sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As incríveis versões da crucificação segundo os muçulmanos

“Já vimos que algumas histórias corânicas de Jesus tomam material emprestado dos evangelhos gnósticos e de outras heresias cristãs que aparentemente estavam em circulação na Arábia do século sétimo: o Jesus corânico fala quando ainda é um bebê no berço (19, 29-33) e sopra vida em pássaros de barro (5, 110). A mais importante apropriação corânica do gnosticismo cristão, contudo, é a negação da realidade da crucificação de Cristo: “eles não o mataram, nem o crucificaram, mas isso lhes foi simulado” (4, 157).
Para os gnósticos, essa negação baseava-se na repugnância ao mundo material e à carne, que os levou a negar totalmente a realidade da encarnação; os muçulmanos, por sua vez, negam a crucificação porque, para eles, um profeta de Deus não pode sofrer derrota.
No Corão, os judeus se vangloriam de haver matado Jesus – mas eles apenas pensam que o fizeram (4, 157). Na verdade, Jesus escapou da crucificação, embora a forma como o fez seja a fonte de algumas disputas. Ibn Kathir afirma que “quando Alá enviou Isa (Jesus) com provas e ensinamentos, os judeus, que as maldições, raiva, tormento e castigo de Alá caiam sobre eles, tiveram dele inveja em razão de suas profecias e milagres óbvios...” Consumidos dessa inveja, continua Ibn Kathir, os judeus incitaram “o rei de Damasco à época, um grego politeísta que adorava as estrelas” a ordenar a seu representante em Jerusalém que prendesse Jesus. Jesus, ao percebê-lo, pediu aos que estavam com ele, “Quem se dispõe a ficar parecido comigo, para ser minha companhia no Paraíso?” Um jovem se dispôs, e “Alá fez com que o jovem se parecesse exatamente com Isa, uma abertura apareceu no teto da casa e Isa adormeceu e ascendeu ao céu enquanto dormia.” Então “os que cercavam a casa viram o homem que se parecia com Isa, pensando que ele era Isa. Eles o levaram e o crucificaram e colocaram uma coroa de espinhos em sua cabeça. Então os judeus se vangloriaram de ter matado Isa e alguns cristãos aceitaram essa falsa pretensão, devido a sua ignorância e falta de razão.”
Outras fontes oferecem teorias diferentes. Algumas autoridades islâmicas acham que Jesus estava com setenta de seus discípulos quando os guardas vieram prendê-lo, e todos os setenta ficaram exatamente parecidos com Jesus; um deles deu um passo à frente e foi crucificado. O Ruhul Ma’ani, contudo, identifica o que ficou parecido com Jesus e foi crucificado com o que o traiu por trinta moedas – Judas. Uma outra fonte muçulmana diz que foi uma sentinela que estava vigiando Jesus depois de sua apreensão.
O Corão afirma, nesse contexto, que “nenhum dos adeptos do Livro deixará de acreditar nele antes da sua morte” (4, 159). Entende-se por essa um tanto estranha afirmação que Jesus retornará à terra – e quando o fizer, segundo Maomé em uma tradição islâmica, ele vai “quebrar a Cruz e matar o porco e abolir a Jizya” – o imposto tomado dos não-muçulmanos subjugados à lei islâmica. Isso quer dizer que ele vai abolir o status subserviente de dhimmi dos não-muçulmanos e islamizar o mundo: “Nesta época, Alá vai destruir todas as religiões exceto o Islã e Alá vai destruir Al-Masih Ad-Dajjal (o Falso Messias).””
(Robert Spencer, The Complete Infidel’s Guide to the Koran)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Para os muçulmanos, Jesus anunciou a vinda de Maomé

“O Corão declara que, assim como a mensagem de Maomé confirmou a do Evangelho que veio antes dele, Jesus disse aos judeus que sua mensagem confirmava a da Torá. Jesus também disse, segundo o Corão, que ele era o precursor de um mensageiro que viria depois dele, cujo nome seria Ahmad. Mas o povo iria negar os milagres de Jesus como “bruxaria” – lembrando a negação do mesmo povo a Moisés (28, 36) e Maomé (28, 48).
“Ahmad” significa “o Mais Louvado” e relaciona-se etimologicamente com Maomé, que significa “o Louvado”. Mohammed Marmaduke Pickthall, um erudito britânico muçulmano e converso ao Islã, reforçou a conexão ao traduzir “Ahmad” simplesmente como “o Louvado”. E os muçulmanos universalmente entendem que o verso descreve Jesus prevendo o aparecimento de Maomé.
Os muçulmanos defendem que essa profecia é a versão não-corrompida das palavras de Jesus que teriam sobrevivido em forma corrompida em João 14, 16-17, quando Jesus diz, “E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós.”
“Consolador”, aqui, é parakletos, ou Paráclito. Alguns apologetas islâmicos afirmaram que essa é uma corrupção de periklytos, que significa “famoso” ou “renomado”, i.e., “Louvado”. Contudo, não há qualquer prova textual para isso: não existem manuscritos do Novo Testamento que usam a palavra periklytos naquele lugar. Nem é provável que as duas palavras possam ter sido confundidas. Esse tipo de confusão pode ser teoricamente possível em árabe, que não escreve as vogais e apresentaria as duas palavras com estruturas consonantais idênticas. Mas como o grego escreve as vogais, essas palavras em grego nem semelhantes seriam.”
(Robert Spencer, The Complete Infidel’s Guide to the Koran)

sábado, 22 de janeiro de 2011

O sal da terra

“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.”
(Pe. Antônio Vieira, S. J, Sermão de Santo Antônio aos Peixes)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A ausência da regra de ouro nos textos islâmicos

“A disparidade no tratamento de muçulmanos e não-muçulmanos - e no valor dado à vida de cada um – perpassa o Corão inteiro e todas as tradições e leis islâmicas. Também deixou sua marca nas sociedades islâmicas; mesmo hoje em dia, embora a lei islâmica não seja inteiramente cumprida na maioria dos países muçulmanos, os não-muçulmanos não gozam de completa igualdade jurídica com os muçulmanos em quaisquer daqueles países – nem mesmo na laica Turquia.
Isso é lógico, pois no Corão não há nada parecido com a Regra de Ouro. Jesus enuncia uma ética universal quando diz no Novo Testamento: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós” (Mateus 7, 12). E o apologeta cristão do século XX, C. S. Lewis, mostrou em seu livro A Abolição do Homem que o mesmo princípio, chamado por ele de Lei da Beneficência Geral, prevaleceu entre pessoas de uma grande variedade de culturas e civilizações. Para ilustrar essa idéia em comum, ele cita material dos antigos babilônios, os Analectos de Confúcio, os escritores romanos, as Escrituras Hebraicas e outras fontes – mas nada do Corão, do Hadith, ou qualquer outro texto islâmico.
Poder-se-ia imaginar que foi uma omissão involuntária ou nascida da ignorância. Afinal de contas, Lewis poderia ter citado as passagens corânicas que mandam os muçulmanos “retribuir o mal com o bem” ou “retribuir o mal da melhor forma possível” (13, 22; 23, 96; 28, 54; 41, 34). Ele poderia ter percebido a passagem que aconselha perdoar o mal: “o delito será expiado com o talião; mas, quanto àquele que indultar (possíveis ofensas dos inimigos) e se emendar, saiba que a sua recompensa pertencerá a Deus, porque Ele não estima os agressores” (42, 40). Poderia até mesmo ter citado a passagem que aconselha os muçulmanos a “tratarem com benevolência” o “vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro, o viajante e os vossos servos” (4, 36).
Isso não é o mesmo que o “amar teu próximo como a ti mesmo” judaico-cristão?
A resposta depende de como um muçulmano responderia ao doutor da lei que perguntou a Jesus, provocando do Cristo a parábola do Bom Samaritano: “Quem é o meu próximo?” (Lucas 10, 29). O Corão diz que “Maomé é o mensageiro de Alá” e que “aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si” (48, 29). Isso sugere que os não-muçulmanos não são considerados dignos de caridade e bondade. E realmente o leitor do Corão vai procurar em vão por até mesmo um único verso que especificamente diga aos muçulmanos que sejam gentis com os infiéis ou façam amizade com eles, a menos que seja “para vos precaverdes e vos resguardardes” (3, 28) – um verso que, como vimos, os teólogos islâmicos explicam como sendo uma ordem de falsa solicitude para com os infiéis visando à proteção de si mesmo e/ou à proteção do Islã.
No Corão também falta qualquer advertência de que todos os seres humanos são iguais em dignidade diante de Deus, ou a correspondente convicção de que todas as pessoas devem ter igualdade diante da lei. E a ausência desses princípios faz-se sentir em todas as culturas e sociedades islâmicas.”
(Robert Spencer, The Complete Infidel’s Guide to the Koran)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Leon Trotsky e a maçonaria

“Leiba Bronstein tornou-se maçom em 1897 e depois um Illuminatus de alta hierarquia através de seu amigo Alexander Parvus. Ele também mantinha relações com a B'nai B'rith, uma ordem maçônica judaica que já havia ajudado os “revolucionários” judeus na Rússia.
Jacob Schiff, presidente da casa bancária Kuhn, Loeb & Co. e lacaio dos Rothschilds, era o responsável pelos contatos entre o “movimento revolucionário na Rússia” e a B'nai B'rith (Gerald B. Winrod, "Adam Weishaupt – Um Demônio Humano", p. 47).
Leiba Bronstein começou a estudar seriamente a maçonaria e a história das sociedades secretas durante os dois anos que passou na prisão em Odessa. Ele encheu mais de mil páginas de notas. O "Internationaler Freimaurer-Lexikon" (Viena/Munique, 1932, p. 204) admite com relutância que Leiba Bronstein-Trotsky chegou ao bolchevismo através do estudo da maçonaria.
Como Comissário do Povo para Assuntos Militares, Trotsky introduziu o pentagrama – a estrela de cinco pontas – como o símbolo do exército vermelho. Os cabalistas haviam tomado esse símbolo de magia negra das bruxas da antiga Caldéia. Com o auxílio de Alexander Parvus, Trotsky chegou à conclusão de que o verdadeiro propósito da maçonaria era eliminar os estados nacionais e suas culturas e introduzir um estado mundial judaizado.
Isto também se afirma na “Iniciação Secreta ao 33º Grau”: “A maçonaria é nada mais, nada menos que a revolução em ação, a conspiração contínua”. Bronstein tornou-se um convicto internacionalista que, através de Parvus, aprendeu que o povo judeu era seu próprio messias coletivo e chegaria a dominar todos os povos por meio da mistura das outras raças e da eliminação das fronteiras nacionais.
Uma república internacional deveria ser criada, onde os judeus seriam o elemento dominante, já que ninguém mais seria capaz de entender e controlar as massas. Leiba Bronstein tornou-se um membro da loja maçônica francesa Art et Travail, à qual Lênin também pertencia, mas juntou-se também à B'nai B'rith, segundo o cientista político Karl Steinhauser ("EG - Die Super-UdSSR von Morgen"/"EU – A Super União Soviética do Futuro", Viena, 1992, p. 162).
Leon Trotsky tornou-se membro da ordem maçônica B'nai B'rith em New York, em janeiro de 1917 (Yuri Begunov, As Forças Secretas na História da Rússia, São Petersburgo, 1995, pp. 138-139). Ele já era membro da maçonaria de Memphis-Misraim.
Winston Churchill confirmou em 1920 que Trotsky era também um Illuminatus (Illustrated Sunday Herald, 8 de fevereiro de 1920.) Trotsky eventualmente alcançou uma alta posição na maçonaria, pois era membro da loja dos shriners, à qual somente maçons do 32º grau e acima podiam pertencer. Franklin Delano Roosevelt, Alexander Kerensky, Béla Kun e outros políticos importantes também faziam parte desses poucos eleitos (Professor Johan von Leers, O Poder Atrás do Presidente, Estocolmo, 1941, p. 148).”
(Jüri Lina, Under the Sign of the Scorpion)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

As heróicas portuguesas de Diu

““Não permita Deus” - exclamou Isabel da Veiga para o marido, Manuel de Vasconcelos - “que eu fuja para um lugar seguro deixando-te em perigo!”
Era no ano de 1538. Uma armada turca, vinda do Mar Vermelho, bordejava ao largo da fortaleza de Diu na península de Catiavar, onde uma pequena guarnição de portugueses se mantinha vigilante contra as forças esmagadoras comandadas pelo terrível governador do Cairo, Solimão Basha, de oitenta anos de idade, feio como o pecado, gordo como um hipopótamo e cruel como um tigre.
As fortalezas sitiadas não eram lugar para mulheres. Isabel era jovem e bonita. Havia sempre vagas para mulheres assim num harém turco e o marido certamente lamentava ter trazido a família para viver em Diu, embora a vida ali fosse barata e o clima razoável. Pelo menos Goa vivia em paz e o seu sogro usufruía de uma posição de destaque como magistrado da alfândega. Isabel devia ir juntar-se aos pais em Goa até que passasse o perigo. Por isso, quando o capitão da fortaleza se preparava para enviar um barco ao outro lado do Golfo levando as cartas para o vice-rei, pareceu uma oportunidade que não se devia perder antes que chegasse a monção e impedisse a navegação.
Mas Isabel disse não, não e não! Se por qualquer razão o marido não estava satisfeito com ela, que lho dissesse francamente, que ela procuraria emendar-se. Mas se a afastasse de si num momento daqueles, nunca mais ela teria um momento de sossego! Ao lado dele, nada a assustava, mas se a mandasse embora dali, tudo seriam dores e consumições! Tinha de ficar, quanto mais não fosse para o tratar se ficasse ferido. E se acontecesse o pior e o matassem, ela preferiria morrer a viver sem ele. E a sua filhinha? - lembrou ele. Pois que fosse ela – exclamou a mãe. A criança não podia ficar exposta a qualquer perigo! Devia ir para os avós em Goa. Mas o lugar de uma esposa era junto do marido.
Isabel insistiu, chorou, soluçou e argumentou até ele lhe fazer a vontade. A pequenita foi enviada para Goa e a mãe ficou em Diu.
O momento era crítico. Solimão Basha, exultante pela recente conquista de Aden, chegara com navios, cavalos, infantaria e toda a famosa artilharia turca para atacar estrondosamente as muralhas de Diu, que se esboroavam sob a sua ação. A disparidade do número era considerável. Os turcos acorriam aos milhares, enquanto os portugueses, comandados pelo heróico capitão Antônio da Silveira, não passavam de 600 homens.
Isabel da Veiga olhava em volta e via os homens fazendo prodígios para estarem em toda parte ao mesmo tempo. O canhão do inimigo abria enormes rombos na muralha. Para um lado e para o outro acorriam os defensores a juntar material para tapar as brechas, mas logo se escancarava outra fenda enquanto cada um ia e vinha. “É nisto que eu posso ajudar”, pensou Isabel, e foi buscar a sua velha amiga Ana Fernandes, mulher do cirurgião Fernão Lourenço.
Ajudar? Claro que podiam, respondeu Ana. Enquanto as mulheres ali estivessem para ir buscar e acarretar, os homens não teriam necessidade de abandonar os seus postos.
Todas acorreram, novas e velhas, com baldes e cestas à cabeça, carregando madeira, pedra e cascalho, e tapando os buracos mal eles surgiam. Infatigáveis e intrépidas, iam e vinham enquanto o canhão troava e os mísseis se estilhaçavam em volta.
Isabel da Veiga e Ana Fernandes eram as guias e organizadoras deste improvisado corpo de mulheres, cuja coragem constituía para os homens uma fonte de inspiração. Valente e alegre, a jovem Isabel era a alma do empreendimento. Para todas tinha sempre uma palavra alegre – diz Lopo de Sousa Coutinho, testemunha que registrou estes fatos – nem o mais rude dos soldados sonhava sequer em tomar com ela qualquer liberdade; nem na sua presença poderia um homem albergar um mau pensamento.
Ana Fernandes, mais velha e menos viva, mostrava-se igualmente dedicada. Como era mulher de um cirurgião, conhecia alguma coisa dos primeiros cuidados a prestar aos feridos. Já em sua casa preparara tudo para tratar os ferimentos: ligaduras, unguentos e bálsamos, que ela própria aplicava enquanto as suas ajudantes batiam claras de ovos, que nesse tempo se empregavam para suturar as feridas. Ao mesmo tempo, ia alimentando os guerreiros com bons petiscos provenientes da sua cozinha.
Nem de noite descansava. Apoiada a um bordão, porque as pernas eram velhas e rígidas, lá ia tropeçando na escuridão pelas rudes veredas que ladeavam a muralha. Quando menos se esperava, surgia ao lado deles, e nem a mais feroz bateria era capaz de a fazer recuar. Os covardes ficavam envergonhados pelas suas palavras enérgicas e receavam mais o desprezo desta mulher do que o do seu capitão.
Não tardou que todas as mulheres do forte seguissem o exemplo de Ana e Isabel. Algumas chegavam a vestir a roupa dos maridos e a combater como homens, mas a maior parte, ao que parece, ainda que entregue a pesado trabalho manual, não esquecia os mais suaves deveres femininos. E todos os momentos livres, quando os havia, eram passados na igreja ou em piedoso cortejo para cair de joelhos diante do altar.
A serenidade geral estava acima de todo elogio. Sabemos de uma viúva, Bárbara Fernandes (não confundir com a Ana Fernandes atrás citada), cujo filho mais novo, um rapaz de dezoito anos, lhe morreu nos braços, e o mais velho foi morto no dia seguinte sobre a muralha. Aquela mãe não chorou nem se lamentou, continuando simplesmente a trabalhar durante todo o dia, até que as abençoadas sombras da noite viessem permitir-lhe chorar sem que a vissem.
O cerco prosseguiu sem descanso, enquanto lá fora a monção soprava violentamente. Todos os dias tombavam homens. As mulheres que a seu lado trabalhavam eram freqüentemente feridas, mas nunca mostraram sinais de pânico.
A vida continuava entre pedras e ruínas. O capitão proibira que se passasse através das brechas das muralhas, não fosse o inimigo descobrir-lhes o acesso, mas Francisco do Couto diz que as mulheres não respeitavam a proibição. Aonde queriam ir iam mesmo. Havia uma velha muito gorda, mulher do barbeiro do capitão, que subia e descia constantemente pelo cascalho, de tamancos caseiros nos pés - “e o mesmo faziam todas as mulheres da fortaleza” - acrescenta este cronista.
Chegou finalmente um dia em que só restavam quarenta homens em estado de pegar em armas. As munições achavam-se esgotadas, os alimentos frescos escasseavam e o escorbuto ia-se desenvolvendo. Toda a pólvora que restava foi dividida e distribuída em partes iguais por trinta panelas. Envergando os seus melhores fatos e encorajando-se uns aos outros com palavras animosas, esperaram pela morte no seu posto.
O tempo passou-se, e os turcos sem aparecer. O silêncio tornava-se opressivo. Solimão recebera notícias de que o vice-rei vinha de Goa com toda a frota da Índia para acudir ao cerco de Diu. Desanimado pela prolongada resistência de um simples punhado de homens, o capitão turco não estava disposto a enfrentar reforços. Pela calada da noite, escapuliu-se com a sua armada para o Mar Vermelho. Estava salva Diu e a fortaleza foi reconstruída!
Mas poucos anos durou a paz. O rei de Cambaia, que, em 1535, tivera o gosto de ceder a península de Diu em troco da proteção portuguesa contra os invasores patanes, ao ver afastada a ameaça, ressentiu-se da presença de uma potência estrangeira que fazia sombra aos seus domínios.
Esse sentimento foi encorajado pelo famoso renegado levantino Coja Sofar, um dos maiores comandantes militares do Médio Oriente, o qual tinha acumulado terras e gozava dos favores da corte cambaiana. Foi ele que impeliu o rei a chamar os turcos e a pôr o primeiro cerco a Diu. Perante o fracasso, Coja Sofar passou os sete anos seguintes a preparar armas e a recrutar homens de todas as nações guerreiras que tinha à mão.
O segundo cerco de Diu durou de abril a novembro de 1546 e muitas das cenas atrás descritas se repetiram. É provável que ali se encontrassem algumas das mesmas mulheres, as quais desenvolveram idêntica ação. Sabemos que viviam nessa altura em Diu muitos casais. Todavia, a semelhança de nomes faz confusão e a nós mesmos perguntamos, por exemplo, quantas Isabéis lá havia nos dois cercos.
Desta vez, falam-nos de uma Isabel Madeira, que, como a velha Bárbara Fernandes, era mulher de um médico. Pelo que dizem, era uma zé-ninguém, de constituição delicada, e de mais a mais mãe de quatro filhos. Tal como Bárbara, enfrentou o sacrifício supremo quando o seu marido adorado morreu em combate. Com igual coragem, refreou quaisquer lamentações públicas e ainda consolava as amigas que vinham confortá-la. Assistiu ao funeral do marido sem verter uma lágrima, após o que regressou à muralha a ajudar a enterrar os outros mortos - “um grande exemplo de força de alma”, comenta o cronista.
Ainda nos falam de outra Isabel – a formidável Isabel Fernandes – espírito afim, ao que parece, de Ana Fernandes no cerco de 1538. Esta Isabel foi a primeira a abater um turco com uma pancada na cabeça, quando, a coberto da escuridão noturna, ele trepava pela muralha no ponto em que ela se achava sempre na linha de fogo.
Com suas próprias mãos ajudou a reparar as brechas, encorajando os homens com palavras estimulantes; tratava-lhes as feridas, acarinhava-os como uma mãe, e passou à história como “A Velha de Diu”.
Uma mulher de grande coragem sem dúvida nenhuma, mas talvez com seu quê de turbulento. Diz-se ter sido chefe dos militantes que, à chegada do filho do governador com escassos reforços, induziram o capitão Mascarenhas, contra o seu próprio parecer, a dirigir uma sortida até as linhas inimigas.
O capitão, homem de grande prudência e experiência, e D. Francisco de Meneses, cuja coragem e reputação cavaleirosa se achavam acima de toda a dúvida, desprezaram a intervenção feminina. Era uma vergonha, disse D. Francisco, dar ouvidos a mulheres quando estavam homens presentes! Observação ingrata, talvez, considerando os seus serviços presentes e passados, mas as circunstâncias deram-lhe razão. Os temperamentos fogosos faziam as coisas a seu modo. Realizou-se a sortida, que resultou num desastre com a morte de muitos homens preciosos, incluindo o próprio D. Francisco. As ordens do governador determinavam que a guarnição se mantivesse dentro das muralhas até que ele chegasse com toda a frota da Índia. Isso deu-se algumas semanas depois, quando o cerco tinha sido levantado e estava ganha a grande batalha de Diu.
Seria interessante conhecer-se alguma coisa a respeito das esposas e mães de Diu no período de após-guerra, mas a verdade é que o fulminante discurso de D. Francisco constitui a última coisa que sabemos acerca dela.
Com uma brilhante exceção.
Em 1569, doze anos depois do segundo cerco de Diu, vamos encontrar a valente “Velha de Diu” ainda cheia de vida, agora em Goa, donde escreve uma carta à rainha Catarina.
Diz-lhe ela que sobreviveu a todos os seus dezoito filhos com exceção de um deles, que recomenda ao favor real juntamente com os seus netinhos.
Caseira e prática como sempre, preparou e enviou à sua soberana “uma botija com cravos-da-índia, que são bons no tempo frio daí.”
E assina:
“Isabel Fernandes, a Velha de Diu.””
(Elaine Sanceau, Mulheres Portuguesas no Ultramar)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Os judeus nas origens da maçonaria

“É certo que havia judeus junto ao berço da Maçonaria – judeus cabalistas, como alguns ritos que foram preservados o comprovam. Nos anos que precederam a Revolução Francesa, eles muito provavelmente entraram em grande número nos conselhos da sociedade e fundaram suas próprias sociedades secretas. Havia judeus ao redor de Weishaupt, e Martinez de Pasqualis, um judeu de origem portuguesa, organizou vários grupos de Illuminati na França, recrutando muitos adeptos, a quem ensinava a doutrina da reintegração. As lojas fundadas por Martinez eram místicas, enquanto as outras ordens da Maçonaria eram mais racionalistas. Isso permite dizer que as sociedades secretas representavam os dois lados da mente judaica: racionalização prática e panteísmo.”
(Bernard Lazare, L'Antisemitisme)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mutazilitas e acharitas

“Se a ignorância é realmente uma bênção, então ninguém deveria ler O Fechamento da Mente Muçulmana.
Mas como prefiro conhecer a verdade, mesmo quando ela é preocupante, achei o estudo de Robert Reilly sobre o pensamento sunita o livro mais esclarecedor de 2010.
Reilly conta a triste história de como uma grande batalha filosófica no seio do Islã, entre os mutazilitas e os acharitas, moldou a história da fé e levou inevitavelmente à crise atual do Islã. Essa batalha intelectual – resolvida na metade do século IX – não foi uma árida discussão acadêmica; foi uma disputa de suma importância, com implicações que se tornariam óbvias para os cristãos atentos do começo do século XXI.
As principais disputas filosóficas geralmente sobrevivem por séculos. Os platônicos e os aristotélicos ainda hoje estão discutindo. Ecos dos debates no Concílio de Nicéia ainda podem ser ouvidos nos departamentos de teologia das universidades católicas. Mas os mutazilitas não estão mais discutindo com os acharitas. No Islã o debate acabou – não porque um argumento provou ser mais persuasivo que o outro, mas porque uma escola invocou sua autoridade para silenciar a crítica.
Os mutazilitas tentaram a mesma síntese entre fé e razão que os filósofos medievais realizaram no Cristianismo. Embora aceitassem inteiramente a autoridade do Corão, os mutazilitas acreditavam que a fé islâmica poderia sujeitar-se à análise lógica, e as palavras de Alá conformar-se-iam às exigências da razão humana.
Mas os acharitas tinham outra idéia. Essa escola de pensamento defende que o Islã exige submissão absoluta à vontade de Deus. Pensar que Alá esteja sujeito à razão é indecente, até blasfemo, na visão dos acharitas. Os acharitas não aceitam sequer a mais fundamental análise lógica do Corão; eles exigem obediência incondicional à palavra de Alá.
Quando algumas passagens do Corão entram em contradição com outras, os mutazilitas dizem que a razão guiará os fiéis até a verdade. Os acharitas não fazem uma tal concessão à razão humana. Se Alá deseja ser contraditório, eles dizem, quem somos nós, simples mortais, para questionarmos o todo-poderoso? Assim, o princípio da não-contradição, o princípio mais fundamental do pensamento racional, é posto de lado, e o Islã entra nos domínios da desrazão.
O triunfo dos acharitas, diz Reilly a seus leitores, representa o fechamento final da mente islâmica. Com os mutazilitas, algum diálogo inter-religioso teria sido possível. Mas com os acharitas, não há base para uma discussão razoável porque a própria razão é tida em desprezo.
Desta forma o pensamento islâmico desde o século IX ficou marcado com o desinteresse pela consistência, pela análise, pela exploração científica. Não é coincidência, Reilly observa, que as grandes descobertas do mundo árabe ocorreram antes do despertar do poder islâmico. Nem é surpreendente que o desenvolvimento das nações islâmicas esteja bastante atrás das ocidentais.
Infelizmente, a vitória acharita foi, ao que tudo indica, definitiva, porque uma vez afastada a razão, não há mais maneira de resolver disputas além da imposição da força. O Islã tornou-se uma fé inteiramente definida pela prática da vontade: a vontade de Alá. Se um mutazilita ousasse sugerir que o Corão deveria ser examinado pelo prisma da razão, os acharitas o acusariam de haver blasfemado contra a fé, e sua vida estaria em perigo.
O Papa Bento usou de uma estratégia muito interessante quando sugeriu, em seu famoso discurso em Ratisbona, que o Islã, tal como o Cristianismo, deveria sujeitar-se aos princípios da razão. O Santo Padre estava oferecendo um diálogo sério com quaisquer líderes muçulmanos desejosos de defender a causa mutazilita.
O Papa certamente sabe que seria perigoso a qualquer erudito islâmico seguir aquele caminho. Mas no atual estado de coisas, o mundo inteiro está seguindo um caminho perigoso, em direção a uma confrontação entre o Islã e o Ocidente. Seria obviamente melhor evitar um conflito violento. Mas se queremos evitar a violência, devemos ter outros meios de resolver os desentendimentos. Antes de iniciar um diálogo produtivo com o Islã, devemos encontrar interlocutores que tratarão esse diálogo com seriedade – que tratarão a razão com seriedade. O que entendo aqui por julgamento é dizer a verdade clara e inequivocamente, a colocação das coisas, boas e más, à luz que as permite aparecer como realmente são.”
(Philip Lawler, The Most Eye-Opening Book of 2010)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Lênin e a maçonaria

“Ainda não é possível determinar se Lênin já era maçom na década de 1890, mas ele trabalhava da mesma forma que os grupos subversivos. Os Illuminati, o Grande Oriente, a B'nai B'rith (Filhos da Aliança) e outras lojas maçônicas estavam interessados em agitar os trabalhadores para o alcance de certos objetivos “úteis”.
Importa destacar que Lênin e seus carrascos não trabalhavam para viver. Eles podiam se permitir viagens pela Europa (então mais caras do que em nossos dias) e viver luxuosamente. Esses revolucionários profissionais tinham apenas uma tarefa – agitar os trabalhadores. As atividades posteriores de Lênin mostram claramente como ele seguia a linha de Adam Weishaupt.
Várias fontes revelam que Lênin tornou-se um maçom quando viveu no exterior em 1908. Uma dessas fontes é uma investigação completa: “Da Maçonaria no Exílio Russo” de Nikolai Svitkov, publicado em Paris em 1932. Segundo Svitkov, os mais importantes maçons da Rússia eram Vladimir Ulyanov - Lênin, Leon Trotsky (Leiba Bronstein), Grigori Zinoviev (Gerson Radomyslsky), Leon Kamenev (na verdade Leiba Rosenfeld), Karl Radek (Tobiach Sobelsohn), Maxim Litvinov (Meyer Hennokh Wallakh), Yakov Sverdlov (Yankel-Aaron Solomon), L. Martov (Yuli Zederbaum) e Maxim Gorky (Alexei Peshkov), entre outros.
De acordo com o cientista político austríaco Karl Steinhauser, em sua obra “EG - Die Super-UdSSR von Morgen" ("União Européia – A Super União Soviética do Futuro”, Viena, 1992, p. 192), Lênin pertencia à loja maçônica Art et Travail (Arte e Trabalho). O famoso político britânico, Winston Churchill, também confirmou que Lênin e Trotsky pertenciam ao círculo dos conspiradores maçônicos e iluministas (Illustrated Sunday Herald, 8 de fevereiro de 1920).
Lênin, Zinoviev, Radek e Sverdlov também pertenciam à B'nai B'rith. Pesquisadores especialistas nas atividades da B'nai B'rith, como Schwartz-Bostunich, confirmam essa informação (Viktor Ostretsov, "Maçonaria, Cultura e História Russa", Moscou, 1999, pp. 582-583).
Lênin era um maçom de 31º grau (Grand Inspecteur Inquisiteur Commandeur) e membro da loja Art et Travail na Suíça e na França (Oleg Platonov, "A Coroa de Espinhos da Rússia: A História Secreta da Maçonaria", Moscou, 2000, parte II, p. 417). Quando Lênin visitou o quartel-general do Grande Oriente na Rue Cadet em Paris, ele assinou o livro de visitantes (Viktor Kuznetsov, "O Segredo do Golpe de Outubro", São Petersburgo, 2001, p. 42).
Junto com Trotsky, Lênin participou da Conferência Maçônica Internacional de Copenhague em 1910 (Franz Weissin, "Der Weg zum Sozialismus"/"O Caminho para o Socialismo", Munique, 1930, p. 9). A socialização da Europa estava na agenda.
Alexander Galpern, então secretário do Supremo Conselho Maçônico, confirmou em 1916 que havia bolchevistas entre os maçons. Posso ainda mencionar Nikolai Sukhanov (na verdade Himmer) e N. Sokolov. Segundo o testemunho de Galpern, os maçons também ajudaram Lênin financeiramente em sua atividade revolucionária. Isso foi comprovado por um conhecido maçom, Grigori Aronson, em seu artigo “Maçons na Política Russa”, publicado em Novoye Russkoye Slovo (New York, 8-12 de outubro de 1959). O historiador Boris Nikolayevsky também menciona isso em seu livro “Os Maçons Russos e a Revolução” (Moscou, 1990).
Em 1914, dois bolchevistas, Ivan Skvortsov-Stepanov e Grigori Petrovsky, contactaram o maçom Alexander Konovalov para obter ajuda econômica. Este se tornou um ministro durante o Governo Provisório.
A Rádio Rússia também falou sobre as atividades de Lênin como maçom em 12 de agosto de 1991.”
(Jüri Lina, Under the Sign of the Scorpion)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Duas correntes de pensamento oriundas da revolução francesa


“Podemos falar de duas correntes de pensamento e ação que procedem da Declaração dos Direitos do Homem: a corrente do Liberalismo rousseauniano-maçônico e a corrente do Socialismo, Coletivismo e Comunismo. A corrente do Liberalismo, é certo, já existia antes da Revolução Francesa – é a própria essência da filosofia de Locke, como vimos – mas foi bastante reforçada pela deificação maçônica do homem na Revolução. De acordo com a doutrina consagrada no simbolismo maçônico, todo homem, enquanto emanação da substância única, é um ser absolutamente independente. Todos os homens são, portanto, igualmente Deus, sujeitos a ninguém e completamente livres de quaisquer obrigações uns para com os outros. E o homem que nasce livre é indivíduo e animal, com suas necessidades materiais e suas paixões clamorosas. Como a ação desimpedida é uma exigência absoluta da natureza humana enquanto divina, é apenas visando garantir mais prontamente a maior soma possível de satisfações materiais que os seres humanos entram em sociedade. Se atentarmos cuidadosamente à doutrina da divindade imanente ou autonomia do homem como indivíduo expressa na Declaração, logo perceberemos que o primeiro artigo da Declaração, ou seja, “Os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos”, contribuiu bastante para reforçar as correntes opostas do Liberalismo e do Socialismo ou Comunismo. Nenhuma dessas teorias compreende a distinção entre o homem como pessoa e o homem como indivíduo (...).
Segundo a doutrina tomista, o homem é um membro individual da sociedade dotado de razão e conseqüentemente do poder do livre arbítrio, tendo em vista o desenvolvimento de sua personalidade por meio de sua adesão a Cristo. A partir do momento que um indivíduo humano se destina por sua natureza a viver em sociedade, ele tem o direito, como pessoa, de exigir da sociedade o mínimo do Bem Comum que o permitirá viver dignamente como pessoa humana, mas ele tem também os correspondentes deveres para com a sociedade e não pode se comportar como um todo autônomo, unicamente para o qual a sociedade existe. Portanto, como pessoas, todos os homens são iguais e têm direitos iguais àquele mínimo, mas embora iguais como pessoas, por serem membros da espécie humana e membros atuais ou potenciais de Cristo, os seres humanos são desiguais como indivíduos, devido à desigualdade de suas condições individuais. Seus direitos individuais concretos são, dessa maneira, desiguais. Toda organização da sociedade deve respeitar tanto a específica igualdade das pessoas humanas como a desigualdade individual dos indivíduos humanos.
É precisamente isso o que nem o Liberalismo nem o Socialismo conseguiram compreender. O Liberalismo destacou a primeira parte do Artigo I da Declaração de 1789, qual seja, “os homens nascem livres”. Cada homem com suas necessidades materiais e paixões é um todo autônomo, absolutamente livre, com liberdade irrestrita. O indivíduo é assim seu próprio fim para si mesmo, e o único objetivo da sociedade é manter essa autonomia. Na presença da desigualdade de condições, contudo, pela qual a pretensa liberdade incondicional é constantemente frustrada, o Liberalismo sacrifica o fraco ao forte e obriga o fraco a respeitar os contratos feitos com o forte por extrema necessidade, embora com todos os sinais exteriores da liberdade. O Liberalismo na prática sacrifica a igualdade fundamental das pessoas humanas. No começo do Liberalismo acreditava-se, com Adam Smith e Quesnay, que o respeito às “leis da natureza” levaria a um funcionamento esplendidamente harmonioso da sociedade. Com o passar do tempo, especialmente após a Revolução Francesa e diante das injustiças gritantes dos resultados da “liberdade”, tudo que se podia afirmar, com Malthus e Ricardo, era que embora as coisas estivessem ruins, qualquer tentativa de interferência nas “leis da natureza” levaria a males ainda piores.
A opressão dos fracos pelos fortes levou à coalizão dos fracos na tentativa de defender os direitos fundamentais da natureza humana, na qual todos são iguais. Infelizmente, a liderança da reação foi tomada pelos socialistas e comunistas impregnados com a mesma doutrina revolucionária da “autonomia do indivíduo”. Eles inauguraram um sistema tão anti-social quanto o outro, ressaltando a segunda parte do Artigo I da Declaração, ou seja, “os homens nascem iguais”. Em nome da igualdade essencial da natureza humana eles pretendiam suprimir a desigualdade acidental e inevitável das condições humanas. A única maneira de conseguir isso era suprimir a presente organização da sociedade na qual a lei mantém a desigualdade de condições, principalmente através da propriedade privada, e reconstruir uma sociedade na qual todos os cidadãos seriam iguais não apenas de jure mas de facto. Nessa sociedade ideal, o Estado deverá possuir tudo e obrigar todos, sem distinção de classes, a trabalharem pelo Bem Comum, distribuindo a cada um seu quinhão devido da riqueza comum.
Os liberais estão certos em admitir, opondo-se aos socialistas e comunistas, a natural desigualdade das condições humanas, mas sua falsa doutrina da autonomia do indivíduo, ou seja, da liberdade incondicional de uma criatura decaída, leva na prática à negação dos direitos dos seres humanos à maioria.
Por seu lado, em nome da mesma falsa doutrina, os socialistas e comunistas querem suprimir a desigualdade de condições. Todos são igualmente homens, querendo eles dizer com isso indivíduos autônomos, e para se chegar à igualdade deve-se reorganizar a sociedade com base na supressão das desigualdades. Como a propriedade privada é a principal causa das desigualdades, deve-se começar pela sua supressão. Dado o falso fundamento de ambas doutrinas, que é a deificação rousseauniana-maçônica do indivíduo, não há solução para o problema. Se a sociedade for, como a Declaração de 1789 e o Contrato Social de Rousseau supõem, uma simples justaposição material de indivíduos autônomos, então, ou em nome da liberdade os fortes oprimirão os fracos, ou em nome da igualdade os manipuladores da coalizão oprimirão a todos. Em ambos os casos, os homens serão tratados como meros indivíduos, não como pessoas.
Uma vez que o único objetivo da sociedade, de acordo com os princípios de 1789, é permitir que os indivíduos se entretenham livremente como deuses sem qualquer restrição, é óbvio que todo Estado deve ser projetado nos termos do Contrato Social de Rousseau. Um tal Estado será composto exclusivamente de indivíduos que são unidades aritmeticamente iguais e completamente independentes umas das outras, sob um governo emanado da soma das vontades individuais. Da mesma forma, toda sociedade distinta do Estado deve ser dissolvida e o trabalho de destruição não deve cessar até que o Estado governe sobre partículas de poeira humana. As Corporações ou Guildas foram-se primeiro. Os Decretos Chapelier de junho de 1791 cuidaram disso. Então o ataque à família por meio das leis naturalistas do divórcio, leis regulando a herança de propriedade, leis sobre a escola, completaram o trabalho corruptor iniciado pelo individualismo protestante. Como o Socialismo e o Comunismo aceitaram o mesmo princípio desintegrador do indivíduo enquanto Deus, eles mantiveram esse ataque à família, ainda que tentassem, com sindicatos e cooperativas, proteger os trabalhadores das conseqüências do individualismo. Esses expedientes temporários destinam-se a dissolver-se tão logo o Estado Comunista esteja montado. Assim, a mesma forma de Estado onipotente e onívoro, no qual os homens serão tratados como meros indivíduos, será a conseqüência lógica das duas correntes originadas nos princípios de 1789.”
(Rev. Denis Fahey, C.S.Sp, The Mystical Body of Christ and the Reorganization of Society)