domingo, 29 de agosto de 2010

Partícipes da natureza divina


“Mas se verdadeiramente nos tornamos partícipes da natureza divina e intimamente semelhantes a ela pelo fato de nossa sobrenatureza até ela se elevar, então fomos também levados ao âmbito de sua vida; então Deus imediatamente e em Sua própria natureza, como Ele é em Si mesmo, torna-se o objeto de nossa atividade. Então, iluminados por Sua luz, nós O conheceremos ao chegarmos à Sua presença; não mais estaremos limitados a vê-Lo no espelho da criação. Permeados pelo fogo de Deus e elevados a Seu parentesco, nós O abraçaremos diretamente com nosso amor; pois O amaremos como Deus que comunica Sua natureza a nós, não meramente como o Criador de nossa natureza. Nossa confiança será dirigida exclusivamente a Deus como Ele é em Seu próprio poder divino e transcendente a toda criação, pelo qual Ele nos leva em direção a um fim que nenhum poder criado pode atingir ou impedir, pelo qual Ele quer nos trazer à posse de Si em Sua divina glória; e assim repousaremos no coração de nosso Pai. Em suma, se nos tornamos partícipes da natureza divina, nossas vidas e nossa atividade devem ser especificamente semelhantes às de Deus. Nossa atividade deve, portanto, ter o mesmo objeto formal e específico que caracteriza a atividade divina. A essência divina deve ser o objeto e o motivo imediato e determinante da atividade sobrenatural em nossas vidas.”
(Matthias Scheeben, Natur und Gnade)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Oração de Santo Afonso de Ligório a Nossa Senhora


“Ó doce Soberana, vós, conforme a expressão de S. Boaventura, arrebatais os corações dos que vos servem, cumulando-os de vossa ternura e liberalidade. Eu vos suplico: arrebatai-me também o meu pobre coração que muito deseja amar-vos. Pela vossa beleza, ó minha Mãe, atraístes o vosso Deus, ao ponto de fazê-lo descer do céu à terra; e eu viverei sem vos amar? Não; antes vos digo com vosso amante filho João Berchmans: “não me darei repouso, enquanto não tiver obtido amor terno e constante a vós, ó minha Mãe”, que com tanta ternura me tendes amado, ainda quando eu não vos amava. E que seria de mim, se vós, ó Maria, não me tivésseis amado e alcançado tantas misericórdias? Se, pois, me amastes quando eu não a amava, que devo esperar da vossa bondade agora que vos amo? Sim, amo-vos, ó minha Mãe, e quisera ter um coração capaz de vos amar por todos os infelizes que não vos amam. Quisera ter uma língua capaz de louvar-vos por mil línguas, para fazer conhecer a todo mundo a vossa grandeza, a vossa santidade, a vossa misericórdia, e o amor com que amais os que vos amam. Se tivera riquezas, todas quisera empregar em vos honrar; se tivera súditos, todos quisera fossem cheios de amor para convosco; quisera enfim sacrificar pelo vosso amor e glória, se fosse mister, até a minha vida! – Amo-vos, pois, ó minha Mãe; mas ao mesmo tempo receio que vos não ame, porque ouço dizer que o amor faz os que amam semelhantes à pessoa amada. Devo então crer que bem pouco vos amo, vendo-me tão longe de parecer convosco. Vós sois tão pura, eu tão imundo! Vós tão humilde, eu tão soberbo! Vós tão santa, eu tão mau! Mas isto, ó Maria, é o que vós haveis de fazer: já que me tendes tanto amor, tornai-me semelhante a vós. Para mudar os corações, tendes todo o poder; tomai, pois, o meu e mudai-o. Conheça o mundo o que podeis em favor dos que amais. Tornai-me santo e fazei-me digno filho vosso. Assim espero, assim seja.”
(Sto. Afonso de Ligório, Le Glorie di Maria)

Tradução do Pe. Geraldo Pires de Sousa

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nossa Senhora, a descobridora da graça


“Na afirmativa de S. Bernardino de Sena, Deus não destruiu o homem logo após o pecado, devido ao singular amor para com esta sua futura filha. Não lhe resta a menor dúvida de que todas as misericórdias e mercês, em favor dos pecadores na Antiga Lei, só lhes tinham sido feitas por Deus em consideração desta abençoada Virgem.
Exorta-nos por isso, com razão, S. Bernardo: Procuremos a graça, mas procuremo-la por meio de Maria. Se formos tão infelizes, que perdemos a divina graça, procuremos recuperá-la por meio de Maria; porque se a perdemos ela a achou. E por este motivo o santo lhe chama descobridora da graça. Para nossa consolação declarou-o S. Gabriel Arcanjo, quando disse à Virgem: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus (Lc 1, 30).
Mas, se Maria nunca se vira privada da graça, como podia dizer o anjo que a tinha achado? Só se pode achar uma coisa que se perdeu. A Virgem, entretanto, sempre esteve com Deus e não só em graça, mas cheia de graça, como o mesmo arcanjo manifestou, quando, ao saudá-la, lhe disse: Ave, Maria, cheia de graça; o Senhor é contigo...
Logo, se Maria não achou a graça para si, porque sempre dela esteve cheia, para quem a achou? Responde o Cardeal Hugo, num comentário a este passo: Achou-a para os pecadores que a tinham perdido. Corram, pois, a Maria os pecadores que perderam a graça, porque em seu poder a acharão certamente, continua este devoto escritor, e digam-lhe: Senhora, a coisa achada deve-se restituir a quem a perdeu; aquela graça, que vós achastes, não é vossa, porque nunca a perdestes; é nossa, porque a perdemos, por isso no-la deveis restituir. Se, pois, desejamos recuperar a graça do Senhor – conclui Ricardo de S. Lourenço – vamos a Maria, que a encontrou e sempre a encontra. E já que a Virgem foi e sempre há de ser muito querida por Deus, se a ela recorremos, certamente acharemos a graça. A própria Mãe de Deus garante-nos, em os Sagrados Cânticos, que Deus a pôs no mundo para ser a nossa defesa e por isso também está constituída medianeira de paz entre Deus e os pecadores. “Eu me tenho na sua presença (de Deus) tornado como uma que acha a paz” (8, 10). Com estas mesmas palavras anima S. Bernardo o pecador, dizendo: Vai ter com esta Mãe de Misericórdia e mostra-lhe as chagas que na alma te fizeram os teus pecados. Ela não deixará de rogar a seu Filho que te perdoe, por aquele leite que lhe deu; e o Filho, que tanto a ama, atendê-la-á com toda a certeza. – Com efeito, a Santa Igreja nos manda pedir ao Senhor que nos conceda o poderoso socorro da intercessão de Maria, para que nos levantemos de nossos pecados. “Concedei, misericordioso Senhor, fortaleza à nossa fraqueza, para que nós, que celebramos a memória da Santa Mãe de Deus, pelo auxílio de sua intercessão, nos levantemos de nossas iniqüidades”.”
(Sto. Afonso de Ligório, Le Glorie di Maria)

Tradução do Pe. Geraldo Pires de Sousa

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Hannah Arendt e as contradições de Karl Marx


“É no estudo da utopia marxista que as contradições presentes no pensamento de Marx revelam-se. E isso é uma decorrência do fato de ter este pensador se rebelado contra a tradição e ficado, ao mesmo tempo, preso a ela. Para Arendt, encontram-se presentes, na obra de Marx, três proposições-chave, a partir das quais ele desafia algumas das principais verdades tradicionais: o trabalho (labor) criou o homem; a violência é a parteira da história e, finalmente, não se pode realizar a filosofia sem superá-la.
Implícitas na proposição de que o trabalho (labor) criou o homem estão quatro insurreições de Marx contra a tradição: foi o trabalho que criou o homem e não Deus; o homem cria a sua própria humanidade através do trabalho; o homem não é um animal rationale e distingue-se do animal não pela razão, mas, sim, pelo trabalho; e, finalmente, é o trabalho, a atividade mais desprezada pela tradição, que deve ser glorificado como o atributo máximo do homem. “Marx desafia assim o Deus tradicional, o juízo tradicional pelo trabalho e a tradicional glorificação da razão.”
Com a proposição: a violência é a parteira da história, Marx enaltece a violência, insurgindo-se, assim, contra a tradição, que acreditava ser a violência “a ultima ratio nas relações entre as nações”, a mais vergonhosa entre as ações domésticas e uma característica da tirania. Desafiava, também, a crença tradicional no discurso enquanto a forma mais humana de relacionamento entre os homens.
A identificação marxista da ação com violência implica em outro desafio fundamental à tradição, o qual pode ser mais difícil de perceber, mas do que Marx, que conhecia Aristóteles muito, deve ter sido cônscio. A dupla definição aristotélica do homem como um zôon politikón e um zôon lógon ékhon, um ser que atinge sua possibilidade máxima na faculdade do discurso e na vida em uma polis, destinava-se a distinguir os gregos dos bárbaros, e o homem livre do escravo. A distinção consistia em que os gregos, convivendo em uma polis, conduziam seus negócios por intermédio do discurso, através da persuasão (péthein), e não por meio de violência e através da coerção muda. [...] A glorificação da violência por Marx continha portanto a mais específica negação do lógos, do discurso, a forma de relacionamento que lhe é diametralmente oposta e, tradicionalmente, a mais humana.
O desafio de Marx à tradição, expresso na proposição de que não se pode superar a filosofia sem realizá-la, é o de que a filosofia deve concretizar-se no mundo dos negócios humanos, de tal forma que este “tornar-se-á um dia idêntico ao domínio de idéias em que o filósofo se move, ou de que a Filosofia, que sempre foi ‘para os eleitos’, tornar-se-á um dia a realidade do senso comum para todos”.
Para Arendt, cada uma dessas proposições contém uma contradição fundamental, quando é considerada a partir da sociedade idealizada por Marx. Se o trabalho criou o homem e é, entre todas as atividades, a mais humana, devendo, por isso, ser glorificada, o que acontecerá quando ele for abolido da sociedade utópica? Se a violência é a parteira da história e, assim, o fundamento da ação humana, que tipo de ação restará aos homens quando a utopia for realizada? Se a filosofia deve consumar-se na realidade e ser, assim, abolida, o que restará da atividade do pensamento, na sociedade socializada?”
(Eugênia Sales Wagner, Hannah Arendt e Karl Marx: O Mundo do Trabalho)

http://advhaereses.blogspot.com/2010/08/totalitarismos-comunistas-nao-foram.html

terça-feira, 17 de agosto de 2010

As idéias insanas de Friedrich Nietzsche


“Friedrich Nietzsche chamava-se a si mesmo de “o Anticristo”, e escreveu um livro com esse título. Argumentava em favor do ateísmo nestes termos: “Irei agora refutar a existência de todos os deuses. Se houvesse deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Logo, não há deuses.”
Menosprezava tanto a razão quanto a fé, muitas vezes deliberadamente contradizia-se a si mesmo, afirmava que “um escárnio é infinitamente mais nobre do que um silogismo” e recorria à paixão, à retórica e até mesmo ao ódio intencional ao invés da razão.
Via o amor como o “maior dos perigos” e a moral como a pior das fraquezas da humanidade. Morreu louco, em um asilo, de sífilis – assinando suas últimas cartas como “o Crucificado”. Foi adorado pelos nazistas como seu filósofo semi-oficial.
No entanto, ele é admirado como profundo e sábio por muitas das maiores mentes de nosso século. Como se explica isso?
Existem três escolas de pensamento a respeito de Nietzsche. A mais popular entre os acadêmicos é a dos “nietzscheanos gentis”, que afirmam ter sido Nietzsche, na verdade, um cordeiro em pele de lobo; que seus ataques não deveriam ser tomados ao pé da letra e que ele foi na verdade um aliado, não um inimigo, das instituições e dos valores ocidentais que denunciou.
Esses eruditos parecem-se com os teólogos que interpretam as palavras de Jesus assim: “ninguém pode ir ao Pai senão através de mim”, como “todas as religiões são igualmente válidas” e “quem se casa com uma mulher divorciada comete adultério” como “sejam vossos divórcios criativos e razoáveis”.
Depois, há os “terríveis” nietzscheanos. Eles pelo menos prestam homenagem a Nietzsche ao levá-lo a sério. São tipificados em nota de rodapé de um antigo manual católico sobre filosofia moderna, que apenas mencionava ter Nietzsche existido, sido um ateísta e morrido louco – um destino que bem pode aguardar todos aqueles que passam muito tempo investigando seus livros.
Uma terceira escola de pensamento vê em Nietzsche realmente um lobo e não um cordeiro, mas também um pensador de grande importância, por ter mostrado à civilização ocidental seu próprio coração escuro e seu futuro. É fácil usar de bodes expiatórios e apontar o dedo para “ovelhas negras” como Nietzsche e Hitler, mas não haveria um “Hitler dentro de nós mesmos” (para citar uma expressão de Max Picard)? Não deixou Nietzsche sair o gato de dentro do saco? O gato demoníaco de dentro do saco respeitável do humanismo laicista? Se “Deus está morto”, também estão mortos o homem, a moral, o amor, a liberdade, a esperança, a democracia, a alma e, por fim, a sanidade mental. Ninguém o demonstra mais cabalmente do que o próprio Nietzsche. Ele pode ter sido responsável (involuntariamente) por muitas conversões.
Os principais temas de Nietzsche podem ser resumidos nos títulos de seus livros principais. Cada um deles é, de certa forma, um ataque à fé. O centro da filosofia de Nietzsche é sempre o mesmo: ele está tão centrado em Cristo como estava Santo Agostinho, mas centrado em Cristo como seu inimigo.
O primeiro livro de Nietzsche, O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, revolucionou sozinho a visão então aceita dos gregos antigos como plenos de “encanto e luz”, razão e ordem. Para Nietzsche, os poetas trágicos foram os verdadeiros gregos, e os filósofos, começando por Sócrates, foram os menores, pálidos e desapaixonados. Todo o mundo ocidental havia seguido Sócrates e seu racionalismo e moralismo, e havia negado o outro lado do homem, mais escuro e trágico.
Ao invés, Nietzsche exaltou a tragédia, o caos, a desordem e a irracionalidade, simbolizados pelo deus Dionísio, deus do crescimento e das orgias bêbadas. Afirmava que Sócrates havia desencaminhado o mundo para o culto de Apolo, deus do sol, da luz, da ordem e da razão. Mas o destino de Dionísio, deus de Nietzsche, logo alcançaria o próprio Nietzsche; pois assim como Dionísio foi literalmente despedaçado pelos Titãs, monstros sobrenaturais do submundo, a mente de Nietzsche seria espatifada pelos seus próprios Titãs interiores.
O Uso e Abuso da História prosseguiu o tema do Dionisíaco versus o Apolíneo. O “abuso da história” é (de acordo com Nietzsche) a teoria, a ciência, a verdade objetiva. O uso correto da história é promover a “vida”. Vida e verdade, fogo e luz, Dionísio e Apolo, vontade e intelecto, são contrapostos. Aqui vemos Nietzsche se despedaçando, pois essas são as duas partes do eu.
Ecce Homo foi desavergonhado e pseudo-autobiográfico egoísmo. Embora tenha sido um simples carregador de maca na guerra, Nietzsche chama-se a si mesmo de um “velho artilheiro fanfarrão” adorado pelas mulheres. Na verdade, era um ancião solitário que não podia suportar a visão de sangue, um anão emocional pavoneando-se como Napoleão. O que mais assusta é que ele voluntariamente abraçou essa falsidade e fantasia. É consistente com sua filosofia de preferir “tudo que promova a vida” à verdade. “Por que não viver uma mentira?”, pergunta.
A Genealogia da Moral afirma que a moral foi invenção dos fracos (notadamente dos judeus e depois dos cristãos) para enfraquecer os fortes. Os cordeiros convenceram o lobo a agir como um cordeiro. Isso não é natural, defende Nietzsche, e ver a origem não natural da moral no ressentimento pela inferioridade vai-nos livrar de seu poder sobre nós.
Além do Bem e do Mal é a moral alternativa de Nietzsche, ou “nova moral”. A “moral de senhor” é totalmente diferente da “moral de escravo”, diz. Tudo que um senhor ordena torna-se bom pelo simples fato de que o senhor o ordena. O fraco rebanho tem uma moral de obediência e conformidade. Os senhores têm o direito natural de fazer o que bem quiserem, pois não havendo mais Deus, tudo é permitido.
O Crepúsculo dos Ídolos explora as conseqüências da “morte de Deus”. (É claro que Deus na verdade jamais existiu, e sim a fé nele - e é ela que hoje está morta, diz Nietzsche.) Com Deus morrem todas as verdades objetivas (pois não há mente acima da nossa) e todos os valores, leis e morais objetivas (pois não há vontade acima da nossa). A alma, o livre-arbítrio, a imortalidade, a razão, a ordem, o amor – todos esses são “ídolos”, pequenos deuses que estão morrendo depois que o Grande Deus morreu.
Que substituirá a Deus? O mesmo ser que substituirá ao homem: o Super-homem. A obra-prima de Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, celebra esse novo deus.
Nietzsche chamava o Zaratustra de a nova Bíblia, e recomendava ao mundo que “jogasse fora todos os outros livros; vocês têm meu Zaratustra.” É retórica inebriante, e cativou gerações de adolescentes. Foi escrito em poucos dias sob um frenesi, talvez, de “escrita automática” literalmente inspirada pelo demônio. Nenhum livro jamais escrito contém mais arquétipos junguianos, como um show de fogos-de-artifício de imagens do inconsciente.
Sua principal mensagem é a condenação do homem moderno como um fraco e o anúncio da nova espécie, o Super-homem, que vive segundo a “moral de senhor” ao invés da “moral de escravo”. Deus está morto, viva o novo deus!
Mas em O Eterno Retorno, Nietzsche descobre que todos os deuses morrem, até mesmo o Super-homem. Acreditava que toda a história necessariamente se movia em um ciclo, infinitamente repetindo todos os eventos passados - “Nada há de novo sob o sol.” Nietzsche deduziu essa conclusão evanescente de duas premissas: (1) de uma quantidade finita de matéria e (2) de uma quantidade infinita de tempo (pois não há nem criador, nem criatura); assim, toda possível combinação de partículas elementares, todos os mundos possíveis, ocorrem um infinito número de vezes, dado o tempo infinito. Tudo, mesmo o Super-homem, retornará ao pó, e evoluirá a verme, macaco, homem e Super-homem vezes sem fim.
Ao invés de desesperar, como o Eclesiastes, diante dessa nova história sem esperança, Nietzsche aproveitou a oportunidade para celebrar a irracionalidade da história e o triunfo da “vida” sobre a lógica. A virtude suprema era a coragem da vontade em afirmar essa vida sem sentido, para além da razão e por motivo nenhum.
Mas na última obra de Nietzsche, A Vontade de Poder, a ausência de um fim ou objetivo aparece como demoníaca, e espelha o caráter demoníaco da mente moderna. Sem Deus, um céu, verdade, ou um Bem supremo a desejar, o sentido da vida se torna simplesmente em “vontade de poder”. O poder se torna seu próprio fim, não um meio. A vida é como uma bolha, vazia por dentro e por fora; mas seu sentido é a auto-afirmação, o egoísmo, soprar sua bolha, expandir o eu sem sentido pelo vazio sem sentido. “Só queira”, é o conselho de Nietzsche. Não importa o quê ou por quê.
Agora estamos em condição de perceber por que Nietzsche é um pensador tão crucial, não apesar, mas por causa de sua insanidade. Ninguém na história, com a possível exceção do Marquês de Sade, jamais formulou tão clara, inocente e consistentemente a completa alternativa ao Cristianismo.
As sociedades e filosofias pré-cristãs (i.e., pagãs) eram como virgens. As sociedades e filosofias pós-cristãs são como divorciados. Nietzsche não é nenhum pagão pré-cristão, mas o pós- e anti-cristão moderno em sua essência. Viu Cristo corretamente como seu principal inimigo e rival. O espírito do Anticristo jamais recebeu uma elaboração tão completa. Nietzsche foi não apenas o filósofo favorito da Alemanha Nazista; ele é também o filósofo favorito do inferno.
Devemos ser gratos à tolice de Satanás em “entregar-se” neste homem. Assim como o Nazismo, Nietzsche provavelmente nos assusta de morte e ajuda a salvar nossa civilização, ou até mesmo nossas almas, ao nos afastar pelo terror antes que seja tarde demais.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief - Nietzsche)

sábado, 14 de agosto de 2010

O triunfo do positivismo jurídico leva ao estado totalitário


“O triunfo do positivismo jurídico teve desdobramentos práticos imediatos, desde que derrotou a visão aristotélica do direito natural. O momento crucial desse processo combinou a consolidação dos Estados nacionais modernos com as obras de Maquiavel, na ciência política, e a de Hobbes, no âmbito estrito da filosofia política. Estamos aqui no período que media o século XIV e o século XVII. É a fundação da modernidade.
O que separa os modernos dos antigos é basicamente a noção de que a justiça, e, portanto, o direito, surge antes do homem, tem raiz transcendente. Era esse ponto que opunha Platão a todos os sofistas. Reconhecer que o fundamento do direito estava na lei natural e que esta está além do homem, não é por ele criada, mas descoberta, foi o salto mais sensacional do filósofo, só comparável à verdade revelada das Escrituras. Desde então, a história do direito caminhou para o reconhecimento do telos oriundo da lei natural e os governantes esforçavam-se para estar de acordo com ela. Essa visão de mundo mudou novamente por ocasião do Renascimento.
A descoberta da lei natural é a síntese do processo civilizatório, que terá no cristianismo o apogeu e o mecanismo para se espalhar pelo mundo. O direito romano é filho de Aristóteles e, ainda que nos aspectos meramente formais, ele persiste até nossos dias. Reminiscência de um tempo de inteireza da alma.
Aristóteles deu um passo além, ao mostrar que o direito comportava múltiplas e variadas formas, sem todavia perder a sua raiz transcendente, a lei natural. O direito é para ele uma ciência, portanto produto da observação humana. Do mesmo jeito, as formas de governo podiam variar, mas a filosofia tinha os meios para orientar os atores políticos na busca da verdadeira justiça. Os períodos de caos eram justamente aqueles em que a justiça ficava ofuscada ou negada por governantes ignorantes e aventureiros, que precisavam ser removidos.
Poder e direito derivavam, em última análise, da autoridade divina. A demagogia sofista de que todo poder supostamente emana do povo foi derrogada por esses dois filósofos, ressuscitando apenas nos tempos modernos. Essa demagogia é a crença que se instalou nos novos Estado nacionais, quando o ateísmo passou a instruir os governantes.
É longa a história do positivismo jurídico, mas a sua essência é que ele usurpa a autoridade da lei natural para a lei humana positiva, como se fossem uma única e mesma coisa. A partir daí, criou-se o caminho para o totalitarismo como forma de governo, fundado no correspondente niilismo moral. A única ética a prevalecer agora é a ética cínica da tomada do poder e da sua manutenção. “Os fins justificam os meios”, escreveu Maquiavel, ecoando para os tempos vindouros.
Mas Maquiavel não era burro. Na sua filosofia ainda havia um elemento transcendente vinculando a ação humana, a Fortuna, ou a Roda da Fortuna. A metáfora de que o novo príncipe deveria dominá-la, como a uma mulher, não passou de tirada nada espirituosa e de mau gosto do florentino. Ele sempre soube que a Roda da Fortuna era encimada por um anjo dividido entre o bem e o mal.
Esse elemento transcendente perdeu-se na pena de seus sucessores. Já em Hobbes deixou de existir e, no seu lugar, foi posta a ficção dos direitos naturais estóicos, os assim chamados direitos de primeira geração. Aqui foram fundados o comunismo e o liberalismo, irmãos siameses da modernidade, filhos da mesma base filosófica.
Hobbes sabia do monstro que estava criando, o Leviatã, e por isso mesmo tentou, ainda nos primórdios da loucura da modernidade, instituir os limites do Estado, em contraponto ao indivíduo. Intuiu o que estava por vir. Locke tomará essa idéia e formatará o liberalismo clássico, consagrando a propriedade privada e propondo a separação enfática entre o poder econômico e o poder político. Sim, há uma grande generosidade e mesmo uma sabedoria nessa proposição, mas ela foi derrotada justamente porque, produto da engenharia humana, foi por outra soterrada.
O liberalismo político morreu. Basta ver o tamanho que os Estados nacionais alcançaram atualmente, meça-se por qualquer critério: PIB, número de funcionários, poder de polícia. Toda a vida prática agora é contingente do poder de Estado. Não há mais vida fora do Estado. Somos todos escravos do Leviatã.
O liberalismo econômico também morreu por falta de adeptos. No mundo inteiro os partidos políticos competitivos, capazes de tomarem as rédeas do poder, são defensores de variantes das ideologias coletivistas. O liberalismo não é páreo real nas campanhas eleitorais.
O liberalismo político morreu porque perdeu a batalha com Rousseau e seus sucessores coletivistas. Se o Estado pode tudo e se ele é produto da razão humana, nada mais natural que se procure a perfectibilidade em vida. Afinal, a lei pode tudo, inclusive ignorar os perigos e riscos da existência humana, a realidade imediata do homem. Declararam-se os direitos do homem e a esquizofrenia apossou-se de todos os sistemas jurídicos. É Rousseau triunfante que fala nessas declarações demagógicas.
A agonia da grande crise atualmente em curso mostra a loucura dessa visão de mundo. O que se passa na Grécia e na União Européia não traz bons presságios. O que se passa nos EUA também. No cerne da crise a esfinge que pede para ser decifrada: o Estado nacional e seu direito autofágico.
A conseqüência é a judicialização de tudo, agora centralizado no Estado. A moeda passou a ser criada por lei, deixou de ser natural; empregos agora são cada vez mais dádiva do poder de Estado, seja diretamente, na multidão de funcionários que contrata, seja por patrocinar o “desenvolvimento”, quer dizer, bancar, de todas as formas, a oligopolização dos setores produtivos, destruindo as pequenas e médias empresas. Os setores produtivos agora são dependentes de financiamentos, regulação, compras e da boa vontade do Estado. Nada acontece fora do Estado.
A desproporção de poder entre as criaturas humanas e o Estado nunca foi tamanha. Será talvez por isso que as prisões foram multiplicadas e a população encarcerada está alçando cifras nunca antes vistas. A perfeição do positivismo jurídico é o Estado-prisão, sempre perfectibilista, todo poderoso, agora totalitário na mais temível forma: dentro da legalidade, mesmo legitimado pela estupidez das massas adestradas para o socialismo.
Uma antiga definição de Estado é a de que ele é violência organizada. Se olharmos como as polícias foram multiplicadas e aparelhadas é que veremos como esse poder hoje se coloca de forma esmagadora diante do indivíduo isolado. As novas tecnologias alavancaram esse processo de expansão ao paroxismo. O grande inimigo do homem agora é o próprio Estado do qual é súdito, que dispõe a bel prazer de sua renda, de sua liberdade, de seus empregos, de suas vontades, de sua riqueza.
O homem deixou de ser sujeito para ser uma simples massa de moldar nas mãos dos servos do Estado, a vasta burocracia que se esforça, a cada dia, para transformar a terra no inferno, prometendo o paraíso: a supressão dos riscos, desde que ele disponha do poder total.
Valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo! Livre-nos da Terceira Tentação!”
(José Nivaldo Cordeiro, Autofagia do Direito)

http://www.nivaldocordeiro.net/autofagiadodireito

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Perotinus: Sederunt Principes

Do Coral Gregoriano à Ars Nova


“Nossa literatura, nossas artes plásticas, nossa filosofia seriam incompreensíveis sem o conhecimento dos seus fundamentos greco-romanos. Mas não acontece o mesmo com a nossa música. Esse produto autônomo da civilização ocidental moderna não tem suas origens na Antiguidade que se costuma chamar clássica. Quando muito, alguns germes da evolução posterior ficam escondidos num outro fenômeno musical, à maneira de documentos sepultados nos fundamentos de uma catedral ou outra construção multissecular. Esse fenômeno, de importância realmente fundamental, é o Coral Gregoriano, o cantochão, o canto litúrgico da Igreja Romana.
Sem dúvida, escondem-se nas melodias do cantochão fragmentos dos hinos cantados nos templos gregos e dos salmos que acompanhavam o culto no Templo de Jerusalém. Não podemos, porém, apreciar a proporção em que esses elementos entraram no cantochão. Tampouco nos ajuda, para tanto, o estudo das liturgias que precederam a reforma do canto eclesiástico pelo Papa Gregório I: das liturgias da Igreja oriental; da liturgia galicana, já desaparecida; da liturgia ambrosiana, que se canta até hoje na arquidiocese de Milão; e da liturgia visigótica ou mozárabe que, por privilégio especial, sobrevive em algumas igrejas da cidade de Toledo. A única música litúrgica católica que conta para o Ocidente é o Coral Gregoriano, a liturgia à qual Gregório I o Grande (590-604) concedeu espécie de monopólio na Igreja Romana.
O Coral Gregoriano não é obra do grande Papa. A atribuição a ele só data de 873 (Johannes Diaconus). Então, o que se cantava na Schola Cantorum de Roma já não era exatamente o mesmo como no fim do século VI. O cantochão sofreu, durante os muitos séculos de sua existência, numerosas modificações, quase sempre para o pior. Aos monges do mosteiro de Solesmes e a outros beneméritos da Ordem de São Bento deve-se, porém, em nosso tempo, o restabelecimento dos textos originais. São estas as melodias litúrgicas que se cantam, diariamente, em Solesmes e em Beuron, em Maria Laach e em Clervaux e em todos os conventos beneditinos do Velho Mundo e do Novo; e se cantarão, esperamos, até a consumação dos séculos. É a mais antiga música ainda em uso.
As qualidades características do Coral Gregoriano são a inesgotável riqueza melódica, o ritmo puramente prosódico, subordinado ao texto, dispensando a separação dos compassos pelo risco, e a rigorosa homofonia: o cantochão, por mais numeroso que seja o coro que o executa, sempre é cantado em uníssono, a uma voz. Nossa música, porém, é muito menos rica em matéria melódica; procede rigorosamente conforme o ritmo prescrito; e, a não ser a música mais simples para uso popular ou das crianças, sempre se caracteriza pela diversidade das vozes, sejam linhas melódicas polifonicamente coordenadas, sejam acordes que acompanham uma voz principal. Nossa música é, em todos os seus elementos, fundamentalmente diferente do cantochão, que parece pertencer a um outro mundo. Realmente pertence, histórica como teologicamente, a um outro mundo; é a música dos céus e de um passado imensamente remoto.
Outra força “subversiva” foi a presença da música profana: a poesia lírica aristocrática dos Troubadours, cantada nos castelos, e a poesia lírica popular, cantada nas aldeias. Uma canção popular inglesa, guardada num manuscrito do começo do século XIII, o Cuckoo-Song (“Sumer is i-cumen in...”), é um cânone a 6 vozes, isto é, as 6 vozes entram sucessivamente, à distância de poucos compassos, com a mesma melodia. Evidentemente havia mais outras canções assim: ao cantochão Gregoriano, rigorosamente homófono, opõe o povo a polifonia; e esta entrará nas igrejas. Aquele cânone é, não por acaso, uma canção de verão. Assim como nos célebres murais do Campo Santo de Pisa os eremitas e ascetas saem dos seus cubículos para respirar um ar diferente, assim começa também na música contemporânea o verão da alta Idade Média.
Essa música foi, mais tarde, chamada de Ars Antiqua. Mas “antiga” ela só é em relação a outra, posterior: a Ars Nova. No século XIII, Ars Antiqua era nova; é a arte que pertence à chamada “Renascença do século XIII”, florescimento das cidades e construção das catedrais, vida nova nas Universidades, tradução de Aristóteles e de escritos árabes para o latim e elaboração da grande síntese filosófica de São Tomás de Aquino.
Houve, dentro do Coral Gregoriano, o germe de uma evolução: a contradição entre a obrigação de acompanhar fielmente o texto litúrgico, à maneira de recitativo, e, por outro lado, a presença de tão rica matéria melódica, os “melismos” que se estendem longamente quase como coloraturas, sem consideração do valor da palavra. Essa contradição levaria à divisão das vozes: uma, recitando o texto; outra, ornando-o melodicamente. São essas as origens das primeiras tentativas de música polifônica, do Organum e do Discantus, detidamente estudados e descritos pelos historiadores; mas não nos preocuparão.
Os primeiros textos da Ars Antiqua foram encontrados na biblioteca da igreja de Saint-Martial, em Limoges. Mas o desenvolvimento dessa nova arte realizou-se na Schola Cantorum da catedral Notre-Dame de Paris. Registra-se a atividade de um magister Leoninus. Mas o grande nome da Ars Antiqua é seu discípulo e sucessor na direção daquela escola parisiense por volta de 1200, o magister Perotinus; na história da nossa música, é o primeiro compositor que sai da obscuridade do anonimato. Várias obras de Perotinus encontram-se no manuscrito H196 da biblioteca da Faculdade de Medicina de Montpellier e no Antiphonarium Mediceum da Biblioteca Laurenziana em Florença. São obras de uma polifonia rudimentar, blocos sonoros rudes como as pedras nas fachadas românicas de catedrais que mais tarde foram continuadas em estilo gótico. A impressão pode ser descrita como “majestosamente oca”. A ligação rigorosa da segunda voz à melodia gregoriana não permite a diversidade rítmica. Algumas dessas peças curtas, Quis tibi, Christe e Sederunt principes, foram modernamente gravadas em discos.
O “imobilismo” da Ars Antiqua explica-se pela insuficiência do sistema de notação atribuído ao monge Guido (ou Guittone) de Arezzo: todas as notas tinham o mesmo valor, a mesma duração, sem possibilidade de distinguir breves e longas. O primeiro grande progresso da Ars Nova, dos séculos XII e XIV, é o sistema mensural, que já se parece com o nosso sistema de notação: permite distinguir notas longas e menos longas, breves e mais breves; permitiu maior e, enfim, infinita diversidade do movimento melódico nas diferentes vozes. É um progresso que lembra as descobertas, naquela mesma época, da ciência matemática, pelas quais são responsáveis eruditos como Oresmius e outros grandes representantes do nominalismo, dessa última e já meio herética forma da filosofia escolástica.
A Ars Nova não é, simplesmente, o equivalente do estilo gótico na arquitetura. Precisava-se de séculos para construir as grandes catedrais. Quando estavam prontas (ou quando as construções foram, incompletas, abandonadas), já tinham mudado muito o estilo de pensar e o estilo de construir. A Ars Nova já corresponde à elaboração cada vez mais sutil do pensamento filosófico e das formas góticas. Os grandes teóricos da Ars Nova, o Bispo Philippus de Vitry e os outros, elaboram com precisão matemática as regras da arte de coordenar várias vozes diferentes sem ferir as exigências do ouvido por dissonâncias mais ásperas. São as regras do contraponto.
Eis a teoria. Na prática da Ars Nova influiu muito a música profana, inclusive a italiana do Trecento, de interesse histórico, mas sem possibilidades de ser hoje revivificada. O grande compositor da Ars Nova é Guillaume de Machaut (c. 1310-1377), que foi dignitário eclesiástico em Verdun e Reims, enfim na corte do Rei Charles V da França. Seu nome só figurava, durante séculos, na história literária da França: como poeta fecundo, autor de ballades, rondeaux e outras peças profanas. Machaut também escreveu para essas poesias a música: a 3 ou 4 vozes, da mesma maneira e no mesmo estilo em que escreveu motetes para 3 ou 4 vozes sobre textos litúrgicos. Uma obra de vulto e importância excepcionais é sua Messe du Sacre, escrita em 1367 para a coroação daquele rei na catedral de Reims. É uma data histórica. Machaut foi, parece, o primeiro que escolheu cinco partes fixas do texto da missa para pô-las em música: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus (com Benedictus) e Agnus Dei. Criou, dessa maneira, um esquema, uma forma musical de que os compositores se servirão, durante séculos, com a mesma assiduidade com que os músicos do século XIX escreverão sinfonias e quartetos. A Missa, naquele sentido musical, é a primeira grande criação da música ocidental; e a Messe du Sacre de Machaut é o primeiro exemplo do gênero. É a obra exemplar da Ars Nova, empregando as regras complicadas da arte contrapontística, sem evitar, porém, certas discordâncias sonoras que nos parecem, hoje, arcaicas ou então estranhamente modernas. É uma arte medieval, na qual se descobrem, porém, os germes da arte renascentista: é uma música que será autônoma. É o começo do ciclo de criação que em nossos dias acaba.”
(Otto Maria Carpeaux, Uma Nova História da Música)

domingo, 8 de agosto de 2010

O ataque à família cristã na França por meio do divórcio


“Sabemos que a união sacramental entre os esposos simboliza a união sobrenatural entre Cristo e Sua Igreja. Sendo assim, era inevitável que a Revolução Francesa naturalista atacaria o casamento cristão e introduziria o divórcio. O divórcio foi legalizado na França em 1792. Já em 1793 havia tantos divórcios quantos casamentos, e no ano VI houve mais. Napoleão manteve o divórcio. A Restauração o aboliu. A Terceira República planejou reintroduzi-lo. Um judeu, Naquet, o propôs em 1876. Foi rejeitado. Foi proposto de novo em 1881 e de novo rejeitado, mas em 1884 foi adotado. No Dictionnaire Larousse, Alfred Naquet aparece como o homem que fez a lei do divórcio ser votada.
Em 1885, ano seguinte à promulgação da lei, houve 4.123 divórcios. Em 1912 houve 14.579 contra 311.959 casamentos ou um divórcio para cada vinte e um casamentos. “Os oradores que falavam a favor da lei do divórcio no Senado e na Câmara dos Deputados,” escreve Mons. Delassus, “afirmavam que com a promulgação da lei ver-se-ia uma diminuição no número dos adultérios. Contudo o número de condenações por esse crime continuou crescendo. Eles também defendiam que o divórcio exerceria uma influência benéfica sobre o número de nascimentos. O número de nascimentos constantemente diminuiu. Eles proclamavam que o alívio dado aos desesperados levaria à diminuição no número dos que cometiam suicídio devido a problemas familiares. Em 1883, houve 1.108 de tais casos; em 1889, houve 1.404. E Monsieur Georges Michel escreveu, em um estudo especial sobre a questão em 1901, que havia de três a quatro vezes mais suicídios entre homens e mulheres divorciados do que entre pessoas casadas.””
(Rev. Denis Fahey, C.S.Sp, The Mystical Body of Christ and the Reorganization of Society)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Immanuel Kant e a verdade subjetiva


“Na história da filosofia, houve poucos pensadores tão ilegíveis e áridos como Immanuel Kant. Contudo, poucos tiveram um impacto tão devastador sobre o pensamento humano como ele.
Conta-se que Lumppe, o seu dedicado assistente, teria lido fielmente cada uma das publicações do mestre. Mas nem mesmo ele conseguiu ler a obra mais importante publicada pelo filósofo, A crítica da razão pura; na verdade, chegou a começar a leitura, mas interrompeu-a dizendo que, se tivesse de terminá-la, haveria de ser num hospital psiquiátrico. Desde então, muitos estudantes têm concordado com sua opinião.
No entanto, penso que esse professor abstrato, que escrevia em estilo abstrato sobre questões abstratas, é a fonte primária da idéia mais perigosa de todas para a fé (e, portanto, para as almas): a idéia de que a verdade é subjetiva.
Os simples cidadãos da sua Königsberg natal (atual Kaliningrado, Rússia), onde o filósofo viveu e escreveu durante a segunda metade do século XVIII, parecem ter entendido isso melhor do que muitos acadêmicos profissionais, porque lhe deram o apelido de “o destruidor” e davam o seu nome aos cachorros.
Pessoalmente, Kant era um homem amável, gentil e piedoso, tão pontual que os vizinhos ajustavam os relógios pelos seus passeios. Também o intuito básico da sua filosofia era nobre: restaurar a dignidade humana num mundo cético que idolatrava a ciência.
Essa intenção pode ser ilustrada com o seguinte episódio. Em certa ocasião, Kant assistiu à palestra de um astrônomo materialista sobre o lugar do homem no universo. Quando o cientista concluiu a palestra com as palavras: “Assim, vemos que o homem é evidentemente insignificante em termos astronômicos”, o filósofo levantou-se e disse: “Professor, o senhor esqueceu o mais importante: o homem é o astrônomo”.
No entanto, mais do que qualquer outro pensador, foi ele quem impulsionou a deriva tipicamente moderna da objetividade para a subjetividade. Isso pode parecer bom até nos darmos conta de que implicava a redefinição da própria verdade como algo subjetivo. E as conseqüências dessa idéia têm sido catastróficas.
Quando conversamos com alguém que não crê, percebemos que o obstáculo mais comum à fé hoje em dia não é nenhuma dificuldade intelectual honesta (como o problema do mal ou o dogma da Trindade), mas a convicção de que a religião não pertence ao campo dos fatos nem das verdades objetivas. Assim, qualquer tentativa de tentar convencer outra pessoa de que a fé é verdadeira – objetivamente verdadeira, verdadeira para todos – passa a ser considerada de uma arrogância intolerável.
De acordo com essa mentalidade, a religião é teórica, não prática; tem a ver com valores, não com fatos; é subjetiva e privada, não objetiva e pública. O dogma seria um “extra”, e um “extra” daninho, porque fomentaria o dogmatismo. Ou seja, a religião, no fundo, não passaria de uma ética. Além do mais, uma vez que a ética cristã é muito parecida com a ética das outras grandes religiões, pouco importaria se você é cristão ou não; o importante é ser “boa gente”. (Geralmente, as pessoas que acreditam nisso também acham quase todo o mundo “boa gente”, com exceção de Adolf Hitler e Charles Manson).
Kant é em larga medida responsável por essa maneira de pensar. Ele ajudou a enterrar a síntese medieval entre fé e razão, e descreveu a sua filosofia como “tirar do caminho as pretensões da razão para abrir espaço à fé”, como se fé e razão fossem inimigas, não aliadas. Assim, consumou o divórcio entre fé e razão iniciado por Lutero.
O filósofo pensava que a religião jamais poderia ser objeto da razão – uma evidência, um argumento ou sequer um objeto de conhecimento –; deveria ser unicamente uma questão de sentimentos, de emoções e de atitudes. Esse postulado influenciou profundamente a maior parte dos educadores religiosos atuais (entre os quais redatores de catecismos e teólogos), que deixaram de lado a rocha-mãe da fé, os fatos objetivos narrados na Sagrada Escritura e resumidos no Credo dos Apóstolos. Fregueses da filosofia kantiana, divorciaram a fé da razão e casaram-na com a psicologia pop.
“Duas coisas me deixam maravilhado”, confessou Kant certa vez: “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Aquilo que maravilha um homem preenche o seu coração e dirige o seu pensamento. Reparemos que, entre as coisas que maravilham o filósofo, não estão Deus, Cristo, a Criação, a Encarnação, a Ressurreição e o Juízo, mas apenas “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”.
“O céu estrelado” é o universo físico, tal como a ciência moderna o entende; e tudo o mais é relegado para o campo da subjetividade. Assim, a lei moral não estaria “fora”, mas “dentro de mim”; não seria objetiva, mas subjetiva; enfim, não seria uma Lei Natural com certos e errados objetivos, mas uma lei feita por nós mesmos à qual escolhemos vincular-nos. (Mas será que estamos realmente vinculados quando só nos vinculamos a nós mesmos?) A Moral seria, portanto, apenas uma questão de intenção subjetiva; não teria qualquer conteúdo com exceção da Regra de Ouro (o “imperativo categórico” de Kant).
Se a lei moral veio de Deus e não do homem, o homem não seria livre no sentido de ser autônomo, o que é verdade. Mas, para Kant, o homem tem de ser autônomo, e portanto a lei moral não vem de Deus, e sim do próprio homem. Partindo da mesma premissa, a Igreja afirma que a lei moral realmente vem de Deus, e portanto que o homem não é autônomo; ele é livre para optar por obedecer-lhe ou não, mas não é livre para criar a lei.
Embora se considerasse cristão, o filósofo negou explicitamente que pudéssemos conhecer ao certo a existência (1) de Deus, (2) do livre arbítrio, e (3) da vida eterna. Disse que deveríamos viver como se essas idéias fossem verdadeiras, porque caso contrário não levaríamos a moral a sério. É essa justificação da fé por razões puramente práticas que constitui um erro terrível. Kant acredita em Deus não porque Ele exista, mas porque é útil. Se for assim, por que não acreditar no Papai Noel? Se eu fosse Deus, preferiria um ateu honesto a um deísta desonesto; e penso que Kant é um deísta desonesto, porque há apenas um único motivo honesto para acreditar seja no que for: o fato de essa coisa ser verdadeira.
Aqueles que tentam vender a fé cristã no sentido kantiano, como um “sistema de valores” em vez da verdade, têm fracassado geração após geração. Com tantos “sistemas de valores” no mercado, por que deveria alguém preferir a variante cristã a outras mais simples, com menos teologia e com uma moral mais fácil e menos inconveniente?
Com efeito, Kant fugiu da batalha ao bater em retirada do campo dos fatos. Acreditava no grande mito do século XVIII, o Iluminismo (nome irônico!). Acreditava que a ciência de Newton tinha vindo para ficar e que, para sobreviver, o cristianismo teria de encontrar um lugar na nova paisagem mental esboçada pela nova ciência. E o único lugar que lhe sobrava era a subjetividade.
Isso implica ou ignorar os acontecimentos sobrenaturais e miraculosos da história do cristianismo ou interpretá-los como mitos. A estratégia de Kant foi essencialmente a mesma que seguiria Rudolf Bultmann (1884-1976), o pai da “demitologização” e talvez o principal responsável pela perda da fé entre inúmeros universitários católicos. Muitos professores de teologia perfilham as suas teorias exegéticas, que reduzem os milagres contidos na Bíblia, relatados por testemunhas oculares, a simples “mitos”, “valores” e “interpretações piedosas”.
Com relação ao suposto conflito entre fé e razão, Bultmann disse: “A visão científica do mundo veio para ficar e fará valer os seus direitos contra qualquer teologia, por mais impositiva que seja, que venha a entrar em conflito com ela”. Ironicamente, a “visão científica do mundo” oferecida pela física de Newton e aceita como absoluta e imutável por Kant e Bultmann é hoje quase universalmente rejeitada pelos próprios cientistas!
A questão básica de Kant era: Como podemos conhecer a verdade? Na sua juventude, aceitava a resposta racionalista de que conhecemos a verdade pelo intelecto, não pelos sentidos, e de que o intelecto possuía as suas próprias “idéias inatas”. Mais tarde, leu o empirista David Hume, que, em palavras do próprio Kant, o “despertou do sono dogmático”. Como outros empiristas, Hume acreditava que o homem só pode conhecer a verdade mediante os sentidos e que não existem “idéias inatas”. Mas as premissas de Hume conduziram-no ao ceticismo, à negação de que seja possível conhecer a verdade com certeza. Kant considerou inaceitáveis tanto o “dogmatismo” racionalista como o ceticismo empirista e procurou uma terceira via.
Ora, havia uma terceira teoria disponível desde os tempos de Aristóteles: a filosofia do senso comum, que é o realismo. De acordo com o realismo, podemos conhecer a verdade por meio do intelecto e dos sentidos, desde que ambos trabalhem corretamente em conjunto, como as lâminas de uma tesoura. Em vez de voltar-se para o realismo tradicional, Kant inventou toda uma nova teoria do conhecimento, geralmente chamada idealismo. Considerava-a a sua “revolução copernicana na filosofia”. Mas o nome mais simples para ela é subjetivismo, pois o que pretende é redefinir a própria verdade como subjetiva, não objetiva.
Todos os filósofos anteriores tinham dado por assente que a verdade é objetiva. Aliás, de acordo com o senso comum, é simplesmente isso o que queremos dizer ao falar de “verdade”: conhecer o que realmente é, conformando a mente segundo a realidade objetiva. Alguns filósofos (os racionalistas) julgavam ser capazes de atingir essa meta apenas com a razão. Os primeiros empiristas (como Locke) julgavam que podiam atingi-la através dos sentidos. O empirista cético Hume, posterior, julgava que não havia maneira alguma de atingir com certeza a verdade.
Kant negou a premissa comum a essas três filosofias concorrentes, ou seja, negou que a verdade devesse ser atingida, que a verdade significasse conformidade com a realidade objetiva. A “revolução copernicana” de Kant redefine o próprio conceito de verdade como realidade que se conforma segundo as nossas idéias. “Até hoje, sustentava-se que o nosso conhecimento devia adequar-se aos objetos [...]. Haverá mais progresso se assumirmos a hipótese contrária, de que são os objetos de pensamento que devem adequar-se ao nosso conhecimento”.
Kant afirmou que todo o nosso conhecimento é subjetivo. Bem, essa afirmação é um conhecimento subjetivo? Se é, então o conhecimento desse fato também é subjetivo, et cetera, e todos estamos aprisionados num infinito salão de espelhos. A filosofia kantiana é perfeita para o inferno. É possível que os condenados creiam não estar realmente no inferno; seria apenas coisa da cabeça deles. E talvez seja isso mesmo: é possível que o inferno seja exatamente assim.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief – Kant)

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