segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A estrebaria


“Jesus nasceu numa estrebaria.
A estrebaria não é o pórtico airoso e leve que os pintores cristãos, envergonhados com o berço sujo e miserável em que repousou o seu Deus, levantaram ao filho de Davi; não é o presépio de gesso imaginado hoje pela fantasia dos vendedores de estatuetas, presépio limpo e ordenado, com o burro e o boi em êxtase piedoso, com anjos desdobrando no teto uma bandeirola e com dois grupos de reis de ricos mantos e pastores encapuzados, simetricamente ajoelhados, em torno dele.
O presépio será talvez um sonho de noviços, um luxo de vigários, um brinquedo de crianças, o vaticinato ostello de Manzoni, mas não é o estábulo em que nasceu Jesus. O estábulo é a casa dos animais, a prisão dos animais que trabalham para o homem. O velho e pobre estábulo do país de Jesus não tem colunas nem capitéis; desconhece o luxo das nossas estrebarias; nem é a graciosa choupana das vésperas de Natal. Quatro paredes, a laje suja e o teto de traves e de telhas; escura, fétida, só tem de limpo a manjedoura, onde o patrão prepara o feno. As ervas dos campos – frescas nas manhãs claras, ondulando ao vento, ensolaradas e úmidas – foram cortadas, as folhas altas e finas caíram, ao ancinho, com as flores abertas, brancas, azuis, amarelas, vermelhas. Tudo murchou e secou sob a cor pálida do feno; e os bois levaram para o telheiro os despojos mortos da primavera. Agora as ervas e as flores, secas mas perfumadas ainda, jazem na manjedoura para a fome dos animais escravos que lentamente aí mergulham os grossos beiços negros e transformam em úmido estrume o campo florescido. Esse é o verdadeiro Estábulo onde Jesus nasceu. O lugar mais imundo foi a primeira morada do único Ser puro nascido da mulher. O filho do homem, que devia ser devorado pelos animais que se chamam homens, teve por primeiro berço a manjedoura, onde os animais ruminam as maravilhosas flores da primavera.
Isso não se deu por acaso; não é a terra um estábulo imenso, onde o homem mastiga e digere? Porventura uma infernal alquimia não transforma em estrume as coisas mais belas, mais puras, mais divinas? Monturo onde a gente se revolve: a isso os homens chamam “gozar a vida”. Em semelhante mundo, morada precária cujos ornamentos mal disfarçam a podridão, Jesus nasceu, uma noite, de uma virgem sem mancha, agasalhado unicamente com a sua inocência.”
(Giovanni Papini, Storia di Cristo)

Tradução do Pe. Lindolfo Esteves

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A deselenização da Cristandade


“Esse processo começou na Idade Média e atingiu seu pleno florescimento na Reforma com os esforços de Martinho Lutero para remover as influências de filosofia e dogma católicos e voltar ao que ele acreditava ser a pureza original apenas da Escritura. De várias formas, o princípio da sola Scriptura tornou-se uma premissa essencial da teologia liberal dos séculos dezenove e vinte. Ao buscar a mensagem e a pessoa inadulterada de Jesus, a teologia liberal tratou a Palavra bíblica como um dado histórico a ser lido sem referência às formulações filosóficas e teológicas criadas usando-se a língua grega e as ferramentas filosóficas gregas; foi um retorno a uma espécie de literalismo ignorante de produtos do raciocínio filosófico tais como as doutrinas a respeito da Trindade e da divindade de Cristo.
Essa nova perspectiva teológica foi bastante influenciada pela ascensão das ciências naturais e pelas conquistas da tecnologia, assim como pela kantiana 'auto-limitação da razão' às coisas que podem ser percebidas pelos sentidos. Essas influências, por sua vez, fizeram surgir o entendimento moderno de que verdade e certeza são uma função do que pode ser observado e comprovado ou não pela experiência em laboratório.
A razão humana no período moderno tem sido vista, desde então, como estritamente limitada a buscar entendimentos que se conformem a esses cânones 'científicos' de verdade e certeza. Porque não podem ser respondidas de acordo com tais cânones, questões acerca da existência de Deus ou do sentido da existência humana são descartadas como 'não-científicas ou pré-científicas'. Daí que na era moderna a fé religiosa não é mais vista como uma fonte de conhecimento a respeito dos seres humanos e do mundo; ao contrário, é considerada como um sentimento ou emoção e uma questão de preferência subjetiva ou individual.
De acordo com Bento XVI, tais desenvolvimentos – a separação de fé e razão e a diminuição radical destas faculdades do espírito humano – são a causa principal de graves problemas do mundo de hoje. O projeto inteiro de deselenização, como ele o vê, descansa sobre uma premissa falsa, ou seja, de que a fé cristã pode ou deve ser separada da razão humana como entendida no mundo helenístico. Essa premissa é falsa porque, como Bento afirma, 'o encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não aconteceu por acaso'. Ele cita a visão de São Paulo de um homem grego que chamou Paulo a 'passar à Macedônia e vir em nosso auxílio' (Atos 16:6-10). Bento interpreta essa visão como indicadora da 'intrínseca necessidade de uma reaproximação entre a fé bíblica e a investigação grega.'
Ele nota que os próprios evangelhos foram escritos na língua grega, usando vocabulário e conceitos tirados do meio helenístico. As mesmas influências podem ser encontradas no povo judeu – que vivia há muitas décadas sob domínio helenístico. Apesar de sua opressão, eles também 'encontraram o melhor do pensamento grego em um nível profundo.' Os frutos de tal encontro podem ser vistos na própria Escritura, na chamada literatura sapiencial. Um testemunho ainda mais convincente da influência grega está na tradução conhecida como Septuaginta, que Bento descreve como 'mais do que uma simples (e nesse sentido realmente menos que satisfatória) tradução do texto hebraico: é uma testemunha textual independente e um passo distinto e importante na história da revelação, que proporcionou esse encontro de um modo decisivo para o nascimento e a propagação da Cristandade.'
Para Bento, tudo isso significa que 'as decisões fundamentais tomadas sobre o relacionamento entre a fé e o uso da razão humana são parte da própria fé; são desenvolvimentos de acordo com a natureza da fé mesma.' Além disso, ele diz, não temos necessidade de pensar sobre a razão humana em termos restritos, limitando-a à busca do entendimento somente de fenômenos que podem ser vistos ou experimentados. A auto-limitação da razão fez surgir a 'ditadura das aparências.' Tornou-se 'uma espécie de dogma' a idéia de que não podemos saber nada além da aparência.”
(Scott Hahn, Covenant and Communion: The Biblical Theology of Pope Benedict XVI)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Flannery O'Connor e as verdadeiras leis da carne e da matéria

“Pessoalmente creio que quando eu conhecer de verdade as leis da carne e da matéria conhecerei Deus. Nós as conhecemos como as vemos, não como Deus as vê. Para mim, o nascimento virginal, a encarnação e a ressurreição são as verdadeiras leis da carne e da matéria. A morte, a deterioração e a destruição são a suspensão dessas leis. Sempre me surpreende a ênfase que a Igreja dá ao corpo. Não diz que ressuscitará a alma, e sim o corpo, glorificado. Sempre pensei que a pureza é a mais misteriosa das virtudes, mas me parece que a pureza nunca teria formado parte da consciência humana a não ser pela esperança na ressurreição do corpo, que unirá carne e espírito em harmonia, do modo que estavam em Cristo. A ressurreição de Cristo parece ser o ápice da lei da natureza.”
(Flannery O’Connor, The Habit of Being)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Frank Sheed e a perda da graça


“Como perdemos a graça? Pelo pecado mortal, obviamente; uma escolha de nossa própria vontade contra a de Deus, tão séria e deliberada que realmente destrói a união entre nós e Ele. Aqui também precisamos de um toque a mais de exatidão. Pense na graça como se fosse uma árvore – na raiz a fé, acima dela a esperança, acima desta a caridade e, mais acima, todas as folhas e ramos das virtudes morais e dons e bem-aventuranças e frutos. Fé, esperança e caridade são o tronco da árvore. Perde-se cada uma delas com um pecado sério contra a mesma; perder uma faz que percamos a árvore acima dela, mas não necessariamente o que está embaixo. Um pecado contra o amor de Deus não destrói inevitavelmente a esperança ou a fé. Estas só perdemos com pecados que envolvem sua negação direta. Perde-se a esperança, como vimos, com o desespero ou a presunção; a fé, com a descrença.
Mas é a caridade a vivificadora. Ao pecarmos contra ela, perdemos a vida sobrenatural; estamos sem graça santificante. Podemos ainda ter fé e esperança, e elas serão bem reais, mas não salvíficas, não vivificantes. Contudo, não sem valor. Elas podem ser verdadeiras ajudas para o movimento da natureza contra o pecado, que pode levar Deus a energizar a alma uma vez mais pela graça. Um homem que sabe ser Deus alcançável e deseja ir até Ele, mesmo que preso a um pecado ao qual se liga poderosamente, ainda tem uma forte razão para lutar. Mesmo que nada lhe reste senão a fé – a esperança desaparecendo após a caridade –, a crença em Deus, mesmo que ele nada faça a respeito, constitui um ponto de retorno que falta ao homem sem fé; e mesmo em tal caso não precisamos limitar o poder vivificante do Espírito Santo – as preces dos outros podem ainda socorrer um homem que não rezará por si mesmo, ganhando graças atuais às quais o poder do homem em responder não cessa enquanto durar esta vida.”
(Frank Sheed, Theology for Beginners)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Gerard Manley Hopkins: A Grandeza de Deus


A grandeza de Deus o mundo inteiro a admira.
Em ouro ou ouropel faísca o seu fulgor;
Grandiosa em cada grão, cada limo em óleo amor-
Tecido. Mas por que não temem sua ira?
Gerações vêm e vão; tudo o que gera, gira
E gora em mercancia; em barro, em borra de labor;
E ao homem mancha o suor, o sujo, a sujeição; sem cor
O solo agora é; nem mais, solado, o pé o sentira.
E ainda assim a natureza não se curva;
Um límpido frescor do ser das coisas vaza;
E quando a última luz o torvo Oeste turva
Ah, a aurora, ao fim da fímbria oriental, abrasa —
Porque o Espírito Santo sobre a curva
Terra com alma ardente abre ah! a asa alva.


Tradução de Augusto de Campos

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A matriz progressista da nova tirania


““E como se pode falar de 'nova tirania', quando nunca antes os homens desfrutaram de tanta liberdade e de tantos direitos?”, poderia perguntar-se um leitor desavisado. As tiranias clássicas se distinguiam, de fato, por reprimir a liberdade e negar os direitos; e os homens tinham consciência de tal usurpação, porque, despojados de algo que lhes pertencia por natureza, sentiam-se rebaixados. Esta nova tirania a que nos referimos, ao contrário, tem exaltado o homem até a adoração, dando-lhe a oportunidade de transformar seus interesses e desejos em liberdades e direitos, que já não são inerentes a sua natureza, senão “concessões graciosas” de um poder que as consagra legalmente. E assim, transformado em criança que contempla como seus caprichos são maximizados e satisfeitos, o homem de nosso tempo é mais refém do que nunca dessas instâncias de poder que lhe garantem o gozo de uma liberdade onímoda e direitos em contínua expansão. Ao homem submetido às tiranias clássicas ficava pelo menos o consolo de saber-se oprimido por um poder que violentava sua natureza; o homem submetido a esta nova tirania, ao contrário, não tem outro consolo que a proteção do poder que o elevou a um altar de adoração.
E assim, o homem elevado ao altar de adoração se transforma, sem sequer se dar conta, em um instrumento nas mãos desse poder que dele cuida com minucioso esmero, como as formigas cuidam dos pulgões que depois ordenham. E em troca dessas “concessões graciosas” que o poder lhe dispensa, o homem acata a visão hegemônica do mundo que o poder lhe impõe, transformando-o em objeto de engenharia social. Essa visão hegemônica – que na verdade não passa de uma miragem, uma grande ilusão ou trompe-l'oeil que os homens aceitam gregariamente – nós a denominamos aqui de “Matriz progressista”. Quem se atreve a questionar tal trompe-l'oeil é imediatamente anatematizado como um réprobo ou um blasfemo; ou seja, como um inimigo da adoração do homem. Essa Matriz progressista, usada pela esquerda, também foi assimilada pela direita, que renunciou a fazer guerra a seu adversário lá onde esta guerra resultaria eficaz e dinâmica, ou seja, no âmbito dos princípios; e, em sua capitulação, limita-se a introduzir variações insignificantes no funcionamento dessa grande máquina que é a Matriz progressista, sem atrever-se a inutilizar suas engrenagens, que é o mesmo que arar sem bois.
A Matriz progressista tornou-se, assim, uma espécie de fé messiânica: instaurou uma nova ordem, impôs paradigmas culturais inatacáveis, estabeleceu uma nova antropologia que, prometendo ao homem a liberação final, só lhe reserva seu futuro suicídio. E, contra essa nova ordem semi-religiosa, somente se mantém de pé a ordem religiosa, que restitui ao homem sua verdadeira natureza e propõe uma visão de mundo correta que ataca os fundamentos do trompe-l'oeil sobre o qual se assenta a nova tirania, dissolvendo suas falsificações. Uma visão que a nova tirania combate com denodo; pois, de fato, essa ordem religiosa é a única fortaleza que resta a derrubar, para que seu triunfo seja completo. O laicismo descontrolado acusa a Igreja de imiscuir-se na política, citando a seu favor aquela passagem evangélica que costumam brandir aqueles que nunca lêem o Evangelho: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Mas que pertence a César? As coisas temporais, as realidades terrenas; mas certamente não os princípios de ordem moral que surgem da própria natureza humana, não os fundamentos éticos da ordem temporal. A nova tirania, tão zelosa de expandir as “liberdades” de seus súditos, nega à Igreja a liberdade de julgar a moralidade das ações temporais, pois sabe que tal juízo incorpora uma radical subversão do trompe-l'oeil sobre o qual se assenta a nova tirania. Deseja uma igreja farisaica e corrompida que renuncie a restituir ao homem sua verdadeira natureza e acate o “mistério da iniqüidade”, que é a adoração do homem; deseja, enfim, uma igreja de joelhos diante de César, transformada nessa “grande prostituta que fornica com os reis da terra” de que nos fala o Apocalipse.
E essa é a grande batalha que hoje se trava no Ocidente, disfarçada mui habilmente de “batalha ideológica” pela nova tirania. Mas se fosse realmente uma “batalha ideológica”, a nova tirania não a contemplaria como uma subversão; pois a ideologia é precisamente o caldo de cultura que favorece seu domínio, instaurando uma “demogresca”, uma luta “democrática” de todos contra todos, que transforma os homens em crianças petulantes que lutam por suas “liberdades” e “direitos”, como os construtores de Babel lutavam, em meio à confusão, para erigir uma torre que alcançasse o céu. A batalha que hoje se trava não é de índole ideológica, mas antropológica, pois o que procura é restituir aos homens sua verdadeira natureza, permitindo-lhes sair da confusão babélica fomentada pela ideologia, até alcançar o caminho que conduz aos princípios originários. Se tiver sucesso – se a Matriz for desativada – os homens descobrirão que não precisam construir torres que cheguem ao céu, pela simples razão de que o céu já está dentro deles, ainda que a nova tirania tente arrebatá-lo.”
(Juan Manuel de Prada, La Nueva Tiranía. El Sentido Común frente al Mátrix Progre)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Otto von Bismarck e a Kulturkampf contra a Igreja


“Finda a guerra com a França, Bismarck havia criado um espírito de unidade nacional. O povo alemão, que até pouco tempo dedicara sua lealdade a vários principados independentes, sentia agora que pertencia a um Reich (Império) alemão unido, governado pelo Kaiser. Porém, logo após a guerra com a França, Bismarck começou a antagonizar amplos setores da população da Alemanha. Sistematicamente, criou profundas divisões sociais dentro da nação que unificara politicamente.
Seu primeiro alvo foi a Igreja Católica. A Prússia e a Alemanha do Norte eram predominantemente protestantes, mas, com a absorção da Alemanha do Sul e da Alsácia-Lorena, o Império passou a incluir uma significativa minoria católica. Em geral, os liberais do século XIX desconfiavam da política do catolicismo romano e Bismarck compartilhava dessa desconfiança. E ela se tornou mais acentuada quando, em 1871, o Partido do Centro, organizado pelos católicos alemães, ganhou 58 cadeiras no Reichstag, a Câmara Baixa do novo Parlamento Imperial. Embora esse partido dissesse defender estritamente os interesses do catolicismo, conseguiu granjear o apoio de todos aqueles que não apoiavam o trabalho de Bismarck, como, por exemplo, os protestantes de Hanôver. Bismarck, que sempre manifestara preconceitos anticatólicos, deixou, nesse momento, toda sua intolerância vir à tona. Ele via o Império como uma criação sua e acusava todo oponente seu como um Reichsfeind (inimigo do Império). Por outro lado, ele acreditava que a unidade poderia ser mais facilmente assegurada se houvesse um objetivo para atacar, e o Centro se prestava a esse objetivo, uma vez que a Alemanha não tinha no momento inimigos externos. Conseguiu então o apoio do Partido Liberal Nacional para desencadear uma campanha contra a Igreja Católica, a Kulturkampf (“luta da cultura” contra a Igreja).
Em 1871, o governo prussiano começou a controlar as escolas católicas. Em 1872, os jesuítas (uma ordem religiosa católica com tradição de lealdade ao papa e voltada para o ensino superior) foram expulsos da Alemanha. As Leis de Maio de 1873 tentaram colocar a Igreja Católica sob o domínio do governo prussiano. No dia 13 de julho de 1874, um policial católico atirou no chanceler quando passava de carruagem em Kissingen, onde visitava as fontes de água mineral da cidade. A bala errou o alvo, apenas roçando a mão direita de Bismarck. Este acusou o Partido do Centro como responsável pela tentativa de assassinato.
A Kulturkampf foi um desastre. Muitos católicos alemães tinham se desgostado com a declaração de infalibilidade do papa, ocorrida em 1870, por ocasião do primeiro Concílio do Vaticano; porém, em resposta à repressão de Bismarck, aliaram-se à Igreja. Na Prússia, a hierarquia eclesiástica preferiu a prisão a submeter-se ao governo. O Partido do Centro, longe de ser anulado, aumentou sua representação para 94 cadeiras nas eleições de 1874 e tornou-se uma fortaleza de oposição a Bismarck.”
(Jonathan Rose, Bismarck)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

São Martinho de Tours


“Bispo. Nasceu em Sabária, na Panônia, c. 315 (?); morreu em Candes, perto de Tours, em 397. Comemoração: 11 de novembro.
Martinho, filho de um soldado, nasceu onde hoje é a Hungria, e foi criado na Itália, em Pávia. Em Amiens, quando jovem oficial, deu parte de seu agasalho para um pedinte que estava nu, no qual ele reconheceu Cristo. Logo depois foi batizado. Cerca de 339 pediu dispensa do exército, dizendo: “Sou um soldado de Cristo; não me é permitido guerrear.” Acusado de covardia, ofereceu-se para permanecer desarmado no meio das linhas inimigas. Entretanto, foi dispensado do serviço militar e viveu por algum tempo na Itália e na Dalmácia antes de se tornar um recluso, numa ilha perto da costa da Ligúria. Em 360 tornou-se um dos clérigos de Santo Hilário, em Poitiers. Fundou uma comunidade semi-eremítica em Ligugé, o primeiro mosteiro da Gália. Depois de ser nomeado bispo de Tours, em 370 ou 371, viveu num lugar solitário, perto dali, que logo se tornou outro mosteiro: Marmoutier. Seu exemplo e estímulo levaram à fundação de outras comunidades, em lugares diferentes.
São Martinho foi um missionário extremamente ativo, cuja pregação era reforçada por uma reputação de milagreiro. Martinho penetrava nas regiões mais remotas de sua diocese e além dela, a pé, em burros ou por água. Não era avesso à destruição de templos pagãos. Por outro lado, juntamente com o Papa Sirício e com Santo Ambrósio, colocou-se contra a condenação à morte, pela prática de magia, imposta pelo imperador Máximo a Prisciliano e outros espanhóis heterodoxos. Nos últimos anos de sua vida Martinho encontrou bastante oposição. Um de seus principais críticos foi São Brício, mas sua espantosa força espiritual foi vitoriosa contra a “indescritível sangrenta ferocidade” do conde Aviciano, que se absteve de ataques ferozes em Tours.
São Martinho foi figura de grande importância como evangelizador da Gália rural e é considerado o pai do monasticismo na França. Sua fama espalhou-se devido, principalmente, à biografia e três longas cartas escritas sobre ele por seu amigo Sulpício Severo. Foi um dos primeiros santos não martirizados a ser venerado pelo povo. Sua influência estendeu-se até a Irlanda, África e Oriente. Na Inglaterra, muitas igrejas lhe são dedicadas: a localizada em Canterbury é a mais antiga e Saint Martin-in-the-Fields, em Londres, talvez seja a mais conhecida hoje em dia. Seu nome aparece duas vezes no livro anglicano de rituais e orações (Book of common prayer): no dia 11 de novembro e no dia do aniversário de sua consagração episcopal, do traslado de suas relíquias e da consagração de sua igreja em Tours.”
(Donald Attwater, The Penguin Dictionary of Saints)

Tradução de Maristela R. A. Marcondes e Wanda de Oliveira Roselli

sábado, 31 de outubro de 2009

Hilaire Belloc e o Cristianismo


“Não existe essa religião chamada “Cristianismo” – jamais existiu tal religião.
Existe e sempre existiu a Igreja, e as várias heresias procedentes da rejeição de algumas das doutrinas da Igreja por homens que desejam ainda manter o restante de Seu ensinamento e moral. Mas jamais existiu e jamais poderá existir ou existirá uma religião cristã genérica professada por homens que aceitam algumas doutrinas centrais importantes, enquanto concordam em diferir a respeito de outras. Sempre existiu desde o início e sempre existirá a Igreja, e diversas heresias fadadas à decadência, ou, como o Maometanismo, a transformar-se em uma religião separada. De um Cristianismo comum jamais houve nem poderá haver uma definição, pois nunca existiu.
Não há nenhuma doutrina essencial, de modo que, se concordarmos com ela, possamos diferir acerca do restante, por exemplo, aceitar a imortalidade, mas negar a Trindade; um homem dizer-se cristão, embora negue a unidade da Igreja Cristã; dizer-se cristão, embora negue a presença de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento; dizer-se alegremente cristão, embora negue a Encarnação.”
(Hilaire Belloc, The Great Heresies)