os ouvidos e perceberá o escandaloso silêncio, silêncio aliás de todos os poderes de Estado sobre esse tema que é o Número Um entre nós. Ou não?
Portanto, olhando-se o tecido social, chega-se à conclusão de que o grande excluído é o brasileiro honesto, quer seja pobre ou não. O outro, o que enveredou para as muitas ramificações do mundo do crime, leva vida de facilidades sabendo que tem a parceria implícita dos que hegemonizam a política nacional. Nada disso estaria acontecendo sem tal nexo.
Viveríamos uma realidade superior se o governo construísse presídios, ampliasse os contingentes policiais e equipasse adequadamente os agentes da lei, em vez de gastar a bolsos rotos com Copa disto e daquilo, trem bala, mordomias, comitivas a Roma e por aí vai. Viveríamos uma realidade superior se o Congresso produzisse um Código Penal e um Código de Processo Penal não benevolentes, não orientados para o descumprimento da pena, mas ordenados à sua rigorosa execução. Viveríamos uma realidade superior se os poderes de Estado incluíssem entre os princípios norteadores de suas ações a segurança da sociedade e os direitos humanos das vítimas da bandidagem. Viveríamos uma realidade superior se o Direito "achado nas ruas", que inspira ideologicamente a atuação de tantos magistrados, fizesse essa coleta nas esquinas, mas ouvindo os cidadãos, os trabalhadores, os pais de família, em vez de sintonizar a voz dos becos onde a criminalidade entra em sintonia com a ideologia.
O leitor sabe do que estou tratando aqui. Ele reconhece que, como escrevi recentemente, já ocorreu a Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Perdemos a guerra. O crime já venceu. Estamos na fase de requisição dos despojos que devem ser entregues aos vencedores. Estamos pagando, em vidas, sangue e haveres, a dívida dos conquistados. Saiba, leitor, que a parcela da esquerda que nos governa há mais de duas décadas, mudando de nome e de pêlo, mas afinada, em tons pouco variáveis pelo mesmo diapasão ideológico, está convencida de que se trata disso mesmo. É a luta de classe por outros meios e com outros soldados. Queixemo-nos ao bispo, se o bispo não cantar na mesma toada.
É a pedagogia do crime. Ela já nos ensinou a não reagir. Ela já nos disse que a posse de armas é privilégio do bandido. Ela já advertiu os policiais sobre os riscos a que se expõem ao usar as suas. Ela já nos mostrou que não adianta reclamar: continuaremos sem policiais, sem presídios, sem uma legislação penal que sirva à sociedade e não ao bandido. Isso tudo já nos foi evidenciado. Trata-se, agora, de entender outras ordens do poder fora da lei. Devemos saber, por exemplo, que esse poder se enfurece quando encontra suas vítimas com tostões no bolso. O suposto direito nosso de carregarmos na carteira o dinheiro que bem entendermos confronta como o direito dos bandidos aos nossos haveres. Por isso, cada vez mais, agridem, maltratam e executam, friamente, quem deixa de cumprir seu dever de derrotado. Tornamo-nos súditos, sim, não do Estado brasileiro, mas daqueles que tomaram para si a Nação. Seja um bom discípulo da pedagogia que a esquerda nos proporcionou. Não desatenda as demandas dos bandidos. O leão da Receita é muito mais manso.”
(Percival Puggina, Pedagogia do Crime)
http://www.puggina.org
Espero ter ficado claro aos leitores que a situação exposta acima representa uma versão rasteira da velha luta de classes marxista. Uma luta de classes por outros meios, travada fora da lei, mas, paradoxalmente, sob sua especial proteção. Por isso, a impunidade é a aposta de menor risco desses beligerantes. Por isso, no Brasil, o crime compensa. Por isso, também, só os muito ingênuos acreditarão que um partido que pensa assim pretenda, seriamente, combater a criminalidade. Afine os ouvidos e perceberá o escandaloso silêncio, silêncio aliás de todos os poderes de Estado sobre esse tema que é o Número Um entre nós. Ou não?
Portanto, olhando-se o tecido social, chega-se à conclusão de que o grande excluído é o brasileiro honesto, quer seja pobre ou não. O outro, o que enveredou para as muitas ramificações do mundo do crime, leva vida de facilidades sabendo que tem a parceria implícita dos que hegemonizam a política nacional. Nada disso estaria acontecendo sem tal nexo.
Viveríamos uma realidade superior se o governo construísse presídios, ampliasse os contingentes policiais e equipasse adequadamente os agentes da lei, em vez de gastar a bolsos rotos com Copa disto e daquilo, trem bala, mordomias, comitivas a Roma e por aí vai. Viveríamos uma realidade superior se o Congresso produzisse um Código Penal e um Código de Processo Penal não benevolentes, não orientados para o descumprimento da pena, mas ordenados à sua rigorosa execução. Viveríamos uma realidade superior se os poderes de Estado incluíssem entre os princípios norteadores de suas ações a segurança da sociedade e os direitos humanos das vítimas da bandidagem. Viveríamos uma realidade superior se o Direito "achado nas ruas", que inspira ideologicamente a atuação de tantos magistrados, fizesse essa coleta nas esquinas, mas ouvindo os cidadãos, os trabalhadores, os pais de família, em vez de sintonizar a voz dos becos onde a criminalidade entra em sintonia com a ideologia.
O leitor sabe do que estou tratando aqui. Ele reconhece que, como escrevi recentemente, já ocorreu a Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Perdemos a guerra. O crime já venceu. Estamos na fase de requisição dos despojos que devem ser entregues aos vencedores. Estamos pagando, em vidas, sangue e haveres, a dívida dos conquistados. Saiba, leitor, que a parcela da esquerda que nos governa há mais de duas décadas, mudando de nome e de pêlo, mas afinada, em tons pouco variáveis pelo mesmo diapasão ideológico, está convencida de que se trata disso mesmo. É a luta de classe por outros meios e com outros soldados. Queixemo-nos ao bispo, se o bispo não cantar na mesma toada.
É a pedagogia do crime. Ela já nos ensinou a não reagir. Ela já nos disse que a posse de armas é privilégio do bandido. Ela já advertiu os policiais sobre os riscos a que se expõem ao usar as suas. Ela já nos mostrou que não adianta reclamar: continuaremos sem policiais, sem presídios, sem uma legislação penal que sirva à sociedade e não ao bandido. Isso tudo já nos foi evidenciado. Trata-se, agora, de entender outras ordens do poder fora da lei. Devemos saber, por exemplo, que esse poder se enfurece quando encontra suas vítimas com tostões no bolso. O suposto direito nosso de carregarmos na carteira o dinheiro que bem entendermos confronta como o direito dos bandidos aos nossos haveres. Por isso, cada vez mais, agridem, maltratam e executam, friamente, quem deixa de cumprir seu dever de derrotado. Tornamo-nos súditos, sim, não do Estado brasileiro, mas daqueles que tomaram para si a Nação. Seja um bom discípulo da pedagogia que a esquerda nos proporcionou. Não desatenda as demandas dos bandidos. O leão da Receita é muito mais manso.”
(Percival Puggina, Pedagogia do Crime)
http://www.puggina.org
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
O drama do Vaticano II
“O drama do Vaticano II consiste no fato de que ao invés de ter sido conduzido por santos, como o foi o Concílio de Trento, ele foi monopolizado por intelectuais. Acima de tudo ele foi monopolizado por certos teólogos, cuja teologia partiu do preconceito de atualizar a fé de acordo com as exigências do mundo e assim emancipá-la da pressuposta condição de inferioridade com respeito à civilização moderna. O lugar da teologia deixou de ser a comunidade cristã; ou seja, a Igreja tornou-se a interpretação de indivíduos. Nesse sentido o período pós-conciliar representou a vitória do Protestantismo dentro do Catolicismo.”
(Henri de Lubac, citado no livro de Mons. Lefebvre, They Have Uncrowned Him)
(Henri de Lubac, citado no livro de Mons. Lefebvre, They Have Uncrowned Him)
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