“À medida que o nosso combate espiritual se acirra, os campos de batalha vão ficando mais claros e distintos, de maneira que só os mais ingênuos e inadvertidos se deixam iludir por coisas secundárias e acidentais.
Com efeito, os últimos acontecimentos na Igreja e na França (a admirável luta dos católicos franceses contra o “casamento homossexual”) e as arruaças nas grandes cidades brasileiras vão obrigando as pessoas a abrir os olhos, a tomar posição e mostrar realmente o que querem. O silêncio de Roma diante da luta dos franceses foi um silêncio clamoroso.
Nas circunstâncias atuais verifica-se que a grande dificuldade do nosso combate ainda continua sendo de ordem intelectual. Perdeu-se a boa doutrina. Corrompeu-se a inteligência católica. A situação está de tal modo degradada que muitas vezes é preciso ter paciência de demonstrar e defender verdades triviais não só da doutrina católica mas também princípios comezinhos da lei natural. Tal é embrutecimento do homem moderno que tanto se orgulha das suas conquistas científicas e tecnológicas. E o mais triste é ver católicos adulando a modernidade por esse progresso ilusório. E tal cacoete vem de longe.
Xavier Martin, em seu precioso livro L’homme des droits de l’homme et sa compagne (DMM, Bouère, 2001), diz que o historiador Jean Vaguerie demonstrou a assustadora debilidade da formação teológica e filosófica do clero na época do iluminismo que lhe impossibilitava qualquer resistência ao espírito da Revolução.
É verdade que a Igreja, sob o regime do absolutismo monárquico, viu-se muitas vezes tolhida em seu direito de dar ao clero uma formação sólida porque os ministros “emperucados” dos déspotas esclarecidos (como o nefando marquês de Pombal, que se imiscuiu na vida da Igreja a tal ponto de querer determinar os currículos dos seminários e faculdades teológicas, além de expulsar os jesuítas) escarneciam da tradição escolástica da Igreja, acusada de ser responsável pelo atraso e obscurantismo das nações católicas.
Todavia, afora a deficiência intelectual, há um sério problema no domínio da vontade. Xavier Martin, na referida obra, diz que houve na época da Revolução Francesa padres que fizeram opção pelo minimalismo em sua dialética contra a ideologia revolucionária. Por exemplo, no combate ao contratualismo que negava o caráter social da natureza humana, limitavam-se a querer provar a sociabilidade natural do homem argumentando apenas com a relação entre mãe e filho! (O livro de Xavier Martin é realmente notável na refutação do iluminismo que, ao contrário do que se pensa, por causa da decantada declaração dos direitos do homem e do cidadão, tinha uma visão baixa do homem. Mas não é o que nos interessa agora.)
Efetivamente, o minimalismo é o veneno que vai destruindo a civilização cristã. Ao observador atento fica patente como em momentos trágicos da história da Igreja houve concessões inaceitáveis, para não dizer traições ignominiosas da parte daqueles que tinham o dever moral de afirmar os princípios da Lei da Deus e defender a ordem social legítima.
É o minimalismo que se pratica hoje diante dessa pretensão diabólica de impor a toda sociedade um novo modelo de casamento e família. Vemos autoridades eclesiásticas dizendo que a Igreja não tem nada a dizer contra a decisão soberana do Estado de legitimar essas uniões contra a natureza, contanto que não se diga ser o que a Igreja entende por matrimônio e família conforme a Bíblia. Houve até eclesiásticos que disseram que esses novos modelos de união homoafetiva representam um enriquecimento cultural da sociedade que experimentará um novo tipo de comportamento, assim como tantos outros que a sociedade já aceita e protege!
Como disse acima, tal situação imporá a necessidade de um posicionamento. Essas concessões, esses minimalismos, a meu ver, revelam que não temos os mesmos objetivos, os mesmos valores, para não dizer a mesma fé. É certo que pode haver problema de ignorância inculpável, que se poderia sanar com um trabalho de catequese e doutrinação. Mas além do problema de ordem intelectual parece haver um problema de ordem moral que envolve a vontade livre do homem. E há uma questão da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, na I II°ae, a questão 8, sobre a vontade, artigos 2 e 3, que lança uma grande luz sobre o problema do minimalismo. Com efeito, o Doutor Comum pergunta, respectivamente, se a vontade se refere apenas ao fim ou também aos meios e se a vontade, pelo mesmo ato, se move ao fim e àquilo que se relaciona com o fim. Respondendo à primeira questão, diz Santo Tomás que nas coisas naturais pela mesma potência algo passa pelos meios e atinge o seu término. Ora, as coisas ordenadas ao fim são os meios pelos quais se chega ao fim como ao término. Portanto, se a vontade se refere ao fim, tem de referir-se também aos meios proporcionados ao fim.
Estupendo Santo Tomás! Cai como um raio sobre os modernistas minimalistas! Se esses hereges recusam os meios necessários para que na sociedade reine a virtude, impere a lei de Deus, mas querem que haja liberdade de perdição para todo tipo de vício, torpeza e tara, é porque no fundo não querem a Lei de Deus que dizem defender dentro do minimalismo. Realmente, quem não quer os meios não quer os fins. Desmascarados por Santo Tomás!
Na hipótese de o problema do minimalismo, no caso de alguns modernistas, situar-se no campo da inteligência, Santo Tomás também auxilia no esclarecimento do problema. Ele diz que não é com um mesmo ato que a vontade se move ao fim e às coisas ordenadas ao fim. Dá o exemplo do doente que quer primeiro a saúde e, depois, deliberando como pode restabelecer a saúde quer ir ao médico.
De modo que, se os minimalistas quiserem realmente o reino de Cristo sobre toda a sociedade e não o reino de Sodoma, hão de agir em conseqüência como o doente que quer a saúde e, em seguida, usando a inteligência, busca o médico. Terão de abandonar o minimalismo e lutar com coragem, sob a bandeira de Cristo Rei.
Quem quer o fim quer os meios!”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, Quem Quer o Fim Quer os Meios)
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domingo, 6 de julho de 2014
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Não existe um Deus católico?
“Confesso que fiquei perplexo lendo esta frase ontem: “Não existe um Deus católico.”
Embora a expressão “Deus católico” seja insólita, negá-la no contexto em que foi negada tem conseqüências desastrosas. Realmente.
O Antigo Testamento está repleto da expressão o Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, atestando que o Deus vivo e verdadeiro se revelava ao povo eleito, depositário de suas promessas e ensinamentos, e se distinguia dos ídolos dos falsas religiões que aterrorizavam os povos pagãos.
Completando-se com a encarnação do Verbo de Deus a Revelação Divina, a qual se encerra com a morte do último apóstolo, e sendo a Igreja Católica a depositária de tal revelação, dizer que não se crê em um “Deus Católico” parece-me favorecer a heresia monolátrica, isto é, a crença em um deus único, concebido pela mente humana, distinto do Deus Uno e Trino, que se revelou, encarnou, fundou a Igreja Católica para perpetuar sua obra de salvação do mundo.
Dizer “não existe um Deus Católico”, no ambiente atual de ecumenismo maçônico e diálogo interreligioso sem fronteiras, só contribui para a demolição da fé católica e reforça a marcha do mundo contemporâneo rumo ao deísmo, ao panteísmo, à gnose universal. Afirmar “não existe um Deus Católico” é um convite dirigido aos “irmãos” pedreiros livres e aos “homens de boa vontade” para trabalharem todos juntos na fundação de uma nova religião de uma nova era da humanidade, em que o homem será a sua própria lei.
A infelicidade de tal afirmação cresce ainda mais quando se tem presente que nos dias de hoje o Deus da Metafísica, o Ser Absoluto, o primeiro Motor Imóvel, a Causa Primeira incausada, o Ato Puro dos estudiosos da Ontologia, que serve de base para uma exposição racional do mistério da Revelação Divina, desapareceu completamente da cultura contemporânea. De modo que negar o “Deus Católico” não significa ceder lugar ao Ser Absoluto na mente dos homens de hoje, mas sim ceder lugar à “energia cósmica” que alguns imaginam como um demiurgo.
Acresce que na mesma entrevista o bispo de Roma disse que “cada um tem a sua própria concepção de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe.” Ora, isto equivale a proclamar a soberania absoluta da consciência individual, que já não terá sua autoridade e legitimidade à proporção em que aplica fielmente a lei de Deus na direção da vida humana.
Sinceramente, estou convencido de que a chave para entender o drama dos nossos tempos não está tanto em meditar as promessas de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, quanto na meditação da passagem do Evangelho segundo Lucas: “Mas, quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra? “(Lc. 18, 8). Sim, as portas do inferno não prevalecerão, mas os homens maus têm um poder enorme de corromper a fé e desfigurar a Igreja e reduzi-la a frangalhos.
Se se dispensa um “Deus Católico”, se cada um pode seguir o bem como o concebe, será necessária a Igreja para a salvação? No máximo, será um auxílio para aqueles que querem construir uma utopia de um mundo novo, de um mundo melhor de liberdade, igualdade e fraternidade. Em tal perspectiva, que restará da Igreja? Restarão grupos esparsos de homens que conservam a fé imutável no Deus Uno e Trino.
Que Deus tenha misericórdia de nós. As tentações são muitas. Que Nossa Senhora das Vitórias, neste mês do Rosário, esmague as esquadras do modernismo, como em Lepanto esmagou o inimigo infiel.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, Não Existe Um Deus Católico?)
http://santamariadasvitorias.org/nao-existe-um-deus-catolico/
Embora a expressão “Deus católico” seja insólita, negá-la no contexto em que foi negada tem conseqüências desastrosas. Realmente.
O Antigo Testamento está repleto da expressão o Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, atestando que o Deus vivo e verdadeiro se revelava ao povo eleito, depositário de suas promessas e ensinamentos, e se distinguia dos ídolos dos falsas religiões que aterrorizavam os povos pagãos.
Completando-se com a encarnação do Verbo de Deus a Revelação Divina, a qual se encerra com a morte do último apóstolo, e sendo a Igreja Católica a depositária de tal revelação, dizer que não se crê em um “Deus Católico” parece-me favorecer a heresia monolátrica, isto é, a crença em um deus único, concebido pela mente humana, distinto do Deus Uno e Trino, que se revelou, encarnou, fundou a Igreja Católica para perpetuar sua obra de salvação do mundo.
Dizer “não existe um Deus Católico”, no ambiente atual de ecumenismo maçônico e diálogo interreligioso sem fronteiras, só contribui para a demolição da fé católica e reforça a marcha do mundo contemporâneo rumo ao deísmo, ao panteísmo, à gnose universal. Afirmar “não existe um Deus Católico” é um convite dirigido aos “irmãos” pedreiros livres e aos “homens de boa vontade” para trabalharem todos juntos na fundação de uma nova religião de uma nova era da humanidade, em que o homem será a sua própria lei.
A infelicidade de tal afirmação cresce ainda mais quando se tem presente que nos dias de hoje o Deus da Metafísica, o Ser Absoluto, o primeiro Motor Imóvel, a Causa Primeira incausada, o Ato Puro dos estudiosos da Ontologia, que serve de base para uma exposição racional do mistério da Revelação Divina, desapareceu completamente da cultura contemporânea. De modo que negar o “Deus Católico” não significa ceder lugar ao Ser Absoluto na mente dos homens de hoje, mas sim ceder lugar à “energia cósmica” que alguns imaginam como um demiurgo.
Acresce que na mesma entrevista o bispo de Roma disse que “cada um tem a sua própria concepção de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe.” Ora, isto equivale a proclamar a soberania absoluta da consciência individual, que já não terá sua autoridade e legitimidade à proporção em que aplica fielmente a lei de Deus na direção da vida humana.
Sinceramente, estou convencido de que a chave para entender o drama dos nossos tempos não está tanto em meditar as promessas de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, quanto na meditação da passagem do Evangelho segundo Lucas: “Mas, quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra? “(Lc. 18, 8). Sim, as portas do inferno não prevalecerão, mas os homens maus têm um poder enorme de corromper a fé e desfigurar a Igreja e reduzi-la a frangalhos.
Se se dispensa um “Deus Católico”, se cada um pode seguir o bem como o concebe, será necessária a Igreja para a salvação? No máximo, será um auxílio para aqueles que querem construir uma utopia de um mundo novo, de um mundo melhor de liberdade, igualdade e fraternidade. Em tal perspectiva, que restará da Igreja? Restarão grupos esparsos de homens que conservam a fé imutável no Deus Uno e Trino.
Que Deus tenha misericórdia de nós. As tentações são muitas. Que Nossa Senhora das Vitórias, neste mês do Rosário, esmague as esquadras do modernismo, como em Lepanto esmagou o inimigo infiel.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, Não Existe Um Deus Católico?)
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
Uma crítica à filosofia vitalista
“Sabe-se que a chamada filosofia vitalista do princípio do século XX (Bergson e Blondel), apresentando-se como uma reação a erros filosóficos então predominantes, exerceu uma notável influência sobre o pensamento católico. Contra uma concepção mecanicista e racionalista própria do positivismo e do neokantismo que pretendia esquematizar toda a realidade, a filosofia da vida insurgiu-se fazendo ver como era superficial semelhante pensamento que se atinha apenas ao elemento exterior, ao espaço, à extensão, e, por isso mesmo, incapaz de compreender o mundo em toda sua riqueza de vida e dinamismo. O vitalismo apresentava-se como um pensamento espiritualista que valorizava a vida interior do homem, salvaguardava sua liberdade e afirmava a sua consciência capaz de inovação criadora. As belas reflexões de Bergson sobre o mistério do tempo marcaram profundamente a grande obra literária do século passado “À la recherche du temps perdu” de Marcel Proust (Cf. Edmund Wilson, O castelo de Axel, Cultrix, São Paulo).
Contudo, a filosofia vitalista tinha um grave erro: ao mesmo tempo que valorizava a vida não a explicava e tampouco esclarecia o seu verdadeiro sentido. Interpretava o ser como impulso vital e dizia que a vida não pode ser captada pela inteligência mas por uma suposta intuição. E o pior é que tal intuição é um conceito tão obscuro quanto a intuição da fenomenologia. A filosofia vitalista, pode-se dizer, limitava-se a dizer que a vida flui, que nela nada se perde, mas, ao contrário, nela agregam-se novas aquisições. De maneira que a inteligência só aprisiona a realidade em esquemas uniformes, fixos, mas não a conhece. Só os conceitos “fluidos” que acompanham o rio da vida são capazes de conhecê-la. Esses conceitos fluidos seriam as intuições. (Cf. Hirschberger, Historia de la filosofia, Barcelona, 1956)
Pois bem, a falta de precisão do conceito de vida (que não pode ser objeto do entendimento, ressalte-se) induziu os principais representantes do vitalismo a graves equívocos. Por exemplo, Bergson chegou a conceber Deus como um ser em devir. Blondel, por sua vez, em sua filosofia da ação, entende a ação como a vida do espírito em sua fonte e na totalidade do seu desenvolvimento. Diz que não há no mundo nenhum momento de pausa, porque nada no mundo é perfeito. O espírito nunca se adequa a uma realidade, mas sempre aspira a algo superior. Por conseguinte, cai por terra a noção de verdade elaborada pela metafísica tomista: adaequatio intellectus et rei.
Na primeira parte da Suma Teológica, Santo Tomás formula algumas questões importantes sobre a vida de Deus. As soluções do Santo Doutor refutam cabalmente os erros da filosofia vitalista. No artigo 1º da q. 18 pergunta se todas as coisas naturais vivem ou não vivem e assinala as diferenças entre os seres vivos e brutos. As razões aduzidas por Santo Tomás são muito úteis porque em nossos dias os modernistas gostam de relacionar os conceitos de vida e de tradição. O papa João Paulo II, no motu proprio Ecclesia Dei Afflicta, disse que o suposto gesto cismático de Mons. Marcel Lefèbvre (as consagrações episcopais sem mandato pontifício mas em virtude do estado de necessidade) se devia a uma incompleta noção de tradição que não leva em conta o caráter “vivo” da tradição.
É claro que João Paulo II aplicava à tradição a noção de vida em sentido analógico. Não entendia a tradição como animal ou vegetal, mas como um conjunto de verdades ou como um tesouro que se enriquece e cresce com o passar das gerações sob a custódia da Igreja. De qualquer modo, cumpre examinar, à luz da doutrina de Santo Tomás, como se dá o processo vital.
No referido artigo diz que a vida se manifesta quando o animal tem movimento ex se, mas, ao contrário, quando o animal já não tem movimento ex se, mas é movido por outro, então se diz que o animal está morto. Em seguida, no artigo 2º, pergunta se a vida é ação – essa questão é importantíssima para compreender e refutar o erro do modernista Maurice Blondel – e responde, com base em Aristóteles, dizendo que o viver é o ser dos vivos. E afirmando o valor do conhecimento intelectivo do homem que alcança a essência da coisa como seu objeto próprio a partir dos sentidos que apreendem as aparências exteriores, Santo Tomás explica que geralmente, a partir das aparências exteriores, se impõem às coisas nomes que expressam sua essência. Mas às vezes os nomes derivam das propriedades em função das quais se impõem. Assim, por exemplo, o nome corpo é imposto para designar um gênero de substâncias em que se encontram três dimensões. Quanto à vida, diz Santo Tomás, o nome é tomado das aparências exteriores em vista da própria coisa que se move a si mesma; entretanto, o nome não é imposto para significar o movimento e sim a substância à qual convém em sua natureza mover-se a si própria ou agir de algum modo. Portanto, ser vivo não é predicado acidental, mas substancial. Esclarece que com menos propriedade se toma o vocábulo vida a partir das operações vitais. E cita Aristóteles, para o qual a vida é principalmente intelligere.
Ora, a filosofia vitalista é uma filosofia que rebaixa a inteligência, despreza a razão, a qual considera uma força destruidora. De modo que é lícito realmente questionar se a tal filosofia convém o nome de filosofia da vida, uma vez que a vida é sobretudo intelligere. Que vida do espírito é a ação do sr. Blondel? Uma ação que é mais frustração do que plenitude, porquanto a realidade das coisas sempre lhe escapa.
Finalmente, quanto à relação estabelecida pelos modernistas entre os conceitos de tradição e vida, importa dizer que, à luz da sã teologia de Santo Tomás, resulta muito dificultoso para os sequazes da nova teologia provar que efetivamente os desdobramentos, acréscimos e “enriquecimentos” doutrinários verificados na Igreja sobretudo a partir do Vaticano II derivam de um processo vital de uma Igreja que se move a si mesma alicerçada em seus próprios fundamentos. Examinadas as raízes ideológicas de tais inovações pós-conciliares, percebe-se que se trata de um movimento de origem estranha à Igreja. Com efeito, a reforma litúrgica, o ecumenismo, a liberdade religiosa, a abertura ao mundo moderno são inovações que se impuseram de fora à Igreja. Isto é próprio de ser um morto. Na hipótese, porém, de se tratar de um processo vital, a imagem mais adequada para explicá-lo seria a do “mata-pau”.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, Tradição, Vida e Morte)
http://santamariadasvitorias.org/tradicao-vida-e-morte/
Contudo, a filosofia vitalista tinha um grave erro: ao mesmo tempo que valorizava a vida não a explicava e tampouco esclarecia o seu verdadeiro sentido. Interpretava o ser como impulso vital e dizia que a vida não pode ser captada pela inteligência mas por uma suposta intuição. E o pior é que tal intuição é um conceito tão obscuro quanto a intuição da fenomenologia. A filosofia vitalista, pode-se dizer, limitava-se a dizer que a vida flui, que nela nada se perde, mas, ao contrário, nela agregam-se novas aquisições. De maneira que a inteligência só aprisiona a realidade em esquemas uniformes, fixos, mas não a conhece. Só os conceitos “fluidos” que acompanham o rio da vida são capazes de conhecê-la. Esses conceitos fluidos seriam as intuições. (Cf. Hirschberger, Historia de la filosofia, Barcelona, 1956)
Pois bem, a falta de precisão do conceito de vida (que não pode ser objeto do entendimento, ressalte-se) induziu os principais representantes do vitalismo a graves equívocos. Por exemplo, Bergson chegou a conceber Deus como um ser em devir. Blondel, por sua vez, em sua filosofia da ação, entende a ação como a vida do espírito em sua fonte e na totalidade do seu desenvolvimento. Diz que não há no mundo nenhum momento de pausa, porque nada no mundo é perfeito. O espírito nunca se adequa a uma realidade, mas sempre aspira a algo superior. Por conseguinte, cai por terra a noção de verdade elaborada pela metafísica tomista: adaequatio intellectus et rei.
Na primeira parte da Suma Teológica, Santo Tomás formula algumas questões importantes sobre a vida de Deus. As soluções do Santo Doutor refutam cabalmente os erros da filosofia vitalista. No artigo 1º da q. 18 pergunta se todas as coisas naturais vivem ou não vivem e assinala as diferenças entre os seres vivos e brutos. As razões aduzidas por Santo Tomás são muito úteis porque em nossos dias os modernistas gostam de relacionar os conceitos de vida e de tradição. O papa João Paulo II, no motu proprio Ecclesia Dei Afflicta, disse que o suposto gesto cismático de Mons. Marcel Lefèbvre (as consagrações episcopais sem mandato pontifício mas em virtude do estado de necessidade) se devia a uma incompleta noção de tradição que não leva em conta o caráter “vivo” da tradição.
É claro que João Paulo II aplicava à tradição a noção de vida em sentido analógico. Não entendia a tradição como animal ou vegetal, mas como um conjunto de verdades ou como um tesouro que se enriquece e cresce com o passar das gerações sob a custódia da Igreja. De qualquer modo, cumpre examinar, à luz da doutrina de Santo Tomás, como se dá o processo vital.
No referido artigo diz que a vida se manifesta quando o animal tem movimento ex se, mas, ao contrário, quando o animal já não tem movimento ex se, mas é movido por outro, então se diz que o animal está morto. Em seguida, no artigo 2º, pergunta se a vida é ação – essa questão é importantíssima para compreender e refutar o erro do modernista Maurice Blondel – e responde, com base em Aristóteles, dizendo que o viver é o ser dos vivos. E afirmando o valor do conhecimento intelectivo do homem que alcança a essência da coisa como seu objeto próprio a partir dos sentidos que apreendem as aparências exteriores, Santo Tomás explica que geralmente, a partir das aparências exteriores, se impõem às coisas nomes que expressam sua essência. Mas às vezes os nomes derivam das propriedades em função das quais se impõem. Assim, por exemplo, o nome corpo é imposto para designar um gênero de substâncias em que se encontram três dimensões. Quanto à vida, diz Santo Tomás, o nome é tomado das aparências exteriores em vista da própria coisa que se move a si mesma; entretanto, o nome não é imposto para significar o movimento e sim a substância à qual convém em sua natureza mover-se a si própria ou agir de algum modo. Portanto, ser vivo não é predicado acidental, mas substancial. Esclarece que com menos propriedade se toma o vocábulo vida a partir das operações vitais. E cita Aristóteles, para o qual a vida é principalmente intelligere.
Ora, a filosofia vitalista é uma filosofia que rebaixa a inteligência, despreza a razão, a qual considera uma força destruidora. De modo que é lícito realmente questionar se a tal filosofia convém o nome de filosofia da vida, uma vez que a vida é sobretudo intelligere. Que vida do espírito é a ação do sr. Blondel? Uma ação que é mais frustração do que plenitude, porquanto a realidade das coisas sempre lhe escapa.
Finalmente, quanto à relação estabelecida pelos modernistas entre os conceitos de tradição e vida, importa dizer que, à luz da sã teologia de Santo Tomás, resulta muito dificultoso para os sequazes da nova teologia provar que efetivamente os desdobramentos, acréscimos e “enriquecimentos” doutrinários verificados na Igreja sobretudo a partir do Vaticano II derivam de um processo vital de uma Igreja que se move a si mesma alicerçada em seus próprios fundamentos. Examinadas as raízes ideológicas de tais inovações pós-conciliares, percebe-se que se trata de um movimento de origem estranha à Igreja. Com efeito, a reforma litúrgica, o ecumenismo, a liberdade religiosa, a abertura ao mundo moderno são inovações que se impuseram de fora à Igreja. Isto é próprio de ser um morto. Na hipótese, porém, de se tratar de um processo vital, a imagem mais adequada para explicá-lo seria a do “mata-pau”.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, Tradição, Vida e Morte)
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terça-feira, 27 de abril de 2010
O desespero do homem contemporâneo

“Equivoca-se quem pensa que o grande problema do homem contemporâneo é a tentação da sensualidade que o conduz a todo tipo de torpeza e ignomínia. Não. O grande problema dos nossos dias é a negação do quarto mandamento. Sem pai, o homem não é capaz de gozar a alegria de ter irmão. Sem a alegria do irmão, não há o consolo da amizade. Sem o consolo da amizade, cresce a tentação da sensualidade e esta deságua inevitavelmente no rio da tristeza, que por sua vez conduz ao suicídio.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, A Inteligência e o Coração do Homem em São João Crisóstomo)
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segunda-feira, 22 de março de 2010
A imortalidade da alma em Santo Tomás de Aquino e em Dostoiévski

“Creio que uma das verdades metafísicas mais esquecidas em seus fundamentos nos dias de hoje é a imortalidade da alma humana. O hedonismo avassalador da nossa sociedade que leva o homem a perder a virtude sobrenatural da esperança, o cientificismo que reduz a vida psíquica a um fenômeno de química cerebral, os desvios da filosofia moderna que geraram uma desconfiança na capacidade do intelecto de conhecer a verdade, tudo isso acabou produzindo um obscurecimento da realidade da alma humana e de sua imortalidade.
A impressão que se tem é de que as pessoas continuam crendo em Deus mas não estão convictas quanto à existência da alma.
Em face dos inúmeros problemas de ordem cultural que mencionei, torna-se difícil apresentar a um cético argumentos racionais sobre a imortalidade da alma humana. Santo Tomás de Aquino desenvolve na Suma Teológica uma prova robusta a partir da análise do conhecimento intelectivo, mas, devido à mentalidade antimetafísica de hoje, sua argumentação não entra na cabeça da maioria das pessoas.
Diz Santo Tomás de Aquino: “Se, pois, o princípio intelectual tivesse em si a natureza de algum corpo, não poderia conhecer todos os corpos. Todo corpo tem alguma natureza determinada. É impossível, portanto, que o princípio intelectivo seja corpo. E igualmente é impossível que entenda através de um órgão corpóreo, porquanto a natureza determinada desse órgão corpóreo impediria o conhecimento de todos os corpos; assim também se uma certa cor estiver não só na pupila, mas também no vaso de vidro, o líquido nele contido parecerá da mesma cor. Por conseguinte, o princípio intelectual, a que se chama mente ou intelecto, tem atividade própria, independente do corpo. Ora, nada pode operar por si, senão aquilo que por si subsiste. Só o que está em ato age, o que equivale a dizer que age porque é.” (cf. Summa Theologiae I IIªe. q.75, a. 2)
Realmente, soa convincente e clara a demonstração da espiritualidade da alma humana conforme a argumentação de Santo Tomás. Ele faz ver que a alma humana em sua atividade específica não depende intrinsecamente da matéria. A uma inteligência sã, a uma vontade reta, isto basta. Todavia, vivemos imersos em uma cultura cientificista que tenta mensurar tudo e chega ao extremo de afirmar que o espírito é a própria matéria em seu mais alto grau de evolução. O próprio conceito de alma está desqualificado, quase que esquecido e relegado pela própria teologia. A liturgia moderna quase não o menciona mais. Hoje fala-se da consciência como sinônimo ou sucedâneo da alma. Mas a própria consciência é concebida a partir de inúmeros fatores neurofisiológicos e condicionamentos sociais, de maneira que não é tão simples explicar às pessoas sua espiritualidade e subsistência. Ademais, assiste-se hoje a uma dissolução da consciência, tal a incapacidade de raciocínio próprio. O homem parece dominado por um mimetismo. Os cientistas sem ética são tão exaltados e tudo o que dizem ou fazem passa a ser o critério de juízo sobre todas as coisas.
Diante dessa realidade, que fazer? A única saída é o fideísmo? Simplesmente, fazer um ato de fé na incorruptibilidade do espírito? Absolutamente, não. Parece-me que há argumentos de ordem psicológica muito persuasivos. Um exemplo é oferecido por um personagem do romance Os demônios de Dostoiévski. Stiepan Trofímovitch, um literato de formação liberal e agnóstica, à beira da morte, aceita confessar-se a um padre, receber a extrema-unção. Impressionado pela cerimônia majestosa e tocado pela graça, diz: “Minha imortalidade já é necessária porque Deus não vai querer cometer um engano e apagar inteiramente o fogo do amor que já se acendeu por Ele em meu coração. E o que há de mais caro que o amor? O amor está acima do ser, o amor é o coração do ser, e como é possível que o ser não lhe seja reverente? Se eu me tomei de amor por Ele e me alegrei com meu amor, seria possível que ele apagasse a mim e a minha alegria e nos transformasse em nada? Se Deus existe, também eu sou imortal! Voilà ma profession de foi.”
Com efeito, parece-me muito mais fácil explicar às pessoas simples que o verdadeiro amor, o amor benevolente ou a caridade, não pode ser produto da matéria ou de reações químicas mas lança suas raízes mais profundas na espiritualidade da alma humana. A realidade do amor, traduzida em termos de grande valor artístico, é muito mais compreensível para as pessoas simples sem interesse por filosofia (que, no entanto, são suscetíveis de ser vitimas de uma cultura materialista) que tentar explicar a natureza da alma humana com uma rigorosa argumentação filosófica. Uma psicologia sem alma humana parece mais absurda que um conhecimento humano sem a espiritualidade do processo abstrativo.
Recorde-se a propósito que um homem inteligente e culto como o professor Miguel Reale, em seus últimos anos de vida, escreveu artigos filosóficos muito interessantes sobre temas religiosos em que ele dizia crer em Deus e na imortalidade da alma baseado justamente em argumentos de ordem psicológica. Igualmente, o próprio papa Bento XVI, em sua bela encíclica Spe salvi, explora razões dessa natureza para demonstrar por que podemos ter esperança.
É inegável a beleza e o valor do argumento de ordem psicológica. Além disso, pode-se relacionar o problema da espiritualidade da alma com o problema do mal moral. O homem é capaz de ações tão nobres, que não se saberia explicar como resultantes em última análise de uma combinação de elementos químicos cerebrais. Mas também é capaz de coisas tão ignóbeis que não se poderiam explicar apenas pelo mau uso da liberdade, mas supõem a influência de um espírito maligno. Cenas espantosas de vários romances de Dostoiévski expressam bem essa realidade sombria que ameaça o homem entregue ao pecado. Santo Agostinho explica muito bem que o diabo tem o querer mas não o poder de danar. De modo que se concilia perfeitamente a responsabilidade moral do homem com a influência do maligno, o que explica a extensão do mal na história da humanidade. Se não há vida após a morte, não é possível justiça, pois não há verdadeiro prêmio nem verdadeiro castigo para os atos humanos. Se Deus não existe, tudo é permitido, é outra famosa frase de Dostoiévski, que, com gênio e arte, sabe explorar em seus personagens justamente esse drama da liberdade moral e da influência diabólica sobre o homem.
Na cultura moderna, tão avessa à especulação metafísica, tão inepta para a busca de fundamentos sólidos para as decisões mais graves da vida do homem, parece-me útil e necessário recorrer ao belo, à literatura, à arte em geral mais que em outros tempos, para ajudar os homens anestesiados em seu juízo crítico pelo cientificismo a descobrir a verdade sobre si mesmos. Nosso esforço para recuperar a dignidade da liturgia católica, além do autêntico culto divino, visa também a promover uma verdadeira educação que ensine os valores perenes da civilização. Per pulchum ad verum.”
(Pe. João Batista Ferraz Costa, A Imortalidade da Alma em Santo Tomás de Aquino e em Dostoievski)
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