quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O espírito do Anticristo


"Importa muito notar e considerar atentamente que com a descristianização das sociedades e nações os conhecimentos e a sabedoria que Cristo nos proporcionou deixam de ser usados segundo o Seu Espírito, o Espírito de Deus, para serem utilizados de um modo anti-messiânico, satânico. É o espírito do anticristo. O que nos foi dado e nós fomos conquistando, no sentido de cooperação, não se exprime agora em obras de amor e de vida mas sim de aversão e de morte. O que era usado para conceder a saúde (saúde significa salvação), para salvar, é agora utilizado para matar, aniquilar, esmagar. E, por isso, os sistemas de saúde (de salvação) têm vindo a ser transformados em campos de extermínio – através da experimentação em seres humanos na sua etapa embrionária, da clonagem dita “terapêutica, da “redução fetal”, do aborto químico, mecânico e cirúrgico, do suicídio assistido, da eutanásia e o que mais se verá.”
(Pe. Nuno Serras Pereira, A Irrupção do Logos e o Anticristo)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Theodor Körner: Oração durante a Batalha


Invoco-te, Senhor!
O fumo do canhão me cerca uivando,
De mim em torno o raio cai ruidando!...
Ó guia das batalhas, eu te invoco!
Vem guiar-me, Senhor!

Vem guiar-me, Senhor!
À glória me conduz, conduz-me à morte:
Confesso os teus preceitos – são meu norte.
Pai, à tua vontade vem guiar-me!
Confesso-te, Senhor!

Confesso-te, Senhor!
Do outono quer na aragem rumorosa,
Quer em meio à tormenta pavorosa,
Manancial de bens, eu te confesso.
Tua bênção, Senhor!

Tua bênção, Senhor!
Em tuas mãos entrego minha vida;
Dispõe dela – por ti foi-me cedida;
Ou vivo ou morto, dá-me a tua bênção.
Eu te louvo, Senhor!

Eu te louvo, Senhor!
Por transitórios bens não combatemos,
Sacratíssima causa defendemos;
Vencido ou vencedor, hei de louvar-te.
Confio em ti, Senhor!

Confio em ti, Senhor!
Quer da morte os trovões venham saudar-me,
Quer venha o ferro as veias retalhar-me,
Meu Deus e meu Senhor, em ti confio.
Invoco-te, Senhor!


Tradução de Bernardo Taveira Júnior

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A caridade católica


“A suma intransigência católica é a suma caridade católica. É praticada em relação ao nosso próximo quando, para seu próprio bem, ele é ofendido, humilhado e castigado. É praticada em relação a um terceiro quando para defendê-lo da injusta agressão de outrem e protegê-lo do contágio do erro se desmascaram seus autores e fautores, mostrando-os como os iníquos e perversos que verdadeiramente são, expondo-os ao desprezo, horror e execração de todos. É praticada em relação a Deus quando, para Sua glória e a Seu serviço, torna-se necessário silenciar todas as considerações humanas, calcar sob os pés todo respeito humano, sacrificar todos os interesses humanos – e mesmo a própria vida – para obter o mais alto de todos os fins. Tudo isso é intransigência católica e catolicidade intransigente na prática desse puro amor que constitui a caridade suprema. Os santos são os tipos dessa indesviável e sublime fidelidade a Deus, são os heróis da caridade e da religião. Porque há tão poucos verdadeiramente inflexíveis no amor a Deus em nossos dias, há poucos compromissados na ordem da caridade. A caridade liberal é condescendente, carinhosa, até mesmo suave na aparência, mas no fundo é um desprezo essencial ao verdadeiro bem do homem, aos supremos interesses da verdade e por fim a Deus. É o amor do homem a si mesmo, usurpando o trono do Altíssimo e exigindo a adoração que pertence a Deus somente.”
(D. Félix Sardá y Salvany, El Liberalismo Es Pecado)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O fim do mundo


“O mundo vai-se acabar quando algum objetivo for atingido pela raça humana. É pura tolice achar que Deus vai subitamente perder a paciência, sentir que todo este negócio caótico já durou demais e decidir acabar o mundo em seguida. Deus, que sabe de todas as coisas eternamente, não tem uma decisão nova como essa a tomar, subitamente ou de outro modo. Deus, ao criá-lo, sabia do fim do mundo.
O objetivo parece ser claramente a completude do Corpo Místico – quando terá alcançado “a perfeição adulta, aquela maturidade que é proporcional ao completo crescimento de Cristo”. Como vimos, o Corpo Místico não é simplesmente uma réplica espiritual de nosso corpo natural. O que será sua maturidade, sua completude, nós não sabemos. Deus o sabe. Quando todos que devem ser incorporados ao Corpo Místico o forem, a raça humana terá alcançado seu mais alto triunfo; não haverá razão ou sentido nenhum em trazer mais seres humanos à existência. Este mundo como nós o conhecemos acabará.”
(Frank Sheed, Theology for Beginners)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O suicídio intelectual do liberalismo ocidental


“O argumento da dúvida proposto por Locke em favor da tolerância diz que devemos admitir todas as religiões desde que é impossível demonstrar qual delas é verdadeira. Isso implica que não devemos impor crenças que não são demonstráveis. Apliquemos tal doutrina aos princípios éticos. Segue-se que, a menos que os princípios éticos possam ser demonstrados com certeza, devemos nos resguardar de impô-los e devemos tolerar sua completa negação. É claro, contudo, que os princípios éticos não podem ser demonstrados, em sentido estrito; não se pode provar a obrigação de dizer a verdade, de preservar a justiça e a misericórdia. Seguir-se-ia, portanto, que um sistema de mendacidade, de ilegalidade e crueldade teria de ser aceito como alternativa aos princípios éticos e com os mesmos direitos. Mas uma sociedade em que a propaganda inescrupulosa, a violência e o terror prevalecem não oferece espaço à tolerância. Aqui a inconsistência do liberalismo baseado na dúvida filosófica torna-se clara: a liberdade de pensamento é destruída pela extensão da dúvida ao campo dos ideais tradicionais, que inclui a base para a liberdade de pensamento.”
(Michael Polanyi, The Eclipse of Thought)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Antoine Frédéric Ozanam e as origens do socialismo


“Tratando das origens do socialismo, reunimos sob esta denominação as diversas escolas que a arvoram, e que não poderíamos dividir para com cada uma abrir uma controvérsia particular. Se muitos socialistas não são mais do que discípulos retardatários dos mais culposos erros do paganismo, outros há que, em mais de um ponto, se prendem às tradições cristãs, e cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes, mudar em preceitos os conselhos evangélicos, e querer fixar na Terra o ideal do Céu. Não desconhecemos a generosidade dessas ilusões, mas vemos o seu perigo. Como todas as doutrinas que perturbaram a paz do mundo, o socialismo só tirou sua força de muitas verdades misturadas com muitos erros. Essa confusão lhe empresta uma feição de novidade que causa admiração nos espíritos simples e fracos: conseguiremos afastar toda a periculosidade de seus ensinamentos quando neles mostrarmos, de um lado, as antigas verdades que, para surgirem, não esperaram o sol do século dezenove, e de outro lado, os erros seculares tantas vezes julgados pelas consciências dos homens e pela experiência dos povos. Já é tempo de proceder à triagem e de retomar o que é nosso, isto é, as velhas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade.
Já é tempo de mostrar que podemos advogar a causa dos operários, devotar-nos ao alívio das classes sofredoras, promover a abolição do pauperismo sem nos solidarizarmos com as predições desencadeadas pela tempestade de julho (1848) que ainda suspende sobre nós sombrias nuvens.
O socialismo se propõe como um progresso, mas jamais se tentou, talvez, mais atrevido retorno ao mais remoto passado. Com efeito, nunca estiveram as doutrinas socialistas mais próximas de seu advento do que nas nações teocráticas da antiguidade. Quando a lei indiana faz sair a sociedade já constituída do deus Brama, de sua cabeça os sacerdotes, de seus braços os guerreiros, das coxas os agricultores, e os escravos dos pés, essa lei traduz o sonho de muitos modernos. É a apoteose do Estado, traz a classificação dos homens por um poder superior que julga soberanamente da capacidade e das obras de cada um, e a organização do trabalho sob uma disciplina que não deixa lugar nem à concorrência, nem à miséria, nem a todas as desordens da liberdade pessoal. Essa era a condição em todo o Oriente com suas conseqüências. Destruída a liberdade das pessoas, suprimia-se a propriedade que é ao mesmo tempo obra da liberdade e sua proteção. A legislação da Índia atribuía o solo aos sacerdotes; a da Pérsia dava-o ao Rei; sob vários nomes é sempre o Estado que o possui: os súditos não o detinham senão a título precário.
Os mesmos princípios revestiram-se de outras formas nas primeiras instituições da Grécia, entre os povos dórios, mais fiéis às tradições orientais. Daí a distinção de quatro classes feita pelos espartanos, o princípio igual das terras e sua inalienabilidade, a educação dos filhos arrancada da família, as refeições em comum, e toda a disciplina que fazia dos lacedemônios um falanstério guerreiro.
Quando as doutrinas subvertedoras da família e da propriedade, sempre à espreita de uma brecha oportuna nas portas da sociedade cristã, tiveram a seu serviço circunstâncias tão favoráveis, como a ruína do Império Romano e a invasão dos bárbaros, ou como as dilacerações internas da França desde o tempo dos Pastoureaux até a Jacquerie (...); quando, sustentadas por tanta bravura, tanta perseverança e tantos braços, essas doutrinas subversivas vieram esbarrar invariavelmente contra a solidez da civilização, já não há por que nos amedrontarmos como se estivéssemos diante de um novo perigo. É razoável contar com a consciência e o bom senso de povos que há dezoito séculos resistem a essas tentações.
Podemos contar principalmente com o cristianismo, que nunca deixou de repelir com a mesma firmeza o erro dos socialistas e as paixões egoístas, que contém todas as verdades dos reformadores modernos e nada de suas ilusões, e é a única força capaz de realizar o ideal da fraternidade sem imolar a liberdade, e de procurar para os homens a maior felicidade terrestre sem lhes arrancar o dom sagrado da resignação, o mais seguro remédio de suas dores, e a última palavra de uma vida que tem de acabar.”
(Antoine Frédéric Ozanam, Les Origines du Socialisme, citado no livro de Gustavo Corção, O Século do Nada)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma imagem para a "Nova Igreja" dos progressistas


“Como os aviões a jato, o “progressista” só se move “para frente”, isto é, na direção a que ele dá todas as eufemísticas denominações, à custa da retro-rejeição de sua própria substância. Não me custa muito imaginar a “Nova Igreja” dos progressistas numa vistosa e engalanada aeronave que se dirige para o sonhado Novo Mundo, com uma propulsão que vem da vigorosa evacuação de sua carga. Joga para trás o latim e graças a esse jato avança alguns quilômetros; repele vigorosamente o gregoriano, e avança outros tantos quilômetros; evacua vigorosamente as imagens, as batinas, as tonsuras, os sinais sagrados: novo avanço; num jato cada vez mais forte se deslastra do missal, do breviário, do celibato sacerdotal; acelerando o motor de retro-rejeições, joga fora os dogmas, os mandamentos e as bem-aventuranças. E assim, varando a estratosfera, como um bólido incandescente, a aeronave chegará um dia a Marte ou Vênus, onde os habitantes, estupefatos, verão que a enorme e coruscante aeronave não traz coisa nenhuma a ninguém: chega vazia, traz o vácuo absoluto e absolutamente ecumênico.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os magos

“Alguns dias depois, três magos chegaram da Caldéia e se ajoelharam diante de Jesus. Vinham talvez de Ecbátana ou das margens do Cáspio, no dorso dos camelos, com os alforges cheios pendentes das selas; passando a vau o Tigre e o Eufrates, atravessando o deserto dos Nômades e costeando o Mar Morto.
Uma estrela nova – semelhante ao cometa que anunciava por vezes o nascimento de um profeta ou a morte de um César – conduzira-os ao país judeu; vieram para adorar um rei e encontraram um infante no estábulo.
Quase mil anos antes deles, viera também, do Oriente para a Judéia, uma rainha carregada de presentes: ouro, perfumes e pedras preciosas. Mas encontrara no seu trono o maior dos reis de Israel e da sua boca ouvira o que jamais ninguém lhe havia ensinado. E os magos, mais sábios que os reis, encontraram apenas um recém-nascido, incapaz de interrogar ou responder, um menino que, quando se tornasse homem, desprezaria os tesouros materiais e a ciência da matéria. Os magos eram, na Pérsia e na Média, não reis, mas senhores dos reis; guiavam os governadores do povo. Eram os sacrificadores, os intérpretes dos sonhos, os adivinhos, os ministros, os únicos intermediários entre o povo e Ahura Mazda, o Deus bom; só eles conheciam o futuro; com as suas mãos matavam os animais inimigos do homem: as serpentes, os insetos nocivos e as aves nefastas. Purificavam as almas e os campos; Deus só se comprazia com os seus dons e os reis não declaravam guerra sem ouvi-los. Possuíam os segredos da terra e do céu e eram, ao mesmo tempo, os dominadores da pátria em nome da religião e da sabedoria.
Representavam o Espírito no meio do povo que vivia para a Matéria. Era justo que viessem pois adorar a Jesus. Após os animais que são a Natureza e os pastores que são o povo, este outro poder: a sabedoria ajoelhava-se diante do presépio de Belém. A velha casta sacerdotal do Oriente submeteu-se ao novo senhor que veio evangelizar o Ocidente: seus padres inclinavam-se diante daquele que com a nova ciência do Amor dominará a ciência das palavras e dos números. Os magos em Belém representam as teologias antigas reconhecendo a Revelação definitiva, o saber humilhando-se diante da Inocência, a riqueza aos pés da Pobreza. Oferecem a Jesus o ouro que ele desprezará: e não o oferecem por vê-lo pobre, mas para seguir de antemão o conselho evangélico: vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres.
Não lhe ofertam incenso para perfumar o estábulo, mas porque vão acabar-se os seus ritos e os fumos e perfumes serão então inúteis nos seus altares. Oferecem-lhe a mirra que serve para embalsamar os mortos, porque sabem que, devendo o Filho morrer, a Mãe, hoje sorridente, deverá embalsamar-lhe o cadáver.
Ajoelhados sobre a palha, envolvidos em suntuosos mantos, eles que são doutos, adivinhos e poderosos, se oferecem a si mesmos, como penhor da obediência do mundo. Jesus obteve então todas as investiduras a que tinha direito. Com a partida dos magos começa para ele a perseguição daqueles que o odeiam e o odiarão até a morte.”
(Giovanni Papini, Storia di Cristo)

Tradução do Pe. Lindolfo Esteves

sábado, 2 de janeiro de 2010

Alexis de Tocqueville e como a revolução francesa se processou à maneira das revoluções religiosas


“A Revolução Francesa agiu em relação a este mundo exatamente como as revoluções religiosas operam em relação ao outro. Tem considerado o cidadão de uma maneira abstrata, fora de qualquer sociedade particular, da mesma maneira como as religiões consideram o homem em geral, independentemente do país e da época. Não pesquisou tão-somente qual era o direito particular do cidadão francês mas também quais os deveres e direitos gerais dos homens em matéria política.
Foi remontando sempre dessa maneira ao que havia de menos particular e por assim dizer de mais natural em matéria de estado social e governo que a Revolução Francesa conseguiu tornar-se compreensível a todos e copiável em cem lugares ao mesmo tempo.
Como parecia aspirar mais ainda à regeneração do gênero humano que à reforma da França, acendeu uma paixão que as revoluções políticas as mais violentas jamais conseguiram produzir até então. Inspirou o proselitismo e gerou a propaganda. Foi assim que pegou este ar de revolução religiosa que tanto apavorou os contemporâneos, ou melhor, tornou-se ela própria uma espécie de nova religião, uma religião imperfeita, é verdade, sem Deus, sem culto, sem Além, mas que, todavia, como o islamismo, inundou toda a terra com seus soldados, apóstolos e mártires.
Não se deve pensar, entretanto, que seus procedimentos não tivessem precedente algum e que todas as idéias que difundiu fossem inteiramente novas. Houve em todos os séculos e até em plena Idade Média agitadores que, para mudar os costumes, invocaram as leis gerais das sociedades humanas e que empreenderam opor à constituição de seu país os direitos naturais da humanidade. Mas todas essas tentativas falharam: a mesma tocha que tocou fogo na Europa no século dezoito foi apagada com facilidade no século quinze. Para que argumentos dessa espécie produzam revoluções é preciso que algumas mudanças nas condições, costumes e usos já tenham ocorrido e preparado o espírito humano a se deixar penetrar por eles.”
(Alexis de Tocqueville, L’Ancien Régime et La Révolution)

Tradução de Yvonne Jean

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009