sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O suicídio intelectual do liberalismo ocidental


“O argumento da dúvida proposto por Locke em favor da tolerância diz que devemos admitir todas as religiões desde que é impossível demonstrar qual delas é verdadeira. Isso implica que não devemos impor crenças que não são demonstráveis. Apliquemos tal doutrina aos princípios éticos. Segue-se que, a menos que os princípios éticos possam ser demonstrados com certeza, devemos nos resguardar de impô-los e devemos tolerar sua completa negação. É claro, contudo, que os princípios éticos não podem ser demonstrados, em sentido estrito; não se pode provar a obrigação de dizer a verdade, de preservar a justiça e a misericórdia. Seguir-se-ia, portanto, que um sistema de mendacidade, de ilegalidade e crueldade teria de ser aceito como alternativa aos princípios éticos e com os mesmos direitos. Mas uma sociedade em que a propaganda inescrupulosa, a violência e o terror prevalecem não oferece espaço à tolerância. Aqui a inconsistência do liberalismo baseado na dúvida filosófica torna-se clara: a liberdade de pensamento é destruída pela extensão da dúvida ao campo dos ideais tradicionais, que inclui a base para a liberdade de pensamento.”
(Michael Polanyi, The Eclipse of Thought)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Antoine Frédéric Ozanam e as origens do socialismo


“Tratando das origens do socialismo, reunimos sob esta denominação as diversas escolas que a arvoram, e que não poderíamos dividir para com cada uma abrir uma controvérsia particular. Se muitos socialistas não são mais do que discípulos retardatários dos mais culposos erros do paganismo, outros há que, em mais de um ponto, se prendem às tradições cristãs, e cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes, mudar em preceitos os conselhos evangélicos, e querer fixar na Terra o ideal do Céu. Não desconhecemos a generosidade dessas ilusões, mas vemos o seu perigo. Como todas as doutrinas que perturbaram a paz do mundo, o socialismo só tirou sua força de muitas verdades misturadas com muitos erros. Essa confusão lhe empresta uma feição de novidade que causa admiração nos espíritos simples e fracos: conseguiremos afastar toda a periculosidade de seus ensinamentos quando neles mostrarmos, de um lado, as antigas verdades que, para surgirem, não esperaram o sol do século dezenove, e de outro lado, os erros seculares tantas vezes julgados pelas consciências dos homens e pela experiência dos povos. Já é tempo de proceder à triagem e de retomar o que é nosso, isto é, as velhas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade.
Já é tempo de mostrar que podemos advogar a causa dos operários, devotar-nos ao alívio das classes sofredoras, promover a abolição do pauperismo sem nos solidarizarmos com as predições desencadeadas pela tempestade de julho (1848) que ainda suspende sobre nós sombrias nuvens.
O socialismo se propõe como um progresso, mas jamais se tentou, talvez, mais atrevido retorno ao mais remoto passado. Com efeito, nunca estiveram as doutrinas socialistas mais próximas de seu advento do que nas nações teocráticas da antiguidade. Quando a lei indiana faz sair a sociedade já constituída do deus Brama, de sua cabeça os sacerdotes, de seus braços os guerreiros, das coxas os agricultores, e os escravos dos pés, essa lei traduz o sonho de muitos modernos. É a apoteose do Estado, traz a classificação dos homens por um poder superior que julga soberanamente da capacidade e das obras de cada um, e a organização do trabalho sob uma disciplina que não deixa lugar nem à concorrência, nem à miséria, nem a todas as desordens da liberdade pessoal. Essa era a condição em todo o Oriente com suas conseqüências. Destruída a liberdade das pessoas, suprimia-se a propriedade que é ao mesmo tempo obra da liberdade e sua proteção. A legislação da Índia atribuía o solo aos sacerdotes; a da Pérsia dava-o ao Rei; sob vários nomes é sempre o Estado que o possui: os súditos não o detinham senão a título precário.
Os mesmos princípios revestiram-se de outras formas nas primeiras instituições da Grécia, entre os povos dórios, mais fiéis às tradições orientais. Daí a distinção de quatro classes feita pelos espartanos, o princípio igual das terras e sua inalienabilidade, a educação dos filhos arrancada da família, as refeições em comum, e toda a disciplina que fazia dos lacedemônios um falanstério guerreiro.
Quando as doutrinas subvertedoras da família e da propriedade, sempre à espreita de uma brecha oportuna nas portas da sociedade cristã, tiveram a seu serviço circunstâncias tão favoráveis, como a ruína do Império Romano e a invasão dos bárbaros, ou como as dilacerações internas da França desde o tempo dos Pastoureaux até a Jacquerie (...); quando, sustentadas por tanta bravura, tanta perseverança e tantos braços, essas doutrinas subversivas vieram esbarrar invariavelmente contra a solidez da civilização, já não há por que nos amedrontarmos como se estivéssemos diante de um novo perigo. É razoável contar com a consciência e o bom senso de povos que há dezoito séculos resistem a essas tentações.
Podemos contar principalmente com o cristianismo, que nunca deixou de repelir com a mesma firmeza o erro dos socialistas e as paixões egoístas, que contém todas as verdades dos reformadores modernos e nada de suas ilusões, e é a única força capaz de realizar o ideal da fraternidade sem imolar a liberdade, e de procurar para os homens a maior felicidade terrestre sem lhes arrancar o dom sagrado da resignação, o mais seguro remédio de suas dores, e a última palavra de uma vida que tem de acabar.”
(Antoine Frédéric Ozanam, Les Origines du Socialisme, citado no livro de Gustavo Corção, O Século do Nada)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma imagem para a "Nova Igreja" dos progressistas


“Como os aviões a jato, o “progressista” só se move “para frente”, isto é, na direção a que ele dá todas as eufemísticas denominações, à custa da retro-rejeição de sua própria substância. Não me custa muito imaginar a “Nova Igreja” dos progressistas numa vistosa e engalanada aeronave que se dirige para o sonhado Novo Mundo, com uma propulsão que vem da vigorosa evacuação de sua carga. Joga para trás o latim e graças a esse jato avança alguns quilômetros; repele vigorosamente o gregoriano, e avança outros tantos quilômetros; evacua vigorosamente as imagens, as batinas, as tonsuras, os sinais sagrados: novo avanço; num jato cada vez mais forte se deslastra do missal, do breviário, do celibato sacerdotal; acelerando o motor de retro-rejeições, joga fora os dogmas, os mandamentos e as bem-aventuranças. E assim, varando a estratosfera, como um bólido incandescente, a aeronave chegará um dia a Marte ou Vênus, onde os habitantes, estupefatos, verão que a enorme e coruscante aeronave não traz coisa nenhuma a ninguém: chega vazia, traz o vácuo absoluto e absolutamente ecumênico.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os magos

“Alguns dias depois, três magos chegaram da Caldéia e se ajoelharam diante de Jesus. Vinham talvez de Ecbátana ou das margens do Cáspio, no dorso dos camelos, com os alforges cheios pendentes das selas; passando a vau o Tigre e o Eufrates, atravessando o deserto dos Nômades e costeando o Mar Morto.
Uma estrela nova – semelhante ao cometa que anunciava por vezes o nascimento de um profeta ou a morte de um César – conduzira-os ao país judeu; vieram para adorar um rei e encontraram um infante no estábulo.
Quase mil anos antes deles, viera também, do Oriente para a Judéia, uma rainha carregada de presentes: ouro, perfumes e pedras preciosas. Mas encontrara no seu trono o maior dos reis de Israel e da sua boca ouvira o que jamais ninguém lhe havia ensinado. E os magos, mais sábios que os reis, encontraram apenas um recém-nascido, incapaz de interrogar ou responder, um menino que, quando se tornasse homem, desprezaria os tesouros materiais e a ciência da matéria. Os magos eram, na Pérsia e na Média, não reis, mas senhores dos reis; guiavam os governadores do povo. Eram os sacrificadores, os intérpretes dos sonhos, os adivinhos, os ministros, os únicos intermediários entre o povo e Ahura Mazda, o Deus bom; só eles conheciam o futuro; com as suas mãos matavam os animais inimigos do homem: as serpentes, os insetos nocivos e as aves nefastas. Purificavam as almas e os campos; Deus só se comprazia com os seus dons e os reis não declaravam guerra sem ouvi-los. Possuíam os segredos da terra e do céu e eram, ao mesmo tempo, os dominadores da pátria em nome da religião e da sabedoria.
Representavam o Espírito no meio do povo que vivia para a Matéria. Era justo que viessem pois adorar a Jesus. Após os animais que são a Natureza e os pastores que são o povo, este outro poder: a sabedoria ajoelhava-se diante do presépio de Belém. A velha casta sacerdotal do Oriente submeteu-se ao novo senhor que veio evangelizar o Ocidente: seus padres inclinavam-se diante daquele que com a nova ciência do Amor dominará a ciência das palavras e dos números. Os magos em Belém representam as teologias antigas reconhecendo a Revelação definitiva, o saber humilhando-se diante da Inocência, a riqueza aos pés da Pobreza. Oferecem a Jesus o ouro que ele desprezará: e não o oferecem por vê-lo pobre, mas para seguir de antemão o conselho evangélico: vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres.
Não lhe ofertam incenso para perfumar o estábulo, mas porque vão acabar-se os seus ritos e os fumos e perfumes serão então inúteis nos seus altares. Oferecem-lhe a mirra que serve para embalsamar os mortos, porque sabem que, devendo o Filho morrer, a Mãe, hoje sorridente, deverá embalsamar-lhe o cadáver.
Ajoelhados sobre a palha, envolvidos em suntuosos mantos, eles que são doutos, adivinhos e poderosos, se oferecem a si mesmos, como penhor da obediência do mundo. Jesus obteve então todas as investiduras a que tinha direito. Com a partida dos magos começa para ele a perseguição daqueles que o odeiam e o odiarão até a morte.”
(Giovanni Papini, Storia di Cristo)

Tradução do Pe. Lindolfo Esteves

sábado, 2 de janeiro de 2010

Alexis de Tocqueville e como a revolução francesa se processou à maneira das revoluções religiosas


“A Revolução Francesa agiu em relação a este mundo exatamente como as revoluções religiosas operam em relação ao outro. Tem considerado o cidadão de uma maneira abstrata, fora de qualquer sociedade particular, da mesma maneira como as religiões consideram o homem em geral, independentemente do país e da época. Não pesquisou tão-somente qual era o direito particular do cidadão francês mas também quais os deveres e direitos gerais dos homens em matéria política.
Foi remontando sempre dessa maneira ao que havia de menos particular e por assim dizer de mais natural em matéria de estado social e governo que a Revolução Francesa conseguiu tornar-se compreensível a todos e copiável em cem lugares ao mesmo tempo.
Como parecia aspirar mais ainda à regeneração do gênero humano que à reforma da França, acendeu uma paixão que as revoluções políticas as mais violentas jamais conseguiram produzir até então. Inspirou o proselitismo e gerou a propaganda. Foi assim que pegou este ar de revolução religiosa que tanto apavorou os contemporâneos, ou melhor, tornou-se ela própria uma espécie de nova religião, uma religião imperfeita, é verdade, sem Deus, sem culto, sem Além, mas que, todavia, como o islamismo, inundou toda a terra com seus soldados, apóstolos e mártires.
Não se deve pensar, entretanto, que seus procedimentos não tivessem precedente algum e que todas as idéias que difundiu fossem inteiramente novas. Houve em todos os séculos e até em plena Idade Média agitadores que, para mudar os costumes, invocaram as leis gerais das sociedades humanas e que empreenderam opor à constituição de seu país os direitos naturais da humanidade. Mas todas essas tentativas falharam: a mesma tocha que tocou fogo na Europa no século dezoito foi apagada com facilidade no século quinze. Para que argumentos dessa espécie produzam revoluções é preciso que algumas mudanças nas condições, costumes e usos já tenham ocorrido e preparado o espírito humano a se deixar penetrar por eles.”
(Alexis de Tocqueville, L’Ancien Régime et La Révolution)

Tradução de Yvonne Jean

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A estrebaria


“Jesus nasceu numa estrebaria.
A estrebaria não é o pórtico airoso e leve que os pintores cristãos, envergonhados com o berço sujo e miserável em que repousou o seu Deus, levantaram ao filho de Davi; não é o presépio de gesso imaginado hoje pela fantasia dos vendedores de estatuetas, presépio limpo e ordenado, com o burro e o boi em êxtase piedoso, com anjos desdobrando no teto uma bandeirola e com dois grupos de reis de ricos mantos e pastores encapuzados, simetricamente ajoelhados, em torno dele.
O presépio será talvez um sonho de noviços, um luxo de vigários, um brinquedo de crianças, o vaticinato ostello de Manzoni, mas não é o estábulo em que nasceu Jesus. O estábulo é a casa dos animais, a prisão dos animais que trabalham para o homem. O velho e pobre estábulo do país de Jesus não tem colunas nem capitéis; desconhece o luxo das nossas estrebarias; nem é a graciosa choupana das vésperas de Natal. Quatro paredes, a laje suja e o teto de traves e de telhas; escura, fétida, só tem de limpo a manjedoura, onde o patrão prepara o feno. As ervas dos campos – frescas nas manhãs claras, ondulando ao vento, ensolaradas e úmidas – foram cortadas, as folhas altas e finas caíram, ao ancinho, com as flores abertas, brancas, azuis, amarelas, vermelhas. Tudo murchou e secou sob a cor pálida do feno; e os bois levaram para o telheiro os despojos mortos da primavera. Agora as ervas e as flores, secas mas perfumadas ainda, jazem na manjedoura para a fome dos animais escravos que lentamente aí mergulham os grossos beiços negros e transformam em úmido estrume o campo florescido. Esse é o verdadeiro Estábulo onde Jesus nasceu. O lugar mais imundo foi a primeira morada do único Ser puro nascido da mulher. O filho do homem, que devia ser devorado pelos animais que se chamam homens, teve por primeiro berço a manjedoura, onde os animais ruminam as maravilhosas flores da primavera.
Isso não se deu por acaso; não é a terra um estábulo imenso, onde o homem mastiga e digere? Porventura uma infernal alquimia não transforma em estrume as coisas mais belas, mais puras, mais divinas? Monturo onde a gente se revolve: a isso os homens chamam “gozar a vida”. Em semelhante mundo, morada precária cujos ornamentos mal disfarçam a podridão, Jesus nasceu, uma noite, de uma virgem sem mancha, agasalhado unicamente com a sua inocência.”
(Giovanni Papini, Storia di Cristo)

Tradução do Pe. Lindolfo Esteves

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A deselenização da Cristandade


“Esse processo começou na Idade Média e atingiu seu pleno florescimento na Reforma com os esforços de Martinho Lutero para remover as influências de filosofia e dogma católicos e voltar ao que ele acreditava ser a pureza original apenas da Escritura. De várias formas, o princípio da sola Scriptura tornou-se uma premissa essencial da teologia liberal dos séculos dezenove e vinte. Ao buscar a mensagem e a pessoa inadulterada de Jesus, a teologia liberal tratou a Palavra bíblica como um dado histórico a ser lido sem referência às formulações filosóficas e teológicas criadas usando-se a língua grega e as ferramentas filosóficas gregas; foi um retorno a uma espécie de literalismo ignorante de produtos do raciocínio filosófico tais como as doutrinas a respeito da Trindade e da divindade de Cristo.
Essa nova perspectiva teológica foi bastante influenciada pela ascensão das ciências naturais e pelas conquistas da tecnologia, assim como pela kantiana 'auto-limitação da razão' às coisas que podem ser percebidas pelos sentidos. Essas influências, por sua vez, fizeram surgir o entendimento moderno de que verdade e certeza são uma função do que pode ser observado e comprovado ou não pela experiência em laboratório.
A razão humana no período moderno tem sido vista, desde então, como estritamente limitada a buscar entendimentos que se conformem a esses cânones 'científicos' de verdade e certeza. Porque não podem ser respondidas de acordo com tais cânones, questões acerca da existência de Deus ou do sentido da existência humana são descartadas como 'não-científicas ou pré-científicas'. Daí que na era moderna a fé religiosa não é mais vista como uma fonte de conhecimento a respeito dos seres humanos e do mundo; ao contrário, é considerada como um sentimento ou emoção e uma questão de preferência subjetiva ou individual.
De acordo com Bento XVI, tais desenvolvimentos – a separação de fé e razão e a diminuição radical destas faculdades do espírito humano – são a causa principal de graves problemas do mundo de hoje. O projeto inteiro de deselenização, como ele o vê, descansa sobre uma premissa falsa, ou seja, de que a fé cristã pode ou deve ser separada da razão humana como entendida no mundo helenístico. Essa premissa é falsa porque, como Bento afirma, 'o encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não aconteceu por acaso'. Ele cita a visão de São Paulo de um homem grego que chamou Paulo a 'passar à Macedônia e vir em nosso auxílio' (Atos 16:6-10). Bento interpreta essa visão como indicadora da 'intrínseca necessidade de uma reaproximação entre a fé bíblica e a investigação grega.'
Ele nota que os próprios evangelhos foram escritos na língua grega, usando vocabulário e conceitos tirados do meio helenístico. As mesmas influências podem ser encontradas no povo judeu – que vivia há muitas décadas sob domínio helenístico. Apesar de sua opressão, eles também 'encontraram o melhor do pensamento grego em um nível profundo.' Os frutos de tal encontro podem ser vistos na própria Escritura, na chamada literatura sapiencial. Um testemunho ainda mais convincente da influência grega está na tradução conhecida como Septuaginta, que Bento descreve como 'mais do que uma simples (e nesse sentido realmente menos que satisfatória) tradução do texto hebraico: é uma testemunha textual independente e um passo distinto e importante na história da revelação, que proporcionou esse encontro de um modo decisivo para o nascimento e a propagação da Cristandade.'
Para Bento, tudo isso significa que 'as decisões fundamentais tomadas sobre o relacionamento entre a fé e o uso da razão humana são parte da própria fé; são desenvolvimentos de acordo com a natureza da fé mesma.' Além disso, ele diz, não temos necessidade de pensar sobre a razão humana em termos restritos, limitando-a à busca do entendimento somente de fenômenos que podem ser vistos ou experimentados. A auto-limitação da razão fez surgir a 'ditadura das aparências.' Tornou-se 'uma espécie de dogma' a idéia de que não podemos saber nada além da aparência.”
(Scott Hahn, Covenant and Communion: The Biblical Theology of Pope Benedict XVI)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Flannery O'Connor e as verdadeiras leis da carne e da matéria

“Pessoalmente creio que quando eu conhecer de verdade as leis da carne e da matéria conhecerei Deus. Nós as conhecemos como as vemos, não como Deus as vê. Para mim, o nascimento virginal, a encarnação e a ressurreição são as verdadeiras leis da carne e da matéria. A morte, a deterioração e a destruição são a suspensão dessas leis. Sempre me surpreende a ênfase que a Igreja dá ao corpo. Não diz que ressuscitará a alma, e sim o corpo, glorificado. Sempre pensei que a pureza é a mais misteriosa das virtudes, mas me parece que a pureza nunca teria formado parte da consciência humana a não ser pela esperança na ressurreição do corpo, que unirá carne e espírito em harmonia, do modo que estavam em Cristo. A ressurreição de Cristo parece ser o ápice da lei da natureza.”
(Flannery O’Connor, The Habit of Being)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Frank Sheed e a perda da graça


“Como perdemos a graça? Pelo pecado mortal, obviamente; uma escolha de nossa própria vontade contra a de Deus, tão séria e deliberada que realmente destrói a união entre nós e Ele. Aqui também precisamos de um toque a mais de exatidão. Pense na graça como se fosse uma árvore – na raiz a fé, acima dela a esperança, acima desta a caridade e, mais acima, todas as folhas e ramos das virtudes morais e dons e bem-aventuranças e frutos. Fé, esperança e caridade são o tronco da árvore. Perde-se cada uma delas com um pecado sério contra a mesma; perder uma faz que percamos a árvore acima dela, mas não necessariamente o que está embaixo. Um pecado contra o amor de Deus não destrói inevitavelmente a esperança ou a fé. Estas só perdemos com pecados que envolvem sua negação direta. Perde-se a esperança, como vimos, com o desespero ou a presunção; a fé, com a descrença.
Mas é a caridade a vivificadora. Ao pecarmos contra ela, perdemos a vida sobrenatural; estamos sem graça santificante. Podemos ainda ter fé e esperança, e elas serão bem reais, mas não salvíficas, não vivificantes. Contudo, não sem valor. Elas podem ser verdadeiras ajudas para o movimento da natureza contra o pecado, que pode levar Deus a energizar a alma uma vez mais pela graça. Um homem que sabe ser Deus alcançável e deseja ir até Ele, mesmo que preso a um pecado ao qual se liga poderosamente, ainda tem uma forte razão para lutar. Mesmo que nada lhe reste senão a fé – a esperança desaparecendo após a caridade –, a crença em Deus, mesmo que ele nada faça a respeito, constitui um ponto de retorno que falta ao homem sem fé; e mesmo em tal caso não precisamos limitar o poder vivificante do Espírito Santo – as preces dos outros podem ainda socorrer um homem que não rezará por si mesmo, ganhando graças atuais às quais o poder do homem em responder não cessa enquanto durar esta vida.”
(Frank Sheed, Theology for Beginners)