“E porque, onde um cai, ali deve necessariamente ficar estendido se não há quem lhe dê a mão e o ajude a voltar a levantar-se, nossa alma não poderia elevar-se perfeitamente das coisas sensíveis à contemplação de si própria e da eterna Verdade em si mesma se a Verdade, tomando a forma humana em Cristo, não tivesse se constituído em escada, reparando a primeira escada que se quebrou em Adão. Daí que, por muito iluminado que alguém seja pela luz da razão natural e da ciência adquirida, não pode entrar em si para fruir no Senhor se não é por meio de Cristo, que disse: 'Eu sou a porta. O que por mim entrar se salvará, e entrará, e sairá, e achará pastagens'. Mas a esta porta não nos aproximamos senão crendo n’Ele, esperando-O, amando-O. Portanto, se queremos entrar de novo na fruição da Verdade, como em outro paraíso, é necessário que ingressemos mediante a fé, esperança e caridade no mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, quem vem a ser a árvore da vida plantada no meio do paraíso.”
(São Boaventura, Itinerário da Mente para Deus)
Mostrando postagens com marcador São Boaventura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Boaventura. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 13 de junho de 2016
segunda-feira, 21 de março de 2016
Oração de São Boaventura
"Ainda que o Senhor me tenha reprovado quanto quiser, eu sei que Ele não pode negar-se a quem O ama, e a quem de todo coração o busca.
Eu O abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não O deixarei; sem me levar consigo, Ele não poderá ausentar-se.
Se mais não puder, ao menos esconder-me-ei dentro das Suas Chagas, onde ficarei para que não me possa encontrar fora de si.
Finalmente, se o meu Redentor, por causa de minhas culpas, lançar-me fora dos seus Pés, eu me prostrarei aos Pés de Maria, Sua Mãe, e deles não me afastarei enquanto Ela não me alcançar o perdão.
Por ser Mãe de Misericórdia, nem recusa, nem jamais recusou compadecer-se de nossas misérias, e de socorrer os infelizes que lhe imploram o auxílio. E assim, senão por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de induzir O Filho a perdoar-me."
Eu O abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não O deixarei; sem me levar consigo, Ele não poderá ausentar-se.
Se mais não puder, ao menos esconder-me-ei dentro das Suas Chagas, onde ficarei para que não me possa encontrar fora de si.
Finalmente, se o meu Redentor, por causa de minhas culpas, lançar-me fora dos seus Pés, eu me prostrarei aos Pés de Maria, Sua Mãe, e deles não me afastarei enquanto Ela não me alcançar o perdão.
Por ser Mãe de Misericórdia, nem recusa, nem jamais recusou compadecer-se de nossas misérias, e de socorrer os infelizes que lhe imploram o auxílio. E assim, senão por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de induzir O Filho a perdoar-me."
domingo, 26 de setembro de 2010
As razões formais da filosofia natural, pelo modo de ser da proporção, anunciam o Verbo de Deus

“As razões intelectuais e abstratas são como que intermediárias entre as razões seminais e as ideais. As razões seminais não podem encontrar-se na matéria sem que nela se dêem a produção e a geração da forma; do mesmo modo as razões intelectuais, sem que se gere a palavra na mente; logo, nem as razões ideais podem estar em Deus sem haver a produção do Verbo pelo Pai segundo uma reta proporção. Isto é, de fato, uma dignidade, e se convém à criatura com muito mais razão deve convir ao Criador. Por isso disse Agostinho que o Filho de Deus é “a arte do Pai”. Além disto, o apetite que existe na matéria está ordenado para as razões intelectuais, de forma que a geração nunca seria perfeita se a alma racional se não unisse à matéria corpórea. Ora, pelo mesmo motivo se pode arguir que não poderia dar-se a mais alta e a mais nobre perfeição no Universo se a natureza na qual existem as razões seminais, e a natureza na qual existem as razões intelectuais, e a natureza na qual existem as razões ideais, não concorressem conjuntamente na unidade de pessoa, o que se verificou na incarnação do Filho de Deus. Toda a filosofia natural anuncia, pois, pelo modo de ser da proporção, o Verbo de Deus nascido e incarnado, como “alpha e omega”, ou seja, nascido no princípio e antes dos tempos, mas incarnado no fim dos séculos.”
(São Boaventura, De Reductione Artium ad Theologiam)
Tradução de Mário Santiago de Carvalho
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Intuição do Verbo de Deus por meio das obras humanas

“Se considerarmos o que é produzido, veremos que o produto feito pela arte mecânica procede do artífice mediante similitude existente na mente, pela qual o artífice concebe antes de produzir e em seguida produ-lo como o idealizou. O artífice produz a obra exterior imitando até aí o exemplar interior, como melhor pode; e se lhe fosse possível produzir um efeito tal que pudesse amar e conhecer o seu autor, certamente o faria; e se esse efeito conhecesse o seu autor, isso só poderia dar-se mediante aquela similitude que procedeu do artífice; e se tivesse ofuscado os olhos do conhecimento, de sorte que não pudesse elevar-se acima de si, necessário seria, para vir a ter conhecimento do seu autor, que a similitude, pela qual esse efeito foi produzido, se pusesse ao nível de uma natureza que pudesse ser por ele compreendida e conhecida. Do mesmo modo hás-de entender que nenhuma criatura procedeu do Autor supremo senão pelo Verbo eterno “no qual tudo dispôs”, e pelo qual produziu não apenas criaturas que têm razão de vestígio, mas também de imagem, a fim de poderem assemelhar-se a ele pelo conhecimento e pelo amor. Mas, uma vez que, por causa do pecado, a criatura racional ficou com o olhar da contemplação obnubilado, foi muito conveniente que o eterno e invisível se tornasse visível e assumisse uma carne, para nos reconduzir ao Pai. Isto é o que se diz no décimo quarto capítulo do Evangelho de São João: “Ninguém vem ao Pai senão por mim”; e no capítulo décimo primeiro do Evangelho de São Mateus: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e a quem o Filho quiser revelar”. E por isso é que se diz: “o Verbo se fez carne”. Considerando pois a iluminação da arte mecânica quanto à produção da obra, intuiremos aí o Verbo gerado e incarnado, isto é, a Divindade e a humanidade e a integridade total da fé.”
(São Boaventura, De Reductione Artium ad Theologiam)
Tradução de Mário Santiago de Carvalho
terça-feira, 14 de setembro de 2010
O ser é aquilo que a mente conhece em primeiro lugar

“Quem, pois, deseja contemplar as perfeições invisíveis de Deus, quanto à unicidade da natureza, fixe primeiramente o inspecto da mente na existência mesma, e veja que esta é em si de tal maneira certíssima que não se pode pensar que não exista. Com efeito, a existência mesma, na sua máxima pureza, não se concebe senão por afastamento total da não-existência, do mesmo modo que não se concebe o nada senão por afastamento total da existência. Assim, pois, como o nada absoluto nada tem da existência nem das prerrogativas desta, assim também, e em contraposição, a mesma existência nada tem da não-existência, - nem em ato, nem em potência; nem segundo a verdade objetiva, nem segundo a nossa maneira de pensar. Sendo porém a não-existência privação da existência, não é conhecida pela inteligência senão por meio da existência; em contraposição, a existência não é conhecida por intermédio de nenhuma outra coisa. Efetivamente, tudo o que se intelecciona, ou se intelecciona como não-ser, ou como ser-em-potência, ou como ser-em-ato. Ora, se o não-ser não se pode inteleccionar senão pelo ser, e o ser-em-potência senão pelo ser-em-ato, e dado que a existência designa o próprio ato puro de ser, segue-se que a existência é aquilo que a inteligência primeiramente conhece, e essa existência é a que é ato puro. Tal existência, por sua vez, não é uma existência particular, pois esta é uma existência reduzida, por estar misturada com limite; nem é uma existência análoga, porque esta tem o mínimo de realidade, por isso mesmo que tem o mínimo de existência. Resta pois que tal existência é a existência divina.”
(São Boaventura, Itinerarium Mentis ad Deum)
Tradução de A. S. Pinheiro
quarta-feira, 26 de maio de 2010
São Boaventura e a onipotência de Deus

“Deus é todo-poderoso, mas de tal modo que atos de culpabilidade, por exemplo mentir ou querer o mal, não Lhe podem ser atribuídos; nem o podem atos de penalidade (pelo pecado original), tais como temer e entristecer-se; nem atos materiais e corporais, como dormir e andar, exceto figurativamente; nem atos contraditórios, como fazer algo maior que Ele mesmo, ou produzir outro Deus igual a Si mesmo, ou criar outro ser que seja infinito em ato; e assim por diante. Como escreve Anselmo, “o que é contraditório, por menor que seja, não se encontra em Deus.” Embora Deus não possa fazer tais coisas, Ele é verdadeira, própria e perfeitamente todo-poderoso.
Isso deve ser entendido conforme se segue. O primeiro Princípio é poderoso de um poder não-qualificado; portanto o universal “oni” que prefacia “potente” cobre todas aquelas coisas feitas por um poder não-qualificado: ou seja, todas as coisas que procedem de um poder tanto completo como ordenado. Chamamos de 'completo' um poder que não pode desaparecer, sucumbir, ou ser limitado. Mas o pecado implica um desaparecimento de poder, a dor um colapso de poder e a operação corporal uma limitação de poder. O poder divino, suprema e completamente perfeito, não é criado, nem depende de nada, nem necessita de nada. Portanto não pode ser sujeito de atos corporais, culpáveis e penais: e isso precisamente porque é onipotente de um completo poder.
Ora, há três sentidos nos quais um poder pode-se dizer ‘ordenado’: quando é em ato, quando significa potência por parte de uma criatura, e quando significa potência por parte do único Poder incriado. O que é possível ao poder no primeiro sentido é não apenas possível, mas atual. O que é possível no segundo sentido, mas não no primeiro, é simplesmente possível, embora não atual. O que é possível no terceiro sentido, mas não no primeiro ou no segundo, é possível para Deus, mas impossível para as criaturas. O que não é possível em qualquer dos sentidos anteriores, i.e, o que, em razão de causas e princípios primordiais e eternos, é diretamente oposto à ordem, é simplesmente impossível; como seria se Deus produzisse algo infinito em ato, fizesse algo que fosse e não fosse ao mesmo tempo, fizesse com que um evento passado nunca tivesse acontecido, e assim por diante. A ordem e a completude do poder divino excluem a possibilidade de fazer tais coisas.
Isso mostra claramente o âmbito do poder divino, o significado do simplesmente possível e do simplesmente impossível, e o fato de que alguma impossibilidade é compatível com a verdadeira onipotência.”
(São Boaventura, Breviloquium)
Assinar:
Postagens (Atom)









