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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Para chegar à Verdade não basta a razão natural

“E porque, onde um cai, ali deve necessariamente ficar estendido se não há quem lhe dê a mão e o ajude a voltar a levantar-se, nossa alma não poderia elevar-se perfeitamente das coisas sensíveis à contemplação de si própria e da eterna Verdade em si mesma se a Verdade, tomando a forma humana em Cristo, não tivesse se constituído em escada, reparando a primeira escada que se quebrou em Adão. Daí que, por muito iluminado que alguém seja pela luz da razão natural e da ciência adquirida, não pode entrar em si para fruir no Senhor se não é por meio de Cristo, que disse: 'Eu sou a porta. O que por mim entrar se salvará, e entrará, e sairá, e achará pastagens'. Mas a esta porta não nos aproximamos senão crendo n’Ele, esperando-O, amando-O. Portanto, se queremos entrar de novo na fruição da Verdade, como em outro paraíso, é necessário que ingressemos mediante a fé, esperança e caridade no mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, quem vem a ser a árvore da vida plantada no meio do paraíso.”
(São Boaventura, Itinerário da Mente para Deus)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Oração de São Boaventura

"Ainda que o Senhor me tenha reprovado quanto quiser, eu sei que Ele não pode negar-se a quem O ama, e a quem de todo coração o busca.
Eu O abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não O deixarei; sem me levar consigo, Ele não poderá ausentar-se.
Se mais não puder, ao menos esconder-me-ei dentro das Suas Chagas, onde ficarei para que não me possa encontrar fora de si.
Finalmente, se o meu Redentor, por causa de minhas culpas, lançar-me fora dos seus Pés, eu me prostrarei aos Pés de Maria, Sua Mãe, e deles não me afastarei enquanto Ela não me alcançar o perdão.
Por ser Mãe de Misericórdia, nem recusa, nem jamais recusou compadecer-se de nossas misérias, e de socorrer os infelizes que lhe imploram o auxílio. E assim, senão por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de induzir O Filho a perdoar-me."

domingo, 26 de setembro de 2010

As razões formais da filosofia natural, pelo modo de ser da proporção, anunciam o Verbo de Deus


“As razões intelectuais e abstratas são como que intermediárias entre as razões seminais e as ideais. As razões seminais não podem encontrar-se na matéria sem que nela se dêem a produção e a geração da forma; do mesmo modo as razões intelectuais, sem que se gere a palavra na mente; logo, nem as razões ideais podem estar em Deus sem haver a produção do Verbo pelo Pai segundo uma reta proporção. Isto é, de fato, uma dignidade, e se convém à criatura com muito mais razão deve convir ao Criador. Por isso disse Agostinho que o Filho de Deus é “a arte do Pai”. Além disto, o apetite que existe na matéria está ordenado para as razões intelectuais, de forma que a geração nunca seria perfeita se a alma racional se não unisse à matéria corpórea. Ora, pelo mesmo motivo se pode arguir que não poderia dar-se a mais alta e a mais nobre perfeição no Universo se a natureza na qual existem as razões seminais, e a natureza na qual existem as razões intelectuais, e a natureza na qual existem as razões ideais, não concorressem conjuntamente na unidade de pessoa, o que se verificou na incarnação do Filho de Deus. Toda a filosofia natural anuncia, pois, pelo modo de ser da proporção, o Verbo de Deus nascido e incarnado, como “alpha e omega”, ou seja, nascido no princípio e antes dos tempos, mas incarnado no fim dos séculos.”
(São Boaventura, De Reductione Artium ad Theologiam)

Tradução de Mário Santiago de Carvalho

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Intuição do Verbo de Deus por meio das obras humanas


“Se considerarmos o que é produzido, veremos que o produto feito pela arte mecânica procede do artífice mediante similitude existente na mente, pela qual o artífice concebe antes de produzir e em seguida produ-lo como o idealizou. O artífice produz a obra exterior imitando até aí o exemplar interior, como melhor pode; e se lhe fosse possível produzir um efeito tal que pudesse amar e conhecer o seu autor, certamente o faria; e se esse efeito conhecesse o seu autor, isso só poderia dar-se mediante aquela similitude que procedeu do artífice; e se tivesse ofuscado os olhos do conhecimento, de sorte que não pudesse elevar-se acima de si, necessário seria, para vir a ter conhecimento do seu autor, que a similitude, pela qual esse efeito foi produzido, se pusesse ao nível de uma natureza que pudesse ser por ele compreendida e conhecida. Do mesmo modo hás-de entender que nenhuma criatura procedeu do Autor supremo senão pelo Verbo eterno “no qual tudo dispôs”, e pelo qual produziu não apenas criaturas que têm razão de vestígio, mas também de imagem, a fim de poderem assemelhar-se a ele pelo conhecimento e pelo amor. Mas, uma vez que, por causa do pecado, a criatura racional ficou com o olhar da contemplação obnubilado, foi muito conveniente que o eterno e invisível se tornasse visível e assumisse uma carne, para nos reconduzir ao Pai. Isto é o que se diz no décimo quarto capítulo do Evangelho de São João: “Ninguém vem ao Pai senão por mim”; e no capítulo décimo primeiro do Evangelho de São Mateus: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e a quem o Filho quiser revelar”. E por isso é que se diz: “o Verbo se fez carne”. Considerando pois a iluminação da arte mecânica quanto à produção da obra, intuiremos aí o Verbo gerado e incarnado, isto é, a Divindade e a humanidade e a integridade total da fé.”
(São Boaventura, De Reductione Artium ad Theologiam)

Tradução de Mário Santiago de Carvalho

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O ser é aquilo que a mente conhece em primeiro lugar


“Quem, pois, deseja contemplar as perfeições invisíveis de Deus, quanto à unicidade da natureza, fixe primeiramente o inspecto da mente na existência mesma, e veja que esta é em si de tal maneira certíssima que não se pode pensar que não exista. Com efeito, a existência mesma, na sua máxima pureza, não se concebe senão por afastamento total da não-existência, do mesmo modo que não se concebe o nada senão por afastamento total da existência. Assim, pois, como o nada absoluto nada tem da existência nem das prerrogativas desta, assim também, e em contraposição, a mesma existência nada tem da não-existência, - nem em ato, nem em potência; nem segundo a verdade objetiva, nem segundo a nossa maneira de pensar. Sendo porém a não-existência privação da existência, não é conhecida pela inteligência senão por meio da existência; em contraposição, a existência não é conhecida por intermédio de nenhuma outra coisa. Efetivamente, tudo o que se intelecciona, ou se intelecciona como não-ser, ou como ser-em-potência, ou como ser-em-ato. Ora, se o não-ser não se pode inteleccionar senão pelo ser, e o ser-em-potência senão pelo ser-em-ato, e dado que a existência designa o próprio ato puro de ser, segue-se que a existência é aquilo que a inteligência primeiramente conhece, e essa existência é a que é ato puro. Tal existência, por sua vez, não é uma existência particular, pois esta é uma existência reduzida, por estar misturada com limite; nem é uma existência análoga, porque esta tem o mínimo de realidade, por isso mesmo que tem o mínimo de existência. Resta pois que tal existência é a existência divina.”
(São Boaventura, Itinerarium Mentis ad Deum)

Tradução de A. S. Pinheiro

quarta-feira, 26 de maio de 2010

São Boaventura e a onipotência de Deus


“Deus é todo-poderoso, mas de tal modo que atos de culpabilidade, por exemplo mentir ou querer o mal, não Lhe podem ser atribuídos; nem o podem atos de penalidade (pelo pecado original), tais como temer e entristecer-se; nem atos materiais e corporais, como dormir e andar, exceto figurativamente; nem atos contraditórios, como fazer algo maior que Ele mesmo, ou produzir outro Deus igual a Si mesmo, ou criar outro ser que seja infinito em ato; e assim por diante. Como escreve Anselmo, “o que é contraditório, por menor que seja, não se encontra em Deus.” Embora Deus não possa fazer tais coisas, Ele é verdadeira, própria e perfeitamente todo-poderoso.
Isso deve ser entendido conforme se segue. O primeiro Princípio é poderoso de um poder não-qualificado; portanto o universal “oni” que prefacia “potente” cobre todas aquelas coisas feitas por um poder não-qualificado: ou seja, todas as coisas que procedem de um poder tanto completo como ordenado. Chamamos de 'completo' um poder que não pode desaparecer, sucumbir, ou ser limitado. Mas o pecado implica um desaparecimento de poder, a dor um colapso de poder e a operação corporal uma limitação de poder. O poder divino, suprema e completamente perfeito, não é criado, nem depende de nada, nem necessita de nada. Portanto não pode ser sujeito de atos corporais, culpáveis e penais: e isso precisamente porque é onipotente de um completo poder.
Ora, há três sentidos nos quais um poder pode-se dizer ‘ordenado’: quando é em ato, quando significa potência por parte de uma criatura, e quando significa potência por parte do único Poder incriado. O que é possível ao poder no primeiro sentido é não apenas possível, mas atual. O que é possível no segundo sentido, mas não no primeiro, é simplesmente possível, embora não atual. O que é possível no terceiro sentido, mas não no primeiro ou no segundo, é possível para Deus, mas impossível para as criaturas. O que não é possível em qualquer dos sentidos anteriores, i.e, o que, em razão de causas e princípios primordiais e eternos, é diretamente oposto à ordem, é simplesmente impossível; como seria se Deus produzisse algo infinito em ato, fizesse algo que fosse e não fosse ao mesmo tempo, fizesse com que um evento passado nunca tivesse acontecido, e assim por diante. A ordem e a completude do poder divino excluem a possibilidade de fazer tais coisas.
Isso mostra claramente o âmbito do poder divino, o significado do simplesmente possível e do simplesmente impossível, e o fato de que alguma impossibilidade é compatível com a verdadeira onipotência.”
(São Boaventura, Breviloquium)