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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Maquiavel e a nova “moral” do poder


“Niccolò Machiavelli (1496-1527) foi o fundador da moderna filosofia política e social; raramente houve na História das idéias uma revolução tão completa como a promovida por ele. E o pensador não ignorava quão radical era: comparou o seu trabalho ao de Colombo, pois também teria descoberto um novo mundo, e ao de Moisés, pois também lideraria um “novo povo escolhido”, ansioso por libertar-se da escravidão às idéias morais, rumo à “terra prometida” do poder e do êxito prático.
Para todos os pensadores sociais anteriores, a meta da vida política era a virtude: uma sociedade boa era aquela em que as pessoas fossem boas. Não havia “dois pesos e duas medidas” para a bondade, um no âmbito da vida individual, outro no da vida social. Isso, até Maquiavel: a partir dele, a Política deixou de ser a arte do bem viver em sociedade para tornar-se “a arte do possível”. E, neste ponto, a sua influência foi enorme: todos os principais filósofos políticos e sociais que vieram depois (Hobbes, Locke, Rousseau, Stuart Mill, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Dewey) começaram por saudar a nova bandeira hasteada pelo florentino, passando a rejeitar o ideal da virtude e a rebaixar o padrão da moralidade.
Maquiavel argumentava que as morais tradicionais seriam como as estrelas: belas, mas distantes demais para poderem iluminar o nosso caminho sobre a terra. Precisaríamos de lanternas feitas pelo homem, ou seja, de metas que estivessem ao nosso alcance. Deveríamos guiar-nos pelas coisas da terra, não pelas do céu; por aquilo que os homens efetivamente fazem, não pelo que deveriam fazer.
A essência da sua revolução foi julgar os ideais de acordo com a prática, ao invés de julgar a prática de acordo com os ideais. Um ideal somente seria bom se for prático para mim. Por isso, Maquiavel merece ser considerado o pai do pragmatismo. Segundo o seu modo de pensar, não somente “os fins justificam os meios” (quaisquer meios que funcionem), mas “os meios justificam os fins”, no sentido de que só valeria a pena buscar um fim se dispuséssemos dos meios práticos para atingi-lo. Em outras palavras, o novo summum bonum, o novo bem supremo, seria o sucesso. (Às vezes, o pensador italiano parece falar não apenas como o pai do pragmatismo, mas como o primeiro pragmatista americano...).
Com essas afirmações, Maquiavel na verdade não rebaixou o nível dos padrões morais; simplesmente suprimiu-os. Mais ainda do que um pragmatista, pode-se dizer que era um antimoralista. Segundo ele, a moral só teria a ver com o sucesso por dificultá-lo. Em conseqüência, dizia que um príncipe tinha de “aprender a não ser bom” (O Príncipe, cap. 15), a quebrar as promessas feitas, a mentir, a trapacear e a roubar (cfr. cap. 18) para ser bem-sucedido.
Por causa dessas opiniões, aliás expressas sem subterfúgios, alguns dos contemporâneos consideraram O Príncipe um livro literalmente inspirado pelo demônio. Muitos professores modernos, porém, vêem-no como obra científica. Defendem o seu autor afirmando que não queria abolir a moralidade, mas simplesmente escrever um livro sobre outro assunto: sobre como as coisas são, não sobre como deveriam ser. Costumam até elogiá-lo pela sua falta de hipocrisia, o que implicitamente equivale a dizer que moral é hipocrisia.
Essa é uma confusão moderna freqüente: tomar por hipocrisia o fato de não se praticar o que se prega. Nesse sentido, porém, todos, absolutamente todos os homens serão hipócritas enquanto não pararem de dar qualquer tipo de conselho. Matthew Arnold definiu a hipocrisia como “o tributo pago pelo vício à virtude”; ora, Maquiavel foi o primeiro que se recusou a pagar até esse tributo mínimo. Superou a hipocrisia, não elevando a prática ao nível das recomendações, mas reduzindo as recomendações ao nível da prática: modificando os ideais conforme a realidade, e não a realidade conforme os ideais.
Tal como a letra de certa música da cantora Madonna, o “sermão” de Maquiavel consistia em dizer: “Papai, não me venha com sermões!” (“Papa, don´t preach!”). Você consegue imaginar Moisés dizendo isso a Deus no Monte Sinai? Ou Nossa Senhora dizendo-o ao Anjo Gabriel? Ou Cristo dizendo isso ao Pai no Horto das Oliveiras, ao invés de: Pai, não se faça a minha vontade, e sim a tua (cfr. Lc 22, 40)? Se o conseguir, estará imaginando o inferno, pois toda a nossa esperança de alcançar o Céu está baseada em que eles disseram a Deus: “Papai, venha-me com sermões!”
Hoje definimos mal a hipocrisia. Hipocrisia não é não conseguir agir de acordo com o que se prega: é deixar de acreditar no que se prega, sem deixar de pregar e fingindo que se vive de acordo com isso. Pode-se dizer, assim, que a hipocrisia no fundo é uma “propaganda enganosa”. Em conseqüência, Maquiavel praticamente foi o inventor da hipocrisia, porque praticamente foi o inventor desse tipo de propaganda. Ao menos, foi o primeiro filósofo que pretendeu convencer o mundo inteiro só à base de propaganda.
O florentino encarava a sua vida como uma batalha espiritual contra a Igreja e a “propaganda” da Igreja. Estava convencido de que todas as religiões não passariam de uma “campanha de propaganda” cuja influência terminaria ao cabo de um período entre 1.666 e 3.000 anos. Pensava que o Cristianismo terminaria muito antes do fim do mundo, provavelmente por volta do ano 1.666, destruído ou pelas invasões dos bárbaros do Leste (os turcos e a atual Rússia), ou pela fraqueza e apatia no próprio seio do Ocidente cristão, ou por ambas as coisas.
Maquiavel tinha – e tem – como aliados todos os cristãos indiferentes que prezavam mais a pátria terrena do que a celestial, que preferiam César a Cristo e o sucesso social à virtude. Era a eles que dirigia a sua mensagem, a sua propaganda. O pensador não podia expor ingenuamente os seus verdadeiros objetivos, porque seriam desprezados, e confessar o seu ateísmo lhe seria fatal; por isso, foi muito cuidadoso em evitar toda a heresia explícita. Mas a sua “heresia prática” consistia na destruição da “fraude católica” mediante uma agressiva propaganda secularista. (Alguma pessoa mais exaltada talvez chegasse mesmo a afirmar que nele está fundado todo o atual poderio da mídia...).
O florentino percebeu que são dois os instrumentos necessários para controlar a conduta dos homens e os rumos da História: a pena e a espada, a propaganda e as armas. Assim tanto os corpos como as mentes podem ser dominados, e dominar era o que ele queria. Considerava que toda a vida humana e toda a História eram determinadas por dois componentes: a virtú (a força) e a fortuna (a sorte). A fórmula do sucesso seria simplesmente maximizar a virtú e minimizar os efeitos da má fortuna. Maquiavel conclui o seu O Príncipe com essa chocante imagem: “A Fortuna é uma mulher e, se a quisermos submissa, será preciso bater nela e sujeitá-la à força” (cap. 25). Em outras palavras, o segredo do sucesso seria uma espécie de estupro.
Para conseguir o controle, as armas são tão necessárias quanto a propaganda: Maquiavel é uma águia no campo da “sabedoria” prática, e tem consciência disso. Dizia: “Não poderás ter boas leis sem boas armas, e onde houver boas armas, as boas leis seguir-se-ão necessariamente” (cap. 12). Em outras palavras, e parafraseando Mao Tsé-Tung: a justiça “surge do cano de uma arma”. O nosso pensador afirmava que “todos os profetas armados venceram, e todos os profetas desarmados fracassaram” (cap. 6). Moisés, portanto, deve ter usado armas, mas a Bíblia teria omitido os relatos sobre isso. Jesus, o supremo Profeta desarmado, deve ter falhado: afinal, foi crucificado e, segundo alguns, não ressuscitou. Mas a sua mensagem conquistou o mundo por meio da propaganda, por meio das armas intelectuais. Foi exatamente esse tipo de guerra que o florentino decidiu empreender.
Também é fruto dessa filosofia o relativismo social, pois o renascentista não reconhecia nenhuma lei acima das promulgadas pelas diversas sociedades; e como tais leis têm a sua origem na força e não na moralidade, a conseqüência é que a moralidade baseia-se... na imoralidade. O argumento, hoje em dia, expõe-se mais ou menos assim: a moralidade só pode vir da sociedade, uma vez que Deus não existe e, em conseqüência, também não pode haver uma moral natural universal por Ele outorgada. Mas toda a sociedade origina-se de alguma revolução ou violência: a sociedade romana, origem da Lei Romana, originou-se com o assassinato de Remo pelo seu irmão Rômulo. A História humana inteira começa com o assassinato de Abel por Caim. Portanto, o fundamento da lei é a ilegalidade, e o fundamento da moralidade é a imoralidade.
A força do argumento reside na sua primeira premissa, que no caso do pensador florentino equivale a um autêntico ateísmo implícito (igual, aliás, ao de todos os relativismos sociológicos, incluído aquele que hoje domina as mentes dos leitores e dos escritores de quase todos os livros-texto de Sociologia).
Maquiavel usou um argumento parecido para criticar os ideais de caridade, clássicos e cristãos: como é que você obteve os bens que agora está dando ao próximo? Pela competição egoísta. Todos os bens são dados ao próximo à custa de terceiros. Se a minha fatia de bolo é assim tão grande, a do outro tem de ser bem menor. O altruísmo, portanto, depende do egoísmo.
Esse raciocínio pressupõe um materialismo de fundo, pois os bens espirituais não diminuem quando são compartilhados ou dados a outrem, nem a sua aquisição implica que alguém tenha sido lesado. Quanto mais dinheiro eu tiver, menos você terá, e quanto mais dinheiro eu doar, menos restará para mim. Mas o amor, a verdade, a amizade e a sabedoria, ao serem compartilhados, crescem em vez de diminuir: coisa que o materialismo simplesmente não enxerga e com a qual, aliás, nem se preocupa.
Maquiavel acreditava que todos somos intrinsecamente egoístas. Para ele, não existe nada semelhante a uma consciência ou um instinto moral. Daí que a única maneira de fazer com que os homens se comportem “moralmente” seja mediante o uso da força: uma força verdadeiramente totalitária, capaz de fazer com que as pessoas atuem de maneira contrária à sua natureza. A origem dos totalitarismos modernos também remonta, pois, a ele.
Se o homem é intrinsecamente egoísta, somente o medo – e não o amor – será capaz de movê-lo. Daí que o nosso pensador escreva: “É muito melhor ser temido que amado..., pois os homens têm menos escrúpulo em ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer, uma vez que a amizade representa uma obrigação, um vínculo que, por serem os homens maus, é quebrado sempre que lhes convém; já o temor é alimentado pelo receio do castigo, que nunca é esquecido” (cap. 17).
O mais estranho dessa filosofia tão brutal é o fato de ela ter se apoderado das mentes modernas, de uma forma diluída ou, pelo menos, encoberta nos seus aspectos mais sombrios. Os sucessores de Maquiavel que citamos acima suavizaram os seus ataques à moralidade e à religião, mas não retornaram à idéia de um Deus pessoal ou de uma moral objetiva e absoluta como fundamento da sociedade.
O reducionismo de Maquiavel tem sido considerado por muitos como uma libertação. Mas o que ele fez foi simplesmente implodir todo o edifício da vida humana: nada de Deus, mas somente o homem; nada de alma, somente o corpo; nada de espírito, somente a matéria; nada de dever, mas apenas o ser. Mesmo assim (e graças à propaganda), esse edifício em ruínas é mostrado como se fosse uma nova Torre de Babel. É um cárcere mostrado como se fosse a libertação da “opressora” moralidade tradicional: algo como uma permissão para afrouxar o cinto.
Satanás não é um conto de fadas: é um brilhante estrategista, e perfeitamente real. A linha de argumentação de Maquiavel é uma das mais bem-sucedidas mentiras do diabo até os dias de hoje. Sempre que nos tenta, usa essa mentira para fazer com que o mal pareça um bem desejável, que a sua escravidão pareça liberdade, e que a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” pareça uma escravidão. Aquele que é “o pai da mentira” adora contar-nos, mais do que pequenas mentiras, a Grande Mentira que vira a verdade ao avesso. E continuará a fazer isso impunemente enquanto não desmascararmos os seus ajudantes.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief – Machiavelli)

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

As idéias insanas de Friedrich Nietzsche


“Friedrich Nietzsche chamava-se a si mesmo de “o Anticristo”, e escreveu um livro com esse título. Argumentava em favor do ateísmo nestes termos: “Irei agora refutar a existência de todos os deuses. Se houvesse deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Logo, não há deuses.”
Menosprezava tanto a razão quanto a fé, muitas vezes deliberadamente contradizia-se a si mesmo, afirmava que “um escárnio é infinitamente mais nobre do que um silogismo” e recorria à paixão, à retórica e até mesmo ao ódio intencional ao invés da razão.
Via o amor como o “maior dos perigos” e a moral como a pior das fraquezas da humanidade. Morreu louco, em um asilo, de sífilis – assinando suas últimas cartas como “o Crucificado”. Foi adorado pelos nazistas como seu filósofo semi-oficial.
No entanto, ele é admirado como profundo e sábio por muitas das maiores mentes de nosso século. Como se explica isso?
Existem três escolas de pensamento a respeito de Nietzsche. A mais popular entre os acadêmicos é a dos “nietzscheanos gentis”, que afirmam ter sido Nietzsche, na verdade, um cordeiro em pele de lobo; que seus ataques não deveriam ser tomados ao pé da letra e que ele foi na verdade um aliado, não um inimigo, das instituições e dos valores ocidentais que denunciou.
Esses eruditos parecem-se com os teólogos que interpretam as palavras de Jesus assim: “ninguém pode ir ao Pai senão através de mim”, como “todas as religiões são igualmente válidas” e “quem se casa com uma mulher divorciada comete adultério” como “sejam vossos divórcios criativos e razoáveis”.
Depois, há os “terríveis” nietzscheanos. Eles pelo menos prestam homenagem a Nietzsche ao levá-lo a sério. São tipificados em nota de rodapé de um antigo manual católico sobre filosofia moderna, que apenas mencionava ter Nietzsche existido, sido um ateísta e morrido louco – um destino que bem pode aguardar todos aqueles que passam muito tempo investigando seus livros.
Uma terceira escola de pensamento vê em Nietzsche realmente um lobo e não um cordeiro, mas também um pensador de grande importância, por ter mostrado à civilização ocidental seu próprio coração escuro e seu futuro. É fácil usar de bodes expiatórios e apontar o dedo para “ovelhas negras” como Nietzsche e Hitler, mas não haveria um “Hitler dentro de nós mesmos” (para citar uma expressão de Max Picard)? Não deixou Nietzsche sair o gato de dentro do saco? O gato demoníaco de dentro do saco respeitável do humanismo laicista? Se “Deus está morto”, também estão mortos o homem, a moral, o amor, a liberdade, a esperança, a democracia, a alma e, por fim, a sanidade mental. Ninguém o demonstra mais cabalmente do que o próprio Nietzsche. Ele pode ter sido responsável (involuntariamente) por muitas conversões.
Os principais temas de Nietzsche podem ser resumidos nos títulos de seus livros principais. Cada um deles é, de certa forma, um ataque à fé. O centro da filosofia de Nietzsche é sempre o mesmo: ele está tão centrado em Cristo como estava Santo Agostinho, mas centrado em Cristo como seu inimigo.
O primeiro livro de Nietzsche, O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, revolucionou sozinho a visão então aceita dos gregos antigos como plenos de “encanto e luz”, razão e ordem. Para Nietzsche, os poetas trágicos foram os verdadeiros gregos, e os filósofos, começando por Sócrates, foram os menores, pálidos e desapaixonados. Todo o mundo ocidental havia seguido Sócrates e seu racionalismo e moralismo, e havia negado o outro lado do homem, mais escuro e trágico.
Ao invés, Nietzsche exaltou a tragédia, o caos, a desordem e a irracionalidade, simbolizados pelo deus Dionísio, deus do crescimento e das orgias bêbadas. Afirmava que Sócrates havia desencaminhado o mundo para o culto de Apolo, deus do sol, da luz, da ordem e da razão. Mas o destino de Dionísio, deus de Nietzsche, logo alcançaria o próprio Nietzsche; pois assim como Dionísio foi literalmente despedaçado pelos Titãs, monstros sobrenaturais do submundo, a mente de Nietzsche seria espatifada pelos seus próprios Titãs interiores.
O Uso e Abuso da História prosseguiu o tema do Dionisíaco versus o Apolíneo. O “abuso da história” é (de acordo com Nietzsche) a teoria, a ciência, a verdade objetiva. O uso correto da história é promover a “vida”. Vida e verdade, fogo e luz, Dionísio e Apolo, vontade e intelecto, são contrapostos. Aqui vemos Nietzsche se despedaçando, pois essas são as duas partes do eu.
Ecce Homo foi desavergonhado e pseudo-autobiográfico egoísmo. Embora tenha sido um simples carregador de maca na guerra, Nietzsche chama-se a si mesmo de um “velho artilheiro fanfarrão” adorado pelas mulheres. Na verdade, era um ancião solitário que não podia suportar a visão de sangue, um anão emocional pavoneando-se como Napoleão. O que mais assusta é que ele voluntariamente abraçou essa falsidade e fantasia. É consistente com sua filosofia de preferir “tudo que promova a vida” à verdade. “Por que não viver uma mentira?”, pergunta.
A Genealogia da Moral afirma que a moral foi invenção dos fracos (notadamente dos judeus e depois dos cristãos) para enfraquecer os fortes. Os cordeiros convenceram o lobo a agir como um cordeiro. Isso não é natural, defende Nietzsche, e ver a origem não natural da moral no ressentimento pela inferioridade vai-nos livrar de seu poder sobre nós.
Além do Bem e do Mal é a moral alternativa de Nietzsche, ou “nova moral”. A “moral de senhor” é totalmente diferente da “moral de escravo”, diz. Tudo que um senhor ordena torna-se bom pelo simples fato de que o senhor o ordena. O fraco rebanho tem uma moral de obediência e conformidade. Os senhores têm o direito natural de fazer o que bem quiserem, pois não havendo mais Deus, tudo é permitido.
O Crepúsculo dos Ídolos explora as conseqüências da “morte de Deus”. (É claro que Deus na verdade jamais existiu, e sim a fé nele - e é ela que hoje está morta, diz Nietzsche.) Com Deus morrem todas as verdades objetivas (pois não há mente acima da nossa) e todos os valores, leis e morais objetivas (pois não há vontade acima da nossa). A alma, o livre-arbítrio, a imortalidade, a razão, a ordem, o amor – todos esses são “ídolos”, pequenos deuses que estão morrendo depois que o Grande Deus morreu.
Que substituirá a Deus? O mesmo ser que substituirá ao homem: o Super-homem. A obra-prima de Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, celebra esse novo deus.
Nietzsche chamava o Zaratustra de a nova Bíblia, e recomendava ao mundo que “jogasse fora todos os outros livros; vocês têm meu Zaratustra.” É retórica inebriante, e cativou gerações de adolescentes. Foi escrito em poucos dias sob um frenesi, talvez, de “escrita automática” literalmente inspirada pelo demônio. Nenhum livro jamais escrito contém mais arquétipos junguianos, como um show de fogos-de-artifício de imagens do inconsciente.
Sua principal mensagem é a condenação do homem moderno como um fraco e o anúncio da nova espécie, o Super-homem, que vive segundo a “moral de senhor” ao invés da “moral de escravo”. Deus está morto, viva o novo deus!
Mas em O Eterno Retorno, Nietzsche descobre que todos os deuses morrem, até mesmo o Super-homem. Acreditava que toda a história necessariamente se movia em um ciclo, infinitamente repetindo todos os eventos passados - “Nada há de novo sob o sol.” Nietzsche deduziu essa conclusão evanescente de duas premissas: (1) de uma quantidade finita de matéria e (2) de uma quantidade infinita de tempo (pois não há nem criador, nem criatura); assim, toda possível combinação de partículas elementares, todos os mundos possíveis, ocorrem um infinito número de vezes, dado o tempo infinito. Tudo, mesmo o Super-homem, retornará ao pó, e evoluirá a verme, macaco, homem e Super-homem vezes sem fim.
Ao invés de desesperar, como o Eclesiastes, diante dessa nova história sem esperança, Nietzsche aproveitou a oportunidade para celebrar a irracionalidade da história e o triunfo da “vida” sobre a lógica. A virtude suprema era a coragem da vontade em afirmar essa vida sem sentido, para além da razão e por motivo nenhum.
Mas na última obra de Nietzsche, A Vontade de Poder, a ausência de um fim ou objetivo aparece como demoníaca, e espelha o caráter demoníaco da mente moderna. Sem Deus, um céu, verdade, ou um Bem supremo a desejar, o sentido da vida se torna simplesmente em “vontade de poder”. O poder se torna seu próprio fim, não um meio. A vida é como uma bolha, vazia por dentro e por fora; mas seu sentido é a auto-afirmação, o egoísmo, soprar sua bolha, expandir o eu sem sentido pelo vazio sem sentido. “Só queira”, é o conselho de Nietzsche. Não importa o quê ou por quê.
Agora estamos em condição de perceber por que Nietzsche é um pensador tão crucial, não apesar, mas por causa de sua insanidade. Ninguém na história, com a possível exceção do Marquês de Sade, jamais formulou tão clara, inocente e consistentemente a completa alternativa ao Cristianismo.
As sociedades e filosofias pré-cristãs (i.e., pagãs) eram como virgens. As sociedades e filosofias pós-cristãs são como divorciados. Nietzsche não é nenhum pagão pré-cristão, mas o pós- e anti-cristão moderno em sua essência. Viu Cristo corretamente como seu principal inimigo e rival. O espírito do Anticristo jamais recebeu uma elaboração tão completa. Nietzsche foi não apenas o filósofo favorito da Alemanha Nazista; ele é também o filósofo favorito do inferno.
Devemos ser gratos à tolice de Satanás em “entregar-se” neste homem. Assim como o Nazismo, Nietzsche provavelmente nos assusta de morte e ajuda a salvar nossa civilização, ou até mesmo nossas almas, ao nos afastar pelo terror antes que seja tarde demais.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief - Nietzsche)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Immanuel Kant e a verdade subjetiva


“Na história da filosofia, houve poucos pensadores tão ilegíveis e áridos como Immanuel Kant. Contudo, poucos tiveram um impacto tão devastador sobre o pensamento humano como ele.
Conta-se que Lumppe, o seu dedicado assistente, teria lido fielmente cada uma das publicações do mestre. Mas nem mesmo ele conseguiu ler a obra mais importante publicada pelo filósofo, A crítica da razão pura; na verdade, chegou a começar a leitura, mas interrompeu-a dizendo que, se tivesse de terminá-la, haveria de ser num hospital psiquiátrico. Desde então, muitos estudantes têm concordado com sua opinião.
No entanto, penso que esse professor abstrato, que escrevia em estilo abstrato sobre questões abstratas, é a fonte primária da idéia mais perigosa de todas para a fé (e, portanto, para as almas): a idéia de que a verdade é subjetiva.
Os simples cidadãos da sua Königsberg natal (atual Kaliningrado, Rússia), onde o filósofo viveu e escreveu durante a segunda metade do século XVIII, parecem ter entendido isso melhor do que muitos acadêmicos profissionais, porque lhe deram o apelido de “o destruidor” e davam o seu nome aos cachorros.
Pessoalmente, Kant era um homem amável, gentil e piedoso, tão pontual que os vizinhos ajustavam os relógios pelos seus passeios. Também o intuito básico da sua filosofia era nobre: restaurar a dignidade humana num mundo cético que idolatrava a ciência.
Essa intenção pode ser ilustrada com o seguinte episódio. Em certa ocasião, Kant assistiu à palestra de um astrônomo materialista sobre o lugar do homem no universo. Quando o cientista concluiu a palestra com as palavras: “Assim, vemos que o homem é evidentemente insignificante em termos astronômicos”, o filósofo levantou-se e disse: “Professor, o senhor esqueceu o mais importante: o homem é o astrônomo”.
No entanto, mais do que qualquer outro pensador, foi ele quem impulsionou a deriva tipicamente moderna da objetividade para a subjetividade. Isso pode parecer bom até nos darmos conta de que implicava a redefinição da própria verdade como algo subjetivo. E as conseqüências dessa idéia têm sido catastróficas.
Quando conversamos com alguém que não crê, percebemos que o obstáculo mais comum à fé hoje em dia não é nenhuma dificuldade intelectual honesta (como o problema do mal ou o dogma da Trindade), mas a convicção de que a religião não pertence ao campo dos fatos nem das verdades objetivas. Assim, qualquer tentativa de tentar convencer outra pessoa de que a fé é verdadeira – objetivamente verdadeira, verdadeira para todos – passa a ser considerada de uma arrogância intolerável.
De acordo com essa mentalidade, a religião é teórica, não prática; tem a ver com valores, não com fatos; é subjetiva e privada, não objetiva e pública. O dogma seria um “extra”, e um “extra” daninho, porque fomentaria o dogmatismo. Ou seja, a religião, no fundo, não passaria de uma ética. Além do mais, uma vez que a ética cristã é muito parecida com a ética das outras grandes religiões, pouco importaria se você é cristão ou não; o importante é ser “boa gente”. (Geralmente, as pessoas que acreditam nisso também acham quase todo o mundo “boa gente”, com exceção de Adolf Hitler e Charles Manson).
Kant é em larga medida responsável por essa maneira de pensar. Ele ajudou a enterrar a síntese medieval entre fé e razão, e descreveu a sua filosofia como “tirar do caminho as pretensões da razão para abrir espaço à fé”, como se fé e razão fossem inimigas, não aliadas. Assim, consumou o divórcio entre fé e razão iniciado por Lutero.
O filósofo pensava que a religião jamais poderia ser objeto da razão – uma evidência, um argumento ou sequer um objeto de conhecimento –; deveria ser unicamente uma questão de sentimentos, de emoções e de atitudes. Esse postulado influenciou profundamente a maior parte dos educadores religiosos atuais (entre os quais redatores de catecismos e teólogos), que deixaram de lado a rocha-mãe da fé, os fatos objetivos narrados na Sagrada Escritura e resumidos no Credo dos Apóstolos. Fregueses da filosofia kantiana, divorciaram a fé da razão e casaram-na com a psicologia pop.
“Duas coisas me deixam maravilhado”, confessou Kant certa vez: “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Aquilo que maravilha um homem preenche o seu coração e dirige o seu pensamento. Reparemos que, entre as coisas que maravilham o filósofo, não estão Deus, Cristo, a Criação, a Encarnação, a Ressurreição e o Juízo, mas apenas “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”.
“O céu estrelado” é o universo físico, tal como a ciência moderna o entende; e tudo o mais é relegado para o campo da subjetividade. Assim, a lei moral não estaria “fora”, mas “dentro de mim”; não seria objetiva, mas subjetiva; enfim, não seria uma Lei Natural com certos e errados objetivos, mas uma lei feita por nós mesmos à qual escolhemos vincular-nos. (Mas será que estamos realmente vinculados quando só nos vinculamos a nós mesmos?) A Moral seria, portanto, apenas uma questão de intenção subjetiva; não teria qualquer conteúdo com exceção da Regra de Ouro (o “imperativo categórico” de Kant).
Se a lei moral veio de Deus e não do homem, o homem não seria livre no sentido de ser autônomo, o que é verdade. Mas, para Kant, o homem tem de ser autônomo, e portanto a lei moral não vem de Deus, e sim do próprio homem. Partindo da mesma premissa, a Igreja afirma que a lei moral realmente vem de Deus, e portanto que o homem não é autônomo; ele é livre para optar por obedecer-lhe ou não, mas não é livre para criar a lei.
Embora se considerasse cristão, o filósofo negou explicitamente que pudéssemos conhecer ao certo a existência (1) de Deus, (2) do livre arbítrio, e (3) da vida eterna. Disse que deveríamos viver como se essas idéias fossem verdadeiras, porque caso contrário não levaríamos a moral a sério. É essa justificação da fé por razões puramente práticas que constitui um erro terrível. Kant acredita em Deus não porque Ele exista, mas porque é útil. Se for assim, por que não acreditar no Papai Noel? Se eu fosse Deus, preferiria um ateu honesto a um deísta desonesto; e penso que Kant é um deísta desonesto, porque há apenas um único motivo honesto para acreditar seja no que for: o fato de essa coisa ser verdadeira.
Aqueles que tentam vender a fé cristã no sentido kantiano, como um “sistema de valores” em vez da verdade, têm fracassado geração após geração. Com tantos “sistemas de valores” no mercado, por que deveria alguém preferir a variante cristã a outras mais simples, com menos teologia e com uma moral mais fácil e menos inconveniente?
Com efeito, Kant fugiu da batalha ao bater em retirada do campo dos fatos. Acreditava no grande mito do século XVIII, o Iluminismo (nome irônico!). Acreditava que a ciência de Newton tinha vindo para ficar e que, para sobreviver, o cristianismo teria de encontrar um lugar na nova paisagem mental esboçada pela nova ciência. E o único lugar que lhe sobrava era a subjetividade.
Isso implica ou ignorar os acontecimentos sobrenaturais e miraculosos da história do cristianismo ou interpretá-los como mitos. A estratégia de Kant foi essencialmente a mesma que seguiria Rudolf Bultmann (1884-1976), o pai da “demitologização” e talvez o principal responsável pela perda da fé entre inúmeros universitários católicos. Muitos professores de teologia perfilham as suas teorias exegéticas, que reduzem os milagres contidos na Bíblia, relatados por testemunhas oculares, a simples “mitos”, “valores” e “interpretações piedosas”.
Com relação ao suposto conflito entre fé e razão, Bultmann disse: “A visão científica do mundo veio para ficar e fará valer os seus direitos contra qualquer teologia, por mais impositiva que seja, que venha a entrar em conflito com ela”. Ironicamente, a “visão científica do mundo” oferecida pela física de Newton e aceita como absoluta e imutável por Kant e Bultmann é hoje quase universalmente rejeitada pelos próprios cientistas!
A questão básica de Kant era: Como podemos conhecer a verdade? Na sua juventude, aceitava a resposta racionalista de que conhecemos a verdade pelo intelecto, não pelos sentidos, e de que o intelecto possuía as suas próprias “idéias inatas”. Mais tarde, leu o empirista David Hume, que, em palavras do próprio Kant, o “despertou do sono dogmático”. Como outros empiristas, Hume acreditava que o homem só pode conhecer a verdade mediante os sentidos e que não existem “idéias inatas”. Mas as premissas de Hume conduziram-no ao ceticismo, à negação de que seja possível conhecer a verdade com certeza. Kant considerou inaceitáveis tanto o “dogmatismo” racionalista como o ceticismo empirista e procurou uma terceira via.
Ora, havia uma terceira teoria disponível desde os tempos de Aristóteles: a filosofia do senso comum, que é o realismo. De acordo com o realismo, podemos conhecer a verdade por meio do intelecto e dos sentidos, desde que ambos trabalhem corretamente em conjunto, como as lâminas de uma tesoura. Em vez de voltar-se para o realismo tradicional, Kant inventou toda uma nova teoria do conhecimento, geralmente chamada idealismo. Considerava-a a sua “revolução copernicana na filosofia”. Mas o nome mais simples para ela é subjetivismo, pois o que pretende é redefinir a própria verdade como subjetiva, não objetiva.
Todos os filósofos anteriores tinham dado por assente que a verdade é objetiva. Aliás, de acordo com o senso comum, é simplesmente isso o que queremos dizer ao falar de “verdade”: conhecer o que realmente é, conformando a mente segundo a realidade objetiva. Alguns filósofos (os racionalistas) julgavam ser capazes de atingir essa meta apenas com a razão. Os primeiros empiristas (como Locke) julgavam que podiam atingi-la através dos sentidos. O empirista cético Hume, posterior, julgava que não havia maneira alguma de atingir com certeza a verdade.
Kant negou a premissa comum a essas três filosofias concorrentes, ou seja, negou que a verdade devesse ser atingida, que a verdade significasse conformidade com a realidade objetiva. A “revolução copernicana” de Kant redefine o próprio conceito de verdade como realidade que se conforma segundo as nossas idéias. “Até hoje, sustentava-se que o nosso conhecimento devia adequar-se aos objetos [...]. Haverá mais progresso se assumirmos a hipótese contrária, de que são os objetos de pensamento que devem adequar-se ao nosso conhecimento”.
Kant afirmou que todo o nosso conhecimento é subjetivo. Bem, essa afirmação é um conhecimento subjetivo? Se é, então o conhecimento desse fato também é subjetivo, et cetera, e todos estamos aprisionados num infinito salão de espelhos. A filosofia kantiana é perfeita para o inferno. É possível que os condenados creiam não estar realmente no inferno; seria apenas coisa da cabeça deles. E talvez seja isso mesmo: é possível que o inferno seja exatamente assim.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief – Kant)

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Jean-Paul Sartre, o apóstolo do absurdo


“Nas próprias palavras de Sartre, “o existencialismo nada mais é do que o esforço por extrair todas as conseqüências da postura atéia”. Ateus acomodados que lêem Sartre tornam-se ateus incomodados, e um ateísmo incômodo é um gigantesco passo rumo a Deus. Isso é algo que devemos agradecer-lhe.
Sartre chamou a sua filosofia de “existencialismo” porque defendia que “a existência precede a essência”. Isso significa concretamente que “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Como não existiria um Deus para projetá-lo, o homem não teria nenhum plano, nenhuma essência. A sua essência ou natureza não viria de um Deus Criador: seria fruto exclusivo das suas próprias escolhas livres.
Há algo de muito profundo nessa tese, mesmo que logo depois esse “algo” seja subvertido. Trata-se do fato de que, mediante as suas escolhas livres, o homem determina aquilo que virá a ser. Deus realmente cria tudo o que o homem é, mas o modo de ser é algo que só pode pertencer a cada um individualmente. Deus faz o nosso “quê”, mas cada um faz o seu “quem”. O Senhor concede-nos a honra de colaborar na nossa própria criação, ou “co-criação”. Compartilha conosco a tarefa de criar o nosso “eu”. Dá a matéria prima – o ambiente, a hereditariedade –, mas sou eu quem dá a forma final a mim mesmo, por meio das escolhas que livremente vou fazendo.
Infelizmente, Sartre sustenta que isso é prova da não-existência de Deus, pois se Deus existisse, o homem ficaria reduzido à condição de “mero artefato divino”, e portanto não seria livre. Sartre insiste com freqüência em que a liberdade e a dignidade humanas requereriam o ateísmo. Sua atitude perante Deus faz lembrar a famosa frase que precede os duelos de caubóis nos filmes de faroeste: “Esta cidade é pequena demais para nós dois: um de nós tem de sair”.
A legítima observação de que a liberdade humana permite às pessoas moldarem-se, e assim as torna radicalmente diferentes das meras coisas, leva Sartre ao ateísmo: 1) porque o filósofo confunde liberdade com independência; 2) porque o único Deus que ele é capaz de conceber é um deus que, em vez de criar e sustentar a liberdade humana, a eliminaria, como uma espécie de fascista cósmico; e além disso 3) porque comete o erro – típico dos adolescentes – de equiparar liberdade e rebeldia. Sartre diz que a liberdade é somente “liberdade de dizer não”.
Mas essa não é a única forma de liberdade: existe também a “liberdade de dizer sim”. Sartre pensa que a nossa liberdade fica comprometida quando dizemos sim, quando optamos por aceitar os valores que nos foram ensinados pelos nossos pais, pela nossa sociedade, ou pela Igreja. Desse modo, o que Sartre entende por liberdade é algo muito parecido com aquilo que os beatniks dos anos 50 ou os hippies dos anos 60 queriam dizer com o seu lema “faça do seu jeito”, ou com aquilo que os membros da “geração do Eu” (Me generation) dos anos 70 queriam dizer com a frase “Procurando o chefe?”
Outro conceito que Sartre leva a sério mas distorce é a idéia de responsabilidade. Pensa que crer em Deus necessariamente diminuiria a responsabilidade humana, pois nos permitiria culpar a Deus pelo que somos em vez de nos culparmos a nós mesmos. Mas isso é evidentemente falso. O meu Pai celeste, assim como o meu pai aqui na terra, não é responsável pelas decisões que tomo nem pelo caráter que adquiro ao tomar essas decisões: a responsabilidade é minha. E essa responsabilidade não demonstra que o meu Pai celeste não exista, como tampouco demonstra que o meu pai aqui na terra não exista.
Sartre tem uma aguçada capacidade de perceber o Mal e a perversidade humana. Diz ele: “Aprendemos a levar o Mal a sério... O Mal não é só aparente... Conhecer suas causas não o elimina. O Mal não pode ser redimido”.
No entanto, Sartre também diz que, se Deus não existe e nós criamos nossas leis e valores, o Mal não existe de verdade: “Escolher ser isto ou aquilo é ao mesmo tempo afirmar o valor daquilo que se escolhe, pois nunca podemos escolher o Mal”. Sartre, portanto, atribui ao Mal uma realidade ao mesmo tempo excessiva (“O Mal não pode ser redimido”) e insuficiente (“Nunca podemos escolher o Mal”).
O ateísmo de Sartre não afirma simplesmente que Deus não existe: afirma que Deus é impossível. Ao menos presta alguma atenção à noção bíblica de Deus como “Eu Sou”, chamando-a de a idéia mais auto-contraditória que jamais foi pensada: uma “síntese impossível” entre o ser-por-si (a personalidade subjetiva, o “Eu”) e o ser-em-si (a perfeição eterna objetiva, o “Sou”).
Deus significa pessoa perfeita, o que para Sartre seria uma contradição. Segundo ele, são possíveis coisas ou idéias perfeitas, como justiça ou verdade; são também possíveis pessoas imperfeitas, como Zeus ou Apolo; mas uma pessoa perfeita é impossível. Zeus é possível mas não é real. Deus, o Único entre os deuses, não somente seria irreal como também impossível.
Se Deus é impossível, e é amor, então o amor é impossível. O que mais choca em Sartre é a sua negação de que possa haver um amor genuíno e altruísta. Muitos ateus substituem Deus pelo amor humano para acreditar neste amor. Mas Sartre alega que isso é impossível. Por quê?
Porque se não existe Deus, então cada indivíduo é Deus. Mas só pode haver um Deus, só pode haver um absoluto. Portanto, as relações interpessoais são fundamentalmente relações de rivalidade. Nisto Sartre faz eco a Maquiavel. Cada um de nós desempenha o papel de Deus diante dos outros: sendo eu o autor do enredo da minha própria vida, necessariamente reduzo os outros a meros coadjuvantes.
Há uma palavrinha que as pessoas comuns pensam que se refere a algo real, e que os namorados acham que é algo mágico, mas que Sartre considera algo impossível e ilusório: trata-se da palavra “nós”. Não pode haver o “nós”, não existiria nenhuma comunidade, nenhum amor abnegado, se o que estamos sempre tentando é ser Deus: o único sujeito individual é o “eu”.
A mais famosa peça de teatro escrita por Sartre, intitulada Huis clos (“Recinto fechado”), mostra três mortos numa sala infernizando uns aos outros, simplesmente por bancarem Deus perante os restantes. Mas não no sentido de tentarem exercer o seu poder umas sobre as outras: cada uma simplesmente ignora as outras, tratando-as como meros objetos. A chocante lição da peça é que “o inferno são os outros”.
De fato é preciso ter uma mente muito aguda para conseguir dizer uma coisa tão falsa como essa. Porque a verdade é justamente o contrário: o Inferno é a completa ausência de outras pessoas, sejam humanas ou divinas. O Inferno é a solidão absoluta. O Céu são as outras pessoas, porque o Céu é onde Deus está, e Deus é uma Trindade. Deus é Amor, Deus é “outras pessoas”, é “nós”.
A firmeza de Sartre em ir até às últimas conseqüências empresta-lhe um ar de honestidade até certo ponto atraente, apesar das suas repugnantes conclusões sobre a ausência de um sentido para a vida, sobre a arbitrariedade dos valores e sobre a impossibilidade do amor. Mas essa peculiar coerência ou honestidade, esteja ou não profundamente arraigada no seu caráter, perde qualquer significado e torna-se trivial em virtude da sua negação de Deus e, portanto, da Verdade objetiva. Se não há uma Mente divina, então não existe nenhuma verdade além daquela que cada qual fabrica para si mesmo. Por isso, que sentido tem ser coerente ou honesto, se eu não tenho nada a respeitar além de mim?
Assim, devemos fazer um juízo misto a respeito de Sartre, e de qualquer forma agradecer-lhe por ser tão repulsivo como fruto dessa sua coerência. Sartre mostra-nos a verdadeira face do ateísmo: o absurdo (o absurdo de um mundo abstrato) e a náusea (é a imagem que ele próprio utiliza, e o título de seu primeiro grande romance).
O livro La nausée (“A náusea”) conta a história de um homem que, após uma árdua busca, depara-se com a terrível verdade de que a vida não tem sentido: é um dejeto da náusea, como um vômito ou um excremento (Sartre usa deliberadamente imagens asquerosas porque acha que a vida é mesmo asquerosa).
Não podemos senão concordar com William Barrett, quando diz que, “se alguém está pronto para usar isso (a náusea) como desculpa para jogar fora toda a filosofia de Sartre, devemos fazer-lhe ver que é melhor encontrar a própria existência com desgosto do que não encontrá-la nunca”.
Em outras palavras, a importância de Sartre é similar à do Eclesiastes: formula as mais altas perguntas, com uma coragem inabalável, e temos de admirá-lo por isso. Infelizmente ele nos oferece a pior das respostas, tal como faz o Eclesiastes: “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade”.
Só nos resta ter pena dele e de todos os outros ateus que tenham lucidez suficiente para perceberem – como Sartre percebeu – que “sem Deus, tudo é permitido”... mas nada tem sentido.”
(Peter Kreeft, The Pillars of Unbelief - Sartre)

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domingo, 30 de maio de 2010

Democracia e totalitarismo


“O sonho do socialismo é ingênuo porque a simples igualdade não destrói automaticamente a opressão. O igualitarismo pode ser tão opressor como qualquer tirania. Tocqueville há muito tempo já observara que o totalitarismo democrático não é uma contradição em termos, e que os americanos são ingênuos se acham que por si mesma a estrutura política da democracia os protegerá do totalitarismo. Pois democracia e totalitarismo não são respostas opostas a uma mesma pergunta e sim, respostas a duas perguntas diferentes, e como tais podem ser compatíveis. Democracia é uma resposta à questão: Em quem está localizado o poder sócio-político? A resposta é: no povo em geral. Totalitarismo é uma resposta à questão: Quanto poder devem ter as autoridades sócio-políticas? A resposta é: poder total, poder de remodelar a vida humana, o pensamento humano, a própria natureza humana.”
(Peter Kreeft, C. S. Lewis for the Third Millennium)

domingo, 18 de abril de 2010

O modernista e o tradicionalista


“A essência da modernidade é a morte do espiritual. Um modernista é alguém que está mais preocupado com a poluição atmosférica do que com a poluição da alma. Um modernista é alguém que deseja ar puro para respirar palavras sujas.
Um modernista se preocupa com grandes coisas, como baleias, mais do que com pequenas, como fetos; com grandes coisas, como governos, mais do que com pequenas, como famílias e vizinhanças; com grandes coisas, como estados, que duram centenas de anos, mais do que com pequenas, como almas, que duram para sempre.
Um modernista, assim, é alguém que põe sua fé e esperança de progresso precisamente naquela única coisa que não pode progredir: a matéria. Um tradicionalista, por outro lado, é alguém que “não mira as coisas que se vêem, mas as que não se vêem, pois as coisas que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas.” (II Cor 4:18) Um tradicionalista acredita nas “coisas permanentes”, e as coisas permanentes não podem progredir porque são as coisas para as quais todo verdadeiro progresso progride.”
(Peter Kreeft, C. S. Lewis for the Third Millennium)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Kronos e kairos


“A língua grega é muito mais rica e sutil que o inglês para as distinções filosóficas, e o grego tem duas palavras para tempo, não apenas uma. Kronos significa o tempo medido objetiva, impessoal e matematicamente pelo movimento da matéria inconsciente através do espaço. Por exemplo, um dia de kronos dura sempre exatamente 24 horas, o tempo que leva para a terra girar em torno do próprio eixo. Kairos, por sua vez, é tempo humano, tempo vivido, tempo experimentado, o tempo teleológico, medido pela consciência humana, que se lança para um futuro que ainda não é, mas que se planeja. Somente kairos sabe algo de metas e valores.
(...) A razão por que creio que somente o espírito pode progredir é porque apenas o espírito vive em kairos. Pois somente kairos toca a eternidade, conhece a eternidade, busca a eternidade. Progresso não significa mera mudança, mas mudança em direção a um objetivo. A mudança é relativa e instável, mas o objetivo é absoluto e permanente. Caso contrário, se o objetivo mudasse com o movimento para alcançá-lo, não poderíamos mais falar de progresso, mas somente de mudança.
(...) Pense em um círculo, por exemplo uma torta, com um segmento, um pedaço de torta, nele. O segmento é kairos, tempo vivido, tempo de vida. A circunferência é kronos. Kronos limita quanto de kairos existe (e. g. 80 anos), mas não determina a outra dimensão de kairos, a dimensão do progresso. Progresso significa chegar mais perto da meta, que em minha imagem geométrica é simbolizada pelo centro do círculo, que poderia ser a eternidade, a permanência. Somente na dimensão de kairos, i.e. na dimensão espiritual, podemos falar significativamente de progresso. A única coisa que kronos pode fazer é circular infinitamente ao redor do centro e limitar a quantidade de qualquer segmento de kairos, mas a circunferência é eqüidistante do centro. Isso simboliza o fato de que nosso tempo vivido, nosso tempo de vida, pode-se mover em direção à eternidade, mas tempo puramente material não pode. Você se aproxima de Deus com santidade, não com idade. O mundo se aproxima de Deus com espiritualidade melhorada, não com materialidade melhorada. E Deus é a meta, a medida de progresso.
(...) Quando falamos de progresso moderno, não queremos dizer progresso em felicidade, em contentamento, em paz de espírito. Nem queremos dizer progresso em santidade e perfeição moral ou sabedoria. Falamos prontamente do “conhecimento moderno”, mas nunca da “sabedoria moderna”. Ao invés, nós falamos de “sabedoria ancestral”. Pois a sabedoria é para o conhecimento o que kairos é para kronos: a dimensão espiritual, intencional, teleológica e moral.
Incidentalmente, esse ponto a respeito de kairos e kronos nos liberta não apenas do culto ignorante ao não-existente deus “Progresso”, mas também do desejo ignorante de estar “atualizado”. Uma data, sendo simplesmente kronos, não tem caráter. É quase nada. É uma linha unidimensional, a circunferência. Uma linha não pode ter cor. Somente kairos, somente um segmento bidimensional do círculo, pode ter caráter e cor. Como uma data é apenas um ponto na circunferência, ela não tem caráter. Nada pode jamais ser realmente “atualizado”. Que fútil perseguição ao inalcançável é nosso desejo de estarmos “atualizados” ou sermos “contemporâneos”! Que desperdício de paixão e amor e energia!”
(Peter Kreeft, C. S. Lewis for the Third Millennium)