quarta-feira, 2 de junho de 2010

François Villon: Balada para Robert d’Estouteville


A aurora rompe – o gavião se agita,
Move-o prazer, move-o um costume nobre;
Bicando a esmo o melro espalha a dita,
Recebe o par, que com as asas cobre;
Oh, dar-vos quero – e a esse querer me dobre
Íntimo e alegre – os dons p’ra nós supremos.
Sabei que Amor no seu livro os encobre,
E por isso tão bem juntos vivemos.

Dona sereis, é certo, do meu peito,
E inteiramente, até à minha morte,
Louro doce, lutais por meu direito,
Oliveira tirando-me a má sorte,
Razão não quer que eu perca o empenho forte,
E isso nós dois de coração queremos,
De vos servir, e sem que a tal me exorte,
E por isso tão bem juntos vivemos.

E o que é mais, quando a dor sobre mim desce,
Por Fortuna que tanta vez se enfada,
O vosso olhar seus golpes amortece
Tal qual o vento à pena alvoroçada.
Não perco o grão com que deixo semeada
Vossa terra: o fruto e eu nos parecemos.
Deus me ordena que a deixe bem lavrada,
E por isso tão bem juntos vivemos.

Princesa, ouvi o que eu aqui resumo:
Os corações jamais separaremos,
Penso, e que o mesmo vós pensais presumo,
E por isso tão bem juntos vivemos.


Tradução de Afonso Felix de Sousa

domingo, 30 de maio de 2010

Democracia e totalitarismo


“O sonho do socialismo é ingênuo porque a simples igualdade não destrói automaticamente a opressão. O igualitarismo pode ser tão opressor como qualquer tirania. Tocqueville há muito tempo já observara que o totalitarismo democrático não é uma contradição em termos, e que os americanos são ingênuos se acham que por si mesma a estrutura política da democracia os protegerá do totalitarismo. Pois democracia e totalitarismo não são respostas opostas a uma mesma pergunta e sim, respostas a duas perguntas diferentes, e como tais podem ser compatíveis. Democracia é uma resposta à questão: Em quem está localizado o poder sócio-político? A resposta é: no povo em geral. Totalitarismo é uma resposta à questão: Quanto poder devem ter as autoridades sócio-políticas? A resposta é: poder total, poder de remodelar a vida humana, o pensamento humano, a própria natureza humana.”
(Peter Kreeft, C. S. Lewis for the Third Millennium)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

São Boaventura e a onipotência de Deus


“Deus é todo-poderoso, mas de tal modo que atos de culpabilidade, por exemplo mentir ou querer o mal, não Lhe podem ser atribuídos; nem o podem atos de penalidade (pelo pecado original), tais como temer e entristecer-se; nem atos materiais e corporais, como dormir e andar, exceto figurativamente; nem atos contraditórios, como fazer algo maior que Ele mesmo, ou produzir outro Deus igual a Si mesmo, ou criar outro ser que seja infinito em ato; e assim por diante. Como escreve Anselmo, “o que é contraditório, por menor que seja, não se encontra em Deus.” Embora Deus não possa fazer tais coisas, Ele é verdadeira, própria e perfeitamente todo-poderoso.
Isso deve ser entendido conforme se segue. O primeiro Princípio é poderoso de um poder não-qualificado; portanto o universal “oni” que prefacia “potente” cobre todas aquelas coisas feitas por um poder não-qualificado: ou seja, todas as coisas que procedem de um poder tanto completo como ordenado. Chamamos de 'completo' um poder que não pode desaparecer, sucumbir, ou ser limitado. Mas o pecado implica um desaparecimento de poder, a dor um colapso de poder e a operação corporal uma limitação de poder. O poder divino, suprema e completamente perfeito, não é criado, nem depende de nada, nem necessita de nada. Portanto não pode ser sujeito de atos corporais, culpáveis e penais: e isso precisamente porque é onipotente de um completo poder.
Ora, há três sentidos nos quais um poder pode-se dizer ‘ordenado’: quando é em ato, quando significa potência por parte de uma criatura, e quando significa potência por parte do único Poder incriado. O que é possível ao poder no primeiro sentido é não apenas possível, mas atual. O que é possível no segundo sentido, mas não no primeiro, é simplesmente possível, embora não atual. O que é possível no terceiro sentido, mas não no primeiro ou no segundo, é possível para Deus, mas impossível para as criaturas. O que não é possível em qualquer dos sentidos anteriores, i.e, o que, em razão de causas e princípios primordiais e eternos, é diretamente oposto à ordem, é simplesmente impossível; como seria se Deus produzisse algo infinito em ato, fizesse algo que fosse e não fosse ao mesmo tempo, fizesse com que um evento passado nunca tivesse acontecido, e assim por diante. A ordem e a completude do poder divino excluem a possibilidade de fazer tais coisas.
Isso mostra claramente o âmbito do poder divino, o significado do simplesmente possível e do simplesmente impossível, e o fato de que alguma impossibilidade é compatível com a verdadeira onipotência.”
(São Boaventura, Breviloquium)

domingo, 23 de maio de 2010

Uma comparação entre os Anticristos de Vladimir Soloviev e Robert Benson


“A imaginação profética de Soloviev e Benson descreve o Anticristo como um leigo. Soloviev, como vimos, associa o Anticristo, que é um político obcecado com religião, a um certo tipo de mago – o bispo apóstata Apolônio, que serve junto ao altar do poder. Benson também vê o Anticristo como um político, um leigo americano que se apresenta como o senhor do mundo, em cujos dons está o conceder a paz universal, o progresso e a concórdia fraternal entre as nações. É fascinante observar que ambos, Soloviev e Benson, apresentam seus personagens sob uma luz positiva. Enquanto a Bíblia descreve o Anticristo como o homem da iniqüidade, os personagens literários de Soloviev e Benson não são impostos pela força das armas. Pelo contrário, eles se apóiam no consenso popular e universal. Gozam da adulação da imprensa, do apoio de outras figuras poderosas e do povo. O Anticristo é o homem mais popular que já apareceu sobre a face da terra.
É fácil ver que ele é a antítese de Cristo: Cristo foi eliminado, crucificado, assassinado vergonhosamente e condenado como um criminoso. O Anticristo, a imagem reversa de Cristo, torna-se senhor do mundo por consenso popular: será proclamado um deus, supremo senhor e supremo salvador. Seu domínio universal baseia-se na aclamação popular.
Em certo sentido, Soloviev e Benson concordam em que o Anticristo é visto como uma pessoa positiva em termos mundanos; ele traz a paz e o progresso. Ele convence o homem que ele mesmo, o Anticristo, é a primeira manifestação de Deus. De acordo com Benson, ele é um homem perfeitamente calmo, frio, fascinante e poliglota. Ele é o homem da paz, do destino e da providência. O mundo o reconhece como rei, senhor e imperador.
O ódio a Cristo é a única característica em comum do Anticristo como é descrito por Soloviev e Benson.
Aqui eu gostaria de contrastar ambos escritores para destacar suas profundas diferenças. O inimigo do Anticristo segundo Soloviev é a própria pessoa de Cristo. Para o católico Benson, é a Igreja Católica. Soloviev faz seu Anticristo negar a Cristo aos gritos: “Ele não ressuscitou! Ele apodreceu! Apodreceu no túmulo!” Já o Anticristo de Benson premedita a destruição da Igreja Católica metódica, obstinada e perfeitamente, a qual é vista como a origem de todo mal e heresia e a praga da humanidade. O lema de Felsenburgh é: “Ecclesia Catholica delenda est!” A Igreja Católica deve ser destruída. A mim isso me parece muito mais relevante, ainda que a intuição aguda de Soloviev consiga focar a disseminada e contemporânea intolerância à unidade de Cristo numa tentativa – como acredita o Cardeal Biffi – de destruir a pessoa de Cristo como Filho de Deus e apresentar o Cristianismo meramente como um sistema de valores humanitários.
Benson, por outro lado, e este é um aspecto bem interessante de sua visão, enfatiza o desejo do mundo e do espírito do mundo de destruir a Igreja Católica, porque ela é a única testemunha verdadeira do sobrenatural.
Talvez essas duas peculiaridades que caracterizam o Anticristo em sentido profético devam ser colocadas juntas: hoje testemunhamos a intolerância a Cristo que foi, por assim dizer, “degradado” pela negação de Sua divindade e de Sua unidade. Ele é apresentado apenas como homem – ainda que um dos maiores que já existiram. Ao mesmo tempo, o inimigo a ser destruído hoje, admitamo-lo, é a Igreja Católica.
Gostaria também de realçar outro contraste entre Soloviev e Benson. Ambos escritores vêem o Anticristo como um leigo, um político, na verdade um homem de poder. É interessante, contudo, notar que enquanto Benson situa o Anticristo no fim do mundo e cuja suprema manifestação coincidirá com a vinda de Cristo no fim da história, Soloviev vê a chegada do Anticristo no final de um período histórico, após o qual segue-se um período de iluminação, no qual Cristo habitará e viverá entre os homens por um milhar de anos. Parece que ambos escritores inspiraram-se em tradições diferentes. Uma delas situa o Anticristo no fim do mundo, enquanto a outra aguarda um período de paz e intimidade com Deus (o reinado dos mil anos) para os que sofreram a última provação na época do aparecimento do Anticristo.
A visão de Benson baseia-se na Segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses e na correta interpretação do Apocalipse de São João segundo as quais o aparecimento do Anticristo coincide com o Juízo Final e com o fim da história humana. Essa tradição não vê nenhum reinado de mil anos. Naturalmente, é uma questão aberta à exegese descobrir se João e Paulo pretendiam colocar o aparecimento do Anticristo no fim do mundo. Virá o Anticristo no fim do mundo? João e Paulo parecem responder afirmativamente.
A visão de Soloviev baseia-se no capítulo vinte do Apocalipse de São João, o qual, tomado literalmente, presta-se à interpretação de que ao aparecimento do Anticristo seguir-se-á um reinado de mil anos. Tal interpretação tem sido constantemente repudiada pela Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 676).
Considero Benson um escritor mais complexo que Soloviev. Seu romance é mais completo e, de certo modo, mais moderno. Enquanto o principal protagonista na obra de Soloviev é o Anticristo em pessoa, em Benson é a oposição entre duas realidades: uma, maior e mais populosa, consistindo da humanidade ou dos que Benson chama de “os humanitários” que afirmam nada existir superior ao homem e que consideram o homem como Deus. A menor parcela da humanidade consiste de “supernaturalistas” e é identificada com um pequeno grupo de católicos que afirmam a existência de Deus distinto do homem e a divindade de Cristo. De acordo com Benson, todas as religiões, à exceção do Catolicismo, serão absorvidas pelo humanitarismo. Assim, esta importante diferença deve ser considerada: em Soloviev a figura do Anticristo é preponderante, enquanto em Benson tal preponderância é representada pelo “espírito do mundo” e o Anticristo é meramente sua “epifania”. O espírito do mundo, que é, praticamente, um mundo que perdeu a fé e deifica o homem, está determinado a erradicar o Cristianismo ao destruir todos os católicos e ao obrigar a humanidade a professar a crença no ateísmo absoluto – que projeto tremendo! Aqui, prezados amigos, não estamos falando de meras fábulas, mas de algo que espreita na consciência do nosso tempo.”
(Pe. Livio Fanzaga, Wrath of God)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Nossa Senhora de Absam


“No nevoso dia de 17 de janeiro de 1797, a jovem de 18 anos Rosina Buecher estava calmamente costurando à mesa de jantar da família quando sentiu um súbito horror. Seu pai, que estava trabalhando nas minas de sal, veio-lhe imediatamente ao pensamento e ela temeu que ele tivesse sofrido um terrível acidente.
Instintivamente olhou para a janela – e viu algo inesperado: a imagem de uma bela mulher jovem tinha aparecido no vidro da janela que lhe estava próxima. A jovem chamou a mãe, que também viu, e ambas acharam que aquela devia ser a imagem da Santíssima Virgem. Entraram em contato com o pároco da aldeia e alertaram os vizinhos, e todos concordaram que a imagem era um retrato da Virgem Maria.
A mãe de Rosina preocupou-se que a imagem podia ser um mau sinal, mas a própria Rosina tinha a esperança de que seu pai e seu irmão iriam voltar para casa a salvo apesar de sua premonição. Foi o que felizmente aconteceu, e já em casa eles contaram que tinham escapado por pouco de envolver-se em um acidente na mina de sal.
O pároco da aldeia removeu o vidro da janela para que fosse examinado por peritos, que descobriram que a imagem desaparecia quando imersa em água, mas reaparecia ao secar. A origem da imagem foi declarada como indeterminada, e tanto o padre como o bispo declararam que a imagem era um milagre.
O vidro foi devolvido à família Buecher mas, a pedido dos aldeões (que diziam, “Onde o Filho está, lá deve estar também Sua Mãe”), doaram-no à igreja da paróquia para veneração. Notícias sobre o fato se espalharam rapidamente, e peregrinos começaram a afluir a Absam para rezar diante da imagem.
Logo começaram a acontecer curas milagrosas após orações a Nossa Senhora de Absam. Os que haviam sido curados doavam ex-votos de pequenas pinturas à igreja, a maioria retratando um doente deitado na cama ou um devoto orando, com as palavras ex-voto (“em agradecimento”), a data e uma pequena imagem da aparição, os quais ainda hoje estão guardados e podem ser vistos na capela de ex-votos próxima à igreja.”

http://www.sacred-destinations.com/austria/absam-our-lady.htm

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Os conflitos entre a filosofia clássica e o clima de opinião contemporâneo


“O esforço dos gregos para alcançar um entendimento de sua humanidade culminou na criação platônico-aristotélica da filosofia como ciência da natureza humana. Ainda mais que com os sofistas do seu tempo, os resultados estão em conflito com o clima de opinião contemporâneo. Hei de enumerar alguns pontos em desacordo:
1. Clássico: há uma natureza do homem, uma estrutura de existência definida que impõe limites à perfectibilidade. Moderno: a natureza humana pode ser transformada, seja pela evolução histórica ou pela ação revolucionária, de modo que um reino perfeito de liberdade pode ser estabelecido na história.
2. Clássico: filosofia é o esforço para se avançar da opinião (doxa) sobre a ordem humana e sobre a sociedade à ciência (episteme); o filosofo não é um filodoxo. Moderno: nenhuma ciência sobre esse assunto é possível, só opinião. Todos têm o direito a sua opinião; temos uma sociedade pluralista.
3. Clássico: a sociedade é o homem em conjunto. Moderno: o homem é a sociedade reduzida.
4. Clássico: o homem vive numa tensão erótica em direção ao fundamento divino da existência. Moderno: ele não vive dessa forma, pois eu não vivo assim; e eu sou a medida do homem.
5. Clássico: o homem é perturbado pela questão do fundamento; por natureza é um questionador (aporein) e vive em busca (zetein) do de onde, para onde e porquê de sua existência; ele levantará a questão: por que há algo e não o nada? Moderno: essas são questões otiose (Comte); não as pergunte, seja um homem socialista (Marx); questões às quais as ciências das coisas mundano-imanentes não podem responder são sem sentido, são Scheinprobleme [problemas ilusórios] (neopositivismo).
6. Clássico: o sentimento de inquietação existencial, o desejo de saber, o sentimento de ser induzido a perguntar, o inquirir e o buscar a si mesmo, o questionar em direção ao fundamento que induz a ser procurado, o reconhecimento do fundamento divino como indutor - são o complexo experimental, o pathos, no qual a realidade da participação humano-divina (metalepsis) torna-se luminosa. A exploração da realidade metaléptica, da metaxy platônica, assim como a articulação da ação exploratória por meio de símbolos da linguagem, no caso platônico dos mitos, são a preocupação central dos esforços do filósofo. Moderno: as reações modernas a essa questão central mudam com o “clima de opinião”... A ignorância filosófica progrediu tanto que o cerne experiencial do filosofar desapareceu do horizonte e nem mesmo é reconhecido como tal quando aparece em filósofos como Bergson. O processo de desaculturação eclipsou essa questão tão completamente por meio da opinião que, às vezes, falar de uma indiferença em relação a ela é hesitante.
7. Clássico: educação é a arte da periagoge, da conversão (Platão). Moderno: educação é a arte de ajustar, com solidez, as pessoas ao clima das opiniões que prevalecem na época, de modo que não sintam o “desejo por saber”. Educação é a arte de impedir que as pessoas adquiram o saber que as permitiria articular as questões da existência. Educação é a arte de comprimir os jovens em um estado de alienação que resultará em desespero silencioso ou em militância agressiva.
8. Clássico: o processo pelo qual a realidade metaléptica torna-se consciente e noeticamente articulada é o processo pelo qual a natureza do homem torna-se luminosa para si-mesma como vida da razão. O homem é o zoon noun echon. Moderno: a razão é razão instrumental. Não existe algo como a racionalidade noética do homem.
9. Clássico: por meio da vida da razão (bios theoretikos), o homem compreende sua liberdade. Moderno: Platão e Aristóteles eram fascistas. A vida da razão é uma empresa fascista.
A enumeração não é nem remotamente exaustiva. Qualquer um pode complementá-la com suculentos itens coligidos da literatura opinante, da mídia de massa e de conversações com colegas e estudantes. Todavia, [a enumeração torna claro o que] Whitehead quis dizer quando declarou que a filosofia moderna fora arruinada. Além disso, os conflitos foram formulados de tal maneira que o sinal da incorporação grotesca à deformação da humanidade por meio do clima de opinião torna-se visível.
O grotesco, contudo, não deve ser confundido com o cômico ou com o humorístico. A seriedade do assunto será melhor compreendida se se olhar os campos de concentração dos regimes totalitários e as câmaras de gás de Auschwitz, nas quais a bizarrice da opinião torna-se a realidade assassina da ação.”
(Eric Voegelin, On Classical Studies)

http://ohumanista.blogspot.com/2005/12/filosofia-clssica-vs-clima-de-opinio.html

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A antítese entre o liberalismo e a palavra de Deus


“Prega-se a democracia como um valor que transcende a pessoa e a sociedade em todas as suas dimensões, como uma marca que imprime caráter não só à política, mas a todas as manifestações do espírito humano: à educação, à cultura, à ciência, à economia, à arte, à moda. Trata-se, em uma palavra, de criar algo sagrado, intocável, dogmático, em escala universal, de tal maneira que chegue a substituir a Deus como explicação última do sentido da vida. Por isso dizia acertadamente Donoso Cortés que a democracia é o eco humano da rebelião do anjo caído. Esse eco se reflete na antítese que formula a doutrina liberal contra a palavra de Deus no Evangelho de São João, capítulo 8, versículo 32: "a verdade vos fará livres." Quer dizer, a verdade gera a liberdade, palavras que o liberalismo vira pelo avesso com estas outras: a liberdade gera a verdade. E como os efeitos participam da natureza de suas causas, e a liberdade é pessoal, subjetiva, variável, a verdade que ela fabrica e elabora terá seus mesmos caracteres. Não será portanto objetiva, mas subjetiva, não será absoluta, mas relativa, não será imutável, mas variável, não será "a verdade", mas "minha verdade", "tua verdade", "sua verdade". Dessa maneira, a faculdade intelectiva fica subordinada à volitiva, o entendimento à vontade, a luz às trevas, a ordem objetiva à ordem subjetiva. Alcançamos o relativismo, e com o relativismo o ceticismo. Essa é a origem corrosiva e devastadora do liberalismo, cuja expressão polifacética é a democracia.
Seus efeitos são denunciados pelo mesmo Donoso Cortés nestes termos: “Assim como a palavra de Deus retamente interpretada é a única capaz de dar a vida, assim também essa mesma palavra desfigurada, mal interpretada, é capaz de produzir a morte.” Recordar, por exemplo, a transformação de conceitos sagrados que opera o progressismo eclesiástico: o Salvador se transforma em libertador do proletariado, a salvação da alma em salvação de servidões econômicas, a caridade, virtude teologal, em amor humano e filantropia, o reino espiritual de Cristo em reino temporal e terreno, a dimensão vertical até Deus em dimensão horizontal até a humanidade, o teocentrismo em antropocentrismo. Pois bem, o liberalismo, igualmente, ao desfigurar, ao inverter o sentido das palavras de Jesus Cristo, ao fundar a verdade na liberdade e não a liberdade na verdade, produz a morte da ordem real objetiva e, como conseqüência, a morte da ordem política, social e econômica.”
(Julián Gil de Sagredo, La Democracia como Fuente de Subversión)

http://www.istoecatolico.com.br/index.php/Artigos/Diversos/Por-Julian-Gil-Sagredo.html

segunda-feira, 10 de maio de 2010

São Justino e a razão de não-católicos não poderem comungar na missa


“A ninguém se permite comungar senão àquele que acredita nas coisas sobre as quais foi ensinado, que se banhou na água que é para a remissão dos pecados e para a regeneração e que vive conforme Cristo lhe ordenou. Pois não é como pão e bebida comuns que os recebemos; mas da mesma maneira que Jesus Cristo nosso Salvador, ao encarnar-se pela Palavra de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação, assim também nos ensinaram que a comida que é abençoada pela oração de Sua palavra, e da qual nosso sangue e carne por transmutação se nutrem, é carne e sangue daquele Jesus que se encarnou. Pois os apóstolos, nas memórias que compuseram, que se chamam Evangelhos, nos entregaram o que lhes foi confiado; que Jesus tomou o pão, e quando deu graças, disse, Fazei isso em minha memória, isto é Meu corpo; e da mesma forma, tomando o cálice e dando graças, disse, Isto é Meu sangue; e o deu somente a eles.”
(São Justino, Próti Apología)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sublimus Dei


“A todos os fiéis cristãos a quem estas palavras possam chegar, saúde em Cristo Nosso Senhor e a bênção apostólica.
O Deus sublime tanto amou a humanidade que criou o homem de maneira que este pudesse participar não somente do bem de que todas as criaturas gozam, mas dotou-o da capacidade de alcançar o inacessível e invisível Deus Supremo e vê-Lo face a face; e tendo o homem, segundo o testemunho das sagradas escrituras, sido criado para usufruir de vida e felicidade eternas, que ninguém pode obter senão pela fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, é necessário que possua a natureza e as faculdades que lhe permitam receber aquela fé; e que qualquer um assim dotado deva ser capaz de receber a mesma fé. Nem é crível que alguém possua entendimento suficiente para desejar a fé e falte-lhe a faculdade mais necessária ao seu recebimento. Daí Cristo, que é a Verdade mesma, que jamais falhou e jamais pode falhar, ter dito aos pregadores da fé a quem confiou tal ofício: “Ide e ensinai a todas as nações”. Ele disse todas, sem exceção, pois todas eram capazes de receber as doutrinas da fé.
O inimigo da espécie humana, que se opõe a todas as boas obras de modo a levar o homem à destruição, isso vendo e invejando, inventou uma maneira inédita com a qual pôde impedir a pregação da palavra da salvação de Deus ao povo: inspirou seus asseclas que, para agradá-lo, não têm hesitado em afirmar que os índios ocidentais e meridionais, e outros povos de que temos conhecimento recente, devem ser tratados como animais estúpidos criados para nosso serviço, sob o pretexto de que são incapazes de receber a fé católica, e os reduzem à servidão, afligindo-os como se faz com as bestas.
Nós que, embora indignamente, exercemos na terra o poder de Nosso Senhor e nos esforçamos ao máximo para trazer aquelas ovelhas de Seu rebanho que estão fora para dentro do redil confiado aos nossos cuidados, consideramos, contudo, que os índios são verdadeiramente homens e que são não apenas capazes de entender a fé católica, como também, segundo sabemos, anseiam fervorosamente por recebê-la. Desejando prover uma solução ampla para esses males, Nós definimos e declaramos por estas nossas palavras, ou por qualquer tradução delas assinada por qualquer notário público e selada com o selo de qualquer dignitário eclesiástico, à qual igual crédito deve ser dado como ao original, que, apesar de tudo que possa ter sido dito ou se diga em contrário, os citados índios e todos os outros povos que possam depois ser descobertos por cristãos não devem ser de forma alguma privados de sua liberdade e da posse de sua propriedade, ainda que estejam fora da fé em Jesus Cristo; e que eles podem e devem, livre e legitimamente, usufruir de sua liberdade e da posse de sua propriedade; nem devem ser de qualquer maneira escravizados; e se acontecer o contrário, tal será nulo e sem qualquer efeito.
Em virtude de nossa autoridade apostólica, Nós definimos e declaramos por estas palavras, ou por qualquer tradução delas assinada por qualquer notário público e selada com o selo de qualquer dignitário eclesiástico, à qual igual crédito deve ser dado como ao original, que os ditos índios e outros povos devem ser convertidos à fé em Jesus Cristo pela pregação da palavra de Deus e pelo exemplo de uma vida boa e santa.
Dado em Roma no ano de 1537, no quarto dia das nonas de junho, no terceiro ano de nosso pontificado.”
(Paulo III, Sublimus Dei)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

São Justino e a celebração da missa no século II


“No chamado dia do Sol, reúnem-se em um mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos. Lêem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, na medida que o tempo permite. Terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para aconselhar e exortar os presentes à imitação de tão sublimes ensinamentos. Depois, levantamo-nos todos juntos e elevamos as nossas preces; como já dissemos acima, ao acabarmos de rezar, apresentam-se pão, vinho e água. Então o que preside eleva ao céu, com todo o seu fervor, preces e ações de graças, e o povo aclama: Amém. Em seguida, faz-se entre os presentes a distribuição e a partilha dos alimentos que foram eucaristizados, que são também enviados aos ausentes por meio dos diáconos. Os que possuem muitos bens dão livremente o que lhes agrada. O que se recolhe é colocado à disposição do que preside. Este socorre os órfãos, as viúvas e os que por doença ou qualquer outro motivo se acham em dificuldade, bem como os prisioneiros e os hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele assume o encargo de todos os necessitados. Reunimo-nos todos no dia do Sol, não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Crucificaram-no na véspera do dia de Saturno; e no dia seguinte a este, ou seja, no dia do Sol, aparecendo aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes tudo o que também nós vos propusemos como digno de consideração.”
(São Justino, Próti Apología)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Justino