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sábado, 6 de dezembro de 2014

Os discursos maçônicos de Francisco em Estrasburgo

“Em 25 de novembro Francisco realizou uma viagem relâmpago à cidade francesa de Estrasburgo, durante a qual pronunciou dois discursos, um no Parlamento Europeu e outro no Conselho da Europa, duas das principais instituições laicas e maçônicas que fabricam leis contrárias à lei de Deus e que difundem a ideologia direito-humanista que anima todas as leis, diretivas, instituições e tratados europeus. O tom dos mesmos consistiu em uma peroração tipicamente bergogliana expondo uma série de lemas e de idéias força intrinsecamente subversivos e revolucionários, em total consonância com os sofismas fundadores da “civilização” moderna, maçônica e anticristã: naturalismo, deísmo, laicismo, humanismo, pluralismo e utopismo. Não farei uma análise exaustiva de todos os temas evocados em seus discursos, dado que se prestariam a um amplo desenvolvimento que excederia o marco destas breves linhas: selecionei somente algumas de suas declarações em relação ao papel que atribui às instituições européias, e que se situam nos antípodas da visão cristã do ser humano e da sociedade. Começo pelo discurso no Parlamento Europeu:
O centro do “ambicioso projeto político” da comunidade européia se baseia “na confiança no homem, não tanto como cidadão ou sujeito econômico” mas “no homem como pessoa dotada de uma dignidade transcendente (...). A dignidade é uma palavra chave que caracterizou o processo de recuperação” européia depois da segunda guerra mundial. “A percepção da importância dos direitos humanos (...) contribuiu para formar a consciência do valor de cada pessoa humana, única e irrepetível (...). A promoção dos direitos humanos desempenha um papel central no compromisso da União Européia, com o fim de favorecer a dignidade da pessoa (...). Trata-se de um compromisso importante e admirável.”
O regime revolucionário maçônico, liberal, laico e democrático foi constituído pela arrogância do homem que despreza a Jesus Cristo e à Igreja, que se pretende autônomo e isento de observar a lei divina e que não reconhece outra lei que não seja a que o “povo soberano” prescreve-se a si mesmo. Essa “civilização” anticrística, no sentido escatológico do termo, é aprovada, elogiada e promovida por Francisco, que recorda aos eurodeputados “a exigência de encarregar-se de manter viva a democracia, a democracia dos povos da Europa”, para explicar-lhes em seguida que “manter viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico”, assegurando-lhes depois que a esperança para a Europa reside em “reconhecer a centralidade da pessoa humana”, no “compromisso em favor da ecologia”, em “favorecer as políticas de emprego” e em realizar a construção européia em torno da “sacralidade da pessoa humana”.
No segundo discurso, pronunciado no Conselho da Europa, agradece a seus membros por sua “promoção da democracia, dos direitos humanos e do estado de direito”, com o que legitima o regime democrático, revolucionário e liberal, baseado na “soberania popular” e na exclusão de Deus e da Igreja da vida pública. Ficam assim excluídos do “estado de direito”, por princípio, as monarquias cristãs ou os regimes políticos católicos refratários aos sofismas liberais e aos utopismos “progressistas”, assimilados pelo sistema direito-humanista a “tiranias” e a “ditaduras” intrinsecamente reprováveis. Disse-lhes que para obter a paz tão ansiada “é necessário antes de tudo educar para ela, abandonando uma cultura do conflito, que tende ao medo do outro, à marginalização de quem pensa e vive de maneira diferente”, fórmula totalmente naturalista que prescinde da ordem sobrenatural, da missão civilizadora da Igreja e da redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Isso é muito diferente do que nos ensina a Igreja a respeito: “Só no dia em que os Estados e governos estimem ser um dever sagrado o ater-se aos ensinamentos e às prescrições de Jesus Cristo em suas relações interiores e exteriores é que chegarão a gozar de uma paz proveitosa, manterão relações de confiança recíproca e resolverão pacificamente os conflitos que possam surgir (...). Segue-se então que não poderá existir nenhuma paz verdadeira, a saber, a tão desejada paz de Cristo, enquanto os homens continuarem na vida pública e privada a não seguir com fidelidade os ensinamentos, os preceitos e os exemplos de Cristo. Uma vez assim constituída ordenadamente a sociedade, pode por fim a Igreja, desempenhando sua divina missão, fazer valerem todos e cada um dos direitos de Deus tanto sobre os indivíduos como sobre as sociedades. Nisso consiste a breve fórmula: o reino de Cristo (...). De tudo isso resulta claro que não há paz de Cristo sem o reino de Cristo.” (Encíclica Ubi Arcano, Pio XI, 1922)
Mas escusado será dizer que na visão naturalista de Francisco essas palavras de Pio XI não têm qualquer significado. Depois faz a seus ouvintes a seguinte pergunta retórica: “Como alcançar o objetivo ambicioso da paz?”, à qual responde do seguinte modo: “O caminho escolhido pelo Conselho da Europa é antes de tudo o da promoção dos direitos humanos, ao qual junta o desenvolvimento da democracia e o estado de direito. É uma tarefa particularmente valiosa, com significativas implicações éticas e sociais, visto que de uma correta compreensão desses termos e de uma reflexão constante sobre eles depende o desenvolvimento de nossas sociedades, sua convivência pacífica e seu futuro.”
Concluindo esta breve resenha: Toda a mensagem de Francisco se fundamenta no reconhecimento e na legitimação da ideologia iluminista e revolucionária dos “direitos humanos”, substituta do Evangelho e dos Mandamentos, e na promoção da falaz “dignidade da pessoa humana” que oculta a natureza caída do homem e a conseqüente necessidade na qual este se encontra de ser resgatado do pecado e salvo da condenação eterna pela graça divina comunicada por Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, através da Igreja, seu Corpo Místico e única Arca de Salvação.
Essa verdade teológica básica foi expulsa da constituição política moderna do Estado liberal e revolucionário, que repousa no livre “contrato social” contraído entre indivíduos “autônomos” e “soberanos”, os quais, obedecendo à “vontade geral”, imaginam-se emancipados de toda lei superior diferente daquela que eles mesmos decidam atribuir-se: lei natural, lei eclesiástica, lei divina. É a atitude do homem rebelde que, renunciando a sua condição de criatura, dependente moral e ontologicamente de seu Criador, constitui-se origem do bem e do mal, adorando sua “dignidade transcendente e inalienável” como seu fim último e declarando-se a razão de ser da sociedade e do Estado.
A democracia moderna não é nada mais que a concretização social dessa atitude de rebeldia. Ela encarna eminentemente o “sereis como deuses” do Éden, traduzido em espúria teoria política pelos “filo-sofistas” da “Ilustração” e do “Século das Luzes”... O regime democrático é o eco temporal do “non serviam” pronunciado por Satanás nas origens da Criação. A democracia moderna não é pois senão a “Demoncracia”, a “Besta” do Apocalipse, que aguarda impaciente a chegada de seu líder derradeiro, aquele cuja missão será a de consumar a rebelião da humanidade contra Deus. Mas sabemos que a besta política será ajudada por uma segunda besta, que corresponde à religião adulterada, prostituída e prevaricadora, a qual também contará com um chefe emblemático, que fará com que os moradores da terra se submetam incondicionalmente à primeira, adorando-a. E é necessário reconhecer que Francisco, através de seus discursos de Estrasburgo, se situa inequivocamente na linha do falso profeta descrito por São João em sua visão escatológica, apresentando-se aos olhos do mundo como um cordeiro, mas falando como um dragão...”

http://wwwapostoladoeucaristico.blogspot.com.br

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O discernimento da subversão

"Em sua última carta aos amigos e benfeitores, o superior do Seminário de Winona da FSSPX, pe. Le Roux, tece considerações interessantes a respeito da oposição entre subversão e tradição, considerando a primeira não somente como ferramenta, mas como núcleo da Revolução, a qual, por sua vez, institucionaliza o ódio à autoridade.
Estas considerações, no entanto, vão logo servir ao intento principal da carta, que é também o intento dos dirigentes atuais do referido instituto, ou seja, o reforço da própria autoridade pela estigmatização dos resistentes à nova orientação, e isto simplesmente negando a existência desta última. O autor da carta não titubeia em afirmar: “Algumas pessoas, enganadas por suspeitas repetidas e ampliadas pela internet, contraíram um medo irracional de uma suposta traição, inexistente e nunca provada (…). Seus ataques difamatórios (…) são somente ferramentas do espírito de subversão e revolução”.
Sim, querem ganhar pelo cansaço. Mas não nos cansemos. Recordemos então, brevemente, o motivo essencial que levou, leva e levará numerosos sacerdotes, fiéis e comunidades amigas a tomar distância do antigo carro-chefe da Tradição: a sua nova orientação. Em direção a que? À Igreja Conciliar. A prova principal: a resolução do capítulo de 2012, com suas 6 condições “roda-quadrada”, que oficializam a vontade de acordo, ou seja, a vontade de submissão à Roma conciliar, trocando a conversão desta pelas garantias da mesma, confiando, dando fé à Roma que perdeu a Fé (1).
Este é o ponto. Não é preciso que se chegue ao ensino formal de heresias para se constatar a desorientação, fruto da subversão instalada (2). Pois aqui a autoridade suspeita da Roma conciliar passa adiante da Fé, bem comum necessário sem o qual não se alcança a finalidade da Igreja, a salvação das almas, que é sua lei suprema (3). Não há garantias que justifiquem essa vontade de submissão, no máximo elas podem disfarçar sua malignidade, mais ou menos como a falsa justificação protestante cobriria os pecados sem os apagar realmente.
Além disso, essa mudança de orientação devia permanecer conhecida de poucos, e se apresentou esse Capítulo como um triunfo de pacificação, como um alívio, uma resolução dos problemas. Assim, a subversão estava no seu ambiente: o segredo e o falso compromisso, imobilizadores eficazes da maioria (4).
Estas constatações estão longe de ser as únicas, muitos escreveram sobre outros aspectos da crise da FSSPX e da Tradição como um todo. Mas elas são suficientes para mostrar o papel de funcionário sem escrúpulos que faz o pe. Le Roux, negando friamente toda traição e imputando a subversão aos que resistem a ela. Não trabalha com a realidade, mas intenta impor uma visão que, com certeza, não se exerce à luz da Fé.
“Nós não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um certo efeito.”
Josef Goebbels.
(1)- Por mais escandalosa que seja, a declaração de abril de 2012 não é a chaga mais profunda nessa crise. Poder-se-ia até imaginar que, numa situação de pressão, as autoridades da FSSPX chegassem a, finalmente, retratá-la. Não seria o fim da crise, pois outra declaração ambígua poderia tranquilamente sair de uma direção que aceita passar pela contradição nas suas resoluções para se submeter à Roma tal qual ela é.
(2) – Note-se que mesmo na Carta Magna da Igreja Conciliar, os documentos do Vaticano II, as novidades não aparecem de forma evidente, talvez somente em 5% dos textos… Mas os outros 95% não são íntegros. Porque o Concílio como tal foi perpassado por uma atração maligna, expressa sobretudo no célebre discurso de encerramento: a vergonhosa simpatia entre a religião de Deus que quis ser homem e a da religião do homem que quer ser Deus. Hoje muitos constatam o desastre, mas na época poucos o pressentiram. Os pontífices da revolução com tiara e pluvial se encarregaram de fomentar a passividade da maioria: Credo do Povo de Deus, declarações sobre a fumaça de Satanás, algumas punições para os mais radicais, etc. A passividade foi mantida, o desastre aí está, e a estratégia foi tão bem sucedida que a passividade permanece.
(3) – Ainda ecoa nos nossos ouvidos esta triste confissão de desistência contida na resposta do Conselho Geral aos 3 bispos: “Pelo bem-comum da Fraternidade, preferiríamos de longe a solução atual de statu quo intermediário, mas, manifestamente, Roma não tolera mais”.
(4) – Pois a Subversão trabalha mais pela imobilização que pela mobilização da maioria. Isto porque ela quer garantir que a sua minoria ativa trabalhe sem possível concorrência, a fim de que os fins subversivos sejam melhor alcançados. Numa sociedade hierárquica que tanto preza a obediência, como a Igreja, ela então procurará atingir a cabeça, e depois imporá a mudança pela falsa obediência. Falará muito de liberdade quanto estiver para se apossar do comando (durante o Vaticano II muito se falou de liberdade), mas falará mais de obediência quando, ocupado o poder, encontrar resistência.
Ir. Joaquim Daniel Maria de Sant’Ana, FBMV."

http://fbmv.wordpress.com

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Todo cuidado é pouco com os liberais

Todo cuidado é pouco com os liberais (hoje em dia querem ser chamados de “conservadores”), tanto os teístas como os coerentes até as últimas conseqüências com sua doutrina. Os teístas poderiam parecer menos perigosos, mas não são. Caberia perguntar-lhes: se o homem se afasta dos mandamentos de Deus, como pode ainda dizer que acredita nEle, e não somente em si mesmo? Como pode dizer que O ama, se não acredita que Ele especificou como quer ser adorado? Um deus que não tivesse detalhado isso ao homem e que deixasse de lado qualquer código moral para aperfeiçoamento de sua criatura racional seria um deus odioso e injusto. Um deus que não se revelasse, que deixasse unicamente à razão natural do homem sua descoberta e nisso terminasse sua relação com o homem, seria um deus sem amor, e com isso não haveria motivo para que tivesse criado nem o homem, nem o universo. Pois não basta crer em Deus, se é verdade que se crê; é preciso também amá-Lo. Além disso, a liberdade que o liberal busca é a de praticar o mal, e o mal não está em Deus. Um liberal teísta é, portanto, uma contradictio in adjecto.
Os liberais coerentes apenas conservam um momento passado da revolução, mas não chegam a considerá-la intrinsecamente má; não gostariam de voltar ao estado anterior a ela, se isso fosse possível. São os que não temem ir até o fim nas conseqüências de sua ideologia, os que esquecem a dimensão sobrenatural e tratam da vida como se o homem por si mesmo e contando somente com suas forças naturais pudesse melhorar as condições de sua existência. Mas não pode, como Nosso Senhor mesmo afirmou. Sem Sua ajuda somos galhos secos que só prestam para ser lançados ao fogo. O homem sem a graça divina é mero joguete nas mãos dos demônios. Nestas condições até suas mais nobres realizações começam a agir contra ele mesmo. Por isso, os artifícios pirotécnicos de estilo podem encantar e atrair seguidores, mas a longo prazo as propostas dos liberais não terão efeito, em razão justamente dessa ausência de consideração da sobrenaturalidade; e tal não poderia ainda ser diferente, considerando que são descendentes espirituais dos mesmos liberais jacobinos determinados a destruir trono e altar. Na sanha de destruição da Igreja, propunham também a destruição dos canais da graça divina; e sem esses canais, a humanidade não tem mais como amenizar os efeitos nefastos do pecado original. Hoje seu discurso pode parecer menos radical, pois foram o segundo momento da Revolução, já ultrapassado por outros mais radicais, um discurso que no entanto guarda ainda este impulso negativo fundamental, que eles deixam para expor em momentos bem escolhidos. Por não acreditarem na existência de uma verdade objetiva e colocarem o homem no lugar de Deus, tais "conservadores" acabam defendendo posições em perfeita negação da lei natural, como os que apóiam a contracepção e o aborto. Isso deveria servir de alerta aos católicos que já são iludidos por sua própria hierarquia; não devem aceitar cegamente suas teses, por mais sedutoras que pareçam, pois no fundo não se ordenam ao pensamento de Deus, padecendo de defeitos fundamentais.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pio VI: A liberdade religiosa é um direito monstruoso

"O efeito necessário da Constituição decretada pela Assembléia é aniquilar a religião católica e, com ela, a obediência devida aos reis.
Com este propósito ela estabelece como um direito humano na sociedade essa liberdade absoluta, que não só assegura o direito de permanecer indiferente às opiniões religiosas, como também concede plena autorização para livremente pensar, falar e escrever, e até mesmo imprimir tudo o que qualquer um queira em matéria religiosa, inclusive as mais desordenadas idéias.
Não obstante, é um direito monstruoso, o que a Assembléia reivindica como resultado da igualdade e da liberdade natural do homem.
Mas o que poderia ser mais insensato, do que estabelecer entre os homens essa igualdade e essa liberdade sem limites, que reprime a razão – o mais precioso dom natural dado ao homem e que o distingue dos animais?
Depois de haver criado o homem em um lugar provido com coisas deleitáveis, Deus não o ameaçou com a morte se comesse a fruta da árvore do bem e do mal? E com essa primeira proibição Ele não estabeleceu limites para a sua liberdade? Depois que o homem desobedeceu a ordem, incorrendo por meio disso em culpa, Deus não lhe impôs novas obrigações, por meio de Moisés? E apesar de deixar ao homem o livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal, Deus não lhe forneceu os preceitos e mandamentos, que poderiam salvá-lo "se ele os observasse"?
De onde, então, é a liberdade de pensamento e ação, que a Assembléia outorgou ao homem na sociedade, como um indiscutível direito natural? A invenção desse direito não é contrária ao direito do Supremo Criador, a quem nós devemos nossa existência e tudo o que temos? Podemos ignorar o fato de que o homem não foi criado apenas para si próprio, mas para ser útil ao seu próximo? ...
O homem deve usar sua razão antes de tudo para mostrar-se agradecido ao seu Soberano Criador, para honrá-lo e admirá-lo, e para submeter toda a sua pessoa a Ele. Para isso, desde a sua infância, deve ser submisso àqueles que são superiores a ele em idade; deve ser educado e instruído por suas lições; deve ordenar sua vida de acordo com as leis da razão, da sociedade e da religião.
Essa exageração da igualdade e da liberdade, portanto, são para ele, desde o momento em que nasce, não mais do que sonhos imaginários e palavras sem sentido."
(Pio VI, Breve Quod Aliquantum)

http://www.sacralidade.com

domingo, 2 de março de 2014

O Cristianismo é contrário à democracia

“Se em matéria política há algo claro na Sagrada Escritura e na doutrina do Magistério eclesiástico é a verdade de que o cristianismo é contrário à democracia. Nada na história do povo de Deus nem na história da Igreja leva a crer que na vida pública deve-se fazer a vontade do povo – o democrático -; e, pelo contrário, tudo leva a crer que na vida pública deve-se fazer a vontade de Deus. Está claro que se, na mente de Deus, o melhor regime fosse a democracia, Deus teria proposto a Moisés e Jesus Cristo teria proposto à sua Igreja o regime democrático. E no que concerne ao regime das ordens religiosas, no qual alguns quiseram ver o início da democracia moderna, como se vê em “Le principe de la majorité” de C. Leclerq, inicialmente, nas ordens religiosas e nos mosteiros decidia a “sanior pars” - a parte mais sã ou seleta -, não a “maior pars” - a maioria -. Só se chegou na organização religiosa à democracia “monacal”, como diria Menéndez Pelayo, quando “a parte mais sã” coincidiu com “a maioria”: pois a maioria numa comunidade religiosa é boa, e o mal numa comunidade religiosa é a minoria; ou seja, quando a vontade da maioria de uma coletividade – religiosa ou civil – coincide de fato com a vontade de Deus, não é inconveniente, mas conveniente o regime democrático. Pelo contrário, quando a vontade da maioria dos cidadãos é distinta e contrária à vontade de Deus, desconforme à Lei de Deus, é má a democracia, não é conveniente a democracia, na medida em que contraria a Lei natural, o direito natural. Por isso, o regime democrático é bom para uma coletividade de verdadeiros cristãos, de católicos que pensam e querem e agem conforme a vontade de Deus, na mesma medida que é um regime mal numa sociedade pluralista, numa sociedade onde os cidadãos fazem caso omisso do saber e do querer de Deus.
Há outro discurso perfeitamente claro e conclusivo: a democracia liberal, o que vulgar e comumente se chama democracia, se baseia no liberalismo filosófico, quer dizer, no racionalismo – a crença de que nada há válido se não for racional – e no naturalismo – a crença de que se deve rejeitar tudo aquilo que se apresente com pretensões de sobrenatural. De fato, a democracia espanhola atual, tal como a francesa, a britânica, a sueca, a estadunidense, a italiana etc, está baseada em princípios puramente racionalistas e naturalistas, ateus ou, o que equivale na prática, laicistas, laicos. É assim que o liberalismo filosófico (como se vê na encíclica “Libertas”, de Leão XIII, e no “Syllabus”, de Pio IX) é contrário à fé e à filosofia e teologia políticas do catolicismo; logo, a democracia liberal é contrária e incompatível com o catolicismo, com o cristianismo autêntico. Isto quer dizer que quem deseja ser substantivamente católico só pode ser democrata adjetivamente, secundariamente, acessoriamente, ou seja, falsamente. E vice-versa. Vemo-lo já na Lei mosaica: “Não te deixes arrastar ao mal pela multidão” (Ex. 23,2); o fiel a Deus não pode aceitar a lei que lhe imponha democraticamente a multidão, se for contrária à Lei de Deus. E na mesma Lei mosaica se considera a possibilidade de “a assembléia toda do povo” fazer “algo que os mandamentos de Javé proíbem”, dado que na Bíblia “a voz do povo não é a voz de Deus”. Ali se diz qual deve ser o sacrifício que o povo deve oferecer “pelo pecado da assembléia” (Lev. 4, 13-21). Daí que o filho de Deus deve ser um resistente e objetor de consciência constante na democracia laica. E, por isso, Pio XII, em sua rádio-mensagem de Natal em 1944, aceita somente a “democracia sã”, a que respeita a Lei de Deus. Luís M. Ansón, diretor geral da agência de notícias EFE, publicou no ABC de Madrid (13/10/59) um belo artigo intitulado “Pio XII e a democracia” com textos de vários papas demonstrando que o cristianismo é contrário à democracia.
Por isso, os que se declaram pró-democratas, “ipso facto” se colocam em contradição com a doutrina católica ensinada pela Tradição, as Escrituras e os Papas.”
(Rafael Gambra, Cristianismo contra Democracia)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Estado imbecil do liberalismo

“O conceito da liberdade ilimitada e arbitrária, e o conceito agnóstico do mundo inacessível ao entendimento humano, aonde se relegam as verdades religiosas, produziram como aplicação política um monstro singular que se chama Estado neutro. A neutralidade do Estado em matéria religiosa! Em uma sociedade dividida em crenças, quer se refiram à ordem natural ou à sobrenatural, o Estado não pode ter mais que três posições e adotar três atitudes: pode representar a maioria das crenças dessa sociedade, pode representar um fragmento, ainda que seja a maioria delas, ou pode tentar a representação daquilo em que coincidam todos.
No primeiro caso, fará do comum regra, que tratará de estender-se e converter-se em única. No segundo, elevará a exceção a regra comum, não expressando a opinião dos mais, mas impondo a dos menos, embora, logicamente, invocando a democracia e a vontade coletiva. No terceiro caso, a representação do que é comum acima do que é diferente é a que se costuma invocar para disfarçar o segundo, que é o que se pratica. Pode existir esse Estado neutro?
Quando a divisão entre as crenças é tão profunda que da ordem sobrenatural transcende às primeiras verdades da ordem natural; quando os homens não estão de acordo nem acerca de sua origem, nem de sua natureza, nem de seu destino, nem, por conseguinte, acerca de suas relações, nem das normas de sua conduta, então a oposição é tão grande, que o Estado que cruze os braços em presença dessas diferenças se encontrará colocado em uma situação muito estranha: ele se declarará indiferente ante as diferenças, e não será raro que os crentes e os não-crentes dêem de ombros e se declarem também indiferentes, com uma indiferença que faça causa comum com o desprezo, a uma entidade que não toma parte naquelas coisas que mais interessam aos homens.
Estado neutro! Um Estado que não sabe nada nem afirma nada acerca das crenças em um mundo sobrenatural e das relações com ele, que não sabe nada acerca das origens do homem, que ignora qual é a natureza humana, qual é seu destino e quais são as normas de sua vida individual e social, é um Estado tão estranho, que, ao não afirmar nada do que aos homens mais importa, ao elevar a dogma a ignorância, que por ser de coisas supremas é a suprema ignorância, vem a declarar-se inútil e imbecil.
Imbecil, sim, porque o Estado idiota, como o chamava graficamente Campoamor, é aquele que não sabe nada dos problemas que o sepulcro levanta e dos problemas que o sepulcro resolve. Declara-se incapaz de governar alguém quem diz, referindo-se à ordem religiosa e à ordem moral e ao fundamentalmente jurídico: “Eu não posso afirmar nada dessas coisas, porque não sei de nada.” E qual é a conseqüência imediata desse conceito de Estado neutro? A de não intervir nesses problemas que ele mesmo declara que ignora, a de declarar-se incompetente e deixá-los aos que os conhecem, já que ele emite para si mesmo uma certidão de incompetência e até de imbecilidade.
E, no entanto, faz tudo ao contrário. É o Estado que mais intervém. E por que intervém? Porque sua neutralidade em relação a todas as crenças que lutam e que combatem na sociedade não é mais do que o resultado de um juízo em que as declara duvidosas, reduzindo-as a meras opiniões; e ao trasladar seu parecer aos atos e às leis, impõe esse juízo, afirmando a negação ou a dúvida, quer dizer, impondo a impiedade ou impondo o ceticismo como dogmas negativos de um Estado que, além de ser idiota, vem a declarar-se Pontífice ao revés.
Esse Estado intervém no ensino; e – coisa singular, senhores! - o Estado, que não é agricultor; o Estado, que não é industrial; o Estado, que não é comerciante, embora tenha a obrigação de cooperar e de favorecer o comércio, a agricultura e a indústria, o Estado se declara a si mesmo, não cooperador nem fomentador do ensino, mas pedagogo supremo e até mestre único. E que contradição tão singular! Não sabe nada dos problemas mais transcendentais, dos que foram sempre os primeiros em todos os momentos da História, e ao mesmo tempo não tolera competências e quer ser mestre único das gerações presentes e vindouras! Pode-se conceber que um Estado que afirme uma ordem natural e sobrenatural, que um Estado crente como o das idades cristãs, e até um Estado budista, ou um Estado muçulmano, trate, servindo como um instrumento à crença que professa, de levá-la à prática e de infundi-la; mas que um Estado que se declara a si mesmo interconfessional, que declara que não sabe nada do que ninguém deve ignorar, nem por obrigação, nem por cultura, se declare a si mesmo incompetente, primeiro, e o mais competente, depois, para intervir no ensino, isso é o absurdo. E, no entanto, vede como intervém. A gradação é a seguinte: primeiro se declara facultativo no ensino o ensino religioso; depois se declara neutra a escola, e mais tarde se suprime a religião até nas escolas privadas, centralizando o ensino nas públicas, e dispersando os mestres religiosos para que atrás da ignorância religiosa venha o ódio da escola francamente atéia.”
(Juan Vázquez de Mella y Fanjul, Examen del Nuevo Derecho a la Ignorancia Religiosa)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O servilismo confortável das massas

“A verdade que Dostoievski põe na boca do Grande inquisidor é que a humanidade nunca procurou a liberdade, nem nunca o fará. As religiões seculares dos tempos modernos dizem-nos que os seres humanos anseiam por ser livres; e é verdade que qualquer tipo de restrições os impacienta. No entanto, é raro que os indivíduos estimem a sua liberdade acima do conforto que o servilismo compra, e mais raro ainda que o faça um povo inteiro. À proposição de Rousseau, segundo a qual os homens nasciam livres, embora estivessem por toda a parte acorrentados, Joseph de Maistre opunha que pensar, pelo fato de umas quantas pessoas de vez em quando procurarem a liberdade, que todos os seres humanos a desejavam, era como pensar que, por existirem peixes-voadores, voar faz parte da natureza dos peixes.”
(John Gray, Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals)

Tradução de Miguel Serras Pereira

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quando o liberalismo e o sedevacantismo se encontram

“Depois de muito tempo, sabemos que os liberais e os sedevacantistas chegaram a exagerações, respectivamente à esquerda e à direita, partindo das mesmas premissas. Eis o raciocínio que eles fazem (mais ou menos conscientemente):
Maior: o papa é infalível.
Menor: ora, os últimos papas são liberais.
Conclusões:
- (liberal) então é preciso fazer-se liberal.
- (sedevacantista) então estes últimos “papas” não são verdadeiros papas.
Aqui, a lógica é boa e a “menor” também é; então, se as conclusões deixam a desejar, devemos buscar o problema na premissa maior, raiz comum das duas conclusões opostas, e que explica como um fiel liberal do Novus Ordo ao chegar à Tradição pode ser tentado a se tornar sedevacantista, e como um sedevacantista feroz, depois de anos defendendo a sua posição, pode de um dia para o outro tornar-se liberal. Isso é porque os liberais compartem com os sedevacantistas uma noção da infalibilidade muito difundida a partir de 1870 (concílio Vaticano I), noção, no entanto, falsa.
Não é que a definição do magistério solene ou extraordinário infalível do Papa fosse uma coisa má per se, ao contrário; mas per accidens, pela malícia dos homens, ela contribuiu muito a uma desvalorização da Tradição no sentido usado por São Paulo dizendo aos Gálatas: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema!” (Gal 1, 8). Quem compreende, ainda hoje, todo o alcance desta impressionante exclamação!
A definição de 1870 foi boa per se, porque ela permitiu ancorar os espíritos católicos naquilo onde os liberais faziam tudo o possível para deixá-los à deriva. Mas, depois que a definição foi realizada, os maliciosos liberais mudaram imediatamente a sua tática: “Sim, de acordo, sem dúvida, nós sempre acreditamos (hipócritas!) que existe um magistério a priori infalível no cume do ensino da Igreja, mas, abaixo desse cume quem não vê agora que nada é absolutamente seguro?” E assim os liberais deliberadamente começaram a pôr em dúvida toda verdade abaixo deste cume constituído pelo corpo de verdades definidas infalivelmente segundo as quatro condições da nova definição de 1870.
E os católicos a partir desse tempo, mesmo dizendo que não, que a definição não cria a verdade, que o cume não faz a montanha, que existe no magistério da Igreja todo um conjunto – uma montanha – de verdades certas abaixo daquele cume, mesmo assim nada mudou. A partir de 1870, no espírito das pessoas, pouco a pouco era o cume que criava cada vez mais a montanha e não era mais a montanha que criava o cume.
Mas reflitamos um momento. Não é a definição que faz a verdade. Ela não causa senão a nossa certeza da verdade. A ordem real é a seguinte: 1º) O objeto real, a realidade. 2º) A verdade da proposição que enuncia essa realidade. 3º) A definição que vem reforçar o nosso conhecimento dessa verdade. 4º) A certeza no espírito do católico piedoso a partir de quando ele sabe que tal verdade é objeto de uma definição.
Repito: 1º) Objeto. 2º) Verdade. 3º) Definição. 4º) Certeza.
Mas o efeito acidental da definição de 1870 foi de inverter esta ordem no espírito dos católicos e de colocar a definição antes da verdade, como se fosse a definição que criasse a verdade. É evidentemente falso, por pouco que pensemos, mas a prova que os católicos chegaram a pensar assim são os livros de teologia escritos entre 1870 em 1950, que para estabelecer uma verdade não solenemente definida, se sentem – visivelmente – na necessidade de construir como um magistério ordinário infalível a priori, copiado do magistério extraordinário infalível a priori, somente com três condições, ou três condições e meia, no lugar de quatro. Mas precisamente não é assim! São necessárias quatro condições e não somente três e meia para que haja a priori uma infalibilidade. Mas este magistério com três condições e meia era como necessário para assentar uma verdade católica nos espíritos falsamente deslumbrados pelo magistério solene com quatro condições.
Expliquemos a nossa comparação: (1) a montanha cria (2) o cume, ao qual (3) a neve acrescenta só (4) a visibilidade. Quem pensaria em dizer que é a neve que cria o cume, ou que é o cume que cria a montanha? Do mesmo modo, é a Tradição que no momento da morte do último dos apóstolos, constituía já todo o corpo da doutrina revelada da Igreja; as diversas definições de várias verdades neste corpo de doutrina não acrescentaram nada mais a essas verdades que a sua certeza para os católicos. No entanto, à medida que a caridade se resfria, a camada de neve no cume avança cada vez mais.
Mas daí a dizer que, posto que não há neve, não há montanha, ou que, onde não existe definição com as quatro condições, não há verdades certas, seria perder todo o sentido da montanha, todo o sentido da verdade, é a doença do subjetivismo que não pode conceber nenhuma verdade objetiva sem certeza subjetiva.
Então os “bons” autores dos livros começaram a entrar em certo modo no jogo dos liberais, sem dúvida inconscientemente, eclipsando a verdade objetiva atrás da certeza subjetiva, e dessa forma eles contribuíram a preparar a catástrofe do Vaticano II, e deste “magistério ordinário supremo” de Paulo VI graças ao qual, de fato, ele agrediu gravemente a Igreja! Eis aqui o problema de Michael Davies, por exemplo, que nega toda nocividade intrínseca ao missal da missa nova, pelo fato que teria sido promulgado “solenemente” pelo supremo Legislador.
Bem ao contrário, eis aqui a grandeza de Dom Lefebvre, que soube guardar o sentido católico da montanha, como São Paulo na sua epístola aos Gálatas, quando quase todo o universo católico se deixou cegar pelo brilho da neve.”
(Dom Richard Williamson, F.S.S.P.X, Considerações Libertadoras sobre a Infalibilidade)

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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sobre o defeito de confirmação por parte dos papas conciliares

“O exercício liberal da autoridade surpreende o leigo porque mostra ao mesmo tempo, em aparente incoerência, aspectos de extrema fraqueza e de extremo despotismo; mas isso não provém de defeitos de temperamento, e sim dos princípios mesmos do liberalismo. A autoridade liberal torna-se fraca diante das vozes que encarnam a “opinião pública”: o jornalismo na ordem política e os neoteólogos no religioso; mas, uma vez justificada pelo infalível “sentir comum”, transforma-se no mais absoluto dos poderes. Paulo VI cedeu gemendo a alguns poucos peritos conciliares, mas tratou como a crianças a multidão de bispos do Coetus Internationalis Patrum; foi cem vezes vencido pelos especialistas do Consilium para a reforma da liturgia, mas impôs seu missal passando por cima das resistências mais legítimas de bispos, sacerdotes e fiéis do mundo inteiro. Por isso não se pode dizer que o Concílio se tenha desviado contra a vontade dos Papas conciliares, senão que, muito pelo contrário, o pôde fazer graças ao despótico apoio deles.
No entanto, é preciso afirmar que faltou completamente uma verdadeira “confirmação” por parte do Romano Pontífice aos atos e decretos do Concílio. Como resulta do que expusemos – e do que exporemos nos próximos artigos –, para a mentalidade liberal o termo “confirmar” significa algo não só diferente do mas oposto ao que significava para o pensamento tradicional. Um Papa católico “confirma” as declarações de todo um Concílio fundado na própria autoridade que tem de Cristo, julgando tudo como supremo mestre, de tal maneira que, se lhe parecem corretas, as aprova firmando-as como doutrina; se não lhe parecem corretas, reprova-as, e de nada vale o dito aos olhos da Igreja. Um Papa liberal, em contrapartida, “confirma” os ensinamentos do Concílio considerando-se instrumento da comunidade eclesial para autenticar como supremo tabelião o que o Espírito Santo inspirou ao sensus fidelium, os neoteólogos expressaram em doutrinas e os bispos unificaram em poucas sentenças; de maneira tal que, pense o que pensar, é obrigado a assinar o que o Espírito ensina na Igreja. Pois bem, ainda que o Espírito Santo não deixe de inspirar a menor das almas, não garante de modo algum as manifestações exteriores do comum dos fiéis, cada vez mais manipuladas pelos donos da publicidade. Portanto, a “confirmação” liberal não vale nada e deixa as declarações conciliares não só sem a nota de infalibilidade, mas também – como depois diremos – sem nenhuma autoridade doutrinal. Os Papas conciliares aprovaram e impuseram a doutrina do Concílio, e da maneira mais tirânica, mas não como mestres vicários de Cristo, única modalidade assistida pela infalibilidade.”
(Pe. Álvaro Calderón, La Lámpada bajo el Celemín)

Tradução de Carlos Nougué

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A docilidade católica diante do magistério

“O magistério da Igreja participa da mesma autoridade de Deus ao ensinar, razão por que se lhe deve em grau máximo “fé de autoridade” e não “fé de credibilidade”. Quando se pronuncia, o católico só deve julgar “quem o diz” e ser dócil em aceitar “o que se diz”. Mas, tanto ao julgar “quem o diz” como ao aceitar “o que se diz”, deve fazê-lo formalmente e não materialmente:
– Ao julgar “quem” ensina, não deve considerar tanto a pessoa física que se pronuncia, seja o Papa ou os bispos, mas a pessoa moral ou personalidade assumida em cuja autoridade se funda o ensinamento. O católico deve reconhecer de maneira clara e expressa que os Pastores se pronunciam in persona Christi e não em pessoa própria ou de qualquer outra entidade criada: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema” (Gál I, 8).
– Ao aceitar “o que” se ensina, não devem considerar somente as sentenças pronunciadas, mas também o grau de credibilidade que a mesma autoridade lhes reconhece: infalíveis, certas ou opináveis. E também nisso é preciso docilidade para não diminuir nem somar fazendo, por exemplo, com que o que se ensina como certo seja diminuído a opinável ou aumentado a infalível.
Pois bem, por causa de seu liberalismo, o magistério conciliar apresenta-se diante do atônito católico de maneira inédita em ambos os aspectos:
– Não se expressa nem in persona Christi, nem in propria persona, mas “in persona Populi Dei”, argüindo erradamente que também é infalível em seu sensus fidei.
– Não propõe suas novidades como infalíveis, nem como certas, nem como opináveis, mas como “discutíveis”, crendo equivocadamente que alcançam infalibilidade através do “diálogo em comunhão” do Povo de Deus.
Portanto, o católico dócil ao magistério, ao não reconhecer claramente a voz do Mestre no novo e estranho modo do magistério conciliar, não aceita nada que lhe pareça diferente do Evangelho anunciado pelo magistério infalível anterior; e, como os próprios Pastores o convidam ao diálogo, vendo a fé em perigo, vê-se obrigado a entrar numa discussão inconcebível no marco do magistério tradicional.”
(Pe. Álvaro Calderón, F.S.S.P.X, La Lámpada bajo el Celemín)

Tradução de Carlos Nougué

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Pôncio Pilatos

“Sempre dizemos ao recitar o Credo, ou Símbolo da Fé, que Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu “sob o poder de Pôncio Pilatos” (sub Pontio Pilato). Não deixa de ser surpreendente que se mencione em tão elevada ocasião a um mero governador romano de província que não procurou nem desejou a morte de Jesus – que tratou até mesmo de evitá-la - , e não a Herodes ou a Caifás ou aos Príncipes dos Sacerdotes que a promoveram e conseguiram, ou a Judas que o entregou, ou, em outro caso, ao Imperador de Roma de quem Pilatos era um simples delegado.
A atual tradução em castelhano, realizada pela Igreja pós-conciliar, substitui a expressão “sob o poder de” para “nos tempos de”. A inépcia é tamanha que não poderia ter sido um simples “aggiornamento” da língua. Em todo o mundo, ninguém conservaria a memória de Pôncio Pilatos se ele não tivesse intervindo no processo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um biógrafo de Pilatos poderia ter dito que viveu nos tempos de Cristo, mas que Cristo morreu nos tempos de Pilatos carece por completo de sentido e possui um certo caráter grotesco. Seria como dizer de Napoleão que morreu nos tempos de Fouché. Até mesmo dizer que morreu nos tempos do Imperador Tibério soaria estranho, porque a situação histórica de Cristo é incomparavelmente mais relevante que a cronologia dos imperadores romanos. Mas colocar a referência logo em Pôncio Pilatos?
É evidente que essa alusão a Pilatos jamais foi considerada como uma referência temporal e não seria hoje que se lhe outorgaria um tal caráter, passados dois mil anos daqueles fatos. Trata-se, ao invés, de substituir outra coisa por essa localização histórica. E de fazer essa substituição por algum motivo. Que coisa e que motivo? Eis aqui a questão.
Antes de mais nada, por que se menciona a Pôncio Pilatos no Credo e não àqueles outros personagens mais diretamente interessados na morte de Cristo? Por que foi condenado a ser mencionado na morte de Cristo durante séculos e séculos um homem que unicamente se mostrou débil e atemorizado, que procurou, até certo ponto, evitar o desenlace?
Há uma primeira resposta, que talvez pudesse ser suficiente: porque em Pilatos estava o poder - e o livre arbítrio - de decidir a morte e suplício de Cristo. Os judeus não teriam esse poder se Pilatos não lhes tivesse concedido. O César estava muito longe e não se inteirava sequer do que acontecia e do que em seu nome se decidia em Jerusalém.
Essa explicação significaria a responsabilidade pessoal que cabe a cada homem em suas grandes decisões e a responsabilidade muito especial do governante que não exerce uma simples função moderadora e dialogante, mas um ministério sagrado de justiça. Pilatos não queria a morte de Cristo, mas era o único que poderia evitá-la, e não a evitou; pelo contrário, sancionou-a com sua inibição e sua vênia. Essa estranha menção àquele obscuro governador de província seria como uma proclamação, no Símbolo de nossa fé, da realidade do livre arbítrio humano, da responsabilidade pessoal e do sagrado ministério do governante ou do juiz.
Contudo, caberia ainda uma outra interpretação (entre tantas mais, dado que a Palavra inspirada é insondável):
Que sabemos nós de Pôncio Pilatos? Segundo o Evangelho de São João, quando Cristo se declara testemunha da verdade diante dele e afirma que os que são da verdade escutam sua voz, Pilatos pergunta: “que é a verdade?” (quid est veritas?) Não pergunta “que verdade é essa?” ou “de qual verdade falas?”, mas “que é a verdade?” Ao que Cristo não respondeu.
Pilatos, como tantos romanos decadentes e céticos, não acreditava na verdade nem servia a nenhuma verdade. Cria na verdade de cada um, na verdade relativa do homem, de cada homem, verdade subjetiva, em evolução. Se tivesse falado a linguagem de hoje, teria contestado: “A verdade! Então és um radical? Talvez queiras dizer tua verdade, tua opinião, não mais valiosa que qualquer outra opinião.”
Pilatos não professava o liberalismo como doutrina pública porque tal teoria não existia em seu tempo: só havia então o ceticismo pessoal e o relativismo da verdade. Ele pertencia a um povo religioso - o romano - que sacralizava o poder até a própria figura do Imperador. Tampouco os judeus eram liberais; eram, ao invés, governados por uma teocracia. Ali só Pilatos era um precursor, em caráter individual, da teoria que nega a verdade e o bem objetivos, com relação aos quais se deve julgar e governar. Como liberal subjetivo, para resolver a questão socorreu-se da única fonte que resta a quem só crê em verdade e ordem subjetivos: a opinião da multidão. Governar, em tal caso, é responder aos desejos da maioria, “ouvir o povo”, facilitar a paz e a convivência, dado que a sociedade nada mais é que convivência e ninguém pode se arvorar como dono da verdade, porque “que é a verdade?” Em conseqüência, lavou as mãos no assunto para não sublevar o povo: uma solução “democrática”. Além disso, César, como qualquer homem, não gostava de complicações e tampouco analisaria detidamente a justiça daquele processo remoto que só tinha uma vítima...
Caberia então pensar que, quando se diz no Credo que “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos” (ao outorgar tal relevância a esse nome), está-se querendo dizer – vendo em Pilatos um símbolo - algo como “Cristo morreu sob o poder do liberalismo e da democracia” (Não como regime jurídico ou político válido, mas como disposição subjetiva na mente e no coração de um homem). Se apenas soubéssemos de Pilatos que autorizou a morte de Cristo por debilidade ou por medo, essa alusão única permaneceria misteriosa, mas essa pergunta prévia, “que é a verdade?”, à distância em que nos encontramos, é bastante reveladora.
Aquilo que, em conseqüência, pretende esconder a Igreja pós-conciliar nas atuais traduções, com essa absurda localização cronológica em Pôncio Pilatos, é a referência a seu poder, à índole de seu poder e ao liberalismo de seu coração. E a razão está em que o espírito que anima essa Igreja atual (apesar de atual) está sumamente próximo do espírito de Pilatos: compreende-o e acompanha-o cordialmente. Ela também crucificaria ou permitiria a crucifixão de quem afirmasse uma verdade ou o dever de pertencer a essa verdade e somente a ela.
Na aurora de nosso século, São Pio X - o único pontífice santo da modernidade - teve de enfrentar (e julgar) uma doutrina - e uma atitude - a que chamou de “modernismo”. Tratava-se, a rigor, do liberalismo dentro da própria Igreja.
O modernismo afirmava que o conjunto de verdades ou dogmas dos quais a Igreja se supõe depositária é, na realidade, patrimônio da humanidade inteira, e que a religião - que deve ser dinâmica e não, estática - se identifica com a razão humana e seu desenvolvimento, quer dizer, com o progresso da ciência. Todas as religiões - segundo essa teoria - possuem uma parcela de verdade, e sua evolução as aproxima em convergência até uma religião do futuro, totalmente racional e humana. As verdades absolutas ou dogmáticas não existem: a religião, como as demais manifestações culturais, deve responder à mentalidade e às necessidades do homem em cada época. O evolucionismo (vitalista ou dialético), o liberalismo, a democracia e até mesmo o socialismo não se opõem em absoluto ao cristianismo nem a essa futura religião planetária, mas devem ser considerados como criações cripto-cristãs, quer dizer, cristãs mesmo sem sabê-lo. Sua oposição ao cristianismo é - segundo o modernismo - fruto somente do enquistamento ou da imobilização dogmática da fé. Essa teoria, exposta e condenada por São Pio X em sua encíclica “Pascendi”, é a doutrina que hoje aparece disseminada em toda a Igreja pós-conciliar com o nome de progressismo ou “humanismo” cristão.
Como julgou o santo pontífice a essa doutrina? Simplesmente: como “movimento de apostasia geral” e como “germe e compêndio de todas as heresias”. E não se limitou a condená-la, mas estabeleceu para todas as ordenações, consagrações episcopais e tomadas de posse de cátedras eclesiásticas o prévio “juramento antimodernista” (suprimido sob o pontificado de João Paulo II) pelo qual os clérigos e bispos se comprometiam a lutar até o fim contra tais doutrinas: tal era a extrema periculosidade para a fé que nela reconhecia.
Os fatos se me parecem, desta forma, emparelhados em sua significação e simétricos: nas origens da Igreja, na redação em Nicéia do Símbolo da fé, destaca-se com menção especial e única a Pôncio Pilatos, que professava um liberalismo e um democratismo pessoais ou subjetivos (ao desconhecer a verdade e recorrer à multidão), acima daqueles que por traição ou malevolência procuravam a morte de Cristo. Passam os séculos, quase dois milênios: o liberalismo se converteu em teoria, primeiro política, depois religiosa, e passou da teoria à vigência como forma de governo. Em nosso século um Papa santo se destaca sobre todas as heresias e cismas, vê nessa teoria a fonte de todos os males para a fé, e trata de proteger a Igreja mediante um juramento insólito e solene que deveriam prestar todos os eclesiásticos e todas as hierarquias da Igreja.
A razão, no mais, é óbvia: se uma heresia nega uma ou várias verdades da fé, por exemplo, a Trindade ou a Virgindade de Maria, nem por isso deixa Deus de ser Uno e Trino, nem Maria, Virgem. Mas se uma heresia põe em dúvida - com a quebra de sua própria identidade - o Sacramento da Eucaristia e reduz a Missa a uma assembléia ou a um “memorial da Paixão”, pode conseguir que deixe de acontecer o fato da Transubstanciação sobre a terra. Ou seja, que se rompa definitivamente a ligação principal entre o Céu e os homens, o efeito vivo da Redenção.”
(Rafael Gambra, Bajo el Poder...)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Liberdade religiosa

“Para condenar os atos de hostilidade à fé católica, costuma-se alegar ingenuamente que constituem “atentados à liberdade religiosa”; quando na verdade são a conseqüência natural da “liberdade religiosa”, tal como se configura nas declarações de direitos humanos. A própria Igreja adotou a linguagem característica de tais declarações quando consagrou que a liberdade religiosa é “inerente à dignidade da pessoa”; expressão barulhenta que nasce da confusão entre livre arbítrio e liberdade de ação. A “dignidade inerente à pessoa” baseia-se em seu livre arbítrio; mas de modo algum em sua liberdade de ação, a menos que tal liberdade a leve a aceitar a verdade e o bem. A “liberdade religiosa” é liberdade de ação que pode levar a pessoa a seguir qualquer seita destrutiva ou idoleto grotesco; ou seja, empurrá-la à indignidade mais sórdida e subumana. Como afirmava Leão XIII em sua encíclica Immortale Dei: “A liberdade, como elemento que aperfeiçoa o homem, deve aplicar-se exclusivamente à verdade e ao bem. Ora, a essência da verdade e do bem não pode mudar ao capricho do homem, mas é sempre a mesma e não menos imutável que a natureza mesma das coisas. Se a inteligência adere a opiniões falsas, se a vontade escolhe o mal e a ele se apega, nem a inteligência nem a vontade alcançam sua perfeição; pelo contrário, decaem de sua dignidade natural e se corrompem. Não é, pois, permitido dar a lume e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar essa licença sob a tutela e a proteção das leis”.
A “liberdade religiosa” consagra exatamente o contrário: quer dizer, concede a tutela das leis a todo tipo de crenças, sejam boas, más ou neutras, de tal modo que todas valham o mesmo; ou seja, nada. E lá onde todas as religiões toleradas nada valem, é natural que a ordem temporal queira erigir-se a si mesma como religião única, usurpando os atributos divinos e exigindo adoração. Isso é o que se oculta por trás da afirmação de “liberdade religiosa” contida nas declarações de direitos humanos: visto que todas as religiões não valem um centavo, a única religião valiosa é a que se postula em tais declarações; e toda religião que ouse contrariar seu desígnio se converterá ipso facto em uma religião contrária à “dignidade humana”. Isso é o que está acontecendo hoje com a religião católica.
As declarações de direitos humanos nasceram escondidas atrás de uma vaga ética cristã que as fazia aparentemente compatíveis com a doutrina da Igreja. Mas aquela “compatibilidade” era um chamariz; desde que tais declarações foram formuladas até hoje, os direitos humanos foram mil vezes redefinidos e reinterpretados, como inevitavelmente acontece quando se afirma que a verdade e o bem podem mudar à vontade. Diante dessa visão dos direitos humanos como religião inatacável de conveniência em constante metamorfose, eleva-se a velha religião católica, ou seus escombros; e a “liberdade religiosa” se revolta contra ela, por considerá-la – com razão! – um obstáculo a sua hegemonia. Os atos de difamação e hostilidade contra a fé católica só farão crescer no futuro, apoiados na “liberdade religiosa”, como ocorre sempre que a inteligência adere a opiniões falsas, como ocorre sempre que a vontade escolhe o mal e a ele se apega.”
(Juan Manuel de Prada, Libertad Religiosa)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Verdade, autoridade e liberdade para o católico tradicional e o liberal

“A verdade torna o homem livre (Jo VIII, 32), porque lhe permite escolher aquilo que verdadeiramente lhe proporciona o bem; por isso o homem reto nada estima tanto como encontrar um mestre de grande autoridade que lhe revele o valor das coisas com respeito às quais deve exercer seu livre-arbítrio. Mas a corrupta mentalidade liberal padece da relação liberdade-autoridade como verdadeiro conflito. Para essa maneira de pensar, a liberdade individual é o valor supremo da pessoa; e, de todas as liberdades pessoais, a mais excelente é a liberdade de pensamento.
Para o católico tradicional, a autoridade aperfeiçoa a liberdade ao permitir ao homem escolher com certeza o que mais lhe convém (...). Cada definição do magistério da Igreja é celebrada pelo católico como um novo terreno ganho para o uso seguro de sua liberdade, e ele deseja o máximo exercício do magistério. Para o liberal, em contrapartida, a autoridade restringe a liberdade e por isso, embora reconheça que é necessária para manter a unidade, lamenta como uma perda cada definição do magistério da Igreja e deseja que seu exercício se reduza ao mínimo indispensável.
Para o católico tradicional, o magistério da Igreja é regra próxima da fé comum dos cristãos, porque só a ele foi prometida a assistência do Espírito Santo para conservar integralmente e propor indefectivelmente o depósito da fé. Para o liberal, em contrapartida, o sentir comum dos fiéis é regra próxima do magistério (...). Não seriam os fiéis que devem ler as atas do magistério, mas o magistério que deve ler o coração dos fiéis.”
(Pe. Álvaro Calderón, La Lámpada bajo el Celemín)

Tradução de Carlos Nougué

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Bonapartismo

“É verdade que os episódios históricos são imprevisíveis e irrepetíveis, mas há na natureza humana algumas constantes que trazem ao comportamento em sociedade elementos facilmente reconhecíveis em acontecimentos separados pelo espaço e pelo tempo.
Um exemplo são as distintas fases pelas que costuma atravessar uma revolução e outro, que esses processos costumam acabar desembocando no que se chama de bonapartismo.
Já Karl Marx, em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, descreveu um tipo de regime burguês no qual pareceu estabilizar-se a história francesa de meados do século XIX, depois dos ciclos revolucionários anteriores. Napoleão III parecia chamado a consolidar a ordem nascida da Revolução Francesa, desarticulando ao mesmo tempo a potência criadora dos setores sociais que a haviam protagonizado (como é o caso da burguesia) e freando a evolução do processo. Diríamos que se transformou no domesticador de leões que crê reproduzir no diminuto cenário da jaula a potência do rei da selva em liberdade. A situação tão instável de quem alimenta o que o devorará permite a Marx retratar a desonrosa tarefa do bonapartismo nestes termos:
Esta missão contraditória do homem explica as contradições do Governo, o confuso tatear aqui e acolá, que procura tanto aliciar como humilhar uma vez esta classe e depois outra, pondo-as todas igualmente contra a sua, e cuja insegurança prática forma um contraste bastante cômico com o estilo imperioso e categórico de seus atos de governo, estilo imitado submissamente de seu tio”.
Essa referência a Napoleão Bonaparte, de quem Napoleão III era sobrinho, nos lembra que foi provavelmente a obra do corso o tipo mais acabado de bonapartismo.
Sua coroação como imperador leva a Revolução Francesa a terminar em uma tirania que nem sequer puderam imaginar os que consideravam Luís XVI um monarca absoluto. E, desde já, há algo de grotesco e histriônico em ver um filho da revolução adornado com as galas que nem um sátrapa oriental teria reclamado para si. No entanto, Napoleão iria espalhar em poucos anos as idéias revolucionárias por toda a Europa submetida sob as botas de seus exércitos, fazendo mais pela derrota dos ideais tradicionais que todos os guilhotinamentos das etapas anteriores.
A etapa bonapartista da revolução é a mais difícil para os que permanecem fiéis às idéias derrotadas pelo processo; assim, os católicos da Vendéia, resistentes até o extermínio às idéias anti-cristãs da revolução, caíram então seduzidos pela retórica conservadora do tirano.
René Remond distingue na direita francesa do século XIX uma corrente liberal, uma contra-revolucionária e outra bonapartista. Como especifica Miguel Ayuso, extrapolando a situação mutatis mutandis ao caso espanhol, a transferência de caudais produzida entre a doutrina contra-revolucionária e o pensamento bonapartista também opera, entre outros fatores, como fator de fragmentação da doutrina católica tradicional.
Todos os dias percebemos que a defesa de causas nobres em que o pensamento cristão está envolvido se faz, na melhor das hipóteses, a partir da desconexão de suas premissas ideológicas e políticas, quando não a partir de limites bastante desfocados. Inclusive nas expressões da doutrina social da Igreja, impulsionadas pelo pontificado de João Paulo II, se percebe uma tendência a aceitar as estruturas políticas vigentes, embora com o risco de incorrer em alguma grave contradição derivada da aceitação da democracia pluralista” (AYUSO, Miguel, La cabeza de la Gorgona. De la “hybris” del poder al totalitarismo moderno, Ediciones Nueva Hispanidad, Buenos Aires, 2001, p.133).
E se alguém acostumado a descobrir heterodoxias acreditar que as pode descobrir em meu raciocínio por haver transcrito esse juízo crítico, cabe recordar que um argumento semelhante foi exposto pelo então Bispo de Cuenca ao afirmar que “As incoerências da pregação atual mostram a necessidade de reedificar a doutrina da Igreja” (em Iglesia-Mundo nº 384 (1989), p. 51 ss.). A situação inclusive se agravou ao adotar-se o discurso do laicismo presumivelmente sadio, ao mesmo tempo que se silencia que a missão da Igreja, em relação a qualquer comunidade política, é pregar que não apenas os atos e comportamentos individuais dos cidadãos, mas também a própria estrutura constitucional, devem estar eficazmente subordinados à ordem moral.
Em síntese, tudo que se faz para sanar alguns dos excessos, sem questionar os princípios errôneos sobre os quais se sustentaram as experiências anteriores, será pouco mais que puro “bonapartismo”.
Com esse termo se define na história de qualquer processo revolucionário a fase de institucionalização que salva as conquistas conseguidas de perecer em meio à sua própria inoperância e ao caos provocado. O fenômeno se repete em muitos outros processos revolucionários, tanto os de natureza sócio-política como religiosa.
Os bonapartistas têm em comum algumas das seguintes características:
- Estabelecem uma aparente paz interior que se torna especialmente cômoda para os conservadores, quer dizer, àqueles que se recordam da ordem como uma das características mais desejadas do estado de coisas anterior à revolução;
- Passaram da oposição ao poder e os mesmos que ontem atacavam todo princípio de autoridade são agora os súditos mais bajuladores que exigem uma obediência servil para o que manda.
- Em seu afã de contentar a todos, acabam pondo todos contra si mesmos e essa insegurança prática se contrapõe a seu estilo personalista, imperioso e carismático de exercer o poder.
- Negam o conflito existente no interior da sociedade que governam e preferem enviar os que lhes são leais a empresas no exterior.
- Fazem compatível a manutenção dos princípios e instituições revolucionárias com magnânimas concessões aos que permanecem apegados a formas anteriores; de modo que estes tenham de lhes agradecer, como dons vindos de suas mãos, aquilo a que têm direito pela própria natureza das coisas.
- Adotam formas exteriores (vestidos, cerimônias, protocolo...) próprias da ordem derrotada, que aparecem assim desprovidas de todo conteúdo, dando aos agora elevados ao poder tons de hilária comicidade.
- Parecem situar-se em uma teórica eqüidistância das posições extremas: não são nem revolucionários nem tradicionalistas, mas na prática fazem avançar a cada dia a revolução a extremos com os quais não puderam sonhar seus mais radicais defensores.
- Se não fosse pelo fato dos resultados de sua obra serem trágicos, os bonapartistas seriam cômicos. Ornamentado com coroa e arminho, com a ridícula pose adotada pelo corso para exaltar-se e enobrecer suas origens obscuras, não se pode negar que Napoleão conseguiu o que não conseguiram os jacobinos: desarticular as instituições do Antigo Regime onde sobreviviam e cercear toda capacidade de resistência.
Por isso, quem quiser salvar o caos que provoca uma revolução, sobretudo em terreno religioso, está obrigado a lutar contra os bonapartistas com mais coragem e perseverança que contra os vândalos destruidores da cidade e do templo.
Qui potest capere, capiat.
(Angel David Martín Rubio, Bonapartismo)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Duas correntes de pensamento oriundas da revolução francesa


“Podemos falar de duas correntes de pensamento e ação que procedem da Declaração dos Direitos do Homem: a corrente do Liberalismo rousseauniano-maçônico e a corrente do Socialismo, Coletivismo e Comunismo. A corrente do Liberalismo, é certo, já existia antes da Revolução Francesa – é a própria essência da filosofia de Locke, como vimos – mas foi bastante reforçada pela deificação maçônica do homem na Revolução. De acordo com a doutrina consagrada no simbolismo maçônico, todo homem, enquanto emanação da substância única, é um ser absolutamente independente. Todos os homens são, portanto, igualmente Deus, sujeitos a ninguém e completamente livres de quaisquer obrigações uns para com os outros. E o homem que nasce livre é indivíduo e animal, com suas necessidades materiais e suas paixões clamorosas. Como a ação desimpedida é uma exigência absoluta da natureza humana enquanto divina, é apenas visando garantir mais prontamente a maior soma possível de satisfações materiais que os seres humanos entram em sociedade. Se atentarmos cuidadosamente à doutrina da divindade imanente ou autonomia do homem como indivíduo expressa na Declaração, logo perceberemos que o primeiro artigo da Declaração, ou seja, “Os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos”, contribuiu bastante para reforçar as correntes opostas do Liberalismo e do Socialismo ou Comunismo. Nenhuma dessas teorias compreende a distinção entre o homem como pessoa e o homem como indivíduo (...).
Segundo a doutrina tomista, o homem é um membro individual da sociedade dotado de razão e conseqüentemente do poder do livre arbítrio, tendo em vista o desenvolvimento de sua personalidade por meio de sua adesão a Cristo. A partir do momento que um indivíduo humano se destina por sua natureza a viver em sociedade, ele tem o direito, como pessoa, de exigir da sociedade o mínimo do Bem Comum que o permitirá viver dignamente como pessoa humana, mas ele tem também os correspondentes deveres para com a sociedade e não pode se comportar como um todo autônomo, unicamente para o qual a sociedade existe. Portanto, como pessoas, todos os homens são iguais e têm direitos iguais àquele mínimo, mas embora iguais como pessoas, por serem membros da espécie humana e membros atuais ou potenciais de Cristo, os seres humanos são desiguais como indivíduos, devido à desigualdade de suas condições individuais. Seus direitos individuais concretos são, dessa maneira, desiguais. Toda organização da sociedade deve respeitar tanto a específica igualdade das pessoas humanas como a desigualdade individual dos indivíduos humanos.
É precisamente isso o que nem o Liberalismo nem o Socialismo conseguiram compreender. O Liberalismo destacou a primeira parte do Artigo I da Declaração de 1789, qual seja, “os homens nascem livres”. Cada homem com suas necessidades materiais e paixões é um todo autônomo, absolutamente livre, com liberdade irrestrita. O indivíduo é assim seu próprio fim para si mesmo, e o único objetivo da sociedade é manter essa autonomia. Na presença da desigualdade de condições, contudo, pela qual a pretensa liberdade incondicional é constantemente frustrada, o Liberalismo sacrifica o fraco ao forte e obriga o fraco a respeitar os contratos feitos com o forte por extrema necessidade, embora com todos os sinais exteriores da liberdade. O Liberalismo na prática sacrifica a igualdade fundamental das pessoas humanas. No começo do Liberalismo acreditava-se, com Adam Smith e Quesnay, que o respeito às “leis da natureza” levaria a um funcionamento esplendidamente harmonioso da sociedade. Com o passar do tempo, especialmente após a Revolução Francesa e diante das injustiças gritantes dos resultados da “liberdade”, tudo que se podia afirmar, com Malthus e Ricardo, era que embora as coisas estivessem ruins, qualquer tentativa de interferência nas “leis da natureza” levaria a males ainda piores.
A opressão dos fracos pelos fortes levou à coalizão dos fracos na tentativa de defender os direitos fundamentais da natureza humana, na qual todos são iguais. Infelizmente, a liderança da reação foi tomada pelos socialistas e comunistas impregnados com a mesma doutrina revolucionária da “autonomia do indivíduo”. Eles inauguraram um sistema tão anti-social quanto o outro, ressaltando a segunda parte do Artigo I da Declaração, ou seja, “os homens nascem iguais”. Em nome da igualdade essencial da natureza humana eles pretendiam suprimir a desigualdade acidental e inevitável das condições humanas. A única maneira de conseguir isso era suprimir a presente organização da sociedade na qual a lei mantém a desigualdade de condições, principalmente através da propriedade privada, e reconstruir uma sociedade na qual todos os cidadãos seriam iguais não apenas de jure mas de facto. Nessa sociedade ideal, o Estado deverá possuir tudo e obrigar todos, sem distinção de classes, a trabalharem pelo Bem Comum, distribuindo a cada um seu quinhão devido da riqueza comum.
Os liberais estão certos em admitir, opondo-se aos socialistas e comunistas, a natural desigualdade das condições humanas, mas sua falsa doutrina da autonomia do indivíduo, ou seja, da liberdade incondicional de uma criatura decaída, leva na prática à negação dos direitos dos seres humanos à maioria.
Por seu lado, em nome da mesma falsa doutrina, os socialistas e comunistas querem suprimir a desigualdade de condições. Todos são igualmente homens, querendo eles dizer com isso indivíduos autônomos, e para se chegar à igualdade deve-se reorganizar a sociedade com base na supressão das desigualdades. Como a propriedade privada é a principal causa das desigualdades, deve-se começar pela sua supressão. Dado o falso fundamento de ambas doutrinas, que é a deificação rousseauniana-maçônica do indivíduo, não há solução para o problema. Se a sociedade for, como a Declaração de 1789 e o Contrato Social de Rousseau supõem, uma simples justaposição material de indivíduos autônomos, então, ou em nome da liberdade os fortes oprimirão os fracos, ou em nome da igualdade os manipuladores da coalizão oprimirão a todos. Em ambos os casos, os homens serão tratados como meros indivíduos, não como pessoas.
Uma vez que o único objetivo da sociedade, de acordo com os princípios de 1789, é permitir que os indivíduos se entretenham livremente como deuses sem qualquer restrição, é óbvio que todo Estado deve ser projetado nos termos do Contrato Social de Rousseau. Um tal Estado será composto exclusivamente de indivíduos que são unidades aritmeticamente iguais e completamente independentes umas das outras, sob um governo emanado da soma das vontades individuais. Da mesma forma, toda sociedade distinta do Estado deve ser dissolvida e o trabalho de destruição não deve cessar até que o Estado governe sobre partículas de poeira humana. As Corporações ou Guildas foram-se primeiro. Os Decretos Chapelier de junho de 1791 cuidaram disso. Então o ataque à família por meio das leis naturalistas do divórcio, leis regulando a herança de propriedade, leis sobre a escola, completaram o trabalho corruptor iniciado pelo individualismo protestante. Como o Socialismo e o Comunismo aceitaram o mesmo princípio desintegrador do indivíduo enquanto Deus, eles mantiveram esse ataque à família, ainda que tentassem, com sindicatos e cooperativas, proteger os trabalhadores das conseqüências do individualismo. Esses expedientes temporários destinam-se a dissolver-se tão logo o Estado Comunista esteja montado. Assim, a mesma forma de Estado onipotente e onívoro, no qual os homens serão tratados como meros indivíduos, será a conseqüência lógica das duas correntes originadas nos princípios de 1789.”
(Rev. Denis Fahey, C.S.Sp, The Mystical Body of Christ and the Reorganization of Society)

sábado, 14 de agosto de 2010

O triunfo do positivismo jurídico leva ao estado totalitário


“O triunfo do positivismo jurídico teve desdobramentos práticos imediatos, desde que derrotou a visão aristotélica do direito natural. O momento crucial desse processo combinou a consolidação dos Estados nacionais modernos com as obras de Maquiavel, na ciência política, e a de Hobbes, no âmbito estrito da filosofia política. Estamos aqui no período que media o século XIV e o século XVII. É a fundação da modernidade.
O que separa os modernos dos antigos é basicamente a noção de que a justiça, e, portanto, o direito, surge antes do homem, tem raiz transcendente. Era esse ponto que opunha Platão a todos os sofistas. Reconhecer que o fundamento do direito estava na lei natural e que esta está além do homem, não é por ele criada, mas descoberta, foi o salto mais sensacional do filósofo, só comparável à verdade revelada das Escrituras. Desde então, a história do direito caminhou para o reconhecimento do telos oriundo da lei natural e os governantes esforçavam-se para estar de acordo com ela. Essa visão de mundo mudou novamente por ocasião do Renascimento.
A descoberta da lei natural é a síntese do processo civilizatório, que terá no cristianismo o apogeu e o mecanismo para se espalhar pelo mundo. O direito romano é filho de Aristóteles e, ainda que nos aspectos meramente formais, ele persiste até nossos dias. Reminiscência de um tempo de inteireza da alma.
Aristóteles deu um passo além, ao mostrar que o direito comportava múltiplas e variadas formas, sem todavia perder a sua raiz transcendente, a lei natural. O direito é para ele uma ciência, portanto produto da observação humana. Do mesmo jeito, as formas de governo podiam variar, mas a filosofia tinha os meios para orientar os atores políticos na busca da verdadeira justiça. Os períodos de caos eram justamente aqueles em que a justiça ficava ofuscada ou negada por governantes ignorantes e aventureiros, que precisavam ser removidos.
Poder e direito derivavam, em última análise, da autoridade divina. A demagogia sofista de que todo poder supostamente emana do povo foi derrogada por esses dois filósofos, ressuscitando apenas nos tempos modernos. Essa demagogia é a crença que se instalou nos novos Estado nacionais, quando o ateísmo passou a instruir os governantes.
É longa a história do positivismo jurídico, mas a sua essência é que ele usurpa a autoridade da lei natural para a lei humana positiva, como se fossem uma única e mesma coisa. A partir daí, criou-se o caminho para o totalitarismo como forma de governo, fundado no correspondente niilismo moral. A única ética a prevalecer agora é a ética cínica da tomada do poder e da sua manutenção. “Os fins justificam os meios”, escreveu Maquiavel, ecoando para os tempos vindouros.
Mas Maquiavel não era burro. Na sua filosofia ainda havia um elemento transcendente vinculando a ação humana, a Fortuna, ou a Roda da Fortuna. A metáfora de que o novo príncipe deveria dominá-la, como a uma mulher, não passou de tirada nada espirituosa e de mau gosto do florentino. Ele sempre soube que a Roda da Fortuna era encimada por um anjo dividido entre o bem e o mal.
Esse elemento transcendente perdeu-se na pena de seus sucessores. Já em Hobbes deixou de existir e, no seu lugar, foi posta a ficção dos direitos naturais estóicos, os assim chamados direitos de primeira geração. Aqui foram fundados o comunismo e o liberalismo, irmãos siameses da modernidade, filhos da mesma base filosófica.
Hobbes sabia do monstro que estava criando, o Leviatã, e por isso mesmo tentou, ainda nos primórdios da loucura da modernidade, instituir os limites do Estado, em contraponto ao indivíduo. Intuiu o que estava por vir. Locke tomará essa idéia e formatará o liberalismo clássico, consagrando a propriedade privada e propondo a separação enfática entre o poder econômico e o poder político. Sim, há uma grande generosidade e mesmo uma sabedoria nessa proposição, mas ela foi derrotada justamente porque, produto da engenharia humana, foi por outra soterrada.
O liberalismo político morreu. Basta ver o tamanho que os Estados nacionais alcançaram atualmente, meça-se por qualquer critério: PIB, número de funcionários, poder de polícia. Toda a vida prática agora é contingente do poder de Estado. Não há mais vida fora do Estado. Somos todos escravos do Leviatã.
O liberalismo econômico também morreu por falta de adeptos. No mundo inteiro os partidos políticos competitivos, capazes de tomarem as rédeas do poder, são defensores de variantes das ideologias coletivistas. O liberalismo não é páreo real nas campanhas eleitorais.
O liberalismo político morreu porque perdeu a batalha com Rousseau e seus sucessores coletivistas. Se o Estado pode tudo e se ele é produto da razão humana, nada mais natural que se procure a perfectibilidade em vida. Afinal, a lei pode tudo, inclusive ignorar os perigos e riscos da existência humana, a realidade imediata do homem. Declararam-se os direitos do homem e a esquizofrenia apossou-se de todos os sistemas jurídicos. É Rousseau triunfante que fala nessas declarações demagógicas.
A agonia da grande crise atualmente em curso mostra a loucura dessa visão de mundo. O que se passa na Grécia e na União Européia não traz bons presságios. O que se passa nos EUA também. No cerne da crise a esfinge que pede para ser decifrada: o Estado nacional e seu direito autofágico.
A conseqüência é a judicialização de tudo, agora centralizado no Estado. A moeda passou a ser criada por lei, deixou de ser natural; empregos agora são cada vez mais dádiva do poder de Estado, seja diretamente, na multidão de funcionários que contrata, seja por patrocinar o “desenvolvimento”, quer dizer, bancar, de todas as formas, a oligopolização dos setores produtivos, destruindo as pequenas e médias empresas. Os setores produtivos agora são dependentes de financiamentos, regulação, compras e da boa vontade do Estado. Nada acontece fora do Estado.
A desproporção de poder entre as criaturas humanas e o Estado nunca foi tamanha. Será talvez por isso que as prisões foram multiplicadas e a população encarcerada está alçando cifras nunca antes vistas. A perfeição do positivismo jurídico é o Estado-prisão, sempre perfectibilista, todo poderoso, agora totalitário na mais temível forma: dentro da legalidade, mesmo legitimado pela estupidez das massas adestradas para o socialismo.
Uma antiga definição de Estado é a de que ele é violência organizada. Se olharmos como as polícias foram multiplicadas e aparelhadas é que veremos como esse poder hoje se coloca de forma esmagadora diante do indivíduo isolado. As novas tecnologias alavancaram esse processo de expansão ao paroxismo. O grande inimigo do homem agora é o próprio Estado do qual é súdito, que dispõe a bel prazer de sua renda, de sua liberdade, de seus empregos, de suas vontades, de sua riqueza.
O homem deixou de ser sujeito para ser uma simples massa de moldar nas mãos dos servos do Estado, a vasta burocracia que se esforça, a cada dia, para transformar a terra no inferno, prometendo o paraíso: a supressão dos riscos, desde que ele disponha do poder total.
Valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo! Livre-nos da Terceira Tentação!”
(José Nivaldo Cordeiro, Autofagia do Direito)

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os estertores da social-democracia


“Em 1974, em um majestoso texto publicado na revista “The Review of Politics” (Vol 36, nº 4), intitulado “Liberalism and its history”, Eric Voegelin demonstrou que a doutrina liberal faz parte do movimento revolucionário, desde a origem. É ela própria que inaugura a modernidade em todos os campos, do direito à ciência política, passando pela filosofia, economia e demais ciência sociais. Não ao acaso Voegelin foi buscar no termo gnose a expressão para designar esses movimentos revolucionários, similares aos movimentos religiosos do início da Era Cristã.
O essencial da modernidade é a recusa da percepção do elemento transcendente como a condição do real, colocando em seu lugar a pura vontade (razão) humana.
O liberalismo, no início, estava na linha de frente da revolução, contra a tradição aristotélica na filosofia e contra os valores cristãos herdados nos costumes. O esforço de gente como Maquiavel, Hobbes, Hume e Locke era para desacreditar Aristóteles, pondo no seu lugar o historicismo fundado na filosofia grega do período helenístico. É bem verdade que as mudanças no interior do cristianismo vinham desde pelo menos o século XII e ganharam relevo com o surgimento do nominalismo. De certa forma, o irracionalismo moderno deriva em linha direta dessa visão deformada do cristianismo, que irá afetar sobretudo o campo do direito e da ciência política. Será pela Escola de Salamanca que sua doutrina formatará a modernidade.
O encontro do humanismo renascentista com as idéias da decadência filosófica cristã emergirá com toda força e será o pano de fundo das três grandes revoluções: a Reforma religiosa, a Revolução Francesa e a Revolução russa. Voegelin mostrou que o elemento radical do momento revolucionário inicial será seguido de um momento de “restauração” dentro do próprio movimento revolucionário. O que passará a se chamar conservador nada mais é do que esse elemento estabilizador, mas ele próprio é integrante da revolução. [A ortodoxia greco-cristã jamais foi restaurada]. Isso acontece porque não é possível que a dinâmica revolucionária aguda tome todo o tempo histórico, pois o princípio de realidade não pode ser inteiramente negado, sob pena de comprometer a sobrevivência humana.
O conceito de revolução permanente, cunhado por Trotsky, não é outro que não essa dinâmica. Afinal, a revolução se propõe objetivos inalcançáveis e seu sentido é o movimento contínuo, rumo ao nada. O repouso jamais poderá ser alcançado. Mas os momentos de febre precisam ser seguidos de momentos de relativa estabilização, sob pena de a vida prática ficar inviável.
O liberalismo dito clássico, nos momentos subseqüentes ao movimento revolucionário do século XVIII, em paradoxo, passou a compor o contrapeso aos delírios revolucionários jacobinos. Voegelin fecha o texto com a seguinte afirmação:
In the light of these considerations we can say that, on the one hand, liberalism decidedly has a voice in the political situation of our time; on the other hand, however, today the ideas of autonomous, immanent reason and the autonomous subject of economics are scarcely alive and fruitful; thus, the classical liberalism of the secularist and bourgeois-capitalist stamp may be pronounced dead.
Voegelin foi certeiro no seu diagnóstico. Passadas mais de três décadas dessa constatação podemos dizer que a forma resultante de estabilização do movimento revolucionário na segunda metade do século XX foi o que se chamou de neoliberalismo, essa simbiose entre os frutos da ciência econômica liberal com as crenças coletivistas no plano político. O neoliberalismo virou a plataforma de todas as agremiações políticas no poder, desde o fim da II Grande Guerra. É o que se chama de social-liberalismo ou liberalismo-social. Numa única expressão, social-democracia.
Neoliberalismo é apenas mais uma variação estabilizadora da social-democracia, esta mesma que está a morrer pela crise atual. Vê-se que a variante neoliberal não pode ser mais o elemento racionalizador e estabilizador do exercício do poder real nesse estágio avançado. O modelo esgotou-se, fruto de sua entropia intrínseca. O distributivismo proposto pela social-democracia dependia da contínua expansão da carga tributária e da emissão de moeda, que já bateram seu limite superior. A falência está inteiramente explícita na inviabilidade dos modelos de previdência social e no inchaço incomensurável do funcionalismo público. O mundo ocidental está em um beco sem saída, inclusive nos EUA.
O que virá no lugar? Ninguém sabe. Uma guinada conservadora? Um novo espasmo revolucionário? Seja o que vier não se fará com pouca violência. Os sintomas estão por toda parte, as tensões brotam dia a dia. Os próximos anos serão sombrios.”
(Nivaldo Cordeiro, O Fim da Social-Democracia?)

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

A antítese entre o liberalismo e a palavra de Deus


“Prega-se a democracia como um valor que transcende a pessoa e a sociedade em todas as suas dimensões, como uma marca que imprime caráter não só à política, mas a todas as manifestações do espírito humano: à educação, à cultura, à ciência, à economia, à arte, à moda. Trata-se, em uma palavra, de criar algo sagrado, intocável, dogmático, em escala universal, de tal maneira que chegue a substituir a Deus como explicação última do sentido da vida. Por isso dizia acertadamente Donoso Cortés que a democracia é o eco humano da rebelião do anjo caído. Esse eco se reflete na antítese que formula a doutrina liberal contra a palavra de Deus no Evangelho de São João, capítulo 8, versículo 32: "a verdade vos fará livres." Quer dizer, a verdade gera a liberdade, palavras que o liberalismo vira pelo avesso com estas outras: a liberdade gera a verdade. E como os efeitos participam da natureza de suas causas, e a liberdade é pessoal, subjetiva, variável, a verdade que ela fabrica e elabora terá seus mesmos caracteres. Não será portanto objetiva, mas subjetiva, não será absoluta, mas relativa, não será imutável, mas variável, não será "a verdade", mas "minha verdade", "tua verdade", "sua verdade". Dessa maneira, a faculdade intelectiva fica subordinada à volitiva, o entendimento à vontade, a luz às trevas, a ordem objetiva à ordem subjetiva. Alcançamos o relativismo, e com o relativismo o ceticismo. Essa é a origem corrosiva e devastadora do liberalismo, cuja expressão polifacética é a democracia.
Seus efeitos são denunciados pelo mesmo Donoso Cortés nestes termos: “Assim como a palavra de Deus retamente interpretada é a única capaz de dar a vida, assim também essa mesma palavra desfigurada, mal interpretada, é capaz de produzir a morte.” Recordar, por exemplo, a transformação de conceitos sagrados que opera o progressismo eclesiástico: o Salvador se transforma em libertador do proletariado, a salvação da alma em salvação de servidões econômicas, a caridade, virtude teologal, em amor humano e filantropia, o reino espiritual de Cristo em reino temporal e terreno, a dimensão vertical até Deus em dimensão horizontal até a humanidade, o teocentrismo em antropocentrismo. Pois bem, o liberalismo, igualmente, ao desfigurar, ao inverter o sentido das palavras de Jesus Cristo, ao fundar a verdade na liberdade e não a liberdade na verdade, produz a morte da ordem real objetiva e, como conseqüência, a morte da ordem política, social e econômica.”
(Julián Gil de Sagredo, La Democracia como Fuente de Subversión)

http://www.istoecatolico.com.br/index.php/Artigos/Diversos/Por-Julian-Gil-Sagredo.html

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A caridade católica


“A suma intransigência católica é a suma caridade católica. É praticada em relação ao nosso próximo quando, para seu próprio bem, ele é ofendido, humilhado e castigado. É praticada em relação a um terceiro quando para defendê-lo da injusta agressão de outrem e protegê-lo do contágio do erro se desmascaram seus autores e fautores, mostrando-os como os iníquos e perversos que verdadeiramente são, expondo-os ao desprezo, horror e execração de todos. É praticada em relação a Deus quando, para Sua glória e a Seu serviço, torna-se necessário silenciar todas as considerações humanas, calcar sob os pés todo respeito humano, sacrificar todos os interesses humanos – e mesmo a própria vida – para obter o mais alto de todos os fins. Tudo isso é intransigência católica e catolicidade intransigente na prática desse puro amor que constitui a caridade suprema. Os santos são os tipos dessa indesviável e sublime fidelidade a Deus, são os heróis da caridade e da religião. Porque há tão poucos verdadeiramente inflexíveis no amor a Deus em nossos dias, há poucos compromissados na ordem da caridade. A caridade liberal é condescendente, carinhosa, até mesmo suave na aparência, mas no fundo é um desprezo essencial ao verdadeiro bem do homem, aos supremos interesses da verdade e por fim a Deus. É o amor do homem a si mesmo, usurpando o trono do Altíssimo e exigindo a adoração que pertence a Deus somente.”
(D. Félix Sardá y Salvany, El Liberalismo Es Pecado)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O suicídio intelectual do liberalismo ocidental


“O argumento da dúvida proposto por Locke em favor da tolerância diz que devemos admitir todas as religiões desde que é impossível demonstrar qual delas é verdadeira. Isso implica que não devemos impor crenças que não são demonstráveis. Apliquemos tal doutrina aos princípios éticos. Segue-se que, a menos que os princípios éticos possam ser demonstrados com certeza, devemos nos resguardar de impô-los e devemos tolerar sua completa negação. É claro, contudo, que os princípios éticos não podem ser demonstrados, em sentido estrito; não se pode provar a obrigação de dizer a verdade, de preservar a justiça e a misericórdia. Seguir-se-ia, portanto, que um sistema de mendacidade, de ilegalidade e crueldade teria de ser aceito como alternativa aos princípios éticos e com os mesmos direitos. Mas uma sociedade em que a propaganda inescrupulosa, a violência e o terror prevalecem não oferece espaço à tolerância. Aqui a inconsistência do liberalismo baseado na dúvida filosófica torna-se clara: a liberdade de pensamento é destruída pela extensão da dúvida ao campo dos ideais tradicionais, que inclui a base para a liberdade de pensamento.”
(Michael Polanyi, The Eclipse of Thought)