segunda-feira, 1 de março de 2010

William Shakespeare: Soneto XVIII


Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza,
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida.


Tradução de Ivo Barroso

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um trecho do Liber Gomorrhianus


“Esse vício não é absolutamente comparável a nenhum outro, porque supera a todos em enormidade. Esse vício produz, com efeito, a morte dos corpos e a destruição das almas. Polui a carne, extingue a luz da inteligência, expulsa o Espírito Santo do templo do coração do homem, nele introduzindo o diabo que é o instigador da luxúria, conduz ao erro, subtrai totalmente a verdade da alma enganada, prepara armadilhas para os que nele incorrem, obstrui o poço para que daí não saiam os que nele caem, abre-lhes o inferno, fecha-lhes a porta do Céu, torna herdeiro da infernal Babilônia aquele que era cidadão da celeste Jerusalém, transformando-o de estrela do céu em palha para o fogo eterno, arranca o membro da Igreja e o lança no voraz incêndio da geena ardente.
Tal vício busca destruir as muralhas da pátria celeste e tornar redivivos os muros da Sodoma calcinada. Ele, com efeito, viola a temperança, mata a pureza, jugula a castidade, trucida a virgindade, que é irrecuperável, com a espada da mais infame união. Tudo infecta, tudo macula, tudo polui, e tanto quanto está em si, nada deixa puro, nada alheio à imundície, nada limpo. Para os puros, como diz o Apóstolo, todas as coisas são puras; para os impuros e infiéis, nada é puro, mas estão contaminados o seu espírito e a sua consciência (Tit. I, 15).
Esse vício expulsa do coro da assembléia eclesiástica e obriga a unir-se com os energúmenos e com os que trabalham com o diabo, separa a alma de Deus para ligá-la aos demônios. Essa pestilentíssima rainha dos sodomitas torna os que obedecem as leis de sua tirania torpes aos homens e odiáveis a Deus, impõe nefanda guerra contra Deus e obriga a alistar-se na milícia do espírito perverso, separa do consórcio dos Anjos e, privando-a de sua nobreza, impinge à alma infeliz o jugo do seu próprio domínio. Despoja seus sequazes das armas das virtudes e os expõe, para que sejam transpassados, aos dardos de todos os vícios. Humilha na Igreja, condena no fórum, conspurca secretamente, desonra em público, rói a consciência como um verme, queima a carne como o fogo.
Arde a mísera carne com o furor da luxúria, treme a fria inteligência com o rancor da suspeita, e no peito do homem infeliz agita-se um caos como que infernal, sendo ele atormentado por tantos aguilhões da consciência quanto é torturado pelos suplícios das penas. Sim, tão logo a venenosíssima serpente tiver cravado os dentes na alma infeliz, imediatamente fica ela privada de sentidos, desprovida de memória, embota-se o gume de sua inteligência, esquece-se de Deus e até mesmo de si.
Com efeito, essa peste destrói os fundamentos da fé, desfibra as forças da esperança, dissipa os vínculos da caridade, aniquila a justiça, solapa a fortaleza, elimina a esperança, embota o gume da prudência.
E que mais direi, uma vez que ela expulsa do templo do coração humano toda a força das virtudes e aí introduz, como que arrancando as trancas das portas, toda a barbárie dos vícios?
Com efeito, aquele a quem essa atrocíssima besta tenha engolido, entre suas fauces cruentas, impede-lhe, com o peso de suas correntes, a prática de todas as boas obras, precipitando-o em todos os despenhadeiros de sua péssima maldade. Assim, tão logo alguém tenha caído nesse abismo de extrema perdição, torna-se um desterrado da pátria celeste, separa-se do Corpo de Cristo, é confundido pela autoridade de toda a Igreja, condenado pelo juízo de todos os Santos Padres, desprezado entre os homens na terra, reprovado pela sociedade dos cidadãos do Céu, cria para si uma terra de ferro e um céu de bronze. De um lado, não consegue levantar-se, agravado que está pelo peso do seu crime; de outro, não consegue mais ocultar seu mal no esconderijo da ignorância, não pode ser feliz enquanto vive, nem ter esperança quando morre, porque, agora, é obrigado a sofrer o opróbrio da derrisão dos homens e, depois, o tormento da condenação eterna.”
(São Pedro Damião, Liber Gomorrhianus)

http://www.saopiov.org/2010/02/hediondez-do-homossexualismo-sao-pedro.html

A motivação para um tratado sobre a sodomia


“Quando o humilde monge e futuro santo, Pedro Damião, apresentou sua carta 31, o Livro de Gomorra, ao Papa Leão IX em 1049, ele deixou claro que sua preocupação primeira e primordial era a salvação das almas. Embora o trabalho fosse dedicado especificamente ao Santo Padre, sua distribuição foi destinada à Igreja universal, especialmente aos bispos do clero secular e aos superiores das ordens religiosas.
Na introdução, o santo escritor deixa claro que a vocação divina da Sé Apostólica faz que sua consideração principal seja “o bem das almas”. Portanto, ele exorta o Santo Padre a tomar medidas contra “um certo vício abominável e assaz vergonhoso”, o qual identifica abertamente como “o câncer corruptor da sodomia”, que assola tanto as almas do clero e o rebanho de Cristo na sua região, antes que Deus descarregue Sua justa ira contra o povo. Reconhecendo quão nauseante a própria menção da palavra sodomia deve ser ao Papa, ele no entanto pergunta com franqueza brusca: “...se um médico ficar horrorizado com o contágio da praga, quem é que vai manejar o cautério? Se ele fica enjoado quando está prestes a aplicar o remédio, quem vai restaurar a saúde aos corações feridos?”
Evitando qualquer dubiedade, Damião distingue entre as várias formas de sodomia e as fases de corrupção sodomita, começando pela masturbação solitária e mútua e terminando na estimulação interfemoral (entre as coxas) e coito anal. Destaca que há uma tendência entre os prelados de tratar os primeiros três graus do vício com uma “leniência imprópria”, preferindo reservarem a expulsão do estado clerical somente àqueles homens que comprovadamente se envolveram com penetração anal. O resultado, diz Damião, é que um homem, culpado do vício em graus “menores”, aceita suas penitências mais suaves, mas permanece livre para poluir outros sem o menor receio de perder sua posição. O resultado previsível da leniência de seu superior, diz Damião, é que o vício se espalha, o culpado fica mais ousado em seus atos ilícitos pois sabe que não irá sofrer qualquer perda em seu estado clerical, perde todo o temor a Deus e seu último estado é pior do que o primeiro.
Damião condena a audácia de homens que estão “habituados à porcaria desta doença purulenta”, e ainda assim ousam apresentar-se para o sacerdócio ou, se já ordenados, permanecer em seus cargos. Não foi em razão de tais crimes que Deus Todo-Poderoso destruiu Sodoma e Gomorra, e matou Onan por deliberadamente derramar sua semente no chão?, pergunta. Citando a epístola de São Paulo aos Efésios (Ef 5:5), ele continua, “...se um homem impuro não tem absolutamente nenhuma herança no Céu, como pode ser ele tão arrogante de assumir uma posição de honra na Igreja, que é certamente o reino de Deus?”
O santo monge assemelha os sodomitas que buscam o sacerdócio aos cidadãos de Sodoma que ameaçaram “usar de violência contra o justo Lot” e estavam já quase quebrando a porta quando foram feridos com cegueira por dois anjos e não conseguiram mais achá-la. Tais homens, ele diz, foram feridos com uma cegueira semelhante, e “pela justa decisão de Deus caíram em treva interior.” Se fossem humildes seriam capazes de achar a porta que é Cristo, mas estão cegos por sua “arrogância e vaidade”, e “perdem Cristo por causa de seu apego ao pecado”, nunca achando, lamenta Damião, “o portão que leva à habitação celeste dos santos”.
Não poupando os eclesiásticos que conscientemente permitem que sodomitas ingressem no sacerdócio ou permaneçam em posições clericais maculando seu cargo, o santo monge ataca os “superiores de clérigos e padres que nada fazem”, lembrando-os de que eles deveriam estar tremendo por eles mesmos terem-se tornado “parceiros na culpa de outros”, ao permitirem que “a praga destruidora” da sodomia continuasse em suas fileiras.”
(Randy Engel, St. Peter Damian's Book of Gomorrah: A Moral Blueprint for Our Times)

São Pedro Damião


“Teólogo e reformador. Nasceu em Ravena, em 1007; morreu em Faença, em 1072. Comemoração: 21 de fevereiro.
Órfão desde muito jovem, ficou primeiro aos cuidados de um indiferente irmão mais velho e, depois, de outro irmão que lhe proporcionou uma boa educação em escolas da Lombardia. Em 1035 Pedro juntou-se à comunidade de eremitas fundada por São Romualdo, em Fonte Avellana, da qual se tornou preposto. Numa época de reformas, ele foi essencialmente um reformador, tanto como monge quanto como bispo-cardeal de Óstia com variadas atividades. Criticou algumas tendências reformistas de papas da época e exerceu grande influência em importantes assuntos eclesiásticos. Suas idéias sobre o monasticismo lembravam sempre o exemplo dos primeiros monges do deserto. De certo modo, não era diferente de São Jerônimo: crítico, impaciente, sincero, com o fervor moral de um profeta. Sua violenta investida contra a má conduta clerical é chamada, com razão, “O livro de Gomorra”. Por outro lado, Pedro repreendeu um bispo pelo simples fato de jogar xadrez. Escreveu sobre importantes assuntos teológicos e canônicos e, em 1828, o Papa Leão XII inscreveu-o entre os doutores da Igreja, antes mesmo da prévia canonização formal. A intransigência e a severidade de São Pedro Damião talvez tenham sido superenfatizadas, pois outra sua faceta pode ser apreendida em seus hinos, como aquele sobre o Céu e outro sobre São Gregório Magno, a quem Damião chama de “o apóstolo do povo inglês”.”
(Donald Attwater, The Penguin Dictionary of Saints)

Tradução de Maristela R. A. Marcondes e Wanda de Oliveira Roselli

domingo, 14 de fevereiro de 2010

As “sociétés de pensée” e a revolução francesa


"Ninguém até hoje analisou melhor do que Augustin Cochin esse processo de esvaziamento que se operou na ação capilar das “sociétés de pensée” do século XVIII que, para os historiadores superficiais, continua a deter o campeonato do verniz.
“É no declínio do reino de Luís XV que o fenômeno se difunde na França. O Grande Oriente se constitui em 1773. As sociedades secretas e ordens diversas, Escoceses, Iluminados, Swedenborgeanos, Martinistas, Egípcios, Amigos Reunidos, disputam adeptos e correspondentes. Vê-se, enfim, de 1769 a 1780 saírem da terra centenas de pequenas sociedades semidescobertas, autônomas em princípio, como as lojas, mas agindo em comum, como também as lojas, constituídas à semelhança delas e animadas pelo mesmo espírito “patriota” e “filósofo”, que escondia mil objetivos políticos semelhantes sob pretexto oficial de ciência, beneficência ou divertimento. (...) O reino dos salões da maledicência espirituosa e elegante passou. Começa agora o das sociedades do livre-pensamento.” [Augustin Cochin, La Révolution et la Libre-Pensée, Plon, 1924, pág. XXIX (introduction)]
E adiante Cochin nos apresenta com incisiva configuração o objeto, ou melhor, o não-objeto dessas academias:
“Elas não são apenas agência de notícias, mas sociedades de encorajamento ao patriotismo, tribunais de espírito público. Para atingir esse fim, criam uma república ideal à margem e à imagem da verdadeira, tendo sua constituição, seus magistrados, seu povo, suas honras e suas lutas. Ali se estudam os mesmos problemas políticos, econômicos etc. Ali se trata de agricultura, de arte, de moral, de direito. Debatem-se as questões do dia, julgam-se os homens eminentes. Em resumo, esse pequeno Estado é a imagem exata do grande, com uma só diferença: não é grande, não é real.
Seus cidadãos não têm nem interesse direto, nem responsabilidade engajada nos negócios de que falam. Seus decretos não passam de desejos, ou votos, suas lutas são meras conversações, seus trabalhos são jogos. Nesta cidade das nuvens, faz-se a moral longe da ação, a política longe dos negócios: é a cidade do pensamento.” [Ibid., pág. XXX]
Augustin Cochin grifa o termo pensée que, melhor do que a tradução portuguesa, exprime o vazio desse processo mental em que a inteligência se libera – se podemos empregar esse verbo ainda carregado de certa nobreza para exprimir tão degradante capitulação – do conhecimento real ou da reflexão, para comprazer-se numa efervescência verbal que mal recobre a indigência do espírito que à exigente procura da verdade e do bem prefere essa liberdade que relativiza tudo exceto seu próprio vazio. O liberalismo, que na Inglaterra, com Locke, começa numa depravação do conhecimento que todavia ainda se apega à experiência e ao conhecimento, no país que tem a vocação da inteligência haveria de começar e de se estender ainda mais baixo, desprendido da própria experiência e reduzido ao livre jogo de opinião, à doxia que não faz questão de ser ortho nem hetero, coroado ou paramentado este pouco ou quase nada com o termo mágico: pensée, libre-pensée.
“Há aí um fato geral que é preciso estudar em si mesmo se quisermos compreender os efeitos no início da Revolução. Todas essas Sociedades têm o mesmo caráter: são Sociedades igualitárias de forma, e filosóficas de objeto, o que hoje chamaríamos Sociedades de livre-pensamento. Formavam o arcabouço material da “república das letras” e deram à “filosofia” uma consistência, um vigor, um império sobre a opinião sem exemplo até então.
Com efeito, embora ideal, o novo Estado, a “república das letras” ganhou, entre 1760 e a Revolução, uma prodigiosa extensão. (...) Ora, não está aí um fato capital, e desprezado demais, do fim do século XVIII?
Este estado de coisas, a própria existência das Sociedades de Pensamento, da casta de opinião que nelas se desenvolvia, das condições especiais em que punham os autores e o público, teve efeitos muito graves sobre o movimento das idéias: porque impunha de início, e sem apelo, aos autores e ao público, o ponto de vista “intelectual”, irreal.
Nunca talvez a corrente geral das idéias, da literatura, esteve tão afastada das realidades, do contato com as coisas, como nesse fim de século. Basta mencionar filósofos políticos como Rousseau e Mably, historiador como Raynal, economistas como Turgot, Gocernay e a escola do laisser-faire, homens de letras como La Harpe, Marmontel e Diderot.
É assim que nasce o filosofismo. A prática da libre-pensée tem graves conseqüências, desde logo, para começar, na ordem intelectual. Os privilegiados esquecem seus princípios; nós poderíamos citar, do mesmo modo, o cientista a esquecer-se da experiência e o religioso a esquecer-se da fé. O fato da experiência, o dogma religioso, tais são com efeito as duas ordens de fato impostas brutalmente de fora à nossa inteligência, e dispostas a deter o impulso da “filosofia”, ou, como se diz hoje, do pensamento livre. A “filosofia” (ou livre-pensamento) derrubará estes entraves à liberdade: a experiência, a tradição, a Fé.” [Ibid., pág. XXXIII]
Sem pretendermos reduzir a este veio todo o sistema fluvial de causas históricas, podemos talvez afiançar que Augustin Cochin, no que se refere à preparação da Revolução Francesa, dá-nos a fortíssima impressão de estar acertando nos pontos mais feridos e doloridos de uma civilização em processo de niilização. E eu diria que é en creux que se prepara a Revolução. Os “horríveis trabalhadores” vistos por Rimbaud, numa espécie de retrovisor, não erigem, cavam. São os “escavadores do nada” vistos por Bloy. E a maior impostura da História, a ser ultrapassada pelo comunismo, não é uma explosão – é antes uma implosão.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O conde de Egmont


"No ano de mil e quinhentos e setenta e oito, quando mais se desaforou a rebeldia herética nos estados de Flandres, profanados os templos e os altares, afrontadas e quebradas as cruzes e imagens sagradas, e fundidos os sinos em artilharia, como se tem feito em Pernambuco, os hereges da populosíssima cidade de Gante formaram um exército de vinte mil combatentes, com que talavam os campos, saqueavam as vilas e destruíam todos os lugares abertos e sem defensa dos católicos. No meio, porém, deste lastimoso desamparo excitou Deus o espírito do conde de Egmont, e de outros senhores tão fiéis e obedientes à Igreja Romana como a seu rei, os quais se quiseram opor à fúria dos hereges; mas não puderam ajuntar mais que um pé do exército de sete mil soldados, inferior em dois terços ao dos inimigos. E que fariam com tão desigual poder? Pintaram nas bandeiras a Virgem, Senhora nossa, e todos, assim soldados como capitães, lançaram a tiracolo os seus rosários, e deste modo armados se puseram na campanha. Os hereges, vendo o pequeno número, e as novas e desusadas bandas dos que saíam a contender com eles, chamavam-lhes, por desprezo, o exército do Padre-nosso; mas os Padre-nossos e as Ave-Marias esforçaram de maneira o seu pequeno exército, que mortos cinco mil dos inimigos, os demais, fugindo, se acolheram à cidade, donde nunca mais se atreveram a sair, e ficou toda a campanha pelos católicos. Isto fez então a Senhora do Rosário, e o mesmo fará em todas as ocasiões, se os nossos soldados, posto que menos em número, seguirem nas bandeiras a mesma insígnia, e se armarem das mesmas armas."
(Pe. Antônio Vieira, S.J, Sermão XII)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A demolição da alma da Igreja


“O futuro Papa Pio XII não falava à toa quando, à luz da Mensagem de Fátima, predisse uma tentativa, que se aproximava, de alterar não só a liturgia e a teologia da Igreja, mas a Sua própria Alma - o que Ela é. Claro está que este desígnio nunca pode triunfar completamente, porque Nosso Senhor prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja. Mas esta promessa divina não exclui que o elemento humano da Igreja sofra as feridas mais graves causadas pelos Seus inimigos - excetuando uma morte final. Foi essa perspectiva de tão graves injúrias à Igreja que tanto alarmou o Papa Pio XII, especialmente tendo em conta as profecias de Fátima.
E, realmente, aquilo que o Papa Pio XII mais receava concretizou-se no período pós-conciliar, quando se presenciou um esforço para transformar a Igreja, de única arca da salvação - fora da qual ninguém se pode salvar - num mero colaborador com outras “igrejas e comunidades eclesiásticas”, com religiões não-Cristãs e até mesmo com ateus, na construção de uma utópica “civilização do amor”. Nesta “civilização do amor”, a salvação das almas do inferno - o qual já não é mencionado - é substituída por uma nova forma de “salvação”: a salvação através da “fraternidade” mundial e da “paz” no mundo. Esta é exatamente a mesma noção que a Maçonaria tem promovido nos últimos três séculos.
De acordo com esta noção maçônica de “salvação” pela “fraternidade do homem” (compreendida num sentido secular, não-Cristão), muitos Clérigos católicos vêm agora dizer-nos que nós temos que respeitar as várias seitas protestantes e cismáticas, como parceiros num “diálogo ecumênico” e na “procura de uma unidade cristã”. Seguindo esta nova noção, realizam-se “liturgias” ecumênicas entre Católicos, Protestantes e as Igrejas Ortodoxas cismáticas, para demonstrar a suposta “comunhão parcial” entre “todos os cristãos”. É claro que os executores da nova orientação da Igreja Católica ainda admitem que Ela é a mais perfeita de todas as igrejas; mas a afirmação de que a Igreja Católica é a única verdadeira Igreja, com a exclusão completa de todas as outras, foi abandonada na prática por todos - menos por um resto de Católicos fiéis, que são considerados “sectários rígidos” e “pré-conciliares”, simplesmente por acreditarem naquilo em que os Católicos sempre acreditaram antes de 1965.
Mas a “unidade cristã” é só um passo para a unidade pan-religiosa na fraternidade mundial. Ao mesmo tempo que a “unidade cristã” está a ser promovida por atividades pan-cristãs que os grandes Papas pré-conciliares teriam considerado sacrilégios, o “diálogo inter-religioso” fez a Igreja mais “aberta” ao “valor” de religiões não-cristãs - cujos seguidores deixariam de ser considerados como faltando-lhes a Fé e o Batismo para salvarem as suas almas. A “Cristandade anônima” de Karl Rahner - que sustenta que os seguidores sinceros de qualquer religião podem ser, e provavelmente são, “Cristãos” sem mesmo o saberem -, tornou-se a teologia de fato da Igreja. De acordo com isto, organizam-se reuniões de oração pan-religiosa, nas quais os membros de todas as religiões se reúnem para rezar pela paz e para demonstrar a sua “unidade” como membros da família humana, sem que ninguém lhes diga que estão em perigo de condenação por falta do Batismo, por falta da Fé em Cristo e por lhes faltar ainda o serem membros da Sua Igreja. Na liturgia “reformada” da Sexta-Feira Santa, os Católicos (pela primeira vez na história litúrgica da Igreja) já não rezam pública e inequivocamente pela conversão dos não-Católicos e sua integração na Santa Igreja Católica, como medida necessária para a salvação das suas almas.
Como qualquer pessoa pode ver, a substituição da Realeza Social de Cristo pela “civilização do amor” neutralizou totalmente a Igreja Católica, que já não é o centro da autoridade moral e espiritual do mundo, como era a intenção do Seu Divino Fundador.
Os teólogos progressistas que avançaram com esta nova orientação da Igreja já formaram quase duas gerações de leigos e Clérigos católicos. Os trabalhos de Rahner, Küng, Schillebeeckx, Congar, De Lubac, von Balthasar, e seus discípulos dominam atualmente os textos didáticos dos Seminários e Universidades Católicos. Nos últimos 35 anos, as doutrinas progressistas destes homens serviram de principal formação a Padres, Religiosos, teólogos e a estudantes católicos do Ensino Superior. Assim, atingimos uma fase em que os prelados preferem a teologia de Rahner à de São Roberto Belarmino, por exemplo, que é um santo canonizado e Doutor da Igreja, ou de São Tomás de Aquino, o grande Doutor e um dos maiores santos na História da Igreja. O ensino de S. Roberto Belarmino e de S. Tomás - que foi, na realidade, o ensino de todos os Papas antes do Vaticano II - tende a ser aceito somente de acordo com a interpretação que lhe é dada por Rahner e outros “novos teólogos”. O mesmo acontece com a maioria dos professores em Faculdades e Seminários Católicos.
Este processo de tentar mudar a própria alma e teologia da Igreja, tal como o Papa Pio XII receava, não só envolveu a “iniciativa ecumênica” e o “diálogo inter-religioso”, mas também uma série infinita de desculpas de Clérigos católicos, do alto e baixo Clero, pelo “triunfalismo” passado da Igreja, ao declarar ser Ela o repositório exclusivo da revelação divina, e ainda pelos supostos pecados dos Seus falecidos membros contra outros “cristãos” e outras culturas. Ora, foi precisamente isto o que o Papa Pio XII predisse, quando falou de inovadores que viriam “fazê-lA [a Igreja] ter remorsos do Seu passado histórico.””
(Pe. Paul Kramer, The Devil’s Final Battle)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A infiltração comunista da Igreja


“Como viemos a saber de numerosas testemunhas independentes, a infiltração comunista da Igreja começou cedo, na década de 1930. O próprio Lênin (fundador do Comunismo russo) declarou nos anos 20 que infiltraria a Igreja Católica, particularmente o Vaticano. A evidência histórica quanto a isso foi recentemente sumarizada no venerável periódico Christian Order:
“Douglas Hyde, ex-comunista e célebre convertido, revelou há muito tempo que nos anos 30 as chefias comunistas enviaram uma diretiva à escala mundial sobre a infiltração da Igreja Católica. E no início da década de 50, a Sra. Bella Dodd também deu informações pormenorizadas sobre a subversão comunista da Igreja. Falando como antiga funcionária de destaque do Partido Comunista Americano, a Sra. Dodd disse: “Nos anos 30 pusemos entre mil e cem homens no sacerdócio para destruir a Igreja a partir do seu interior.” A idéia era que estes homens se ordenassem e subissem até ocupar posições de influência e autoridade como Monsenhores e Bispos. Uma dúzia de anos antes do Vaticano II, ela declarou o seguinte: “Neste momento estão nos cargos mais altos da Igreja” – onde estavam a trabalhar para conseguir mudanças que enfraquecessem a eficácia da Igreja na sua luta contra o Comunismo. Acrescentou que estas mudanças seriam tão drásticas que “não reconhecerão a Igreja Católica.”
Como sublinhou a Christian Order, a existência de uma conspiração comunista para infiltrar a Igreja foi abundantemente confirmada, não só pelos antigos comunistas Bella Dodd e Douglas Hyde, mas também por desertores soviéticos:
“O antigo oficial da KGB Anatoliy Golitsyn, que desertou em 1961 e em 1984 previu com 94% de precisão todos os espantosos acontecimentos ocorridos no Bloco Comunista desde aquela altura, confirmou há vários anos que esta “penetração da Igreja Católica, assim como de outras igrejas, faz parte da “linha geral” [isto é, da política imutável] do Partido na luta anti-religiosa.” De fato, centenas de documentos passados para o Ocidente pelo antigo arquivista da KGB Vassili Mitrokhin, e publicados em 1999, dizem o mesmo sobre o fato de a KGB cultivar as relações mais cordiais com os Católicos ‘progressistas’ e financiar as suas atividades. Um dos órgãos esquerdistas identificados foi a pequena agência de imprensa católica italiana Adista que, ao longo das décadas, promoveu todas as causas ou “reformas” pós-conciliares imagináveis, e cujo Diretor foi nomeado no Arquivo Mitrokhin como um agente assalariado da KGB.”
A Sra. Dodd, que se converteu à Fé pouco antes de morrer, era assessora jurídica do Partido Comunista dos Estados Unidos. Prestou um depoimento volumoso sobre a infiltração comunista na Igreja e no Estado perante a Comissão Parlamentar de Atividades Anti-Americanas nos anos 50. Como se quisesse penitenciar-se pelo seu papel na subversão da Igreja, a Sra. Dodd fez uma série de conferências na Universidade Fordham e noutros locais durante os anos que precederam o Vaticano II. A Christian Order recorda o testemunho de um frade que assistiu a uma dessas conferências no início da década de 50:
“Ouvi aquela mulher durante quatro horas e ela pôs-me os cabelos em pé. Tudo o que ela disse cumpriu-se à letra. Pensar-se-ia que ela era a maior profetisa do mundo, mas ela não era profetisa. Estava apenas a expor, passo a passo, o plano de combate da subversão comunista da Igreja Católica. Ela explicou que, de todas as religiões do mundo, a Igreja Católica era a única temida pelos Comunistas, porque era o seu único adversário eficaz. A idéia geral era destruir, não a Igreja como instituição, mas antes a Fé do povo, e usar mesmo a instituição da Igreja, se possível, para destruir a Fé por meio da promoção de uma pseudo-religião, qualquer coisa parecida com o Catolicismo mas que não era a autêntica doutrina. Logo que a Fé fosse destruída – explicou ela – introduzir-se-ia na Igreja um complexo de culpa (...) para classificar a ‘Igreja do passado’ como opressiva, autoritária, cheia de preconceitos, arrogante ao afirmar-se como única possuidora da verdade, e responsável pelas divisões das comunidades religiosas através dos séculos. Isto seria necessário para que os responsáveis da Igreja, envergonhados, adotassem uma ‘abertura ao mundo’ e uma atitude mais flexível para com todas as religiões e filosofias. Os comunistas explorariam então esta abertura para enfraquecer insidiosamente a Igreja.””
(Pe. Paul Kramer, The Devil’s Final Battle)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Distorções históricas e os templários


"Distorções históricas são difíceis de endireitar. Um erro referente a um composto químico ou aos horários dos vôos de uma companhia aérea se manifestará no tempo devido com uma explosão ou com uma conexão perdida, mas idéias erradas sobre o passado podem persistir por séculos, apesar do diligente trabalho de historiadores, seja porque interesses pessoais beneficiam-se das distorções (a visão whig da história), seja porque a versão fantasiosa é mais divertida.
Isso é particularmente verdadeiro quanto aos Cavaleiros do Templo de Salomão, os Templários. A ordem foi fundada no início do século doze por um cavaleiro de Champagne, França oriental, chamado Hugo de Payens, que, cinco anos após a captura de Jerusalém pela Primeira Cruzada, fez uma peregrinação na Terra Santa com seu senhor feudal e homônimo, Conde Hugo de Champagne. Vendo a necessidade de os cavaleiros protegerem os peregrinos dos saqueadores muçulmanos, mas também percebendo um chamado de Deus para viver a vida de monge, Hugo e oito companheiros formaram uma comunidade híbrida de cavaleiros-monges que faziam votos de pobreza, castidade e obediência e seguiam a regra de uma ordem religiosa mas permaneciam em armas.
Nem todos os líderes da Igreja à época aprovavam essa idéia de uma ordem militar. São Bruno, o fundador dos Cartuxos, tinha sérias dúvidas a respeito da legitimidade moral de matar por Cristo. Contudo, Hugo de Payens encontrou um paladino no líder religioso de seu tempo, São Bernardo de Claraval, que não apenas apoiou a idéia como esboçou uma regra estrita, semelhante à da sua própria ordem Cisterciense, que foi aprovada pelo Papa.
Era uma idéia cujo tempo havia chegado. Todos os governantes da Cristandade Latina desejavam ir às cruzadas mas corriam o risco de usurpação se deixassem seus reinos por pouco tempo que fosse. Os Templários se tornaram seus procuradores. Doações de terra forneceram renda com a qual a ordem pôde equipar cavaleiros, soldados e escudeiros, construir castelos e empregar mercenários. Seu voto monástico de obediência resultou em uma disciplina militar impossível de impor aos cavaleiros vaidosos e temperamentais. Não havia limite ao seu período de serviço, como havia com os vassalos; como celibatários, não tinham filhos a sustentar; e a autoridade dentro da ordem não dependia de vínculos feudais. O líder dos Assassinos Sírios, Sinan ibn-Salman, dizia que não fazia sentido matar um Grão-Mestre Templário pois haveria sempre outro cavaleiro para ocupar seu lugar.
No começo do século treze, os Templários tinham-se tornado uma instituição rica e poderosa com fortalezas em Londres e Paris, uma rede de propriedades rurais bem administradas em toda a Europa, e uma forte presença política e militar na Terra Santa. Quase não há casos de cavaleiros corruptos – certamente menos que os de monges corruptos – mas há evidências de uma certa arrogância institucional e de consumo conspícuo: a fortaleza dos Templários em Acre era adornada com quatro leões revestidos de ouro que custaram ‘1.500 bezantes Sarracenos’. Os Templários prestavam contas apenas ao Papa, os bispos ressentiam-se de sua autonomia e os reis, de sua riqueza.
Em 1307, o Rei Felipe da França, buscando um modo de equilibrar o déficit nas finanças reais, decidiu expropriar a propriedade dos Templários. Acusando a ordem de traição, blasfêmia, sodomia e culto ao demônio, ordenou a prisão de todos os cavaleiros em sua jurisdição e exortou os Reis da Inglaterra e de Aragão a fazerem o mesmo. A tortura e o julgamento subseqüentes dos Templários, a procrastinação do Papa à época, Clemente V, e a dissolução da ordem no Concílio de Viena em 1311, são um dos mais vergonhosos episódios na história da Igreja Medieval.
Tão desgraçada como o destino dos últimos Templários – o Grão-Mestre, Jacques de Molay, foi queimado na fogueira em Paris – foi a apropriação da ordem por franco-maçons fazedores de mitos no século dezoito, cuja mistagogia e ofuscação persiste até o dia de hoje. Do Ivanhoe de Walter Scott até O Código Da Vinci de Dan Brown, o retrato dos Templários é tão falso como absurdo. Tal distorção exasperou, e mesmo enraiveceu, a historiadora francesa Régine Pernoud, que já corrigiu muitas de nossas idéias falsas sobre a Idade Média em seu livro Aquela Terrível Idade Média: Desconstruindo os Mitos. Agora, em Os Templários, ela reabilita os devotos cavaleiros Católicos, desmascarando “a incrível produção de alegações fantasiosas atribuindo aos Templários toda sorte de rituais e credos esotéricos, dos mais antigos aos mais vulgares...” Como ressalta corretamente, a verdade é acessível em arquivos e bibliotecas; não é impossível descobrir os fatos. O resultado é uma história excelente e sem adornos que é um prazer de ler.
Onde há controvérsia, ela dá sua opinião baseada em seu vasto conhecimento da Idade Média. Considera que as acusações feitas aos Templários são falsas: “apenas alguns historiadores, determinados a defender a todo custo a memória de Felipe, o Belo, dão qualquer fé às acusações das quais os Templários foram vítimas.” Ela também põe a dissolução da ordem em contexto histórico, comparando-a à supressão da Companhia de Jesus no século dezoito; e mostrando que a lavagem cerebral e a tortura às quais os Templários foram sujeitos pressagiam os métodos dos governos totalitários dos tempos modernos.
Não há santos canonizados entre os Templários. Além dos Grão-Mestres, pouco se sabe acerca dos cavaleiros que juntavam-se à ordem: poucos sabiam ler ou escrever (o que provaria ser uma grande desvantagem quando de sua prisão) e nenhum deixou qualquer registro do que pensava ou do que sofria. Todo cavaleiro que entrava na ordem sabia que provavelmente morreria em batalha. O branco de sua túnica era o dos mártires do Apocalipse, e o vermelho da cruz o sangue que seria vertido. Após a derrota dos Cristãos Latinos na Batalha de Hattin, aos cavaleiros Templários prisioneiros ofereceu-se a escolha de apostasia ou morte. Nenhum escolheu negar Cristo. Todos foram decapitados por extasiados Sufis às ordens de Saladino. Saladino ganhou ao fim a fama de misericordioso e magnânimo na vitória – outra distorção histórica; os cavaleiros Templários, podemos estar certos, ganharam uma recompensa eterna."
(Piers Paul Read, Historical Distortions and The Templars, prefácio ao livro de Régine Pernoud, The Templars: Knights of Christ)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O milagre da Idade Média


“Através da confusão da decadência do Império Romano desenha-se uma linha histórica marcada pela era patrística, que culmina com Agostinho, e das ruínas do mundo antigo começa a firmar-se a mais extraordinária e misteriosa experiência histórica: a Cristandade ou Civilização Cristã. Esta idade, ou statio da humanidade, realizada por mais de um milênio no ocidente cristão, se alguém quer admirá-la pelo que ela tem de mais admirável, terá de começar por aquilo mesmo de que ela é acusada pelo trepidante e insensato espírito moderno: terá de começar por admirar sua feição realmente estacionária.
Há na vida comum dos povos o mesmo paradoxo que se observa na vida dos corpos. À primeira vista, e às vezes nas últimas vistas dos espíritos fracos, a vida parece ser antes de tudo um movimento, um crescimento e até uma evolução; é preciso aprofundar o estudo para descobrir que o ser vivo, antes de tudo e principalmente, quer permanecer. Toda a intensa atividade do ser vivo converge para o interesse central que é a mantença de uma forma. Assim também mediríamos a mais profunda e intensa vitalidade de um momento histórico por sua profunda e intensa imobilidade. Enquanto os séculos triviais, ou subservientes ao tempo, têm empenho de passar, como se passar fosse seu ofício próprio, a Civilização Cristã da Idade Média pareceu querer estacionar, não como as civilizações adormecidas ou hibernadas, mas como uma experiência única que mais pareceu querer eternizar-se, pareceu querer rejeitar a História, como se todos os feitos de mais de mil anos tivessem o objetivo de deixar multi-luminosamente abertas até o fim do mundo as rosáceas das catedrais feitas de uma composição impressionista e indelével de pedra e luz.
As trevas da Idade Média – disse o judeu Gustave Cohen – são realmente as trevas de nossa ignorância; e creio que Egon Friedel, outro judeu, disse por outras palavras a mesma coisa.
Rompe-se o equilíbrio no seu esplendor. O século XIII, o maior dos séculos, abre-se para o tormentoso e enlouquecido século XIV. E depois do sombrio corredor de loucuras, luxúrias e flagelações, começa a “via modernorum” pelos dois portões engalanados da Renascença e da Reforma.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)