segunda-feira, 3 de maio de 2010

São Justino e a celebração da missa no século II


“No chamado dia do Sol, reúnem-se em um mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos. Lêem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, na medida que o tempo permite. Terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para aconselhar e exortar os presentes à imitação de tão sublimes ensinamentos. Depois, levantamo-nos todos juntos e elevamos as nossas preces; como já dissemos acima, ao acabarmos de rezar, apresentam-se pão, vinho e água. Então o que preside eleva ao céu, com todo o seu fervor, preces e ações de graças, e o povo aclama: Amém. Em seguida, faz-se entre os presentes a distribuição e a partilha dos alimentos que foram eucaristizados, que são também enviados aos ausentes por meio dos diáconos. Os que possuem muitos bens dão livremente o que lhes agrada. O que se recolhe é colocado à disposição do que preside. Este socorre os órfãos, as viúvas e os que por doença ou qualquer outro motivo se acham em dificuldade, bem como os prisioneiros e os hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele assume o encargo de todos os necessitados. Reunimo-nos todos no dia do Sol, não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Crucificaram-no na véspera do dia de Saturno; e no dia seguinte a este, ou seja, no dia do Sol, aparecendo aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes tudo o que também nós vos propusemos como digno de consideração.”
(São Justino, Próti Apología)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Justino

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Márta Sebestyén e Muzsikás: Teremtés



Az ember agyagból gyúrjon Istent,
Aki teremtsen néki világot,
Hol hajthat magának papírhajót,
Amin önnön özönvizét megússza.
Keressen folyton partokat,
Hogy folyvást száradozzon.
Keressen folyton partokat,
Míg el nem mossa egy végső áradat.
Keressen folyton partokat,
Hogy folyvást száradozzon.
Keressen folyton partokat,
Míg el nem mossa egy végső áradat.


Minha homenagem ao país onde vivi e que recentemente afastou os socialistas do poder.
Legyél boldog, Magyarország!

terça-feira, 27 de abril de 2010

O desespero do homem contemporâneo


“Equivoca-se quem pensa que o grande problema do homem contemporâneo é a tentação da sensualidade que o conduz a todo tipo de torpeza e ignomínia. Não. O grande problema dos nossos dias é a negação do quarto mandamento. Sem pai, o homem não é capaz de gozar a alegria de ter irmão. Sem a alegria do irmão, não há o consolo da amizade. Sem o consolo da amizade, cresce a tentação da sensualidade e esta deságua inevitavelmente no rio da tristeza, que por sua vez conduz ao suicídio.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, A Inteligência e o Coração do Homem em São João Crisóstomo)

http://www.santamariadasvitorias.com.br

sábado, 24 de abril de 2010

A metamorfose da esquerda após a queda do muro de Berlim


“Juan Pablo Colmenarejo: Acredita que esse dia (há 20 anos) determina o fim do século XX?
Juan Manuel de Prada: Bom, há quem associe essa data ao dia da queda do muro de Berlim, também há os que a situam no dia dos atentados do 11 de Setembro. Creio que a data de que falas é, de qualquer forma, digna de constituir um marco na evolução interna do Ocidente; uma evolução que, ao contrário das teses otimistas que proliferam nestes dias, é muito mais sombria do que geralmente se pensa.
JPC: Mas…não foi esse o dia do triunfo da liberdade?
Juan Manuel de Prada: Sim, sem dúvida que foi o triunfo da “liberdade”…O que sucede é que a “liberdade” é, em si mesma, um movimento, e o que conta num movimento é o “para onde”. Pode ser que o movimento tenha um norte ou que esteja desnorteado, pode ser que seja um movimento pequeno ou gigantesco, pode ser que a direção que tome seja para “a frente” ou para “trás”…Na liberdade não é tão relevante a questão de “ser livre” como a de “ser livre para quê”. Eu acredito que a “liberdade” que veio depois da queda do muro de Berlim, a destes últimos 20 anos, foi uma liberdade destrutiva. A minha opinião é que “os logros” dela podem ver-se hoje: liberdade para retirar crucifixos, liberdade para destruir todo o tipo de vínculos humanos (começando pela família), liberdade para abortar sem restrições, liberdade para acabar com a transmissão harmoniosa baseada na Tradição, liberdade para experimentar em embriões…, definitivamente liberdade para nos destruirmos. Creio que a obsessão pela liberdade que exteriorizam alguns não é mais do que a marca distintiva dos fracos.
JPC: Caiu o muro, mas caiu junto com ele o fascínio da esquerda ocidental pelos regimes do “socialismo real”?
Juan Manuel de Prada: Na realidade parece que a esquerda havia iniciado um processo de metamorfose 20 anos antes, especialmente visível no Maio de 68. Evidentemente há então um momento em que a esquerda se dá conta de que os regimes comunistas eram eminentemente repressores da natureza humana, pelo que provocava nas suas vítimas uma reação que se traduzia num “apetite” de liberdade. Mas essa liberdade adquire em Maio de 1968 umas conotações muito concretas: rebelião contra o Sistema, “apoteose sexual”, em suma, um intento de romper e transvalorar as normas. É nesse clima que a esquerda realiza esse processo de mutação, por um lado inteligentíssimo, no qual toma consciência de que, se queria levar a cabo o seu processo de “engenharia social” (pois a esquerda teve desde as suas origens um claro propósito de “transformar” a sociedade), o que devia fazer não era reprimir a liberdade, mas exaltá-la ao máximo até deificá-la. Assim, a liberdade converte-se num ídolo ao qual todos devemos adoração. E é nesse processo de “regeneração” que está a chave para compreender que, depois da queda do muro de Berlim, a esquerda está perfeitamente apetrechada e disposta a lançar a sua nova ofensiva, que é precisamente a de que estamos a padecer hoje em dia e à qual a direita não tardou em aderir. Dessa maneira, essa exaltação destrutiva da liberdade está a conduzir-nos a um novo modelo de tirania muito pior que as tiranias comunistas, e tudo por uma simples razão: debaixo dos regimes repressores, o homem está consciente de que lhe estão a retirar algo que lhe pertence por natureza, que é a sua liberdade. Em troca, nas novas tiranias essa bulimia de “liberdade” faz com que o homem fique “anestesiado” perante os abusos do poder.
JPC: Uns meses antes da queda do muro, o então presidente da RDA, Erich Honecker, foi tornado Doutor Honoris Causa pela Universidade Complutense de Madrid e foi quando declarou que “o muro permanecerá de pé cem anos mais”, sendo que caiu seis meses depois…É como se os “progressistas” espanhóis tivessem estado sempre muito atentos a este tipo de “homenagens”, não lhe parece?
Juan Manuel de Prada: Não devemos esquecer que há pouco tempo também se ofereceu esse galardão a Santiago Carrillo, que ainda simboliza a sobrevivência deste tipo de ideologias. Por outro lado, atualmente a “Matriz Progressista” compraz-se em abraçar com alvoroço Hugo Chávez, outro personagem que representa o “pôr em dia” do socialismo real. Ao fim e ao cabo, toda ideologia necessita de construir a sua própria mitologia. É certo que hoje a esquerda européia renega estes regimes porque os considera obsoletos e anacrônicos, mas isso é assim porque, por sua vez, descobriu que a “ordem liberal”, isto é, o sistema político baseado na economia capitalista, é infinitamente mais eficaz para realizar o seu projeto de “engenharia social”. Neste sentido, resulta muito fácil compatibilizar a veneração a essa mitologia passada com a construção de uma “sociedade nova” sustentada pelos regimes social-democratas atuais. Por isso creio que não devemos enganar-nos, a frase pronunciada pelo presidente da RDA cumpriu-se: ele sabia que “o muro” iria sobreviver cem anos mais, precisamente porque também sabia que a esquerda havia preparado esta metamorfose.”
(Juan Manuel de Prada, em entrevista à rádio espanhola Cose)

http://ofogodavontade.wordpress.com/2010/04/11/a-metamorfose-da-esquerda-depois-da-queda-do-muro-de-berlim/

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Edgar Allan Poe: O Corvo


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!


Tradução de Fernando Pessoa

domingo, 18 de abril de 2010

O modernista e o tradicionalista


“A essência da modernidade é a morte do espiritual. Um modernista é alguém que está mais preocupado com a poluição atmosférica do que com a poluição da alma. Um modernista é alguém que deseja ar puro para respirar palavras sujas.
Um modernista se preocupa com grandes coisas, como baleias, mais do que com pequenas, como fetos; com grandes coisas, como governos, mais do que com pequenas, como famílias e vizinhanças; com grandes coisas, como estados, que duram centenas de anos, mais do que com pequenas, como almas, que duram para sempre.
Um modernista, assim, é alguém que põe sua fé e esperança de progresso precisamente naquela única coisa que não pode progredir: a matéria. Um tradicionalista, por outro lado, é alguém que “não mira as coisas que se vêem, mas as que não se vêem, pois as coisas que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas.” (II Cor 4:18) Um tradicionalista acredita nas “coisas permanentes”, e as coisas permanentes não podem progredir porque são as coisas para as quais todo verdadeiro progresso progride.”
(Peter Kreeft, C. S. Lewis for the Third Millennium)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A missão apostólica dos portugueses


“É glória singular do Reino de Portugal que só ele entre todos os do mundo foi fundado e instituído por Deus. Bem sei que o Reino de Israel também foi feito por Deus só permissivamente e muito contra a sua vontade, porque teimaram os Israelitas a ter rei como as outras nações; porém, o Reino de Portugal, quando Cristo o fundou e instituiu, aparecendo a el-rei (que ainda não o era) D. Afonso Henriques, a primeira palavra que lhe disse foi volo, quero. Como o Reino de Portugal havia de ser tão filho da Igreja Católica e lhe havia de fazer no mundo tão relevantes serviços, quis Cristo que a sua instituição fosse muito semelhante à da mesma Igreja.
A São Pedro disse Cristo: Tu es Petrus, et super hanc Petram aedificabo Ecclesiam meam (Mt. 16, 18); a D. Afonso disse Cristo: Volo in te, et in semine tuo, imperium mihi stabilire. A Pedro disse: Quero fundar em ti uma Igreja, não tua, senão minha, ecclesiam meam. A Afonso disse: Quero fundar em ti um império, não para ti, senão para mim: Imperium mihi. A Pedro, na instituição da Igreja, não disse in te et in semine tuo, porque, como o império da Igreja era universal sobre todas as nações do mundo, quis que todas as nações tivessem direito à eleição da tiara: o hebreu, como Pedro; o grego, como Anacleto; o romano, como Gregório; o alemão, como Victor; o francês, como Martinho; o espanhol, como Calisto; o português, como Dâmaso. Mas na instituição do Reino de Portugal disse Cristo: In te, et in semine tuo; porque como era reino particular de uma só nação, quis que fosse hereditário e não eletivo, para que continuasse na sucessão e descendência do mesmo sangue. E por que tudo isto, e para quê? Não para o fim político, que é comum a todos os reinos e a todas as nações, senão para o fim apostólico, que é particular deste reino e desta nação. O mesmo Cristo disse nas palavras com que o instituiu: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes, para que por meio dos Portugueses seja levado meu nome às gentes estranhas. Ainda então não sabia o mundo que gentes estranhas fossem estas, mas a daí a 400 anos, quando também o mundo se conheceu a si mesmo, o soube. Vede se foi instituição apostólica. De São Pedro disse Cristo: Ut portet nomen meum coram gentibus (At. 9, 15); e aos Portugueses disse o mesmo Cristo: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes. Aos Apóstolos disse Cristo: Videte regiones, quia albae sunt ad messem (Lc. 14, 35); e aos Portugueses disse o mesmo Cristo: Ut sint messores mei in terris longinquis. E notai que disse nomeadamente messores, segadores, porque se havia de servir também do seu braço e do seu ferro. Quando Cristo apareceu a el-rei D. Afonso, estava ele na sua tenda lendo a história de Gedeão, não só com um, mas com dois mistérios: primeiro, para que o rei não desconfiasse da promessa, vendo que os seus portugueses eram poucos; segundo, para que os mesmos portugueses entendessem que, como soldados de Gedeão, em uma mão haviam de levar a trombeta e na outra mão a luz (Juízes 7, 20). A Pedro chamou-lhe Cristo Cephas (Jo. 1, 42), pedra, em significação do que havia de ser; os Portugueses primeiro se chamaram Tubales (de Tubal) que quer dizer mundanos e depois se chamaram lusitanos: lusitanos, para que trouxessem no nome a luz, mundanos para que trouxessem no nome o mundo, porque Deus os havia de escolher para luz do mundo: Vos estis lux mundi.”
(Pe. Antônio Vieira, S. J, Sermão de Santo Antônio)

http://casadesarto.blogspot.com/2009/12/vos-sois-luz-do-mundo.html

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Kronos e kairos


“A língua grega é muito mais rica e sutil que o inglês para as distinções filosóficas, e o grego tem duas palavras para tempo, não apenas uma. Kronos significa o tempo medido objetiva, impessoal e matematicamente pelo movimento da matéria inconsciente através do espaço. Por exemplo, um dia de kronos dura sempre exatamente 24 horas, o tempo que leva para a terra girar em torno do próprio eixo. Kairos, por sua vez, é tempo humano, tempo vivido, tempo experimentado, o tempo teleológico, medido pela consciência humana, que se lança para um futuro que ainda não é, mas que se planeja. Somente kairos sabe algo de metas e valores.
(...) A razão por que creio que somente o espírito pode progredir é porque apenas o espírito vive em kairos. Pois somente kairos toca a eternidade, conhece a eternidade, busca a eternidade. Progresso não significa mera mudança, mas mudança em direção a um objetivo. A mudança é relativa e instável, mas o objetivo é absoluto e permanente. Caso contrário, se o objetivo mudasse com o movimento para alcançá-lo, não poderíamos mais falar de progresso, mas somente de mudança.
(...) Pense em um círculo, por exemplo uma torta, com um segmento, um pedaço de torta, nele. O segmento é kairos, tempo vivido, tempo de vida. A circunferência é kronos. Kronos limita quanto de kairos existe (e. g. 80 anos), mas não determina a outra dimensão de kairos, a dimensão do progresso. Progresso significa chegar mais perto da meta, que em minha imagem geométrica é simbolizada pelo centro do círculo, que poderia ser a eternidade, a permanência. Somente na dimensão de kairos, i.e. na dimensão espiritual, podemos falar significativamente de progresso. A única coisa que kronos pode fazer é circular infinitamente ao redor do centro e limitar a quantidade de qualquer segmento de kairos, mas a circunferência é eqüidistante do centro. Isso simboliza o fato de que nosso tempo vivido, nosso tempo de vida, pode-se mover em direção à eternidade, mas tempo puramente material não pode. Você se aproxima de Deus com santidade, não com idade. O mundo se aproxima de Deus com espiritualidade melhorada, não com materialidade melhorada. E Deus é a meta, a medida de progresso.
(...) Quando falamos de progresso moderno, não queremos dizer progresso em felicidade, em contentamento, em paz de espírito. Nem queremos dizer progresso em santidade e perfeição moral ou sabedoria. Falamos prontamente do “conhecimento moderno”, mas nunca da “sabedoria moderna”. Ao invés, nós falamos de “sabedoria ancestral”. Pois a sabedoria é para o conhecimento o que kairos é para kronos: a dimensão espiritual, intencional, teleológica e moral.
Incidentalmente, esse ponto a respeito de kairos e kronos nos liberta não apenas do culto ignorante ao não-existente deus “Progresso”, mas também do desejo ignorante de estar “atualizado”. Uma data, sendo simplesmente kronos, não tem caráter. É quase nada. É uma linha unidimensional, a circunferência. Uma linha não pode ter cor. Somente kairos, somente um segmento bidimensional do círculo, pode ter caráter e cor. Como uma data é apenas um ponto na circunferência, ela não tem caráter. Nada pode jamais ser realmente “atualizado”. Que fútil perseguição ao inalcançável é nosso desejo de estarmos “atualizados” ou sermos “contemporâneos”! Que desperdício de paixão e amor e energia!”
(Peter Kreeft, C. S. Lewis for the Third Millennium)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ricardo de São Vítor e a Santíssima Trindade


“Aprendemos, pelo que já foi exposto, que no sumo e plenamente perfeito bem encontra-se a plenitude e a perfeição de toda a bondade. Onde, porém, encontra-se a plenitude de toda a bondade, não pode faltar a verdadeira e suma caridade. Nada, efetivamente, é melhor do que a caridade, nada mais perfeito do que a caridade. Ninguém, porém, é dito propriamente possuir caridade pelo amor particular e próprio de si mesmo. É necessário, portanto, que o amor se estenda a outro, para que possa ser caridade. Onde, portanto, falta a pluralidade das pessoas, a caridade não pode existir de nenhum modo.
Mas dirás, talvez, que ainda que existisse uma única pessoa naquela verdadeira divindade, esta poderia, não obstante, possuir alguma caridade para com a sua criatura, ou melhor, possuí-la-ia com certeza. Porém também com certeza não poderia possuir a suma caridade para com uma pessoa criada. Seria, de fato, uma caridade desordenada. Ora, é impossível que na bondade da suma sabedoria exista a caridade desordenada. A pessoa divina, portanto, não poderia possuir a suma caridade para com outra pessoa que não fosse digna do sumo amor. Para que, porém, a caridade possa ser suma e sumamente perfeita, é necessário que seja tanta que não possa ser maior, é necessário que seja tal que não possa ser melhor. Ora, na medida em que alguém não ama mais ninguém do que a si mesmo, este que possui para consigo mesmo um amor particular tem em si mesmo a prova de que ainda não apreendeu o sumo grau da caridade. A pessoa divina, porém, com certeza não teria ninguém que pudesse amar dignamente como a si mesma se de nenhum modo tivesse outra pessoa condigna de si. Nenhuma pessoa, entretanto, seria condigna da pessoa divina se ela também não fosse Deus. Para que, portanto, naquela verdadeira divindade a plenitude da caridade possa ter lugar, é necessário, além da pessoa divina, outra pessoa condigna de modo que não lhe falte o divino consórcio.
Vês, portanto, quão facilmente a razão nos convence que na verdadeira divindade não pode faltar a pluralidade das pessoas. Certamente somente Deus é sumamente bom. Somente Deus, portanto, é sumamente amável. A divina pessoa não poderia, por conseguinte, exibir o sumo amor a uma pessoa que carecesse de divindade. A plenitude da divindade, porém, não pode existir sem a plenitude da bondade. A plenitude da bondade, entretanto, não pode existir sem a plenitude da caridade, nem a plenitude da caridade sem a pluralidade das pessoas divinas.
Aquilo, porém, que a plenitude da bondade nos convence a respeito da plenitude das pessoas, por razões semelhantes demonstra-o também a plenitude da bem-aventurança. Aquilo de que uma fala, a outra o comprova. E aquilo que a primeira clama, em uma única e mesma verdade a segunda aclama.
Interrogue cada um à sua consciência, e sem dúvida e sem contradição encontrará que assim como nada é melhor do que a caridade, assim também nada é mais feliz do que a caridade. Isto no-lo ensina tanto a própria natureza, quanto a repetida experiência. Assim como na plenitude da verdadeira bondade não pode faltar aquilo de que nada pode ser melhor, assim também na plenitude da suma bem-aventurança não pode faltar aquilo de que nada pode ser mais feliz. É necessário, portanto, que na suma bem-aventurança não falte a caridade. Para que, porém, exista a caridade no sumo bem, é impossível que lhe falte alguém a quem possa ser oferecida, ou possa ser exibida. É próprio do amor, porém, e sem o qual não pode de nenhum modo existir, querer ser muito amado por aquele a quem muito se ama. Não pode, portanto, o amor ser feliz se não for mútuo. Por conseguinte, naquela verdadeira e suma bem-aventurança, assim como não pode faltar o amor feliz, assim também não pode faltar o amor mútuo. No amor mútuo, porém, é inteiramente necessário que haja quem ofereça o amor e quem retribua o amor. Um terá que ser aquele que oferece o amor, e outro terá que ser o que retribui o amor. Onde, porém, nos convencemos que deve haver o um e o outro, depreende-se haver verdadeira pluralidade. Naquela verdadeira plenitude de felicidade, portanto, não pode faltar a pluralidade das pessoas. Consta, entretanto, que nada mais é a suma bem-aventurança do que a própria divindade. A exibição do amor gratuito e a devida retribuição deste amor nos convence, indubitavelmente, que na verdadeira divindade não pode faltar a pluralidade das pessoas.
Se disséssemos que na verdadeira divindade há apenas uma única pessoa, assim como há uma única substância, então sem dúvida ela não teria a quem poder comunicar aquela infinita abundância de sua plenitude. Mas, pergunto, por que se daria isto? Quereria ela talvez ter a quem comunicá-la, e não o poderia, apesar de querê-lo? Ou não quereria fazê-lo, apesar de ter a quem o pudesse? Se, porém, alguém é sem dúvida alguma onipotente, não poderia ser desculpado pela impossibilidade. Mas o que consta não ser por defeito de potência, poderia sê-lo única e tão somente por defeito de benevolência? Considera, pois, eu te peço, qual e quanto seria o defeito de benevolência se a pessoa divina verdadeiramente pudesse ter, querendo-o, alguém a quem comunicar a abundância de sua plenitude e ainda assim de nenhum modo o quisesse. É certo, conforme dissemos, que nada é mais doce do que a caridade, nada é mais feliz do que a caridade, nada a vida racional experimenta como mais doce do que as delícias da caridade, nem deleitação alguma frui mais deleitavelmente. Destas delícias careceria por toda a eternidade se, carecendo de consórcio, permanecesse solitária no trono de sua majestade.
Por estas considerações podemos advertir qual e quanto seria este defeito de benevolência se preferisse avarentamente reter somente para si a abundância de sua plenitude que poderia, se assim o quisesse, com tanto cúmulo de bem-aventurança, com tanto aumento de delícias, comunicá-la a outrem. Se assim o fosse, se na pessoa divina houvesse tanto defeito de benevolência, merecidamente se envergonharia de conhecer-se a si mesma, merecidamente se envergonharia de ser assim vista, merecidamente fugiria de todos os olhares, merecidamente se envergonharia dos próprios anjos. Mas, que dizemos? É inconcebível que na suprema majestade exista algo em que não possa gloriar-se e por que não possa ser glorificada.
De outra forma, onde estaria a plenitude de sua glória? Pois ali, conforme já havíamos demonstrado, não pode faltar nenhuma plenitude. Porém, o que pode haver de mais glorioso, o que pode haver de mais magnificente do que nada possuir que não se queira comunicar? Consta, por conseguinte, que naquele inexaurível bem e sumamente sábio conselho tanto não pode encontrar-se a avarenta reserva como não pode haver uma desordenada efusão. Eis, portanto, que tens a descoberto, como podes vê-lo, que naquela suma e suprema excelsitude a própria plenitude da glória obriga a que não falte o consorte da glória.
Eis que ensinamos sobre a pluralidade das pessoas divinas por razões tão manifestas que se alguém quiser contradizer afirmações tão evidentes parecerá padecer da doença de insanidade. Quem, senão o que sofre de insanidade, dirá que à suma bondade falta aquilo de que nada é mais perfeito, de que nada é melhor? Quem, pergunto, senão uma mente débil, contradirá dizendo faltar à suma bem-aventurança aquilo de que nada é mais feliz, nada é mais doce? Quem, digo, senão o carente de razão, pode admitir faltar na plenitude da glória aquilo de que nada é mais glorioso, nada é mais magnificente? Nada certamente é melhor, nada certamente é mais feliz, nada mais magnificente do que a verdadeira, sincera e suma caridade, da qual sabe-se que de nenhum modo pode existir sem a pluralidade de pessoas.
Esta afirmação da pluralidade é confirmada por um tríplice testemunho, pois aquilo que a suma bondade e a suma bem-aventurança clamam concordemente sobre este assunto a plenitude da glória aclama confirmando, e aclamando confirma. Eis que temos assim, sobre este artigo de nossa fé, um tríplice testemunho, sumo entre os sumos, divino entre os divinos, altíssimo entre os profundos, manifestíssimo entre os ocultos, e sabemos que na boca de dois ou três está toda a palavra. Eis o tríplice cordel que dificilmente se rompe, pelo qual, concedendo-nos Deus sabedoria, qualquer impugnador de nossa fé é fortemente atado.
Eis que, conforme podemos manifestamente concluir pelo que já dissemos, a perfeição de uma pessoa exige o consórcio do outro. Descobrimos que nada é mais glorioso, nada mais magnificente, do que nada querer ter que não se queira comunicar. A pessoa que for sumamente boa não quererá, portanto, carecer do consorte de sua majestade. Sem dúvida, porém, para aquele cuja vontade for onipotente, será coisa necessária que seja tal qual quiser sê-lo. Aquele que, entretanto, tiver uma vontade imutável, irá querer para sempre o que tiver querido uma só vez. É necessário, portanto, que a pessoa eterna tenha outra pessoa coeterna, pois uma não terá podido preceder a outra, nem uma suceder a outra; pois naquela eterna e imutável divindade nada poderá mudar como se se tornasse antiquado, nem tampouco nada de novo poderá sobrevir-lhe. É impossível, por conseguinte, que as pessoas divinas não sejam coeternas. Onde, portanto, existir a verdadeira divindade, ali haverá a suma bondade, ali haverá a plena bem-aventurança. A suma bondade, conforme foi dito, não pode existir sem a perfeita caridade, nem a perfeita caridade sem a pluralidade de pessoas. A plena bem-aventurança, porém, não pode existir sem a verdadeira imutabilidade, nem a verdadeira imutabilidade sem a eternidade. A verdadeira caridade exige a pluralidade das pessoas, a verdadeira imutabilidade exige a coeternidade das pessoas.
Devemos observar, no entanto, que assim como a verdadeira caridade exige a pluralidade das pessoas, assim a suma caridade exige a igualdade das pessoas. Nem é cabível que haja verdadeira caridade onde o verdadeiramente amado não for sumamente amado. Não é amor ordenado, porém, aquele no qual se ama sumamente quem não é sumamente amável. Mas na bondade do sumo sábio a chama do amor não arde nem diversamente nem mais fortemente do que o que é ditado pela suma sabedoria. É necessário, portanto, que seja sumamente amado segundo a abundância da suma caridade aquele que for sumamente amável segundo a medida daquele sumo discernimento. Mas a propriedade do amor nos mostra que não será possível existir um sumo amante se o sumamente amado não retribuir o amor. A plenitude da caridade, deste modo, exige que no amor mútuo ambos sejam sumamente amados pelo outro e, por conseqüência, de acordo com a medida do discernimento de que acima falamos, que ambos sejam sumamente amáveis. Onde, portanto, ambos são igualmente amáveis, é necessário que ambos sejam igualmente perfeitos. É necessário, portanto, que ambos sejam igualmente poderosos, igualmente sábios, igualmente bons, igualmente bem-aventurados. Deste modo, nos que se amam mutuamente a suma plenitude do amor exige a suma igualdade da perfeição. Assim como, por conseguinte, na verdadeira divindade a propriedade da caridade exige a pluralidade das pessoas, assim a integridade da mesma caridade na verdadeira pluralidade exige a suma igualdade das pessoas. Para que sejam inteiramente iguais, porém, é necessário que sejam inteiramente semelhantes, pois a semelhança pode ser possuída sem igualdade, mas a igualdade nunca pode ser possuída sem mútua semelhança. Aqueles que, de fato, nada possuem de semelhante na sabedoria, como poderão ser nela iguais? O que, no entanto, digo da sabedoria, o mesmo afirmo da potência e o mesmo encontrarás em todas as demais, se as percorreres singularmente.”
(Ricardo de São Vítor, De Trinitate)

http://www.cristianismo.org.br/r-trintt.htm

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Flannery O’Connor e a resistência à graça

“Na hora de responder às perguntas das pessoas sobre religião, a lábia é o grande perigo. Não responderei às tuas, porque a elas tu mesma podes responder; mas dar-te-ei, se te interessares, minha própria visão delas. Toda tua insatisfação com a Igreja me parece que procede de uma insuficiente compreensão do pecado. Isso talvez te surpreenda, porque és muito consciente dos pecados dos católicos; no entanto, parece que o que pedes é que a Igreja traga o reino dos céus à terra agora mesmo, que o Espírito Santo se encarne imediatamente. O Espírito Santo raramente se mostra na superfície de algo. Estás pedindo que o homem volte imediatamente ao estado em que Deus o criou, estás deixando de lado o terrível orgulho que está na raiz do homem e que causa a morte. Cristo foi crucificado na terra e a Igreja é crucificada no tempo, e crucificada por nós mesmos, mais particularmente por seus membros, porque a Igreja é uma Igreja de pecadores.
Cristo nunca disse que a Igreja iria agir de forma inteligente ou imaculada, e sim que não ensinaria algo errôneo. Isso não quer dizer que um sacerdote não possa ensinar algo errôneo, e sim que a Igreja toda, falando através do Papa, não ensinará nada errôneo em matéria de fé. A Igreja está fundada sobre Pedro, que negou Cristo três vezes e não pôde caminhar sobre a água sozinho. Tu esperas que seus sucessores caminhem sobre a água. Toda a natureza humana resiste vigorosamente à graça, porque a graça nos transforma e a mudança é dolorosa. Os sacerdotes resistem tanto quanto os outros. Para que a Igreja fosse o que tu queres, deveria haver uma contínua intervenção de Deus nos assuntos humanos, enquanto nossa dignidade consiste em que se nos permite avançar em maior ou menor grau com essas graças que nos chegam mediante a fé e os sacramentos, e que agem através de nossa natureza humana. Deus escolheu agir dessa maneira. Não podemos entendê-lo, mas não podemos rejeitá-lo sem rejeitar a vida.”
(Flannery O’Connor, The Habit of Being)