sexta-feira, 30 de julho de 2010

Jean-Paul Sartre, o apóstolo do absurdo


“Nas próprias palavras de Sartre, “o existencialismo nada mais é do que o esforço por extrair todas as conseqüências da postura atéia”. Ateus acomodados que lêem Sartre tornam-se ateus incomodados, e um ateísmo incômodo é um gigantesco passo rumo a Deus. Isso é algo que devemos agradecer-lhe.
Sartre chamou a sua filosofia de “existencialismo” porque defendia que “a existência precede a essência”. Isso significa concretamente que “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Como não existiria um Deus para projetá-lo, o homem não teria nenhum plano, nenhuma essência. A sua essência ou natureza não viria de um Deus Criador: seria fruto exclusivo das suas próprias escolhas livres.
Há algo de muito profundo nessa tese, mesmo que logo depois esse “algo” seja subvertido. Trata-se do fato de que, mediante as suas escolhas livres, o homem determina aquilo que virá a ser. Deus realmente cria tudo o que o homem é, mas o modo de ser é algo que só pode pertencer a cada um individualmente. Deus faz o nosso “quê”, mas cada um faz o seu “quem”. O Senhor concede-nos a honra de colaborar na nossa própria criação, ou “co-criação”. Compartilha conosco a tarefa de criar o nosso “eu”. Dá a matéria prima – o ambiente, a hereditariedade –, mas sou eu quem dá a forma final a mim mesmo, por meio das escolhas que livremente vou fazendo.
Infelizmente, Sartre sustenta que isso é prova da não-existência de Deus, pois se Deus existisse, o homem ficaria reduzido à condição de “mero artefato divino”, e portanto não seria livre. Sartre insiste com freqüência em que a liberdade e a dignidade humanas requereriam o ateísmo. Sua atitude perante Deus faz lembrar a famosa frase que precede os duelos de caubóis nos filmes de faroeste: “Esta cidade é pequena demais para nós dois: um de nós tem de sair”.
A legítima observação de que a liberdade humana permite às pessoas moldarem-se, e assim as torna radicalmente diferentes das meras coisas, leva Sartre ao ateísmo: 1) porque o filósofo confunde liberdade com independência; 2) porque o único Deus que ele é capaz de conceber é um deus que, em vez de criar e sustentar a liberdade humana, a eliminaria, como uma espécie de fascista cósmico; e além disso 3) porque comete o erro – típico dos adolescentes – de equiparar liberdade e rebeldia. Sartre diz que a liberdade é somente “liberdade de dizer não”.
Mas essa não é a única forma de liberdade: existe também a “liberdade de dizer sim”. Sartre pensa que a nossa liberdade fica comprometida quando dizemos sim, quando optamos por aceitar os valores que nos foram ensinados pelos nossos pais, pela nossa sociedade, ou pela Igreja. Desse modo, o que Sartre entende por liberdade é algo muito parecido com aquilo que os beatniks dos anos 50 ou os hippies dos anos 60 queriam dizer com o seu lema “faça do seu jeito”, ou com aquilo que os membros da “geração do Eu” (Me generation) dos anos 70 queriam dizer com a frase “Procurando o chefe?”
Outro conceito que Sartre leva a sério mas distorce é a idéia de responsabilidade. Pensa que crer em Deus necessariamente diminuiria a responsabilidade humana, pois nos permitiria culpar a Deus pelo que somos em vez de nos culparmos a nós mesmos. Mas isso é evidentemente falso. O meu Pai celeste, assim como o meu pai aqui na terra, não é responsável pelas decisões que tomo nem pelo caráter que adquiro ao tomar essas decisões: a responsabilidade é minha. E essa responsabilidade não demonstra que o meu Pai celeste não exista, como tampouco demonstra que o meu pai aqui na terra não exista.
Sartre tem uma aguçada capacidade de perceber o Mal e a perversidade humana. Diz ele: “Aprendemos a levar o Mal a sério... O Mal não é só aparente... Conhecer suas causas não o elimina. O Mal não pode ser redimido”.
No entanto, Sartre também diz que, se Deus não existe e nós criamos nossas leis e valores, o Mal não existe de verdade: “Escolher ser isto ou aquilo é ao mesmo tempo afirmar o valor daquilo que se escolhe, pois nunca podemos escolher o Mal”. Sartre, portanto, atribui ao Mal uma realidade ao mesmo tempo excessiva (“O Mal não pode ser redimido”) e insuficiente (“Nunca podemos escolher o Mal”).
O ateísmo de Sartre não afirma simplesmente que Deus não existe: afirma que Deus é impossível. Ao menos presta alguma atenção à noção bíblica de Deus como “Eu Sou”, chamando-a de a idéia mais auto-contraditória que jamais foi pensada: uma “síntese impossível” entre o ser-por-si (a personalidade subjetiva, o “Eu”) e o ser-em-si (a perfeição eterna objetiva, o “Sou”).
Deus significa pessoa perfeita, o que para Sartre seria uma contradição. Segundo ele, são possíveis coisas ou idéias perfeitas, como justiça ou verdade; são também possíveis pessoas imperfeitas, como Zeus ou Apolo; mas uma pessoa perfeita é impossível. Zeus é possível mas não é real. Deus, o Único entre os deuses, não somente seria irreal como também impossível.
Se Deus é impossível, e é amor, então o amor é impossível. O que mais choca em Sartre é a sua negação de que possa haver um amor genuíno e altruísta. Muitos ateus substituem Deus pelo amor humano para acreditar neste amor. Mas Sartre alega que isso é impossível. Por quê?
Porque se não existe Deus, então cada indivíduo é Deus. Mas só pode haver um Deus, só pode haver um absoluto. Portanto, as relações interpessoais são fundamentalmente relações de rivalidade. Nisto Sartre faz eco a Maquiavel. Cada um de nós desempenha o papel de Deus diante dos outros: sendo eu o autor do enredo da minha própria vida, necessariamente reduzo os outros a meros coadjuvantes.
Há uma palavrinha que as pessoas comuns pensam que se refere a algo real, e que os namorados acham que é algo mágico, mas que Sartre considera algo impossível e ilusório: trata-se da palavra “nós”. Não pode haver o “nós”, não existiria nenhuma comunidade, nenhum amor abnegado, se o que estamos sempre tentando é ser Deus: o único sujeito individual é o “eu”.
A mais famosa peça de teatro escrita por Sartre, intitulada Huis clos (“Recinto fechado”), mostra três mortos numa sala infernizando uns aos outros, simplesmente por bancarem Deus perante os restantes. Mas não no sentido de tentarem exercer o seu poder umas sobre as outras: cada uma simplesmente ignora as outras, tratando-as como meros objetos. A chocante lição da peça é que “o inferno são os outros”.
De fato é preciso ter uma mente muito aguda para conseguir dizer uma coisa tão falsa como essa. Porque a verdade é justamente o contrário: o Inferno é a completa ausência de outras pessoas, sejam humanas ou divinas. O Inferno é a solidão absoluta. O Céu são as outras pessoas, porque o Céu é onde Deus está, e Deus é uma Trindade. Deus é Amor, Deus é “outras pessoas”, é “nós”.
A firmeza de Sartre em ir até às últimas conseqüências empresta-lhe um ar de honestidade até certo ponto atraente, apesar das suas repugnantes conclusões sobre a ausência de um sentido para a vida, sobre a arbitrariedade dos valores e sobre a impossibilidade do amor. Mas essa peculiar coerência ou honestidade, esteja ou não profundamente arraigada no seu caráter, perde qualquer significado e torna-se trivial em virtude da sua negação de Deus e, portanto, da Verdade objetiva. Se não há uma Mente divina, então não existe nenhuma verdade além daquela que cada qual fabrica para si mesmo. Por isso, que sentido tem ser coerente ou honesto, se eu não tenho nada a respeitar além de mim?
Assim, devemos fazer um juízo misto a respeito de Sartre, e de qualquer forma agradecer-lhe por ser tão repulsivo como fruto dessa sua coerência. Sartre mostra-nos a verdadeira face do ateísmo: o absurdo (o absurdo de um mundo abstrato) e a náusea (é a imagem que ele próprio utiliza, e o título de seu primeiro grande romance).
O livro La nausée (“A náusea”) conta a história de um homem que, após uma árdua busca, depara-se com a terrível verdade de que a vida não tem sentido: é um dejeto da náusea, como um vômito ou um excremento (Sartre usa deliberadamente imagens asquerosas porque acha que a vida é mesmo asquerosa).
Não podemos senão concordar com William Barrett, quando diz que, “se alguém está pronto para usar isso (a náusea) como desculpa para jogar fora toda a filosofia de Sartre, devemos fazer-lhe ver que é melhor encontrar a própria existência com desgosto do que não encontrá-la nunca”.
Em outras palavras, a importância de Sartre é similar à do Eclesiastes: formula as mais altas perguntas, com uma coragem inabalável, e temos de admirá-lo por isso. Infelizmente ele nos oferece a pior das respostas, tal como faz o Eclesiastes: “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade”.
Só nos resta ter pena dele e de todos os outros ateus que tenham lucidez suficiente para perceberem – como Sartre percebeu – que “sem Deus, tudo é permitido”... mas nada tem sentido.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief - Sartre)

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terça-feira, 27 de julho de 2010

Evidência manuscrita e a autoria paulina de Hebreus


“Ao abrirmos nossas modernas edições do Novo Testamento, vemos que Hebreus ocupa as páginas entre Filemon e Tiago, ou seja, entre a décima-terceira Paulina e a primeira Epístola Católica. Essa colocação a separa do Corpus Paulinum? Evidência manuscrita mostra que não. Nos unciais mais antigos (S, A, B e C) ela segue a segunda Epístola aos Tessalonicenses e precede as Pastorais. Essa é a mesma posição que ela ocupa na maioria dos manuscritos da Versão Boárica e no comentário de Sto. Efrém... No arquétipo ou predecessores do Códice B, ela estava entre Gálatas e Efésios, conforme mostra a série de números de seção na margem daquele Códice. Na Versão Saídica, ela até precedia Gálatas. As Versões Siríacas, os manuscritos gregos tardios e os manuscritos latinos colocam Hebreus na ordem a que nos acostumamos, ou seja, no décimo-quarto lugar, no final das Paulinas. O fato de antigamente haver estado em décimo lugar depois das nove Epístolas às Sete Igrejas, ou depois das quatro grandes Epístolas, ou entre estas no quarto lugar, é um forte testemunho de sua atribuição a São Paulo. Ainda mais eloqüente é a ordem do Códice de papiros Chester-Beatty do começo do terceiro século. Aqui Hebreus vem imediatamente depois de Romanos.”
(William Leonard, Authorship of the Epistle to the Hebrews)

sábado, 24 de julho de 2010

William Shakespeare: Soneto XV


Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
À secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento.

Tradução de Ivo Barroso

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Pequeno florilégio dos erros e ambigüidades conciliares (II)


“4) O Concílio deveria, em seguida, ter repetido a doutrina de sempre sobre as duas fontes da Revelação (a Sagrada Escritura e a Tradição), sobre a inerrância absoluta da Escritura, sobre a plena e total historicidade dos Evangelhos. Mas na constituição Dei Verbum sobre a revelação divina, esses princípios fundamentais são antes expostos de modo ambíguo (nos artigos muito contestados 9, 11 e 19), com expressões que, em um caso (no artigo 11), se prestam a interpretações inteiramente opostas, das quais uma reduz a inerrância apenas à “verdade consignada na Escritura para nossa salvação”. O que equivale na prática a uma heresia porque põe em dúvida o caráter absoluto da inerrância das Escrituras Santas.
5) O Concílio, em seguida, pôs em obra a reforma litúrgica, cujos tristes efeitos estão, há anos, sob as vistas de todos. A antiqüíssima e venerável liturgia católica da Santa Missa, coração do Catolicismo, desapareceu, substituída por um novo rito, em língua vulgar, que os Protestantes puderam declarar teologicamente aceitável! De fato, seu Institutio (1969 e 1970) não nomeia nem o dogma da Transubstanciação nem o caráter propiciatório do Sacrifício (graças ao qual nossos pecados nos são perdoados) que também constitui um dogma de fé (Denz. Schönm 938/1739-1741; 950/1753). Ao contrário, o acento é posto, à maneira protestante, não no Sacrifício do Senhor, mas no banquete que é o seu memorial ou antes o memorial da Ressurreição (mistério pascal) mais do que da Cruz, oferecido para a assembléia dos fiéis sob a presidência do padre, assembléia que agora concelebra no mesmo plano que este último. Nessa missa, o Sobrenatural da verdadeira Missa católica, a repetição incruenta do Sacrifício da Santa Cruz por meio da transubstanciação do pão e do vinho em corpo e sangue do Senhor, desapareceu, sabendo-se que o Institutio se limita a mencionar uma “presença real” indiferenciada, não qualificada e não qualificadora, porque considera da mesma maneira a assembléia dos fiéis, a pessoa do ministro, a palavra do Cristo e as espécies eucarísticas.
Os últimos estudos puseram em relevo de modo categórico porque o novo rito não pode de maneira nenhuma se definir como católico. Com efeito, “foi afastado do Rito da Missa tudo o que poderia ter uma relação com a pena devida pelo pecado, como também a finalidade propiciatória da Missa”. Além disso, segundo a heterodoxa teologia “dita do mistério pascal”, considerando o rito memorial capaz, por si só, de tornar presente, fora do tempo humano, os mistérios da morte e da ressurreição do Cristo, a reforma litúrgica modificou profundamente a estrutura ritual da Missa até o ponto de eliminar sua dimensão precisamente sacrificial. Isso tornou-se possível também pela utilização de uma noção de símbolo muito particular, de aparência esotérica - a nosso ver – que lembra as tenebrosas tanto quanto falaciosas doutrinas de um René Guénon e Cia.
Já que a teologia do mistério pascal considera a Eucaristia não mais como um sacrifício visível, mas como um símbolo que torna misteriosamente presentes a morte e a ressurreição do Senhor e que permite, através desses fatos, o contato com o Cristo glorioso, a presença do Cristo Sacerdote e Vítima cedeu o passo, na ação litúrgica, à do Kyrios que se comunica à assembléia. E uma tal imprópria, quase mágica noção de símbolo contribuiu para a elaboração de uma nova noção de Sacramento, naturalmente diferente daquela que pertence ao deposito da fé. Pois bem, essa incrível missa do Novus Ordo já estava antecipada nos artigos 7, 10, 47, 48 e 106 da constituição conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a reforma litúrgica, a qual, além disso, nos artigos 21, 24, 37, 38, 40, 90 e 119 considera também a simplificação do rito, para torná-lo mais fácil, mais adaptado (!) à cultura profana, nacional e local; atualização a ser conseguida através da criatividade e experiências litúrgicas. Todas essas novidades vão expressamente contra todos os ensinamentos da Igreja. Isso provocou os diversos e múltiplos ritos hoje dominantes, do afro-católico (que se exibe com danças e tambores dentro da própria Basílica de São Pedro em Roma), ao índio-católico, às variantes nacionais e locais e aos ritos pessoais dos diferentes oficiantes de serviço. À ortodoxia e à majestade do Rito Romano Antigo, cujo cânon remonta aos Apóstolos, sucedeu a Babilônia do novo rito submisso à aculturação, fruto de uma doutrina perversa.
6) O Vaticano II mostrou que aceitava o conceito leigo da liberdade como “libertas a coactione – liberdade de não ser coagido”, ontologicamente fundada na dignidade do homem enquanto homem, para justificar o caráter lícito de não importa qual culto religioso (declaração conciliar Dignitatis Humanæ, artigos 2, 3 e 4). O Concilio justifica, assim, a liberdade entendida como autodeterminação absoluta do indivíduo, de um individuo que se considera realizado e auto-suficiente, enquanto que a Igreja sempre ensinou que a liberdade não pode se separar da Verdade (revelada) e que a dignidade da pessoa fica obscurecida se nela falta a retidão da vontade que procura o Bem, porque essa dignidade está fundada sobre valores sobrenaturais e não sobre o homem enquanto homem. E o Concílio, por conseqüência, introduziu a idéia da livre procura da verdade por parte da consciência individual, com suas próprias forças naturais, apenas e em união com os homens de boa vontade de todas as crenças e de toda fé (Gaudium et Spes, 16), o que é menos católico do que se possa imaginar. Essa colocação conduziu, por fim, à afirmação de uma substancial independência da “comunidade política” em relação à Igreja: uma e outra teriam em comum somente o fato de estar “a serviço” de uma geral “vocação pessoal e social entre os homens”, de modo a poder realizar uma “sã colaboração segundo as modalidades adaptadas às circunstâncias de lugar e de tempo” (Gaudium et Spes, 76) ou ainda segundo os critérios de simples oportunidade. Mas isso se opõe ao ensinamento constante da Igreja, segundo o qual a Igreja tem um primado sobre a “comunidade política” e essa última, mesmo em sua independência relativa, deve contribuir para a salvação das almas por meio da realização e defesa de um bem comum inspirado nos valores católicos. Deveríamos continuar e pararmos por exemplo nas análises irreais do mundo contemporâneo contidas em Gaudium et Spes, maquiadas com os piores lugares-comuns tirados das ideologias leigas correntes de então e de hoje, ou na imagem adocicada e inverídica das religiões não-cristãs, apresentadas no artigo 16 de Lumen Gentium e pela declaração conciliar Nostra Ætate. Mas o que dissemos até aqui nos parece suficiente.”
(Paolo Pasqualucci, O Acontecimento Capital do Século XX)

http://www.capela.org.br/Crise/Vaticano2/pasqualucci.htm

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pequeno florilégio dos erros e ambigüidades conciliares (I)


“1) Na constituição Lumen Gentium, que trata da noção própria de Igreja, aparece claramente uma definição errada da Igreja, porque afirma, no artigo 8, que a “Igreja do Cristo” subsiste na Igreja Católica e que à “Igreja do Cristo” pertencem também “elementos de santificação” e “verdades exteriores à Igreja Católica”. Durante dezenove séculos foi ensinado que a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja do Cristo, porque foi fundada por Ele e constitui Seu Corpo Místico, única depositária da Verdade Revelada, na continuidade do ensinamento dele recebido e transmitido por São Pedro e pelos apóstolos a seus sucessores e aos Padres da Igreja, mantido “de mão em mão” (Concílio de Trento) até hoje. Quem disso se separou foi considerado – a justo título – como cismático (seitas e não Igrejas) e mais, herético, se professou doutrinas contrárias ao depósito da fé (como os luteranos, anglicanos etc...). As comunidades cristãs que se afastaram da Igreja não podem, enquanto tais, conceder a salvação a seus membros: tendo se separado da única e verdadeira Igreja, estão privadas da ajuda do Espírito Santo, sem a qual a salvação da alma não é possível. E todas as outras religiões o podem ainda menos. Não tendo sido fundadas pelo Filho de Deus (que além disso não querem reconhecer) não podem ensinar a Verdade que nos foi revelada sobre os divinos Mistérios e sobre os costumes.
Foi assim que a Santa Igreja sempre ensinou. Diz ela, por acaso, que aquele que não é católico está a priori condenado à pena eterna? Não, porque sempre ensinou que podemos nos salvar com o batismo de desejo: explícito, quando aquele que pede o batismo, ainda estando fora da Igreja, já vive se esforçando para fazer a vontade de Deus, mas morre antes de receber o batismo; implícito, quando, estando, sem falta própria, fora da verdadeira fé, o não-católico vive no entanto procurando fazer em tudo a vontade de Deus, a fim de não morrer em estado de pecado mortal: ele se salva em sua religião, mas não por intermédio de sua religião. O Vaticano II contradiz essa doutrina quando insere na Igreja do Cristo, ao lado da Igreja Católica, “elementos de santificação e de verdade” ou ainda de salvação, representados pelas outras denominações cristãs enquanto tais, com suas falsas doutrinas, já formalmente condenadas pelo Magistério. As seitas são assim impropriamente elevadas ao nível de “Igrejas”: isso está expressamente no artigo 3 do decreto conciliar Unitatis Redintegratio sobre o ecumenismo. Trata-se de erro teológico manifesto ao qual se acrescenta também um erro de lógica no artigo 4 seguinte, onde se diz que só a Igreja Católica mantém “toda a plenitude dos meios de salvação” (não mais portanto a unicidade) enquanto que as “Igrejas” dos protestantes e dos cismáticos, enquanto tais constituindo “meios de salvação” utilizados pelo Espírito Santo (!), mostram “carências”. Já que a salvação é evidentemente sempre a mesma (o céu), não se compreende segundo qual lógica os “meios de salvação” dos protestantes e dos cismáticos, afligidos por “carências” e portanto deficientes, podem por si mesmos conceder a mesma salvação que a oferecida pelos meios de salvação da Igreja Católica, meios que não sofrem dessas “carências”.
Os heréticos e os cismáticos fariam então parte da “Igreja do Cristo”: é por isso que não se lhes pede para retornarem à única e verdadeira Igreja, depois de terem abjurado seus erros. De fato, o decreto Unitatis Redintegratio não fala de “volta”, mas de “conversão”, com um sentido completamente anormal: "a unidade não se deve fazer pela volta dos separados à Igreja Católica, porém antes pela conversão de todas as Igrejas no Cristo total, o qual não subsiste em nenhuma delas, mas é reintegrado mediante a convergência de todas em Um”. Uma falsa noção de “Igreja do Cristo” é pois a base do “dialogo ecumênico” com os ditos “irmãos separados”. A unidade à qual esse “diálogo” aspira é pois falsa, necessariamente aberrante, inclusive no plano lógico, já que deve fazer viver juntos a verdade e o erro: a imutável Verdade revelada confiada à Igreja com os delírios do livre exame individual, do “simul iustus et peccator” e outras coisas semelhantes; a necessidade das obras meritórias para a salvação com sua negação; o casamento “divinitus” indissolúvel com aquele muito solúvel dos protestantes e ortodoxos etc...
2) A Lumen Gentium foi em seguida marcada por uma concepção errônea da colegialidade episcopal. Com efeito, a suprema potestas iuridictionis sobre a Igreja, que é outorgada pelo direito divino ao papa, foi atribuída (pelo artigo 22) também ao colégio dos bispos em união com o Papa, coisa nunca antes admitida. Temos, pois, dois titulares do poder supremo (um autentico absurdo jurídico) com a única diferença de que os bispos não a exercem sem a autorização do Papa. Em substância, essa fórmula de compromisso deixa as conferências episcopais praticamente livres para exercer as amplas autonomias e competências que lhes são reconhecidas ex novo pelo Concilio (decreto Christus Dominus, artigo 37), sobretudo em matéria litúrgica, para experimentar e adaptar os ritos às culturas locais (constituição Sacrosanctum Concilium, artigos 22, 39 e 40). O controle da Santa Sé sobre o comportamento dos bispos se reduziu, em substância, a constatar as iniciativas das Conferencias Episcopais, agora que a “potestas” da qual estão investidos colegialmente os bispos é “suprema” como a do Papa. As Conferências Episcopais assim pulverizaram a autoridade de cada bispo (a título individual). A autoridade do Papa e a autoridade do bispo sofreram uma diminuição impressionante, dando vantagem à autoridade do coletivo dos bispos, que goza mesmo de poderes legislativos. A constituição hierárquica da Igreja foi subvertida pela instauração de uma oligarquia episcopal.
Além disso, a Lumen Gentium trouxe uma outra modificação (artigo 9 e seg.) à noção de Igreja, concebida não como “corpo místico do Cristo” (São Paulo), mas como “povo de Deus”. Agora é a comunidade dos fiéis, presidida pelos padres, que vem a ser a Igreja, como se esta última devesse se constituir essencialmente a partir de baixo, nas assembléias que constituem a Igreja local, a soma das quais constitui a Igreja Universal. Assim a parte é tomada pelo todo – o “povo de Deus” pela totalidade da Igreja – com o fim de introduzir aí uma visão democrática, próxima ao modo de sentir dos protestantes heréticos, totalmente estranhos à Tradição, a qual, evidentemente, sempre se manteve firme sobre a origem e a natureza sobrenatural da Santa Igreja, manifestada e garantida por sua organização hierárquica.
3) Em contrapartida, a constituição Gaudium et Spes, que trata da relação da Igreja (a “Igreja do Cristo” ex. artigo 8 da Lumen Gentium) com o mundo contemporâneo, sofre manifestamente de um antropocentrismo difuso, totalmente incompatível com a sã doutrina. No artigo 3 está dito que o “objetivo da Igreja...é salvar o homem, edificar a humanidade... por conseqüência... o Concílio, proclamando a grandeza eminente da vocação do homem... oferece à humanidade a cooperação sincera da Igreja, em vista de instaurar essa fraternidade universal que corresponde a essa vocação”. Note-se bem: não se pensa em “salvar o homem” pecador por meio da conversão ao Cristo, único que lhe torna possível a vida eterna (Mc. 16, 15-16; Mt. 28, 18-20). Não. Essa Hierarquia pensa conseguir a “salvação” pelo engajamento na instauração da terrestre e mundana “fraternidade universal”, que não tem nada a ver com o fim sobrenatural próprio da Igreja. É a fraternidade das ideologias leigas apodrecidas pelo tempo, das quais a Gaudium et Spes não hesita em extrair outras sementes: “as vitórias da humanidade [e quais seriam elas?] são um sinal da grandeza de Deus e o fruto de seu inefável desígnio” (artigo 34); “o progresso terrestre... é de grande importância para o Reino de Deus” (artigo 39), etc. Essa exaltação do homem encontra acentos impressionantes no artigo 22: “O Cristo...desvela também plenamente o homem a si mesmo e lhe manifesta sua altíssima vocação”. Parece que Nosso Senhor não veio para salvar os pecadores que cressem Nele e se convertessem ("não vim chamar os justos, mas os pecadores” Mc. 2, 17), mas para fazer os homens tomarem consciência dessa grande coisa que ele, homem, é, para exaltar o homem! A altíssima vocação do homem resultaria de afirmações como as seguintes: “que o homem é a única criatura que Deus quis por ele mesmo” (art. 24 cit.) enquanto que “com a Encarnação o Filho de Deus se uniu de certa maneira a todo homem” (art.22 cit.). Por isso os homens “todos, resgatados por Cristo, gozam da mesma vocação e do destino divino” (art. 29). Difundem-se aqui os germes de uma doutrina que nunca fora antes ensinada pela Igreja (porque Deus fez todas as coisas para “Ele mesmo”, para sua glória e nenhuma “para ela mesma”, nem mesmo o homem) e essa doutrina terá, como é conhecido, seu desenvolvimento no pós-Concílio: que Nosso Senhor com a Encarnação estaria, em certo sentido, unido a todo homem, de modo a poder considerar – por esse único fato – que todos os homens já estariam resgatados, sem necessidade de sua conversão ou de seu retorno ao Catolicismo. E é com essa falsíssima premissa (uma verdadeira armadilha para seus partidários) que se instaurou o “diálogo” com as outras religiões, para poder constituir com elas também uma unidade planetária, sincretismo não menos monstruoso do que o que é procurado com os heréticos e os cismáticos.”
(Paolo Pasqualucci, O Acontecimento Capital do Século XX)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O papel escatológico de Israel


“Todas as páginas do Novo Testamento mostram uma intensa reflexão sobre a segunda vinda de Cristo. É um afresco descrevendo a peregrinação da Igreja por esta última fase da história e os sofrimentos com que ela se defronta no momento conclusivo destes tempos derradeiros que lançam seu último e mais intenso ataque. Graças a Paulo e sua meditação teológica de profundo significado, podemos, de certo modo, captar da história os sinais que indicarão quando a segunda vinda estiver prestes a acontecer. Segundo o Apóstolo, a vinda do Messias em glória detém-se a cada momento da história até Seu reconhecimento por todo Israel.
O capítulo onze da Epístola aos Romanos é uma profunda reflexão sobre o papel de Israel na história da salvação. Segundo São Paulo, o povo eleito de Israel tem um papel a cumprir precisamente com relação ao fim dos tempos: “Porque, se de sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, qual será o efeito de sua reintegração, senão uma ressurreição dentre os mortos?” (Rom 11:15) Paulo lamenta que parte do povo eleito tenha se endurecido em sua descrença quanto a Jesus. No plano misericordioso de Deus, contudo, a rejeição deles obteve a graça da redenção. Se sua rejeição resulta na salvação do mundo, que significado terá sua aceitação, senão a admissão do mundo na glória do Cristo ressuscitado? Em outras palavras, o reconhecimento de Jesus como Messias e Senhor pelo povo judeu significará que a história humana terá chegado ao fim.
Essa certeza de fé já estava bem estabelecida na primeira comunidade cristã. Pedro, já antes de Paulo, alude à mesma em sua pregação aos judeus de Jerusalém depois de Pentecostes: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para serem apagados os vossos pecados. Virão assim da parte do Senhor os tempos de refrigério, e ele enviará aquele que vos é destinado: Cristo Jesus. É necessário, porém, que o céu o receba até os tempos da restauração universal, da qual falou Deus, outrora, pela boca de seus santos profetas” (At 3:19-21).
Qual é a origem da certeza de fé da Igreja Apostólica que liga intimamente a segunda vinda de Cristo à conversão de todo Israel? Os Evangelhos bem refletem essa idéia quando Jesus, meditando sobre a rejeição de Jerusalém, prevê a destruição do Templo, que é, por sua vez, um sinal profético dos sofrimentos no fim dos tempos: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas...e tu não quiseste! Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta. Porque eu vos digo: já não me vereis de hoje em diante, até que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor” (Mt 23:37-39).
Podemos concluir que, na perspectiva católica do fim dos tempos, a vinda de Cristo em glória está intimamente ligada à sua aceitação pelo povo eleito de Israel. Isso implica que só haverá o fim do mundo após a conversão dos judeus? Sobre esse ponto afirma o Catecismo da Igreja Católica: “A entrada da "plenitude dos judeus" na salvação messiânica, depois da "plenitude dos pagãos”, dará ao Povo de Deus a possibilidade de "realizar a plenitude de Cristo" (Ef 4, 13), na qual "Deus será tudo em todos" (1Cor 15,28).” Isso significa que não é possível supor que o fim dos tempos e a vinda de Cristo como juiz podem acontecer sem Sua aceitação por todo Israel. O “fiat” de Maria tornou possível Sua primeira vinda na humildade da carne. A aceitação de Israel tornará possível Sua segunda vinda em poder e glória.”
(Pe. Livio Fanzaga, Wrath of God)

terça-feira, 13 de julho de 2010

As crianças mártires da Vendéia


No dia 28 de fevereiro de 1794 as seguintes crianças de até 7 anos de idade foram massacradas pelos revolucionários franceses:

Marie-Modeste AIRIAU, de la Ricoulière, 5 anos e 7 meses,
Thomas AIRIAU, de Villeneuve, 10 meses,
Joseph ARCHAMBAUD, de Puyberne, 20 meses,
Agathe ARNAUD de Belleville (morto em Lucs), 4 anos e meio,
Etienne BERIAU, de l’Erzandière, 15 dias,
Marie-Madeleine BERIAU, de Roblin, 2 anos e 11 meses,
Jeanne BERIAU, de Petit-Luc, 4 anos,
Marie BERNARD, de la Jarrie, 3 anos,
Céleste BOISSELEAU, de la Grézaudière, 6 anos,
Pierre BOISSELEAU, de la Gaconnière, 6 anos e meio,
François BOSSIS, do burgo de Grand-Luc, 7 meses,
Joseph BOSSIS, seu irmão, 23 meses,
Louis BOSSIS, outro irmão, 5 anos,
Pierre BOUET, de la Surie, 27 meses,
Louis BOURON, de Bourgneuf, 3 meses,
Madeleine BOURON, sua prima, de Bourgneuf, 3 anos,
Marie CHARUAU, de la Guyonnière, 2 anos,
Marie-Madeleine CHARUAU, sua irmã, 4 anos e 3 meses,
Jean CHARRIER, de la Devinière, 3 anos,
Marie DAVIAUD, de l’Erzandière, 1 mês,
Pierre DAVIAUD, seu irmão, 5 anos e 8 meses,
Jeanne DAVIAUD, de Petit-Luc, 2 anos e 11 meses,
Pierre DAVIAUD, seu irmão, 4 anos e 10 meses,
Louis EPIARD, de Chef-du-Pont, 5 anos e 10 meses,
Jean-François ERCEAU, de la Sorinière, 27 meses,
Pierre FETIVEAU, de la Gaconnière, 27 meses,
N…FETIVEAU, seu irmão, 3 meses,
Jeanne FEVRE, de Chef-du-Pont, 5 anos e meio,
Suzanne FORGEAU, de la Sorinière, 20 meses,
Rose-Aimée FORT, de Champ-Dolent, 31 meses,
Pierre-René FORT, seu irmão, 5 anos e 9 meses,
Marie-Anne FOURNIER, do burgo de Grand-Luc, 30 meses,
Jacques FOURNIER, seu irmão, 5 anos e 5 meses,
Marie GARREAU, de la Cornetière, 7 anos,
Marie-Anne GAUTRET, de la Guénière, 7 anos,
Pierre GEAI, des Temples, 25 meses,
Jean GIRARD, de Chef-du-Pont, 1 ano,
Marie-Jeanne GIRARD, sua irmã, 4 anos e 2 meses,
Pierre GIRARD, seu irmão, 6 anos e 4 meses,
Pierre GOUIN, des Temples, 1 ano,
Louis GRALEPOIS, de la Grézaudière, 13 meses,
Jeanne GRALEPOIS, de la Bretonnière, 5 anos,
Pierre GRATON, de Puy, 3 anos e 4 meses,
Jeanne GRIS, de la Cernetière, 5 meses,
Pierre GRIS, seu irmão, 5 anos,
Lubin GUILLET, do burgo de Grand-Luc, 6 anos,
Marie GUITET, de l’Erzandière, 4 anos e meio,
Marie HERMOUET, do burgo de Grand-Luc, 5 meses,
Louis HIOU, de Bourgneuf, 2 anos e 11 meses,
Marie-Anne JOLI, de la Bromière, 27 meses,
Marie MALARD, de Marchais, 4 anos,
Jean MALIDIN, de la Primaudière, 18 meses,
Marie MALIDIN, sua irmã, 3 anos e 11 meses,
Jeanne MALIDIN, de la Bruère, 3 anos,
Rose MALIDIN, sua irmã, 6 anos e 2 meses,
Joseph MANDIN, do burgo de Grand-Luc, 23 meses,
Louis MANDIN, seu irmão, 5 anos e 9 meses,
Véronique MARTIN, de la Moricière, 1 ano,
Marie-Françoise MARTIN, de Petit-Luc, 2 anos,
Louise MARTIN, sua irmã, 5 anos e 4 meses,
Rosalie MARTIN, de la Guénière, 2 anos e 10 meses,
Louise MARTIN, sua irmã, 5 anos e 3 meses,
Rosalie MARTINEAU, de Bourgneuf, 2 anos e 11 meses,
Jean MIGNEN, de la Sorinière, 1 ano,
Louise MINAUD, de Brégeon, 15 dias,
Louise-Marie MINAUD, sua irmã, 15 meses,
Jean MINAUD, seu irmão, 5 anos e 3 meses,
Pierre MINAUD, outro irmão, 6 anos e 11 meses,
Jeanne MINAUD, de la Davière, 15 meses,
André MINAUD, seu irmão, 4 anos e 2 meses,
Véronique MINAUD, sua irmã, 6 anos e 8 meses,
Pierre MINAUD, seu primo, de la Davière, 4 anos,
Louise MINAUD, de l’Ethelière, 33 meses,
Marie-Anne MINAUD, sua irmã, 6 anos e 11 meses,
Anne MORILLEAU, de la Primaudière, 2 anos,
Céleste MORILLEAU, sua irmã, 6 anos e 5 meses,
Jean PERROCHEAU, de Retail, 5 anos e 3 meses,
Pierre POGU, de la Pellerinière, 22 meses,
Jean POGU, seu irmão, 5 anos,
Rose PREVIT, de Villeneuve, 10 meses,
Marie PREVIT, sua irmã, 6 anos,
Rose REMAUD, de Bourgneuf, 4 anos e 11 meses,
Marie REMAUD, de la Grande-Métairie, 4 anos e meio,
Pierre RENAUD, de la Nouette, 18 meses,
Catherine RENAUD, sua irmã, 3 anos e meio,
Jeanne RENAUD, sua prima, de la Nouette, 4 anos,
Marie-Anne RENAUD, de la Petite-Brosse, 4 anos,
Pierre RENAUD, seu irmão, 6 anos e meio,
Marie RICOULEAU, de la Bromière, 22 meses,
Jeanne ROBIN, de la Retardière, 5 anos,
Marie-Anne RORTAIS, de la Guyonnière, 4 anos,
Jeanne ROUSSEAU, de la Gaconnière, 23 meses,
Jean ROUSSEAU, seu irmão, 3 anos e 11 meses,
Louis ROUSSEAU, outro irmão, 7 anos,
Victoire ROUSSEAU, prima, de la Gaconnière, 11 meses,
Jeanne ROUSSEAU, irmã de Victoire, 4 anos,
Jeanne SAVARIAU, de la Sorinière, 5 anos e 10 meses,
Pierre SIMONEAU, de la Moricière, 6 meses,
Jean SIMONEAU, seu irmão, 4 anos e 10 meses,
Jacques SIMONEAU, de la Bugelière, 18 meses,
Joseph SIMONEAU, primo, de la Bugelière, 8 meses,
Henri SORET, de Petit-Luc, 2 anos,
Jacques SORIN, de la Bromière, 5 meses,
Jean SORIN, seu irmão, 3 anos e 3 meses,
Madeleine TENET, de Chef-du-Pont, 7 anos,
Louis VRIGNAUD, de la Ricoulière, 23 meses,
Marie-Jeanne VRIGNAUD, de la Cornetière, 3 anos,
Jean-Baptiste VRIGNAUD, seu irmão, 4 anos e 5 meses.

Oração composta em 1994 (ano do Bicentenário) para pedir a beatificação das crianças mártires:

“Senhor Jesus, que coroastes com a auréola dos mártires as criancinhas de Belém imoladas em Vosso lugar por Herodes, dignai-Vos de nos conceder a glorificação das criancinhas de Petit-Luc, vítimas da impiedade revolucionária. Não foi também devido ao ódio a Vosso nome que elas foram massacradas, novos Santos Inocentes desta paróquia chamada justamente de a Belém da Vendéia? Nossa Senhora de Petit-Luc, Rainha dos Mártires, orai por nós!”

http://www.genocide-vendeen.com/genocide/index.php?option=com_content&view=article&id=51&Itemid=48

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Operação Parricídio (III)


“Não há mais Vendéia”
O general Westermann eventualmente relatou ao comitê de salvação pública: “Não há mais Vendéia, meus concidadãos republicanos! Ela morreu sob nossos sabres junto com suas mulheres e filhos. Acabo de enterrá-los nos pântanos e nas florestas de Savenay. Seguindo vossas ordens, as crianças foram pisoteadas até a morte sob os cascos de nossos cavalos; as mulheres foram abatidas para que nunca mais possam trazer soldados ao mundo. As ruas estão cheias de cadáveres; em muitos lugares eles formam pirâmides inteiras. Em Savenay tivemos que usar massivos pelotões de fuzilamento pois suas tropas ainda estão se rendendo. Não fazemos prisioneiros. Deve-se dar-lhes o pão da liberdade; contudo, misericórdia não tem nada a ver com o espírito da revolução.” Westermann, contudo, logo encontrou sua nêmese; foi guilhotinado pouco tempo depois junto com seu amigo Danton.
Le Mans foi palco de mais brutalidades; mulheres, anciãos e crianças que se escondiam nas casas dessa grande cidade foram descobertos e, sob os olhares de Barbott e Prieure, tiveram suas roupas arrancadas de seus corpos a golpes de sabre e baioneta; mulheres e moças foram estupradas, e como não havia bastantes vivas para os “rapazes de azul”, os cadáveres foram também violados. Essa orgia parcialmente necrófila terminou quando a multidão, para alegria dos soldados do governo, amarrou os cadáveres juntos como “baterias republicanas” como haviam feito em Arras. Em Angers, contudo, a multidão decapitou os que já havia enforcado e exigiu dos médicos que preparassem as cabeças para que as colocasse nas ameias das muralhas ao redor da cidade. Como os médicos estavam trabalhando muito devagar, a multidão rapidamente decapitou outro grupo de prisioneiros, entre os quais estava uma pia abadessa de 82 anos.
Marchas da morte
Outro divertimento dos “Bleus”, que referiam-se a si mesmos como colonies infernales, era assar homens e crianças em fornos de padaria. A fim de extrair o máximo de prazer sádico de tais práticas, as vítimas eram colocadas em fornos frios, que eram depois aquecidos. Um general que não conseguia acabar com esse tipo de diversão entre suas tropas – Mergeau Desgraviers – tornou-se tão melancólico que ficou feliz de morrer em 1796 na batalha contra os austríacos. Disseram ao general Turreau que seus soldados se comportavam pior que canibais; contudo, ele mesmo havia dado ordem de queimar todas as casas (o que também se fez). Por toda parte podiam-se ver as batteries nationales feitas de cadáveres humanos. Turreau, o líder dessas Promenades, como as marchas da morte eram chamadas, acabou tendo uma longa e próspera carreira. De 1803 a 1811 foi o embaixador francês nos Estados Unidos (onde trabalhou na aliança contra a Inglaterra); mais tarde foi imortalizado em pedra na face oriental do Arc de Triomphe.
Como já tínhamos mencionado, os girondinos não deixavam de estar menos envolvidos em tais atrocidades que os jacobinos. Barère, que começou a carreira como girondino, declarou que pretendia transformar a Vendéia em um cemitério. São, contudo, especialmente as unidades promovidas nos últimos anos da revolução que revelam seu caráter completamente sádico e masoquista. Porque os homens da Vendéia lutaram na batalha, a expiação tinha que ser feita por suas mulheres e crianças – mesmo as menores delas. (Os britânicos fizeram a mesma coisa em princípio nos seus campos de concentração durante a Guerra dos Bôeres.) Na Vendéia, contudo, um esporte particularmente popular entre os Azuis era arremessar crianças pela janela e pegá-las usando baionetas. Igualmente popular era a prática de retalhar mulheres grávidas para cortar suas crianças não-nascidas em pedaços e então deixar suas mães sangrarem até a morte. Outras mulheres grávidas eram mortas esmagadas em prensas de vinho e frutas. Também era popular a queima de vítimas em casas e igrejas. Essa sede de sangue cresceu com tanta veemência que o comandante Grignon deu ordem para que todo aquele que encontrassem era para ser imediatamente morto, ainda que fosse republicano. Um caso particularmente pavoroso envolveu uma jovem que foi atada nua a dois galhos de árvore depois de ser estuprada e ainda sofreu repetidas tentativas de cortá-la ao meio. Aos Bleus não faltava nada em termos de imaginação. Em retrospecto, podem-se ver todas as dificuldades, os sofrimentos sem fim que os violadores “progressistas” de pessoas, túmulos e igrejas trouxeram sobre toda a Europa. (Os interiores das velhas igrejas francesas ainda hoje mostram o que esses bárbaros brutais destruíram.)
Algo positivo?
A Revolução Francesa deixou algo positivo para a posteridade? Apenas o sistema métrico, que reconhecidamente se desenvolveu a partir da predileção democrática por medição e contagem infinitas. Que dizer então da Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen? Foi um documento puramente antropocêntrico, um produto tipicamente declamatório do primeiro Iluminismo, concebido em 1789 e finalmente enxertado na constituição da República Sadista em 1793. Nos livros escolares lê-se sobre o período do terror: “Le Terreur était terrible mais grande!” Mesmo assim um grande número de moderados também passou pelo fio da espada. Historicamente eles o mereceram, por não terem considerado o que acontece quando se destrói a velha ordem. Charlotte Corday d'Armont, uma girondina entusiástica, assassinou o sedento de sangue Marat e foi executada; André de Chénier, o grande poeta lírico liberal, morreu no cadafalso; o Marquês de Condorcet, ideólogo líder dos “moderados”, cometeu suicídio para escapar da chére mère. Madame Roland de la Planière, outra girondina, exclamou, no lugar onde seria executada, “Ó liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!” (Metternich, por sua vez, comenta que, em face de uma tão florescente “fraternidade”, se tivesse um irmão passaria a chamá-lo de primo.) Especialmente trágico foi o destino de Chrétien de Malesherbes, um liberal altamente erudito que permaneceu fiel ao rei. Ele defendeu Luís XVI e teve de aguardar enquanto via sua filha, seu genro e seus netos serem decapitados antes que a guilhotina pusesse fim ao seu próprio desespero.
Não se deve esquecer que muito daquilo que hoje pode nos parecer positivo – liberalidade, intelectualidade, humanitarismo – já havia sido trazido até nós pelo absolutismo cortês e liberal, enquanto a Revolução Francesa, que usou todas essas palavras, de fato nada mais fez do que extingui-las brutalmente. Lembramo-nos da reação de Caffinhals, que respondendo ao tumulto criado pelos defensores de Lavoisier, que gritavam, “Vocês estão condenando um homem culto à morte”, disse, “A Revolução não precisa de homens cultos.” O bom homem estava certo; pois para a Revolução Francesa somente quantidades, cifras e números têm qualquer valor. O discurso da elite quase não é mais tolerado.
De um ponto de vista intelectual, a Revolução Francesa foi um conglomerado de inconsistências impensadas mas fanaticamente cridas e mostrou claramente, como tantas outras revoluções o fizeram, o verdadeiro caráter da grande maioria do Genus Humanum.
Na Revolução Francesa a escória da França sucumbiu à sede de sangue e abriu as portas ao mal. Em nossa época de estultificação eletrônica, é uma aposta certa que hoje, 200 anos depois, essa monstruosidade será o centro de celebrações orgiásticas. O homem comum sempre se apega desesperadamente a clichês. Se os mesmos lhe são tirados, ele tem de fazer sua própria pesquisa, pensar e decidir por si mesmo e começar tudo de novo. Não se pode realmente esperar esse tipo de comportamento elitista de sujeitos tão miseráveis. Aqueles a quem os deuses querem destruir, primeiro os enlouquecem.”
(Erik von Kuehnelt-Leddihn, Operation Parricide: Sade, Robespierre & The French Revolution)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Operação Parricídio (II)


Pesadelo
Não há outra maneira de entender as circunstâncias de pesadelo relativas ao assassinato da Princesa de Lamballe. Essa amiga da rainha foi presa, mas recusou-se a prestar juramento à constituição na prisão de La Force. Como resultado de sua recusa, foi entregue à multidão vociferante. Isso aconteceu pouco antes dos assassinatos do ano de 1792, tão meticulosamente organizados por Danton, um republicano “moderado”. Os protagonistas desse banho de sangue receberam por seu trabalho seis livres cada um e todo vinho que pudessem beber. As celas foram esvaziadas em uma orgia de matança, durante a qual não apenas presos políticos, mas também prostitutas e menores, alguns meras crianças, foram massacrados. Cenas que fazem lembrar os desastres de la guerra de Goya aconteceram em Bicetre e Salpetriere. (O extermínio de prostitutas também foi executado impiedosamente por aqueles favoritos da esquerda, os republicanos espanhóis, provavelmente devido ao alastramento de doenças venéreas entre os bravos defensores da democracia.) No ano de 1792, na queda das Tulherias, a guarda suíça, leal a seu juramento, lutou até o último homem. Os suíços que caíram vivos nas mãos da multidão foram mutilados e cortados em pedaços. Um ajudante de cozinheiro, que tentou defender o casal real, foi untado em manteiga e queimado vivo.
Qualitativamente pior
Por essas e outras ocorrências similares pode-se perceber claramente algo mais: de um ponto de vista puramente quantitativo as atrocidades dos socialistas vermelhos e marrons foram piores que as da Revolução Francesa; contudo, de um ponto de vista qualitativo a coisa inteira muda de figura. Os crimes dos nacional- e internacional-socialistas foram executados em sua maioria em campos de concentração e calabouços por seus próprios bandidos treinados, ao passo que as atrocidades da Revolução Francesa foram cometidas sob o lema de Liberdade, Fraternidade e Igualdade em grande parte pelo próprio povo ou foram no mínimo acompanhadas pelo aplauso dos espectadores deliciados – tudo à luz do dia com total publicidade. Os guilhotinamentos não foram somente feriados gerais; foram eventos sádicos cuidadosamente planejados, durante os quais (para citar apenas um exemplo) um aristocrata com suas mãos amarradas e a cabeça já no cepo era forçado a ouvir um verboso e irônico discurso sobre as vitórias dos exércitos republicanos para que pudesse compartilhá-las com seus antepassados no além-túmulo. A transformação completamente natural de democracia em socialismo, de igualdade política em financeira, teve início já naquela época. Não somente os aristocratas, mas também os ricos, por causa de suas posses, foram entregues a notre chére mère la guillotine. (Na verdade somente 8 por cento dos guilhotinados pertenciam à aristocracia: mais de 30 por cento eram camponeses.)
Os “moderados” deram-se igualmente mal. Cidades como Lyon, Toulon e Bordeaux, lideradas pelos girondinos contra os jacobinos, foram parcialmente arrasadas e seus habitantes, dizimados. Quando o guilhotinamento ameaçava ficar muito devagar, muitas vítimas foram afogadas e outras, executadas com escopeta, de modo que as multidões pudessem se divertir ao vê-las sangrar lentamente até a morte. (Napoleão, jacobino e amigo íntimo de Robespierre, alcançou sua primeira vitória na rendição da “rebelde” Toulon.)
Uma enorme orgia sexual sádica
A Revolução Francesa só se tornou realmente uma enorme orgia sexual sádica depois do esmagamento das insurreições na Bretanha e na Vendéia. Deve-se ter em conta que a Vendéia foi uma revolta de camponeses que teve o apoio da aristocracia. A liderança da Chouannerie era parte camponesa (Cathelineau) e parte aristocrata (Larochejacquelein); além deles, Charles Armand Tuffin, Marquês de la Rouerie e amigo de Washington, perdeu a vida nessa batalha. (Seu cadáver foi desenterrado e decapitado.) O terror envolvido nesse genocídio deliberado foi previamente anunciado pelas atrocidades de Paris, especialmente pela extensa violação de túmulos e cemitérios, pois o homem que se enfurece contra os mortos – contra reis e aristocratas, mas também contra santos – não terá quaisquer escrúpulos de fazer o mesmo contra os vivos. (Devo confessar aqui, no entanto, que a violação de cadáveres praticada pelo lado republicano na Guerra Civil Espanhola – notadamente no cemitério de Huesca – está na mesma categoria daquilo que os republicanos franceses fizeram.) Em prefácio ao livro de Reynold Sechers, Le Génocide Franco-Français, o Professor Jean Mayer diz que o autor muito se conteve e que o pior não podia ser descrito. A verdade é muito mais assustadora.
A Revolução Alemã, iniciada no ano de 1933, também passou por uma fase relativamente humana; contudo, o dia 30 de junho de 1934 foi um alarme flamejante, seguido de um mergulho íngreme e inelutável, do tipo descrito nas tragédias gregas, no inferno da tirania totalitária de extrema-esquerda. Assim como na Revolução Francesa, o caminho estava aplainado nessa direção desde o começo. O mesmo é verdadeiro para a Rússia. Do mesmo modo que na França foram os escritos dos Enciclopedistas, Morelly, Rousseau, Diderot e Sade e nos países germânicos foram as obras de Haeckel, Chamberlain e Rosenberg junto com as de Hitler e Goebbels, assim também na Rússia foram os livros de Marx, Tschernyschewsky, Plechanow e Lênin que determinaram o desenvolvimento político subseqüente. O que eventualmente aconteceu na Revolução Francesa, notadamente na Vendéia, na Bretanha e em Anjou, foi em sua lógica interna simplesmente a realização do grande ateísmo materialista do primeiro Iluminismo.
Em situações como essa somos novamente obrigados a nos confrontar com o dito de Dostoiévski: “Se não há Deus, tudo é permitido”.
Guilhotinamentos em massa
Até mesmo em Arras, onde o líder jacobino Lebon observava os guilhotinamentos em massa de sua sacada ao lado de sua querida esposa, os cadáveres decapitados de homens e mulheres eram despidos e amarrados juntos em poses obscenas como batteries nationales maníacas saídas das 120 Noites de Sodoma de Sade. Práticas semelhantes aconteceram em Noyades no Loire onde homens e mulheres eram amarrados juntos nus e arremessados ainda vivos ao rio como um “casamento republicano”. Quando a multidão não encontrava mais homens e mulheres suficientes, organizaram o “aperto do nó” de modo homossexual. Carrier, que acabou também perdendo a cabeça, era o encarregado de tudo isso. Ele chamava essas atrocidades de Le flambeau de la philosophie, uma expressão tomada do Marquês de Sade. As principais vítimas dessas atrocidades perpretadas por homens eram naturalmente mulheres (assim como seus filhos, em geral assassinados diante de seus próprios olhos). A misoginia sádica da revolução atingiu proporções inacreditáveis.
A história das atrocidades perpretadas pelos jacobinos em cidades girondinas ainda falta ser contada. Muito do que sabemos refere-se ao pandemônio na Vendéia e nas regiões vizinhas. Lá os republicanos (junto com seus bravos colaboradores girondinos) planejaram nada menos que o completo extermínio da população, mesmo que isso significasse também a destruição de “patriotas” e suas famílias. Ninguém podia ser tão seletivo. Uma “paisagem traidora” inteira com todos seus habitantes deveria desaparecer da face da terra. Estamos falando aqui não apenas do tipo de genocídio praticado pelos internacional-socialistas russos ou pelos nacional-socialistas alemães; estamos falando aqui da satisfação de uma luxúria sexual pervertida, algo empreendido com perfeição diabólica. Saint Just declarara (10.10.1793) que não apenas os traidores mas também os indiferentes deveriam ser exterminados. Danton dissera que aristocratas e padres eram culpados porque colocavam o futuro em questão com sua simples existência, e Robespierre desejava uma “Justiça rápida, rigorosa e inesitante como resultado da virtude e consistência dos princípios democráticos”. Tudo isso concentrou-se na Vendéia, cujo nome foi oficialmente mudado para “Vengee”, ou “vingada”.”
(Erik von Kuehnelt-Leddihn, Operation Parricide: Sade, Robespierre & The French Revolution)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Operação Parricídio (I)


“O ano de 1989 d. C motivou a celebração do 200º aniversário da Revolução Francesa em muitos países. No ano de 1880, na França, o 14 de julho, dia da queda da Bastilha, já tinha sido ocasião para todo tipo de frivolidades. Na época, as últimas testemunhas da revolução já estavam há muito tempo mortas. Era-se então dependente de historiadores que idealizavam esse evento de longo alcance em nossa história, porque com a Revolução Francesa a democracia sofreu um reavivamento depois da queda de ponta-cabeça que tivera com a morte de Sócrates.
A Revolução Francesa, contudo, não veio como um relâmpago em céu azul. Carlos I havia sido executado 140 anos antes em Whitehall por fanáticos político-religiosos, e como afirmou convincentemente Jean Lacroix, a República se funda sobre “a morte do Pai”. Fraternidade e Igualdade parece que só se podem realizar por meio do parricídio. O ímpeto por mudanças na França veio não apenas da Suíça, mas principalmente de franceses anglófilos e de um entendimento completamente falso do que tinha acabado de acontecer na América. Foi, de certa forma, o primeiro grande desentendimento euro-americano. Por outro lado, o Governador Morris, embaixador americano em Paris, disse ao orgulhoso Lafayette no começo da Revolução: “Eu sou contra vossa democracia, Monsieur de Lafayette, porque sou pela liberdade”. Em 1815 começou um discurso com as palavras, “Os Bourbons estão de volta ao trono; a Europa está livre de novo” – algo que um americano de hoje mal poderia entender depois de tantos anos de presunçosa estupidez incutida pelas escolas.
A interpretação comum
A interpretação comum da Revolução Francesa (parecida com a da Revolução Russa) baseia-se na teoria do pêndulo que oscila na direção contrária. O povo empobrecido e oprimido, liderado por idealistas altamente inteligentes, livrou-se do domínio insuportavelmente opressivo dos monarcas, aristocratas e padres e criou uma nova ordem, na qual Liberdade, Igualdade e Fraternidade se realizaram. Não nos tinha já dito Goethe que os legisladores e os revolucionários que anunciam simultaneamente Liberdade e Igualdade eram falsos e impostores? Quando não existe o que se chama de “igualdade natural”, ela só pode ser criada pela força bruta. Para trazer igualdade a uma cerca, usa-se uma podadeira. Cem centavos fazem um dólar, mas cada dólar de um determinado ano não é idêntico a todos os demais dólares impressos naquela época.
A primeira fase da Revolução Francesa, que se desdobrou como crescimento econômico, crise financeira do Estado e uma série de reformas liberais, teve um caráter predominantemente aristocrático. As “novas idéias” do primeiro Iluminismo – a incompreendida guerra de independência americana, a anglomania, as visões de Rousseau, a crítica da religião por Voltaire (um homem que desprezava o homem comum) e a ainda turbulenta controvérsia jansenista – tudo isso havia confundido o espírito das classes superiores. A maçonaria, recentemente importada da Inglaterra, também teve um papel nessa transformação. É possível que até mesmo Luís XVI tenha sido maçom. Ele era, sem sombra de dúvida, um devotado leitor da Encyclopédie. Como resultado, um enorme vácuo de crença surgiu, o qual foi rapidamente preenchido pela ideologia esquerdista radical, que imediatamente infectou vastos segmentos da população. A “intelligentsia” esquerdista funcionou como quebra-gelo para a revolução de tal modo que, pelo menos no início, a existência da monarquia mal foi questionada, enquanto a aristocracia e o clero abdicavam e “casavam-se” com a burguesia.
O evento que deflagrou a Revolução Francesa não foi tanto a aliança entre os estados após o encontro em Jeu des Paumes como a tomada da Bastilha, na qual um homem teve um papel tão crucial no curso dos eventos como o de Rousseau.
Refiro-me ao Marquês de Sade. Hoje em dia ele é conhecido principalmente como o epônimo de “sadismo”. No entanto, em seus escritos infinitamente pornográficos e extremamente maçantes, há longas passagens filosóficas e políticas nas quais ele se revela um ateísta furioso, esquerdista e materialista. Foi o principal responsável pela tomada da Bastilha, pois a pedido de sua sogra ele foi – graças a uma lettre de cachet – preso na Bastilha junto com sete contraventores, jogadores de cartas trapaceiros, imbecis e devedores. Da Bastilha, Sade incitou com seu megafone improvisado o povo da vizinhança para vir em auxílio do grupo e libertá-los. De Launay, o comandante militar da Bastilha, estava perdido. Não ousou colocar o prisioneiro numa camisa-de-força (ou em um calabouço) mas pediu, ao invés, que dele o livrasse o rei. Como resultado, Sade foi transferido em 4 de julho de 1789 ao hospital para criminosos loucos em Charenton e solto em 1791. Tornou-se então o líder de uma section des piques revolucionária na qual o “Cidadão Sade” era ativo como um jacobino radical, até que brigou com Robespierre e foi novamente enviado ao dito hospital. Sade, juntamente com o neurótico masoquista Rousseau, que escreveu romances pedagógicos e enviou seus filhos a orfanatos, é o verdadeiro renovador da democracia em nosso tempo e naturalmente também um herói de nossos intelectuais esquerdistas.
A tomada da Bastilha/colapso moral
A tomada da Bastilha em 14 de julho e suas conseqüências imediatas mostraram o que a Revolução Francesa realmente era, ou seja, a conseqüência de um colapso moral que havia sido preparado pelos esquerdistas, radicais-chiques e literatos da época. De Launay negociou com a multidão, que lhe prometeu e à sua minúscula guarnição de inválidos e mercenários suíços livre passagem. Contudo, tão logo os defensores saíram, a multidão os atacou e os assassinou da maneira mais brutal possível. Foram principalmente os inválidos, que não podiam fugir, que foram feitos em pedaços. Durante algum tempo a multidão tentou decapitar de Launay; mas suas facas estavam muito cegas. Finalmente alguém trouxe um assistente de açougueiro, qui savait faire les viandes, e este separou a cabeça do comandante do seu corpo já frio, a qual foi então levada em triunfo pela cidade.
As tentativas de estabelecer uma monarquia constitucional falharam. O impulso por identidade e igualdade, levado ao ponto de ebulição pelo ódio e pela inveja, confirmou a verdade das palavras de Benjamin Constant: “Em certas épocas, deve-se percorrer toda a gama de loucuras antes de se voltar à razão”. Tudo que fosse distinto, mesmo que remotamente, era condenado e perseguido. A conformidade celebrava orgias.
Somente a queda de Robespierre em julho de 1794 impediu novos planos de nivelamento, que Babeuf com toda probabilidade teria realizado. Pois Robespierre planejava não apenas colocar todos os franceses em uniforme (ao modo das “formigas azuis” de Mao), mas também derrubar todos os campanários das igrejas, considerados “não-democráticos”, pois eram mais altos que os demais edifícios e como tais se destacavam por sua postura “aristocrática”. (Em Estrasburgo, preparativos já estavam a caminho para a mutilação bárbara da catedral local.) Outro problema que precisava ser resolvido era a língua dos alsacianos qui ne parlent pas la langue républicaine, também conhecida como francês. Alguém sugeriu retirar todas as crianças da Alsácia-Lorena ou reassentar toda a população de língua alemã pela França inteira. Tais eram planos caros demais e como resultado uma solução mais prática foi aventada, ou seja, o completo extermínio da população germanófona. Como se pode ver, a Revolução Francesa não se interessou apenas no desenvolvimento do assassinato mecânico em massa do bom Doutor Guillotin; ela também se interessava pelo genocídio e não apenas na Alsácia, mas também em outras regiões da République Une et Indivisible.
A Revolução Francesa tem sido vista pela maior parte dos escritores como predominantemente política, social ou (sob influência marxista) até mesmo como um evento econômico. Burke, Young, Rush e outros americanos e britânicos que visitaram a França antes da revolução apontam o dedo para a aristocracia, o clero e as classes altas; contudo, tanto o ceticismo como o ateísmo já se tinham infiltrado nos círculos mais elevados, e existia entre o clero o que Spengler chamava de “ralé sacerdotal”, ou o que chamaríamos hoje de católicos de esquerda “progressistas”. A censura em poder dos precursores dos liberais, que sofriam de esnobismo moderno, favorecia os esquerdistas e perseguia a direita, para não ser rotulada de “reacionária”. Tudo isso gradualmente influenciou também as classes média e baixa.”
(Erik von Kuehnelt-Leddihn, Operation Parricide: Sade, Robespierre & The French Revolution)