“Machado de Assis sempre nos obriga a pensar e a tirar alguma conclusão. E isto não só em suas obras maiores, mas também em seus escritos mais singelos. E nas horas vagas, para fugir ao tédio, recompor-se das agruras e espairecer o espírito, reler algumas das suas páginas é uma boa opção. (Espero não ser mal interpretado ou acusado de propor Machado de Assis como livro de meditação espiritual ou alternativa à oração cristã!)
Infelizmente, entre muitos católicos, há certa prevenção contra o grande escritor, considerado, injustamente, como um ímpio, um agnóstico inimigo da religião. Parece-me que para essa falsa opinião sobre Machado de Assis muito concorreram alguns artigos de Jackson de Figueiredo (Cf. Hamilton Nogueira, Jackson de Figueiredo, 1976), bem como o interessante estudo de Dom Hugo Bressane de Araújo, O aspecto religioso da obra de Machado de Assis.
Na verdade, como o fez ver muito bem Miguel Reale em A filosofia na obra de Machado de Assis, o fundador da Academia Brasileira de Letras jamais se ufanou do seu agnosticismo, pelo contrário, em algumas passagens de sua lavra, deixou transparecer uma ânsia pelo eterno. Contudo, deve-se dizer que não é um autor recomendável para qualquer um. O que é remédio para uns pode ser veneno letal para outros. Se Machado de Assis não foi um mestre da boa doutrina, um guia no caminho das virtudes cristãs (e realmente não o foi), isto não significa que tenha sido um deformador, um corruptor dos espíritos. Quem tiver boa vontade e capacidade intelectual poderá sempre extrair boas lições da sua obra.
No saboroso conto A Igreja do Diabo, com seu senso de humor tão peculiar, Machado de Assis me fez pensar nos modernistas desejosos de agora, sob o patrocínio do bispo de Roma papa Bergoglio, querer organizar a sua Igreja. Com efeito, Machado de Assis narra que o Diabo, certo dia, apesar dos seus lucros contínuos e grandes, resolveu fundar a sua Igreja. Estava cansado de tanta improvisação, de não ter nada fixo, nada regular. O Diabo diz: “Enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será a única; não acharei diante de mim nem Maomé nem Lutero.”
Realmente, essas palavras colocadas por Machado na boca do Diabo me reportaram ao sonho dos progressistas de organizar sua religião universal a expensas dos chamados fundamentalistas, tradicionalistas e restauracionistas que, segundo eles, ficam discutindo o sexo dos anjos a pretexto de defender a integridade da fé.
Outra passagem que me fez lembrar dos progressistas, especialmente do Hans Kung e do cardeal Martini, foi o diálogo do Diabo com o Senhor Deus. Diz-lhe o Espírito das trevas que o céu ficaria uma casa vazia, tal o preço de entrada. Então ele fundaria uma igreja capaz de acolher todo tipo de gente. Não seria exclusivista, aceitaria todos, menos os que não fossem nada. Assim também os progressistas dizem que só os integristas devem ficar de fora, porque esses não são nada.
Ora, essas palavras do Diabo são reproduzidas quase que literalmente pelos progressistas de hoje. Hans Kung encheu-se de esperança com a eleição de Bergoglio porque achou que era chegada, finalmente, a hora de fundar a sua igreja que atrairia as multidões que renegaram a fé. Martini, em suas meditações de Jerusalém disse que a ética sexual católica tradicional tinha de ser abandonada e a Humanae Vitae, substituída por um novo documento. O Diabo, também, no conto de Machado de Assis, propõe a reforma completa do Decálogo e a canonização de todos os vícios.
Mas o notável no conto A Igreja do Diabo é a análise da psicologia humana. No final, o Diabo fica decepcionado porque os homens, que a princípio tinham aceitado a sua igreja permissiva e relaxada, voltavam à prática dos antigos valores morais. O Diabo ficou assombrado, sem entender nada (Hoje os próceres do progressismo da época do Vaticano II também estão atônitos diante dos jovens que querem a Missa tradicional). Machado de Assis tenta explicar o fato pela lei da eterna contradição humana. Teria sido mais feliz se dissesse com Platão que a injustiça não pode ser levada às últimas consequências, sob pena de autodestruição. Assim também a igreja progressista caminhará para sua autodestruição se não responder às verdadeiras aspirações do coração humano pelo bem, pelo belo e pelo verdadeiro.
No conto Manuscrito de um sacristão, que a um leitor despreparado poderá parecer talvez uma zombaria do celibato sacerdotal, na verdade se encerra uma fina lição de psicologia sobre a origem e desenvolvimento dos afetos do coração humano. A historieta da amizade entre os primos padre Teófilo e Eulália, amizade que evolui para um romance e termina com a fuga do padre que não quer prevaricar, serve de motivo para reflexão sobre o dever moral de guardar o coração e vigiar sobre os sentimentos. Esse conto de Machado de Assis, longe de ser uma chacota, aponta para o problema da virtude da amizade e da vocação sacerdotal. Teófilo fora encaminhado para o seminário pela família, que tinha por tradição sempre contar com um padre. O conto dá a entender que na infância podia ter havido alguma amizade entre os primos. Depois de muitos anos ambos se revêem numa igreja e renasce o sentimento. Primeiro, a amizade, depois, o amor e, finalmente, para não haver pecado, a fuga do padre Teófilo. Fica, portanto, uma lição de cumprimento do dever, além da advertência sobre a necessidade de controlar os afetos por meio da prudência e outros remédios da graça.
Sem amizade, sem amor, ninguém vive. Estes sentimentos devem ser vividos conforme a lei de Deus e conforme o estado de vida de cada um: jovem, adulto, solteiro, viúvo, casado, consagrado à vida religiosa pelo celibato sacerdotal. A amizade, é claro, supõe afinidade, comunhão de idéias e sentimentos, reciprocidade, lealdade, mas exige, para o seu próprio bem e preservação, que toda familiaridade seja evitada. Manuscrito de um sacristão ajuda a refletir sobre essas coisas e outros problemas das relações humanas no mundo de hoje, que ameaça a saúde dos afetos do coração do homem por meio do abuso das redes sociais da internet.
Para remate, diga-se que, se na obra de Machado de Assis há alguma coisa em desarmonia com os ensinamentos da Igreja, nela o que há de bom, belo e verdadeiro (e há muito) é, certamente, um reflexo do Verbo Eterno de que o grande escritor se nutriu em suas leituras bíblicas apesar de não ter fé.”
http://santamariadasvitorias.org
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segunda-feira, 25 de setembro de 2017
domingo, 27 de novembro de 2016
Machado de Assis e o repulsivo herói de nosso tempo
“No conto “Evolução”, de Machado de Assis, publicado em Relíquias da Casa Velha (1906), Inácio, o narrador, fala sobre sua amizade com Benedito. Movido por um “sentimento de compostura” — que “toda a gente discreta apreciará” —, o narrador oculta os sobrenomes, seu e do amigo, mas o faz principalmente para obedecer à intenção machadiana: apresentar ao leitor o “cheiro” do seu personagem, odor comum a muitas pessoas, como se pode concluir da analogia que Inácio faz com as rosas.
Perceba-se que Machado não utiliza o substantivo “perfume”, preferindo o ambíguo “cheiro”, que pode se referir a um odor agradável ou à fetidez. Trata-se de uma imprecisão que se diluirá ao longo da história.
O artificialismo de Benedito começa a ser construído já no segundo parágrafo: ele tinge os cabelos utilizando um processo eficaz, só percebido por quem partilha da sua intimidade. E ainda que todo o resto seja natural — “pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relógio e roupa”, lista Inácio com sutil ironia, não incluindo no rol nenhuma virtude ou valor —, Benedito é, moralmente, “pacato”; e intelectualmente, “menos original”.
Ser “pacato” em termos de caráter é outra das ambigüidades machadianas, exuberantes de sentido, ressaltada pela narração que afeta naturalidade ao utilizar um tom descomprometido para tratar de certo tema crucial.
Ainda no terceiro parágrafo, a característica de ser “menos original” em termos intelectuais começa a ganhar sua verdadeira dimensão — e iluminar o caráter “pacato” de Benedito.
A descrição de Inácio não deixa dúvidas:
Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idéias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas; ninguém brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea, na Tijuca ou no Engenho Novo. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e as meias de seda. […]
A distância de algumas linhas entre a moralidade “pacata” e a “promiscuidade” do personagem não diminui a contradição do relato — antes, agiganta o comportamento passivo do narrador, cujo pasmo se concretizará somente no último parágrafo do conto.
Mas engana-se o leitor que pensa em Benedito como um relativista ou um hipócrita. O caso é mais complexo.
À descrição da amizade que se aprofunda entre esses dois personagens soma-se a recorrência do comportamento que explica a “menor originalidade”, em termos intelectuais, de Benedito.
O personagem que pode oferecer a Inácio a “mesa de Lúculo” — general romano conhecido por seus fastuosos jantares —, mas não a “casa de Platão”, é um colecionador de lugares-comuns. Falando de política, música, jardinagem ou da mulher que amou, utiliza apenas chavões. “Os princípios são tudo e os homens nada” ou as observações de que a rosa “é a rainha das flores” e a mulher amada tinha dentes que eram “verdadeiras pérolas” encontram-se no mesmo patamar: frases vazias de um repetidor incansável.
Na vida social, apesar da riqueza, Benedito move-se não graças à sua própria vontade. Não obedece aos impulsos genuínos de uma personalidade madura, independente, mas, sempre induzido por Inácio, é o amigo que inflama seu desejo de se candidatar a deputado ou se tornar ministro.
O núcleo da narrativa trata, no entanto, de algo ainda mais grave — e obriga o leitor a retornar, seguidas vezes, num crescendo, à questão moral.
Quando se conhecem, Inácio “compara o Brasil a uma criança que está engatinhando” e “só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”. Os olhos de Benedito brilham e ele exclama: “Bonita idéia!”.
O pensamento se concretiza na vida de Inácio, que tem personalidade própria: meses mais tarde, na Europa, quando os amigos se reencontram, o narrador trata, com investidores ingleses, da construção de uma estrada de ferro no Brasil.
Benedito não esconde seu deslumbramento diante da notícia. E passa a se comportar da mesma forma, buscando informações em ministérios e bancos. O mimetismo de Benedito é evidente — e vergonhoso.
Ali, em Londres, forma-se o deputado Benedito, mas segundo suas medíocres possibilidades:
[…] Recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. […] Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
Não se trata, portanto, de simples amor aos chavões, mas de viver sugando os outros. O “caráter pacato”, eufemismo machadiano, esconde um parasita voraz — de discursos, atitudes e idéias.
Um ano depois, quando há um novo encontro, Benedito, já eleito, expõe a Inácio o que, meses antes, aprendera com o próprio amigo. E lê um trecho do primeiro discurso que pronunciará na Câmara, concluindo:
[…] E aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro.
Inácio já escutara sua frase antes, citada por Benedito como se pertencesse a ambos. Agora, vendo-a definitivamente seqüestrada, fica “assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasga a seus pés”.
Numa conclusão típica de Machado de Assis, Inácio descobre, mais que a personalidade doentia de um plagiário contumaz, “um efeito da lei da evolução”: não a vitória dos que se mimetizam, mas da própria fraude.
O cheiro de Benedito não lembra rosas. Seu “caráter pacato” exala um fedor nauseante. Como o personagem de Mikhail Lérmontov, Benedito é o repulsivo herói do nosso tempo.”
http://rodrigogurgel.com.br
Perceba-se que Machado não utiliza o substantivo “perfume”, preferindo o ambíguo “cheiro”, que pode se referir a um odor agradável ou à fetidez. Trata-se de uma imprecisão que se diluirá ao longo da história.
O artificialismo de Benedito começa a ser construído já no segundo parágrafo: ele tinge os cabelos utilizando um processo eficaz, só percebido por quem partilha da sua intimidade. E ainda que todo o resto seja natural — “pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relógio e roupa”, lista Inácio com sutil ironia, não incluindo no rol nenhuma virtude ou valor —, Benedito é, moralmente, “pacato”; e intelectualmente, “menos original”.
Ser “pacato” em termos de caráter é outra das ambigüidades machadianas, exuberantes de sentido, ressaltada pela narração que afeta naturalidade ao utilizar um tom descomprometido para tratar de certo tema crucial.
Ainda no terceiro parágrafo, a característica de ser “menos original” em termos intelectuais começa a ganhar sua verdadeira dimensão — e iluminar o caráter “pacato” de Benedito.
A descrição de Inácio não deixa dúvidas:
Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idéias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas; ninguém brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea, na Tijuca ou no Engenho Novo. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e as meias de seda. […]
A distância de algumas linhas entre a moralidade “pacata” e a “promiscuidade” do personagem não diminui a contradição do relato — antes, agiganta o comportamento passivo do narrador, cujo pasmo se concretizará somente no último parágrafo do conto.
Mas engana-se o leitor que pensa em Benedito como um relativista ou um hipócrita. O caso é mais complexo.
À descrição da amizade que se aprofunda entre esses dois personagens soma-se a recorrência do comportamento que explica a “menor originalidade”, em termos intelectuais, de Benedito.
O personagem que pode oferecer a Inácio a “mesa de Lúculo” — general romano conhecido por seus fastuosos jantares —, mas não a “casa de Platão”, é um colecionador de lugares-comuns. Falando de política, música, jardinagem ou da mulher que amou, utiliza apenas chavões. “Os princípios são tudo e os homens nada” ou as observações de que a rosa “é a rainha das flores” e a mulher amada tinha dentes que eram “verdadeiras pérolas” encontram-se no mesmo patamar: frases vazias de um repetidor incansável.
Na vida social, apesar da riqueza, Benedito move-se não graças à sua própria vontade. Não obedece aos impulsos genuínos de uma personalidade madura, independente, mas, sempre induzido por Inácio, é o amigo que inflama seu desejo de se candidatar a deputado ou se tornar ministro.
O núcleo da narrativa trata, no entanto, de algo ainda mais grave — e obriga o leitor a retornar, seguidas vezes, num crescendo, à questão moral.
Quando se conhecem, Inácio “compara o Brasil a uma criança que está engatinhando” e “só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”. Os olhos de Benedito brilham e ele exclama: “Bonita idéia!”.
O pensamento se concretiza na vida de Inácio, que tem personalidade própria: meses mais tarde, na Europa, quando os amigos se reencontram, o narrador trata, com investidores ingleses, da construção de uma estrada de ferro no Brasil.
Benedito não esconde seu deslumbramento diante da notícia. E passa a se comportar da mesma forma, buscando informações em ministérios e bancos. O mimetismo de Benedito é evidente — e vergonhoso.
Ali, em Londres, forma-se o deputado Benedito, mas segundo suas medíocres possibilidades:
[…] Recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. […] Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
Não se trata, portanto, de simples amor aos chavões, mas de viver sugando os outros. O “caráter pacato”, eufemismo machadiano, esconde um parasita voraz — de discursos, atitudes e idéias.
Um ano depois, quando há um novo encontro, Benedito, já eleito, expõe a Inácio o que, meses antes, aprendera com o próprio amigo. E lê um trecho do primeiro discurso que pronunciará na Câmara, concluindo:
[…] E aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro.
Inácio já escutara sua frase antes, citada por Benedito como se pertencesse a ambos. Agora, vendo-a definitivamente seqüestrada, fica “assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasga a seus pés”.
Numa conclusão típica de Machado de Assis, Inácio descobre, mais que a personalidade doentia de um plagiário contumaz, “um efeito da lei da evolução”: não a vitória dos que se mimetizam, mas da própria fraude.
O cheiro de Benedito não lembra rosas. Seu “caráter pacato” exala um fedor nauseante. Como o personagem de Mikhail Lérmontov, Benedito é o repulsivo herói do nosso tempo.”
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terça-feira, 28 de abril de 2015
A quimera da felicidade
"Do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espectáculo, acerbo e curioso espectáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
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