quarta-feira, 31 de março de 2010

Arcebispo Fulton Sheen e a tragédia da vida de Judas


“Entretanto, que aconteceu a Judas?
Só ele sabia onde se encontrava o Mestre depois do anoitecer. Os soldados ignoravam-no e por isso precisavam de um sinal. Cristo foi entregue nas mãos dos inimigos por um familiar. Os grandes males nem sempre vêm dos inimigos, mas daqueles que foram amamentados nas associações sagradas. O fracasso dos que estão dentro é que dá oportunidade aos adversários que se encontram ainda de fora. Os inimigos seriam os executores da obra sanguinária da Crucifixão, mas aqueles que tiveram fé e a perderam e procuram ansiosamente salvar as suas consciências destruindo a raiz da moralidade é que cometem o maior mal.
O ódio de Judas contra o Senhor nasceu do contraste entre o seu pecado e a virtude do Divino Mestre. Iago diz de Cássio: "Ele tem uma beleza diária na sua vida que me torna feio a mim." Judas descarregava a repugnância de si mesmo sobre Aquele cuja Bondade o tornava inquieto. O ódio contra a Divindade nem sempre é efeito da descrença, mas na maioria dos casos é efeito da anticrença. A consciência, Cristo e o dom da fé são as causas da inquietação dos maus nos seus pecados. Imaginam que se conseguissem eliminar Cristo da terra, libertar-se-iam das "inibições morais"; e esquecem que é a própria natureza e a consciência que os levam a pensar desse modo. Não podendo expulsar a Deus dos céus, querem expulsar os seus embaixadores da terra. Numa esfera inferior, é esta a razão por que muitos homens desdenham da virtude - por não deixar o vício sossegado. Um rosto casto é um juiz. Judas nunca se mostrou tão zeloso pela causa de Nosso Senhor, como pela dos seus inimigos. Quando os homens deixam a Cristo, procuram salvar a sua reputação indo aos extremos.
A traição consumou-se num beijo. Sempre que a perversidade destrói a virtude e que o homem crucifica o Filho de Deus, sente a necessidade de prefaciar as más ações com um sinal de afeto. Judas cumprimentaria e negaria a Divindade com os mesmos lábios. Uma única palavra foi pronunciada em resposta ao beijo: "Amigo". Foi a última vez que Nosso Senhor falou a Judas. De momento, ele não era o traidor, mas um amigo. Tinha o direito ao vitelo mais gordo, mas rejeitou-o.
Então Judas, que fora o traidor,
vendo que Jesus fora condenado,
tocado de arrependimento,
tornou a levar as trinta moedas de prata
aos príncipes dos sacerdotes e anciãos, dizendo:
Pequei, entregando o sangue de um inocente.

(Mateus 27,3)
Ainda que em português usemos do mesmo termo "arrependimento" com referência a Pedro e a Judas, no original grego trata-se de palavras diferentes num e noutro caso. A palavra empregada em relação a Judas significa apenas uma mudança de sentimento, um pesar em vista das conseqüências, um desejo de desfazer o que estava feito. Esta espécie de arrependimento não busca o perdão, pois até os demônios no inferno se arrependeram das conseqüências do seu pecado e orgulho. A razão que levou a atraiçoar a Cristo aparecia-lhe agora como totalmente má e vil; o Messias político que esperava parecia-lhe agora como coisa indigna até de ser pensada. Antes do pecado, o demônio apresenta-o como coisa leve: depois do pecado, o demônio transforma-se em acusador incitando o culpado ao desespero e a maiores crimes. Evidentemente o demônio "deixou-o por algum tempo", o que deu ocasião a Judas a repudiar a sua ação e a devolver o dinheiro. Mas voltou depois para excitá-lo ao desespero.
A condenação de Nosso Senhor produziu duplo efeito: um em Judas, outro nos príncipes dos sacerdotes. Em Judas, produziu a escravidão à culpa por meio da agonia da sua consciência. As trinta moedas de prata na bolsa acabrunhavam-no; correu ao templo, tirou os ciclos do saco do dinheiro e atirou-os escarninho sobre o pavimento do Lugar Santo. Ao desembaraçar-se do lucro da traição, verificou que não era mais rico com o que tinha ganhado, e infinitamente mais pobre por causa do modo como o ganhou.
Ninguém renegou jamais a Cristo ou o vendeu por um prazer transitório ou recompensa temporária que não viesse finalmente a verificar estar essa troca fora de toda a proporção com o seu devido valor. (...) Os frutos do pecado nunca compensam a perda da graça. O dinheiro já não servia para mais nada senão para comprar um campo de sangue.
(...) Judas estava arrependido para consigo, mas não para com o Senhor. Sentia-se desgostoso com os efeitos do pecado, mas não com o pecado em si. Tudo pode ser perdoado, exceto a recusa em buscar o perdão, como a vida pode perdoar tudo, exceto a aceitação da morte. O seu remorso não passava do ódio de si e o ódio de si é suicida. Odiar-se a si é o começo do morticínio. Só se torna salutar quando unido ao amor de Deus. Arrepender-se para consigo mesmo, não basta. A consciência fala em voz baixa quando devia falar em voz alta. É uma lâmpada que por vezes se extingue em trevas.
Quando um homem se odeia por aquilo que fez sem se arrepender perante Deus, baterá, talvez, no peito como que para obliterar o pecado. Há uma enorme diferença entre bater no peito com desgosto de si mesmo e bater com a mea culpa, na qual se pede perdão. Este ódio de si pode tornar-se por vezes tão intenso que chega a matar a própria vida humana, e conduzir assim ao suicídio. (...) Existe uma consciência preventiva e uma consciência roedora; a primeira admoestou Judas antes do pecado; a outra veio depois e atormentou-o de tal maneira que ele não a agüentou. Ei-lo descendo o vale do Cedron - esse vale cheio de evocações macabras. No meio daquelas rochas escarpadas e daquelas árvores enfezadas e retorcidas sentiu tal nojo de si que resolveu eliminar o seu eu de si mesmo. Tudo à sua volta parecia falar-lhe do seu destino e do seu fim. Nada parecia tão repugnante a seus olhos como os tetos dourados do templo que lhe recordavam o Templo de Deus que vendera; cada árvore surgia-lhe como um patíbulo ao qual tinha condenado o sangue inocente; cada ramo, um dedo acusador; o próprio outeiro onde se encontrava dominava o Calvário no alto do qual aquele que ele sentenciara à morte uniria o céu e a terra; mas ele separá-los-ia agora tanto quanto o seu poder lho consentisse.
Lançando uma corda à pernada duma árvore, enforcou-se enquanto as suas entranhas arrebentavam aos pedaços. Deus pode ser vendido, mas não pode ser comprado. Judas vendeu-O, mas os seus perversos colaboradores não o puderam comprar, porque Ele estava de novo presente, em renascida glória na Páscoa.
Podemos traçar um interessante paralelo entre Pedro e Judas. Existem algumas semelhanças, mas também tremendas diferenças. Primeiramente, Nosso Senhor chamou a ambos de "demônios". Chamou a Pedro "Satanás" quando este repreendeu o Mestre por afirmar que havia de ser crucificado; chamou a Judas demônio quando promete o Pão da Vida. Em segundo lugar, avisou a ambos da queda que os esperava. Pedro respondeu que ainda que todos os demais negassem o Mestre ele nunca o negaria. Ao que foi respondido que naquela mesma noite, antes que o galo cantasse, o negaria três vezes. Judas, por sua vez, foi avisado também, em resposta à sua pergunta se ele era o traidor. Em terceiro lugar, ambos negaram a Nosso Senhor: Pedro, diante de uma criada na noite do julgamento; Judas, no Horto, quando entregou o Mestre aos soldados. Em quarto lugar, Nosso Senhor procurou salvá-los a ambos; a Pedro com um olhar, a Judas tratando-o por "Amigo". Em quinto lugar, ambos se arrependeram: Pedro saindo e chorando amargamente; Judas devolvendo as trinta moedas de prata e afirmando a inocência do Mestre.
Por que, pois, está um à cabeça da lista e outro ao fundo?
Porque Pedro se arrependeu para com o Senhor e Judas para consigo mesmo. A diferença era tão vasta como a referência a Deus e a referência a si; tão vasta como a diferença entre uma Cruz e uma poltrona de psicanálise. Judas disse que tinha "entregado o sangue do justo", mas não quis banhar-se nele. Pedro conheceu que tinha pecado e buscou a redenção; Judas conheceu o erro cometido e procurou fugir - o primeiro de um longo exército de desertores da Cruz. O perdão Divino pressupõe, mas nunca destrói, a liberdade humana. Teria Judas, ao parar debaixo da árvore que lhe daria a morte, olhado à roda para a Árvore que lhe podia trazer a vida?
A diferença entre o arrependimento para com o Senhor e o arrependimento para consigo mesmo que tiveram Pedro e Judas, respectivamente, foi mais tarde comentado por São Paulo com estas palavras:
O remorso que é segundo Deus
produz para a salvação uma penitência estável,
e o remorso do mundo produz a morte.

(II Coríntios 7,10)
A tragédia da vida de Judas está em que ele podia ter sido São Judas.”
(Arcebispo Fulton Sheen, Life of Christ)

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quinta-feira, 25 de março de 2010

Ato de adoração a Jesus às três horas


"Eu Vos adoro, meu Salvador Jesus Cristo, expirando na cruz por Vosso amor: eu Vos dou graças por me terdes resgatado com a Vossa morte. Pai eterno, eu Vos ofereço o Vosso amado Filho pendente na cruz, nu, chagado, transpassado de espinhos e de cravos, desfalecido, padecente e agonizante. Sim, ó meu Deus, é o Vosso amado Filho que Vos ofereço neste lastimoso estado; recebei o Seu Sacrifício; aceitai a oferenda que Vos faço. É meu resgate, é o sangue de um Deus, é a morte de um Deus, é o próprio Deus que Vos ofereço para pagamento e satisfação das minhas dívidas. Eu Vo-lo ofereço também para alívio das almas do purgatório, dos aflitos, enfermos e agonizantes, pela conversão dos pecadores, pela perseverança dos justos e para Vos pedir a graça de uma santa vida e de uma boa morte. Amém."

segunda-feira, 22 de março de 2010

A imortalidade da alma em Santo Tomás de Aquino e em Dostoiévski


“Creio que uma das verdades metafísicas mais esquecidas em seus fundamentos nos dias de hoje é a imortalidade da alma humana. O hedonismo avassalador da nossa sociedade que leva o homem a perder a virtude sobrenatural da esperança, o cientificismo que reduz a vida psíquica a um fenômeno de química cerebral, os desvios da filosofia moderna que geraram uma desconfiança na capacidade do intelecto de conhecer a verdade, tudo isso acabou produzindo um obscurecimento da realidade da alma humana e de sua imortalidade.
A impressão que se tem é de que as pessoas continuam crendo em Deus mas não estão convictas quanto à existência da alma.
Em face dos inúmeros problemas de ordem cultural que mencionei, torna-se difícil apresentar a um cético argumentos racionais sobre a imortalidade da alma humana. Santo Tomás de Aquino desenvolve na Suma Teológica uma prova robusta a partir da análise do conhecimento intelectivo, mas, devido à mentalidade antimetafísica de hoje, sua argumentação não entra na cabeça da maioria das pessoas.
Diz Santo Tomás de Aquino: “Se, pois, o princípio intelectual tivesse em si a natureza de algum corpo, não poderia conhecer todos os corpos. Todo corpo tem alguma natureza determinada. É impossível, portanto, que o princípio intelectivo seja corpo. E igualmente é impossível que entenda através de um órgão corpóreo, porquanto a natureza determinada desse órgão corpóreo impediria o conhecimento de todos os corpos; assim também se uma certa cor estiver não só na pupila, mas também no vaso de vidro, o líquido nele contido parecerá da mesma cor. Por conseguinte, o princípio intelectual, a que se chama mente ou intelecto, tem atividade própria, independente do corpo. Ora, nada pode operar por si, senão aquilo que por si subsiste. Só o que está em ato age, o que equivale a dizer que age porque é.” (cf. Summa Theologiae I IIªe. q.75, a. 2)
Realmente, soa convincente e clara a demonstração da espiritualidade da alma humana conforme a argumentação de Santo Tomás. Ele faz ver que a alma humana em sua atividade específica não depende intrinsecamente da matéria. A uma inteligência sã, a uma vontade reta, isto basta. Todavia, vivemos imersos em uma cultura cientificista que tenta mensurar tudo e chega ao extremo de afirmar que o espírito é a própria matéria em seu mais alto grau de evolução. O próprio conceito de alma está desqualificado, quase que esquecido e relegado pela própria teologia. A liturgia moderna quase não o menciona mais. Hoje fala-se da consciência como sinônimo ou sucedâneo da alma. Mas a própria consciência é concebida a partir de inúmeros fatores neurofisiológicos e condicionamentos sociais, de maneira que não é tão simples explicar às pessoas sua espiritualidade e subsistência. Ademais, assiste-se hoje a uma dissolução da consciência, tal a incapacidade de raciocínio próprio. O homem parece dominado por um mimetismo. Os cientistas sem ética são tão exaltados e tudo o que dizem ou fazem passa a ser o critério de juízo sobre todas as coisas.
Diante dessa realidade, que fazer? A única saída é o fideísmo? Simplesmente, fazer um ato de fé na incorruptibilidade do espírito? Absolutamente, não. Parece-me que há argumentos de ordem psicológica muito persuasivos. Um exemplo é oferecido por um personagem do romance Os demônios de Dostoiévski. Stiepan Trofímovitch, um literato de formação liberal e agnóstica, à beira da morte, aceita confessar-se a um padre, receber a extrema-unção. Impressionado pela cerimônia majestosa e tocado pela graça, diz: “Minha imortalidade já é necessária porque Deus não vai querer cometer um engano e apagar inteiramente o fogo do amor que já se acendeu por Ele em meu coração. E o que há de mais caro que o amor? O amor está acima do ser, o amor é o coração do ser, e como é possível que o ser não lhe seja reverente? Se eu me tomei de amor por Ele e me alegrei com meu amor, seria possível que ele apagasse a mim e a minha alegria e nos transformasse em nada? Se Deus existe, também eu sou imortal! Voilà ma profession de foi.”
Com efeito, parece-me muito mais fácil explicar às pessoas simples que o verdadeiro amor, o amor benevolente ou a caridade, não pode ser produto da matéria ou de reações químicas mas lança suas raízes mais profundas na espiritualidade da alma humana. A realidade do amor, traduzida em termos de grande valor artístico, é muito mais compreensível para as pessoas simples sem interesse por filosofia (que, no entanto, são suscetíveis de ser vitimas de uma cultura materialista) que tentar explicar a natureza da alma humana com uma rigorosa argumentação filosófica. Uma psicologia sem alma humana parece mais absurda que um conhecimento humano sem a espiritualidade do processo abstrativo.
Recorde-se a propósito que um homem inteligente e culto como o professor Miguel Reale, em seus últimos anos de vida, escreveu artigos filosóficos muito interessantes sobre temas religiosos em que ele dizia crer em Deus e na imortalidade da alma baseado justamente em argumentos de ordem psicológica. Igualmente, o próprio papa Bento XVI, em sua bela encíclica Spe salvi, explora razões dessa natureza para demonstrar por que podemos ter esperança.
É inegável a beleza e o valor do argumento de ordem psicológica. Além disso, pode-se relacionar o problema da espiritualidade da alma com o problema do mal moral. O homem é capaz de ações tão nobres, que não se saberia explicar como resultantes em última análise de uma combinação de elementos químicos cerebrais. Mas também é capaz de coisas tão ignóbeis que não se poderiam explicar apenas pelo mau uso da liberdade, mas supõem a influência de um espírito maligno. Cenas espantosas de vários romances de Dostoiévski expressam bem essa realidade sombria que ameaça o homem entregue ao pecado. Santo Agostinho explica muito bem que o diabo tem o querer mas não o poder de danar. De modo que se concilia perfeitamente a responsabilidade moral do homem com a influência do maligno, o que explica a extensão do mal na história da humanidade. Se não há vida após a morte, não é possível justiça, pois não há verdadeiro prêmio nem verdadeiro castigo para os atos humanos. Se Deus não existe, tudo é permitido, é outra famosa frase de Dostoiévski, que, com gênio e arte, sabe explorar em seus personagens justamente esse drama da liberdade moral e da influência diabólica sobre o homem.
Na cultura moderna, tão avessa à especulação metafísica, tão inepta para a busca de fundamentos sólidos para as decisões mais graves da vida do homem, parece-me útil e necessário recorrer ao belo, à literatura, à arte em geral mais que em outros tempos, para ajudar os homens anestesiados em seu juízo crítico pelo cientificismo a descobrir a verdade sobre si mesmos. Nosso esforço para recuperar a dignidade da liturgia católica, além do autêntico culto divino, visa também a promover uma verdadeira educação que ensine os valores perenes da civilização. Per pulchum ad verum.
(Pe. João Batista Ferraz Costa, A Imortalidade da Alma em Santo Tomás de Aquino e em Dostoievski)

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Ó morte, como é amarga tua lembrança


"O mors, quam amara est memoria tua
homini pacem habenti in substantiis suis,
viro quieto, et cuius viae directae sunt in omnibus,
et adhuc valenti accipere voluptatem!
O mors, bonum est iudicium tuum
homini indigenti, et qui minoratur viribus,
defecto aetate, et cui de omnibus cura est,
qui fiduciam amisit et perdidit patientiam!
Noli metuere iudicium mortis;
memento eorum, qui ante te fuerunt
et qui superventuri sunt tibi:
hoc iudicium a Domino omni carni;
et quid resistis beneplacito Altissimi?
Sive decem sive centum sive mille anni,
non est enim in inferno accusatio vitae."
(Eclesiástico, 41:1-7)

domingo, 14 de março de 2010

Febronianismo, ancestral da colegialidade


“Sistema político-eclesiástico delineado por Johann Nikolaus von Hontheim, bispo auxiliar de Tréveris, sob o pseudônimo de Justinus Febronius, na obra intitulada “Justini Febronii Juris consulti de Stata Ecclesiæ et legitima potestate Romani Pontificis Liber singularis ad reuniendos dissidentes in religione christianos compositus” (Bullioni apud Guillelmum Evrardi, 1763; na verdade a obra foi publicada por Esslinger em Francoforte-sobre-o-Meno). Tomando por base os princípios galicanos que assimilou do canonista Van Espen enquanto prosseguia seus estudos em Louvain, Hontheim avançou por esse mesmo caminho, apesar de muitas inconsistências, até chegar a um radicalismo que superou em muito o Galicanismo tradicional. Desenvolve em seu trabalho uma teoria de organização eclesiástica fundada na negação da constituição monárquica da Igreja. O objetivo aparente era facilitar a reconciliação dos protestantes com a Igreja por meio da diminuição do poder da Santa Sé.
De acordo com Febronius (cap. I), o poder das chaves foi confiado por Cristo ao corpo inteiro da Igreja, que o possui principaliter et radicaliter, mas o exerce por meio de seus prelados, aos quais apenas a administração desse poder é delegada. Entre estes o papa vem em primeiro lugar, embora mesmo ele esteja subordinado à Igreja como um todo. A divina instituição do primado na igreja é reconhecida (cap. II), mas Febronius defende que sua conexão com a Sé Romana não se funda na autoridade de Cristo e sim na de Pedro e da Igreja, de modo que a Igreja tem o poder de vinculá-lo a outra sé. O poder do papa, portanto, deveria se restringir aos direitos essenciais inerentes ao primado que foram exercidos pela Santa Sé durante os primeiros oito séculos. O papa é o centro ao qual as igrejas individuais devem estar unidas. Ele deve ser mantido a par do que está acontecendo em todos os lugares na Igreja, a fim de que possa exercer o cuidado exigido por seu cargo na preservação da unidade. É seu dever fazer cumprir a observância dos cânones em toda a Igreja; ele tem autoridade de promulgar leis em nome da Igreja, e fazer-se representar por legados que exerçam sua autoridade como primaz. Seu poder, como cabeça de toda a Igreja, contudo, é mais de caráter administrativo e unificador do que um poder de jurisdição. Mas desde o século nono, principalmente através da influência dos Falsos Decretos de Pseudo-Isidoro, a constituição da Igreja passou por uma completa transformação, na qual a autoridade papal foi ampliada além de seus devidos limites (cap. III). Por uma violação da justiça, as questões que costumavam ser da alçada de sínodos provinciais e metropolitanos gradualmente se tornaram reserva da Santa Sé (cap. IV), como por exemplo a condenação de heresias, a confirmação das eleições episcopais, a nomeação de assistentes com o direito de sucessão, a transferência e remoção de bispos, o estabelecimento de novas dioceses, e a construção de sés metropolitanas e primaciais. O papa, cuja infalibilidade é expressamente negada (cap. V), não pode, por sua própria autoridade, sem um concílio ou o consentimento do episcopado inteiro, proferir quaisquer decisões em matéria de fé de obrigação universal. Da mesma forma em matérias de disciplina, ele não pode emitir decretos que afetem o conjunto inteiro dos fiéis; os decretos de um concílio geral têm poder vinculante apenas depois de sua aceitação pelas igrejas individuais. Leis uma vez promulgadas não podem ser alteradas pela vontade e desejo do papa. Também se nega que o papa, pela natureza e autoridade do primado, possa receber petições da Igreja inteira.
De acordo com Febronius, a corte final de apelação na Igreja é o concílio ecumênico (cap. VI), cujas disputas excluem a pretensa constituição monárquica da Igreja. O papa é subordinado ao concílio geral; ele nem tem a autoridade exclusiva de convocá-lo, nem o direito de presidir a suas sessões, e os decretos conciliares não precisam de sua ratificação. Os concílios ecumênicos são de uma necessidade absoluta, pois até mesmo o consentimento da maioria dos bispos a um decreto papal, se dado pelos indivíduos, fora de um concílio, não constitui uma decisão final e irrevogável. Recursos do papa a um concílio geral são justificados em razão da superioridade do concílio sobre o papa. De acordo com a instituição divina do episcopado (cap. VII), todos os bispos têm direitos iguais; eles não recebem seu poder de jurisdição da Santa Sé. Não é da competência do papa exercer funções episcopais ordinárias em outras dioceses além de Roma. As reservas papais quanto à concessão de benefícios, anatas e isenção de ordens religiosas estão, assim, em conflito com a lei primitiva da Igreja, e devem ser abolidas. Tendo demonstrado, como acredita, que a lei eclesiástica em vigor em relação ao poder papal é uma distorção da constituição original da Igreja, devida principalmente aos Falsos Decretos, Febronius exige que a disciplina original, como delineada por ele, seja restaurada em todo lugar (cap. VIII). Sugere então, como meio de realizar essa reforma (cap. IX), que o povo seja convenientemente esclarecido sobre a matéria, que um concílio geral completamente livre se realize, que sínodos nacionais sejam convocados, mas principalmente que os líderes católicos ajam em concerto, com a cooperação e conselho dos bispos, que os príncipes seculares recorram ao Regium Placet para resistir a decretos, que a obediência seja abertamente recusada até um limite legítimo, e finalmente que se recorra à autoridade secular através da Appellatio ab abusu. As últimas medidas revelam a verdadeira tendência dos princípios febronianos; Febronius, quando aparentemente defende uma maior independência e maior autoridade para os bispos, busca apenas tornar as igrejas em vários países menos dependentes da Santa Sé, de modo a facilitar o estabelecimento de igrejas nacionais naqueles estados, e reduzir os bispos à condição na qual seriam meramente criaturas servis do poder civil. Tentativas de executar suas idéias sempre seguiram essas linhas.
O livro foi condenado formalmente a 27 de fevereiro de 1764 por Clemente XIII. Por meio de um Breve de 21 de maio de 1764, o papa requereu do episcopado alemão que suprimisse a obra. Dez prelados, entre eles o Eleitor de Tréveris, aquiesceram. Enquanto isso, nenhuma medida pessoal havia sido tomada contra o autor, que era bem conhecido em Roma. Apesar do banimento da Igreja, o livro, harmonizado com o espírito da época, teve um sucesso tremendo. Uma segunda edição, revista e ampliada, foi publicada já em 1765; foi reimpressa em Veneza e Zurique, e traduções apareceram em alemão, francês, italiano, espanhol e português. Nos últimos três volumes que Hontheim publicou como suplemento à obra original, e numerados de II a IV (Vol. II, Francoforte e Lípsia, 1770; Vol. III, 1772; Vol. IV, Partes 1 e 2, 1773-74), ele a defende, sob o nome de Febronius e vários outros pseudônimos, contra uma série de ataques. Mais tarde publicou um resumo sob o título "Justinus Febronius abbreviatus et emendatus" (Colônia e Francoforte, 1777). Em complemento ao "Judicium academicum" da Universidade de Colônia (1765), refutações apareceram de um grande número de autores católicos, sendo as mais importantes as de Ballerini, "De vi ac ratione primatus Romanorum Pontificum et de ipsorum infallibilitate in definiendis controversiis fidei" (Verona, 1766); Idem, "De potestate ecclesiastica Summorum Pontifleum et Conciliorum generalium liber, una cum vindiciis auctoritatis pontificiæ contra opus Just. Febronii (Verona, 1768; Augsburgo, 1770; nova edição de ambas as obras, Münster na V., 1845, 1847); Zaccaria, "Antifebronio, ossia apologia polemicostorica del primato del Papa, contra la dannata opera di Giust. Febronio" (em 2 volumes, Pesaro, 1767; 2ª edição em 4 volumes, Cesena, 1768-70; tradução alemã de Reichenberger, Augsburgo, 1768); Idem, "Antifebronius vindicatus" (4 volumes, Cesena, 1771-2); Idem, "In tertium Justini Febronii tomum animadversiones Romano-catholicæ" (Roma, 1774); Mamachi, "Epistolæ ad Just. Febronium de ratione regendæ christianæ reipublicæ deque legitima Romani Pontificis potestate" (3 volumes, Roma, 1776-78). Houve, além disso, refutações escritas do ponto de vista protestante, que repudiavam a noção de que a diminuição do poder papal era tudo de que se precisava para trazer os protestantes de volta à união com a Igreja, por exemplo Karl Friedrich Bahrdt, "Dissertatio de eo, an fieri possit, ut sublato Pontificio imperio reconcilientur Dissidentes in religione Christiani" (Lípsia, 1763), e Johann Friedrich Bahrdt, "Do Romana Ecclesia irreconciliabili" (Lípsia, 1767); Karl Gottl. Hofmann, "Programma continens examen regulæ exegeticæ ex Vincentio Lerinensi in Febronio repetitæ" (Wittenberg, 1768).
As primeiras medidas contra o autor foram tomadas por Pio VI, que instou Clemens Wenzeslaus, Eleitor de Tréveris, a convencer Hontheim a recolher a obra. Somente após prolongados esforços e uma retratação que, expressa em termos gerais, foi julgada insatisfatória em Roma, o eleitor enviou a Roma a retratação corrigida de Hontheim (15 de novembro de 1778), comunicada aos cardeais em consistório por Pio VI no dia de Natal. Fica evidente, em seus movimentos subseqüentes, que tal retratação não foi sincera por parte de Hontheim. É inconteste que não renunciou em absoluto a suas idéias, como se percebe em seu "Justini Febronii Jcti. Commentarius in suam Retractationem Pio VI. Pont. Max. Kalendis Nov. anni 1778 submissam" (Francoforte, 1781; edição alemã, Augsburgo, 1781), escrito com o propósito de justificar sua posição diante do público. Enquanto isso, em que pese a proibição, o “Febronius” havia produzido seus efeitos nefastos, não reprimidos pela retratação. As idéias promovidas pela obra, estando em total acordo com as tendências absolutistas dos governantes civis, foram avidamente aceitas pelas cortes católicas e governos da França, Terras-Baixas austríacas, Espanha e Portugal, Veneza, Áustria e Toscana; e receberam posterior desenvolvimento nas mãos de teólogos e canonistas da corte que favoreciam o esquema da igreja nacional. Entre os advogados do febronianismo na Alemanha devem ser mencionados o professor de Tréveris, Franz Anton Haubs, autor de "Themata ex historia ecclesiastica de hierarchia sacra primorum V sæculorum" (Tréveris, 1786) e "Systema primævum de potestate episcopali ejusque applicatio ad episcopalia quædam jura in specie punctationibus I. II. et IV. congressus Emsani exposita" (Tréveris, 1788); e Wilhelm Joseph Castello, autor de "Dissertatio historica de variis causis, queis accidentalis Romani Pontificis potestas successive ampliata fuit" (Tréveris, 1788). Foram os canonistas austríacos, contudo, os que mais contribuíram na composição do novo código de leis regulador das relações entre Igreja e Estado, posto em prática por José II. Especialmente dignos de nota por terem sido concebidos neste espírito foram os manuais de lei canônica prescritos para as universidades austríacas e compilados por Paul Joseph von Riegger, "Institutiones juris ecclesiastici" (4 volumes, Viena, 1768-72; com várias reedições), e Pehem, "Prælectiones in jus ecclesiasticum universum", assim como, de modo mais pronunciado, o trabalho de Johann Valentin Eybel, "Introductia in jus ecclesiasticum Catholicorum" (4 volumes., Viena, 1777; colocado no Index em 1784).
A primeira tentativa de dar aos princípios febronianos uma aplicação prática aconteceu na Alemanha na Conferência de Coblença em 1769, onde os três eleitores eclesiásticos de Mogúncia, Colônia e Tréveris, por meio de seus delegados, e sob as instruções de Hontheim, compilaram uma lista de trinta queixas contra a Sé Romana, em consonância com os princípios do “Febronius” (Gravamina trium Archiepiscoporum Electorum, Moguntinensis, Trevirensis et Coloniensis contra Curiam Apostolicam anno 1769 ad Cæsarem delata; impresso em Le Bret, "Magazin zum Gebrauch der Staaten- und Kirchengeschichte", Pt. VIII, Ulm, 1783, pp. 1-21). De maior significância foi o Congresso de Ems de 1789, no qual os três eleitores eclesiásticos e o Príncipe-Bispo de Salisburgo, imitando o Congresso de Coblença, e em conformidade com os princípios básicos do “Febronius”, fizeram uma nova tentativa de reajustar as relações da igreja alemã com Roma, visando assegurar àquela uma maior medida de independência; eles também fizeram seus representantes elaborar a Pontuação de Ems em vinte e três artigos; sem alcançar, no entanto, nenhum resultado prático. Foi feita uma tentativa de realizar os princípios do “Febronius” em larga escala na Áustria, onde sob José II uma igreja nacional foi estabelecida de acordo com o plano delineado. Esforços no mesmo sentido foram realizados pelo irmão de José, Leopoldo, em seu Grão-Ducado da Toscana. As resoluções adotadas no Sínodo de Pistóia, sob o Bispo Scipio Ricci, seguindo essas linhas, foram repudiadas pela maioria dos bispos do país.”
(Friedrich Lauchert, Febronianism)

terça-feira, 9 de março de 2010

O plano de paz do Céu em microcosmo


“Como para demonstrar a eficácia da Consagração que a Santíssima Virgem pedira, Deus houve por bem permitir a realização em Portugal do que se pode dizer que era um projeto esclarecedor. No aniversário da primeira aparição em Fátima, em 13 de Maio de 1931, e na presença de 300.000 fiéis que se deslocaram propositadamente a Fátima, os Bispos portugueses consagraram solenemente a sua nação ao Imaculado Coração de Maria. Estes bons Prelados colocaram Portugal sob a proteção de Nossa Senhora, para que Ela protegesse esta nação do contágio das idéias comunistas que estavam a espalhar-se por toda a Europa, e especialmente na vizinha Espanha. De fato, a profecia da Santíssima Virgem de que a Rússia espalharia os seus erros pelo Mundo já estava a cumprir-se com inexorável exatidão. E quem, em Julho de 1917, poderia ter previsto o aparecimento do comunismo mundial a partir da Rússia - meses antes da revolução bolchevista e da subida ao poder de Lênin? Só o Céu podia tê-lo previsto; só a Mãe de Deus, informada pelo Seu Divino Filho.
Em resultado desta Consagração de 1931, Portugal experimentou um tríplice milagre, de que aqui daremos apenas os pormenores essenciais.
Em primeiro lugar, houve uma magnífica Renascença Católica, uma grande renovação da vida católica, tão espantosa que todos os que a viveram atribuíram-na sem hesitar à intervenção de Deus. Durante este período, Portugal gozou de um aumento drástico de vocações sacerdotais. O número de Religiosos quase quadruplicou em 10 anos. As comunidades religiosas prosperaram também. Houve uma vasta renovação da vida cristã que se fez notar em diversas áreas, incluindo o desenvolvimento de uma imprensa católica, rádio católica, peregrinações, retiros espirituais, e um robusto movimento da Ação Católica que foi integrado nas estruturas da vida diocesana e paroquial.
Esta Renascença Católica foi de tal amplitude que, em 1942, os Bispos portugueses declararam numa Carta Pastoral Coletiva: “Se alguém tivesse fechado os olhos há vinte e cinco anos e os abrisse agora, já não reconheceria Portugal, tão vasta foi a transformação feita pelo fator modesto e invisível da aparição da Santíssima Virgem em Fátima. Nossa Senhora quer realmente salvar Portugal” [Carta Pastoral Coletiva para o Jubileu das Aparições em 1942, Merv. XX's, p. 338; cit. por Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, p. 410].
Houve também um milagre de reforma política e social, segundo os princípios sociais católicos. A seguir à Consagração de 1931, subiu à Presidência do Conselho em Portugal um líder católico, Antônio de Oliveira Salazar, que pôs em ação um programa católico e contra-revolucionário. Esforçou-se por criar, tanto quanto possível, uma ordem social católica em que as leis da governação e as instituições sociais se harmonizassem com a lei de Cristo, do Seu Evangelho e da Sua Igreja [A influência de Salazar no Governo português tinha aumentado desde 1928. Ascendeu a Presidente do Conselho em 1933. Mais tarde, Salazar recebeu, em homenagem à sua atuação, um louvor e a bênção do Papa Pio XII, que disse: “Abençôo-o de todo o meu coração, e acalento o desejo ardentíssimo de que possa completar com sucesso o seu trabalho de restauração nacional, tanto espiritual como material” (cit. por Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, p. 412).]. Adversário convicto do socialismo e do liberalismo, Salazar opunha-se a “tudo quanto diminui ou dissolve a família” [Ibid., p. 415 (as próprias palavras de Salazar)].
Salazar, o Presidente do Conselho, não se limitava a falar bem; legislou no sentido de proteger a família, incluindo leis que desaprovavam o divórcio. Citamos o Artigo 24 de uma delas: “De harmonia com as propriedades essenciais do matrimônio católico, subentende-se que, pelo próprio fato de se celebrar um matrimônio canônico, os cônjuges renunciam ao direito legal de requerer divórcio” [Ibid., p. 421]. O efeito desta lei foi que os casamentos católicos não diminuíram em número; antes pelo contrário. Assim, em 1960 - um ano muito crítico, como veremos - quase 91% dos casamentos realizados no país eram canônicos.
Além destas espantosas mudanças religiosas e políticas, deu-se um duplo milagre de Paz: Portugal foi poupado ao terror comunista, especialmente durante a Guerra Civil que crucificava a Espanha. Portugal foi também poupado às devastações da 2ª Guerra Mundial.
A respeito da Guerra Civil de Espanha, os Bispos portugueses fizeram voto, em 1936, de exprimirem a sua gratidão a Nossa Senhora, se esta protegesse Portugal, renovando a Consagração Nacional ao Imaculado Coração de Maria. Cumprindo o seu voto, renovaram a Consagração em 13 de Maio de 1938, em ação de graças pela proteção de Nossa Senhora. Como o Cardeal Cerejeira reconheceu publicamente: “Desde que Nossa Senhora de Fátima apareceu em 1917 (…) desceu sobre a terra de Portugal uma bênção especial de Deus. (…) Se nos recordarmos dos dois anos que passaram desde a nossa promessa, não podemos deixar de reconhecer que a mão invisível de Deus protegeu Portugal, poupando-o ao flagelo da guerra e à lepra do comunismo ateu”.
Até o Papa Pio XII exprimiu o seu espanto por Portugal ter sido poupado aos horrores da Guerra Civil Espanhola e à ameaça comunista. Numa alocução ao povo português, o Papa falou do “perigo vermelho, tão ameaçador e tão próximo de vós, e apesar disso evitado de maneira tão inesperada” [Ibid., p. 422].
Os portugueses passaram incólumes este primeiro perigo, mas logo a seguir viram-se de caras com outro: a Segunda Guerra Mundial estava a começar. Em cumprimento de mais outra profecia da Santíssima Virgem a 13 de Julho de 1917, a guerra começaria “no reinado de Pio XI”, anunciada por “uma noite alumiada por uma luz desconhecida (…)”
Em 6 de Fevereiro de 1939, sete meses antes da declaração de guerra, a Irmã Lúcia escreveu ao seu Bispo, D. José Correia da Silva, avisando-o de que a guerra estava iminente - mas acrescentando em seguida uma promessa maravilhosa. Escreveu ela que “nesta guerra horrível, Portugal seria poupado devido à consagração nacional ao Imaculado Coração de Maria feita pelos Bispos” [Ibid., p. 428] .
E Portugal foi, de fato, poupado aos horrores da guerra, cujos pormenores são demasiado numerosos para aqui serem relembrados [Cf. Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, pp. 369-439]. E - o que ainda é mais notável - a Irmã Lúcia escreveu ao Papa Pio XII em 2 de Dezembro de 1940, para lhe dizer que Portugal estava a receber uma proteção especial durante a guerra - e que outros países a teriam igualmente recebido, se os seus Bispos os tivessem consagrado ao Imaculado Coração de Maria. Escreveu ela: “Santíssimo Padre, (...) Nosso Senhor promete, em atenção à consagração que os Exmos. Prelados portugueses fizeram da nação ao Imaculado Coração de Maria, uma proteção especial à nossa Pátria, durante esta guerra; e que esta proteção será a prova das graças que concederia às outras nações, se como ela Lhe tivessem sido consagradas” [Ibid., p. 428. Cf. Novos Documentos de Fátima (editado pelo Padre Antônio Maria Martins, S.J., Livraria A.I., Porto 1984), p. 248].
Do mesmo modo, o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira não teve a menor dúvida em atribuir a Nossa Senhora de Fátima as grandes graças que Ela obtivera para Portugal durante esses tempos. E declarou, em 13 de Maio de 1942: “Para exprimir o que se tem passado aqui nos últimos vinte e cinco anos, o vocabulário português só tem uma palavra: milagre. Sim, estamos convencidos de que devemos a maravilhosa transformação de Portugal à proteção da Santíssima Virgem” [Ibid., p. 405. O Cardeal Cerejeira disse estas palavras durante a celebração do jubileu das aparições de Fátima, ocorrida em 1942].
O Cardeal Cerejeira afirmava aquilo que nós afirmamos nesta obra: que as bênçãos miraculosas que Nossa Senhora obteve para Portugal como recompensa do Céu pela Consagração do País, em 1931, eram apenas uma amostra do que Ela fará por todo o Mundo, logo que a Rússia seja também devidamente Consagrada ao Seu Imaculado Coração [Acreditamos na palavra de um crente em Fátima, como o Cardeal Cerejeira, de preferência a um cético como o Cardeal Ratzinger (cf. mais adiante)]. Nas palavras do Cardeal Cerejeira:
“O que se tem passado em Portugal proclama o milagre. E prefigura o que o Imaculado Coração de Maria preparou para o Mundo” [Cardeal Cerejeira, prefácio a Jacinta (1942), Obras pastorais, Vol. II, p. 333. Cf. também a sua homilia de 13 de Maio de 1942, Merv. XX's, p. 339. Citado a partir de Frère Michel de la Sainte Trinité, Ibid., Vol. II, p. 437].
Não é difícil compreender a razão para Portugal ser chamado nesta altura a “Demonstração de Nossa Senhora”. E o triplo milagre de Portugal é só uma amostra de como ficarão a Rússia e o Mundo depois da Consagração Colegial daquele país. O exemplo miraculoso de Portugal também nos ajuda a compreender o presente. Se contrastarmos o tríplice milagre de Portugal com a situação atual da Rússia e do Mundo, torna-se evidente que a Consagração da Rússia ainda está por fazer.”
(Pe. Paul Kramer, The Devil’s Final Battle)

domingo, 7 de março de 2010

Dom Geraldo Sigaud e a impossibilidade de haver um socialismo cristão


1. Socialismo e comunismo
O socialismo ensina a mesma doutrina marxista que o comunismo. Tem o mesmo objetivo, a Revolução, e quer a mesma organização econômica da sociedade. É materialista, rejeita a Religião, a moral, o direito, Deus, a Igreja, os direitos da família, do indivíduo. Quer que todos os meios de produção estejam nas mãos do Estado, e igualmente toda a educação, todos os transportes, as finanças, e que o Estado seja o soberano senhor de todas as forças da nação. Deseja a supressão da diferença entre as classes sociais. Também para o socialismo, a pessoa existe para o Estado, não o Estado para a pessoa (cf. Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum, Edit. Vozes, pp. 5 e 6).
A diferença que há entre os socialistas e os comunistas é uma diferença de método. Os comunistas desejam a implantação imediata da ditadura do proletariado para realizar a Revolução. Os socialistas recorrem a meios "legais" para obter o mesmo objetivo. Recorrem às eleições, às greves legais, às agitações sem derramamento de sangue, para conseguir leis de nacionalização, de ensino laico. Vão fazendo a nação deslizar para o comunismo em geral sem convulsões violentas. O socialismo é uma rampa pela qual as nações vão resvalando para o comunismo quase sem perceberem.
2. Socialismo e seus matizes
A vantagem tática do socialismo, para os que dirigem a seita comunista, é que o socialismo pode tomar coloridos mais suaves. O comunismo é vermelho-sangue. O socialismo pode ir do rubro ao cor-de-rosa. O comunismo tem dificuldade de se fazer passar por cristão. O socialismo arranja modos de se dizer cristão, e assim realizar a Revolução paulatinamente e por etapas.
3. Socialismo cristão
Os fautores da Revolução realizaram esta proeza de enfeitarem o socialismo com o rótulo de cristão. Com um semblante comovido tais socialistas cristãos condenam o capitalismo como intrinsecamente mau, pior do que o comunismo. E com comoção dizem que no comunismo há muita coisa boa. Seu ódio à América do Norte é violento.
Suas simpatias pela Rússia são difíceis de esconder. Consideram o capital uma abominação quando nas mãos daquele que o amealhou com seu suor, mas o acham admirável quando nas mãos do Estado. Têm uma confiança cega no Estado, e uma desconfiança irremediável da iniciativa particular. Têm antipatia à ordem desigual e hierárquica de uma sociedade de classes, e têm prazer de se proletarizar. Mas confessam-se e comungam, e se dizem católicos progressistas.
É possível um socialismo cristão? Sua Santidade o Papa Pio XI já respondeu a esta questão na Encíclica Quadragesimo Anno: "Se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista" (Edit. Vozes, p. 44, n.° 119).
E se o socialismo for muito moderado? Mesmo neste caso continua incompatível com o Catolicismo. Pio XI é explicito também neste ponto. Ouçamo-lo: "E se o socialismo estiver tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que não mereça nisto a mínima censura? Terá por isto renunciado à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida que a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos, convencidos de que os princípios cristãos não podem abandonar-se nem jamais obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente que definamos se este socialismo repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase batizar, sem prejuízo de nenhum princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: o socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como "ação", se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de um modo completamente avesso à verdade cristã" (Encíclica Quadragesimo Anno, Edit. Vozes, p. 43, n.° 117).
Realmente, Deus estabeleceu uma ordem natural, que não é licito ao homem violar, e a esta ordem pertencem dois pontos que todo socialismo viola. São os seguintes:
a) O papel subsidiário do Estado. O Estado não existe para absorver ou substituir os indivíduos, as famílias e as associações, mas para realizar as tarefas que estes elementos não podem realizar por si mesmos. Assim João XXIII, na Encíclica Mater et Magistra: "Essa ação do Estado, que protege, estimula, coordena, supre e complementa, apóia-se no "princípio de subsidiaridade" (A. A. S., XXIII, 1931, p. 203), assim formulado por Pio XI na Encíclica Quadragesimo Anno: "Permanece, contudo, firme e constante na filosofia social aquele importantíssimo princípio que é inamovível e imutável: assim como não é lícito subtrair aos indivíduos o que eles podem realizar com as próprias forças e indústria para confiá-lo à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores poderiam conseguir é uma injustiça ao mesmo tempo que um grave dano e perturbação da boa ordem. O fim natural da sociedade e de sua ação é coadjuvar os seus membros e não destruí-los nem absorvê-los" (ibid., p. 203) (apud "Catolicismo", n.° 129, de setembro de 1961).
b) O indivíduo, as famílias, as associações têm direito de possuir bens de raiz, bens móveis e bens produtivos. O Estado não pode açambarcar estes bens para si. Os homens têm o direito e o dever de proverem às suas necessidades, e o Estado não pode se arvorar em Providência e suprimir este direito ou substituir-se a este dever.
Por isto tudo, o socialismo é condenado pelo direito natural, e não pode haver socialismo cristão.
4. A Igreja primitiva foi comunista? As ordens religiosas são comunistas?
Amados Filhos, provavelmente já tereis ouvido ou lido afirmarem que a Igreja primitiva foi comunista e que as atuais Ordens Religiosas o são.
Depois do que dissemos a respeito do marxismo, compreendereis que somente um ignorante ou uma pessoa de má fé pode afirmar uma monstruosidade tal.
Mas, mesmo se abstrairmos do marxismo, nem a Igreja primitiva praticou, nem as Ordens Religiosas praticam o comunismo. Vede bem que o essencial do comunismo é a negação do direito de propriedade.
Ora, examinemos sob este aspecto a Igreja primitiva. Levadas da vontade de seguir de perto o exemplo do Divino Mestre e realizar os conselhos evangélicos, várias famílias cristãs de Jerusalém resolveram viver no voto de pobreza. Para isto venderam tudo o que tinham e entregaram o dinheiro aos Apóstolos para que com ele fosse mantida a comunidade. Notai bem: os indivíduos desta comunidade renunciavam a seus bens porque queriam. Quem não quisesse viver na pobreza, não precisava. Assim disse São Pedro a Ananias: "Conservando o campo, ele não ficava teu? E vendendo-o, não dependia de ti o que farias com o dinheiro?" (At. 5, 4).
A Igreja permitia que os que quisessem viver sem possuir nada pessoalmente, o fizessem. Mas, de um lado, isto era livre; de outro, o imóvel ou o dinheiro apurado passava a ser propriedade da comunidade. Ficava pois de pé o direito de propriedade da comunidade; não era negado nem transferido ao Estado.
Para desiludir os comunistas utópicos, devemos dizer que a primeira tentativa de realizar o ideal da pobreza não foi bem sucedida. Consumidos os capitais apurados na venda dos imóveis, criou-se em Jerusalém uma situação difícil, e foi preciso as outras comunidades cristãs enviarem periodicamente esmolas para Jerusalém a fim de sustentarem os irmãos que tinham renunciado a seus bens. Verificou-se que o voto de pobreza só é possível junto do voto de castidade, e que o estado de pobreza evangélica não é possível quando há família, mulher e filhos. Para pessoas casadas o caminho da santidade está no trabalho e na reta administração das riquezas temporais. Mais tarde a Igreja retomou a experiência, primeiro com indivíduos isolados, os anacoretas, depois com pequenas comunidades de eremitas, os cenobitas; só depois que raiou a liberdade para o Cristianismo é que dois grandes Santos organizaram a vida de pobreza evangélica aliada à obediência e à castidade: no Oriente, São Basílio; no Ocidente, São Bento. Mas, se o monge renuncia a toda propriedade pessoal, o mosteiro passa a ser o proprietário. Verifica-se o que se dá muitas vezes na família: se os indivíduos não são donos, a família é a proprietária.
Vejamos agora o valor que tem a afirmação de que as Ordens Religiosas são comunistas ou socialistas.
Ninguém afirmará que as doutrinas filosóficas, sociológicas, teológicas do comunismo se encontram realizadas nas Ordens Religiosas. Tal afirmação é tão absurda, que ninguém a tomaria a sério. Restaria então o tipo de vida econômica das Ordens Religiosas. Perguntamos: o tipo de vida econômica que o comunismo pretende implantar é aquele que as Ordens Religiosas realizam há tantos séculos? Para respondermos com clareza a este absurdo, que no entanto se repete com enfadonha monotonia, vamos analisar um pouco mais de perto o tipo de vida econômica das Ordens Mendicantes. É sabido que são elas que realizam o ideal de pobreza evangélica mais absoluto entre as comunidades religiosas. Verificado que nelas não há sombra do tipo econômico comunista, fica provado que as outras Ordens e Congregações, em que o tipo de pobreza é mais suave, a fortiori não podem ser tachadas de comunistas.
Nas Ordens Mendicantes mais rigorosas, não só os Religiosos individualmente nada possuem de próprio, mas nem mesmo a Ordem, as Províncias ou conventos são os titulares das propriedades. Em lugar deles a Santa Sé ou a Diocese são os proprietários formais. A administração dos bens destinados à Ordem, à Província ou ao convento é realizada por pessoas nomeadas pela Santa Sé ou pela Diocese. Mas, se a propriedade não é nominalmente da Ordem, etc., os frutos do patrimônio que existir, ou as esmolas dadas pelos fiéis, se aplicam formalmente à manutenção daquele convento e daquela comunidade para que são destinados. Assim, os Religiosos não têm os ônus da propriedade e de sua administração, caridosamente suportados pela Autoridade Eclesiástica, mas têm as rendas necessárias para se manterem. É a realização da pobreza de Cristo e da fé na Providência. É o "nihil habentes, et omnia possidentes" de São Paulo (2 Cor. 6, 10). Assim, as Ordens Mendicantes são a mais formal refutação do comunismo. Porque:
a) A renúncia às propriedades é uma afirmação clara da existência do direito de propriedade, pois ninguém renuncia seriamente ao que não existe.
b) Cada comunidade e cada Religioso tem o direito de viver dos frutos do patrimônio e das esmolas que tocam ao convento, e que são administrados pela Autoridade Eclesiástica em favor da comunidade, e não arbitrariamente.
c) O Religioso renuncia ao direito de propriedade voluntariamente. O comunismo nega este direito e confisca as propriedades violentamente.
d) O Religioso abraça a pobreza voluntária para melhor seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo e santificar melhor sua alma na esperança da vida eterna. O comunismo diz que destrói a propriedade particular para proporcionar a todos os homens a maior soma de prazeres nesta terra, uma vez que não existe a vida eterna.
e) Na realidade, a pobreza voluntária dos Religiosos os leva a maior liberdade no serviço de Deus. O comunismo, prometendo a maior soma de prazeres, realmente tem por fim escravizar os homens, e depois, por meio da fome, obrigá-los à total apostasia de Deus.
f) A pobreza voluntária das Ordens Religiosas serve a Deus. O comunismo serve a Satanás.
Concluindo, devemos pois dizer que a afirmação de que as Ordens Religiosas realizam o tipo econômico do comunismo é uma verdadeira blasfêmia.”
(Dom Geraldo Sigaud, S. V. D., Carta Pastoral sobre a Seita Comunista – Seus Erros, Sua Ação Revolucionária e os Deveres dos Católicos na Hora Presente)

http://acristoreibrasil.blogspot.com/2010/02/carta-pastoral-sobre-seita-comunista-d.html

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ecumenismo e diálogo como pseudo-idéias virais


“Um vírus não é em si mesmo um ser vivo, mas sim uma simples partícula de ARN ou ADN. Tal partícula não pode se reproduzir a menos que encontre uma célula viva cujo mecanismo ela possa usar para fazer cópias de si mesma. Um vírus contém apenas as informações suficientes para reproduzir-se encontrando células que infecta e transforma para seu propósito. Na verdade, o único propósito de um vírus é a auto-replicação.
Por analogia, então, dizemos que certos “vírus” verbais infectaram o Corpo Místico de Cristo. Esses vírus são pseudo-idéias que, tais como os vírus reais, têm mínimo conteúdo informativo. Assim como um vírus paira entre vida e não-vida, essas pseudo-idéias pairam entre significado e não-significado. Elas parecem significar algo, mas depois de uma análise detalhada não encontramos qualquer significado verdadeiro...Essas pseudo-idéias virais no Corpo Místico de Cristo, assim como os vírus reais, existem apenas para reproduzirem-se a si mesmas, o que fazem infectando o entendimento de idéias genuínas que têm significados precisos – ou seja, os ensinamentos perenes do Magistério.
Estamos convencidos de que ao introduzir o “ecumenismo”, o “diálogo” e várias outras pseudo-idéias virais no Corpo Místico, Satanás encontrou uma maneira de confundir, dividir e devastar o elemento humano da Igreja, sem a Igreja jamais ter ensinado um erro real de doutrina, o que seria impossível. Muito pelo contrário: as pseudo-idéias em questão não podem ser chamadas erros doutrinais como tais, pois não são redutíveis a uma proposição cujas palavras significariam a contradição formal de uma doutrina Católica existente. De fato, os termos “ecumenismo” e “diálogo” não contêm nada em si mesmos que contradiga ensinamentos anteriores da Igreja; como os vírus reais, esses termos permanecem inertes até entrar em contato com algo que possam infectar. É por isso que quando os neocatólicos dizem que os tradicionalistas “dissentem do ecumenismo”, por exemplo, eles não são capazes de articular precisamente o que há nessa idéia que exige nosso assentimento. Porque essa idéia não envolve nenhuma doutrina Católica inteligível.”
(Christopher Ferrara e Thomas Woods Jr., The Great Facade)

terça-feira, 2 de março de 2010

Ser ou não ser - um olhar católico sobre Hamlet


“William Shakespeare (1564-1616) é o escritor mais famoso de língua inglesa. Sua peça de teatro Hamlet (1600) permanece como uma das mais conhecidas e apreciadas do mundo anglo-saxão. Mons. Williamson ressalta que Shakespeare não era nem teólogo nem filósofo. Era um artista, um dos maiores de todos os tempos, diz. E como todo artista, sua obra é marcada por uma relativa imprecisão. Shakespeare reflete a passagem da mentalidade medieval para a mentalidade moderna, a passagem de um sociedade cristã a uma sociedade apóstata. Sua obra traz, a um tempo, algo do teatro moralizador da Idade Média e algo do drama psicológico moderno. Podemos, portanto, fazer uma leitura cristã e tradicional ou, ao contrário, uma leitura romântica e revolucionária, que Mons. Williamson qualifica de hollywoodiana. Naturalmente, é esta última que prevalece em nossos dias. Mas um católico pode encontrar em Shakespeare interessantes reflexões sobre o problema do mal.
Mons. Williamson lembra que a Bíblia contém tudo o que é necessário para compreender a natureza satânica do mundo moderno e para aprender a resistir a ele. Não obstante, a literatura profana pode por vezes nos ajudar a ilustrar os princípios católicos em uma linguagem mais acessível aos nossos contemporâneos e, sobretudo, aos jovens que infelizmente são demasiadamente marcados por uma visão cinematográfica da vida. Os clássicos literários, diz o Bispo, nos desvendam a profundeza da natureza humana e as causas da sociedade moderna.
O problema da apostasia constitui a trama de fundo da obra de Shakespeare. Seus heróis lutam contra uma insurreição interior da alma, conseqüência do eterno conflito entre o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio. O herói shakespeariano é inicialmente nobre, mas entretém uma fraqueza que o fará sucumbir à tentação. Assim é a ambição para Macbeth, o ciúme, para Otelo e o puritanismo, para Ângelo. O herói cai. Ele rejeita o amor para satisfazer sua paixão desregrada cometendo um assassinato. Em seguida, toma consciência do mal que fez e que se fez, mas ele não pode resolver o conflito senão por uma fuga desesperada para a morte. O herói shakespeariano é um idealista que se perde no niilismo por não encontrar resposta às suas questões. Com efeito, falta-lhe a graça divina. Não é ele a imagem do mundo moderno?
Mons. Williamson analisa a peça à luz desta dupla leitura, católica e moderna. A história se passa na Dinamarca. O rei é envenenado furtivamente por seu irmão Cláudio, que usurpa a coroa e desposa sua cunhada Gertrudes, mãe do herói Hamlet. O espectro do rei assassinado aparece a Hamlet. Ele revela a seu filho as circunstâncias de sua morte e pede a ele que o vingue. Hamlet é um homem jovem de coração puro que denuncia a corrupção da corte (Há algo de podre no reino da Dinamarca) e ama sinceramente a filha do lorde camareiro Polônio, Ofélia. Entretanto, ele sofre de melancolia (hoje dir-se-ia: depressão) e pensa até em suicídio. A aparição do espectro de seu pai transforma suas nobres aspirações em paixões odientas. Ele repele o amor de Ofélia, cujo pai ele mata por acidente, mas sem remorso. Sua noiva perde a razão e se mata, talvez voluntariamente. Hamlet tem a oportunidade de matar Cláudio enquanto ele reza; mas renuncia a isso para não enviar seu tio para o céu. Seu desejo de vingança não tem mais limite. Contudo, a melancolia e uma certa crença o paralisam. Hamlet pergunta a si mesmo se mais vale combater o Mal ou fugir dele pela morte.
Ser ou não ser, essa é que é a questão: Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna ou tomar armas contra um mar de escolhos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — Dormir: Nada mais; e dizer que pelo sono findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — Dormir. Dormir! Talvez sonhar — eis o problema, pois os sonhos que vieram nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida. [...] Quem carregara suando o fardo da pesada vida se o medo do que depois da morte — o país ignorado de onde nunca ninguém voltou — não nos turbasse a mente e nos fizesse arcar c'o mal que temos em vez de voar para esse, que ignoramos? [Hamlet e Macbeth, Shakespeare, Nova Fronteira, Rio, 1995]
Enquanto que Hamlet se interroga sobre o sentido da vida e da morte, Cláudio conspira com o irmão de Ofélia, Laertes, para fazer com que ele perca a vida na ponta de um florete envenenado, durante uma competição de esgrima. Hamlet pressente a cilada. Ele poderia facilmente evitar a competição, mas não está mais interessado na vida, e se deixa conduzir por um sombrio pessimismo.
Se tiver que ser agora, não está para vir; se não estiver para vir, será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo: se ninguém conhece aquilo que aqui deixa, que importa deixá-lo um pouco antes? [ibid]
O drama termina em uma carnificina rocambolesca em que morrem Hamlet, Laertes, Cláudio e Gertrudes. Um rude guerreiro estrangeiro, Fortimbrás, termina por se empossar do trono. A força bruta triunfa sobre as ruínas da corrupção moral (Cláudio) e do niilismo espiritual (Hamlet), dois traços característicos do mundo contemporâneo.
Hamlet é um herói ou criminoso? Os modernos responderiam que Hamlet teve razão de se revoltar contra a corrupção da sociedade encarnada por Cláudio. Ele comete talvez alguns erros grosseiros em sua revolta, como a morte, no fundo justificada, de Polônio ou o quase-suicídio, mais triste, de Ofélia. Mas o rebelde tem todos os direitos e a revolução exige sangue. Cláudio e Laertes, que representam o poder estabelecido (o papai), associam-se para destruir a juventude revolucionária (o adolescente em crise). O herói termina por triunfar e por restabelecer uma certa justiça, mas ao preço de sua vida (o suicídio "interpelante" do adolescente incompreendido). Tudo termina por uma carnificina malsã, cuja responsabilidade é devolvida à ordem social hipócrita. Assim, Hamlet encarna, na ótica moderna, "o drama da ascensão à consciência e à liberdade" (Petit Robert).
Um católico fará, da mesma peça, uma leitura completamente diferente. Hamlet é um nobre príncipe enfraquecido por sua melancolia (a tristeza, primeira armadilha do demônio) que não pode resistir à tentação da vingança. O espectro de seu pai vem certamente do inferno, pois uma alma do purgatório não poderia incitar ao mal. Tendo preferido o ódio ao amor, Hamlet rechaça sua noiva, destrata sua mãe e ataca o rei, do qual é, contudo, o legítimo herdeiro. Hamlet solapa os fundamentos da ordem social: o matrimônio, a piedade filial, a autoridade pública. Sua rebelião odienta arruinará sua vida pessoal, sua família e a paz do reino, mas ele prossegue com vivacidade, como estes jovens burgueses decadentes que se tornam comunistas para acertar suas contas com seus pais. Quem vive da espada, perecerá pela espada. A revolta conduz à morte, tanto a do herói como a de seus inimigos. Ela conduz sobretudo ao desgosto pela vida que Hamlet manifesta aceitando o duelo contra Laertes. Definitivamente, Hamlet não restabeleceu a justiça na Dinamarca; ele simplesmente fez aquele reino cair nas mãos do estrangeiro Fortimbrás.
O drama que aflige a alma de Hamlet é fascinante. Em uma sociedade corrompida, é melhor combater (inutilmente) ou suportar e morrer (também inutilmente)? Notemos que Hamlet não deseja aderir à imoralidade: seu coração é demasiado nobre. Notemos igualmente que os católicos podem por vezes colocar-se a mesma questão: É preciso combater a desordem atual (sem esperança de sucesso) ou se desinteressar dela (o que equivale a morrer espiritualmente)? Resistir é inútil, golpear também. Que fazer?
Segundo Mons. Williamson, Hamlet não encontrou a solução porque não colocou o problema em termos católicos. Hamlet é o filho perturbado de um Shakespeare perturbado, no qual a juventude de nosso tempo se reconhece. Mas, por que Shakespeare era perturbado?
A obra de Hildegard Hammerschmidt-Hummel, The Hidden Existence of William Shakespeare [A Vida Desconhecida de William Shakespeare], pode nos esclarecer. Shakespeare era um católico em uma Inglaterra elisabetana que perseguia severamente os católicos pela violência, mas, sobretudo, pelo ostracismo. Em 1600, ano em que Hamlet foi escrito, o triunfo do protestantismo é absoluto. A maior parte dos ingleses aceitou o cisma e os católicos que ainda sobreviveram não ousam se manifestar muito. Ora, Shakespeare era um destes católicos que escondiam sua fé para se manter na sociedade. Ele recusa tomar o caminho do martírio. Mons. Williamson não o culpa: é preciso, diz ele, ser um verdadeiro mártir antes de apontar o dedo para aqueles que cedem na perseguição. Quantos dentre nós terão a coragem de testemunhar a fé quando as forças do anticristo nos perseguirem violentamente (o que talvez ocorra em breve)? Mas a pusilanimidade de Shakespeare altera sua concepção da vida. Seu meio-catolicismo não o permite resolver os problemas existenciais que ele colocava, por outro lado, muito bem.
Mons. Williamson traça um paralelo entre Hamlet, Shakespeare e a juventude atual.
Hamlet, príncipe herdeiro da Dinamarca, vive exilado em seu próprio reino, abandonado ao mal pela dupla traição de seu tio e de sua mãe. Ele tem razão de reagir contra a corrupção, mas não emprega bons meios. Sua ação termina em um inútil banho de sangue e em uma interrogação niilista: Ser ou não ser?
Ao fim de sua vida, Shakespeare consegue sair do impasse ao redescobrir a resposta cristã ao problema do mal: a redenção pela morte sacrificadora. Em Rei Lear (1606), a heroína regenera o mundo por sua própria oblação, não pela morte dos maus. O Cristo não salvou o mundo caçando os Herodes e os Pilatos, mas oferecendo a si mesmo na cruz. No mundo atual, os católicos devem reagir imitando Nosso Senhor, sacrificando a si mesmos pela oração e pelo dever de estado, como justamente nos ensinou Nossa Senhora de Fátima. Shakespeare recuperou sua paz interior desta maneira. Ele morreu piedosamente, após ter recebido os últimos sacramentos de um monge beneditino.
Mons. Williamson termina sua magistral conferência explicando o objetivo do ensino da literatura clássica em uma escola católica. Os cinco últimos séculos da história ocidental são marcados pela apostasia. A literatura não poderia senão experimentar as conseqüências. Não teríamos o direito, diz ele, de procurar nesta literatura, mesmo na mais clássica, a expressão perfeita dos princípios cristãos. Para isso, é preciso ler a Bíblia e os Padres da Igreja. Mas a literatura clássica ilustra uma certa ordem natural. Por exemplo, os homens aí são masculinos e as mulheres, femininas. A obra de Shakespeare é tão ligada à mentalidade tradicional, que quase se passa em silêncio sobre ela nos programas escolares atuais dos países anglófonos. De fato, Shakespeare, assim como tudo o que é clássico, contraria os modernos, uma vez que nos eleva ao nível dos princípios naturais da antiga sociedade. Se não se deve fazer da literatura um fim em si, ao modo dos humanistas ateus, lembremo-nos, contudo, que o sobrenatural tem de se apoiar sobre a natureza e que a fé dificilmente pode se enraizar em uma alma impregnada dos princípios contrários à natureza da cultura moderna. O estudo de Shakespeare pode servir de antídoto contra os grandes danos do espírito hollywoodiano.”
(Jean-Claude Dupuis, To Be or Not to Be – A Catholic Opinion on Hamlet)

http://www.permanencia.org.br/revista/arte/hamlet.htm

segunda-feira, 1 de março de 2010

William Shakespeare: Soneto XVIII


Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza,
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida.


Tradução de Ivo Barroso