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domingo, 18 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão

“Muitos leitores me expressaram sua perplexidade ante a exaltação e defesa absolutista da liberdade de expressão que nestes dias se fez, vinda inclusive de meios de inspiração cristã ou declaradamente confessionais, para justificar as caricaturas do pasquim “Charlie Hebdo” nas quais se blasfemava contra Deus de modos aberrantes. A esses leitores digo que não se deixem confundir: os que fizeram tais defesas não professam a religião católica, nem se inspiram na filosofia cristã, embora finjam fazê-lo, aproveitando a consternação causada pelos vis assassinatos dos caricaturistas; mas são fanáticos da “religião democrática”, perversão que consiste em substituir a sã defesa da democracia como forma de governo que, mediante a representação política, facilita a participação popular no exercício do poder pela defesa da democracia como fundamento de governo, como religião demente que subverte qualquer princípio moral, amparando-se em supostas maiorias, na realidade massas cretinizadas e sugestionadas pela repetição de sofismas.
Os fanáticos dessa religião necessitam que as massas cretinizadas aceitem como axiomas (proposições que parecem evidentes por si mesmas) seus sofismas, entre os quais se encontra a chamada “liberdade de expressão” em sua versão absolutista. Para criar tais axiomas recorrem ao método antecipado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, que consiste na repetição, por milhares ou milhões de vezes, de uma mesma afirmação. No romance de Huxley, tal repetição se conseguia mediante um mecanismo repetitivo que falava sem interrupção ao subconsciente, durante as horas do sono; em nossa época se consegue através da saturação mental por meio da bazófia que nos servem os mass media, infestados de fanáticos da religião democrática que defendem uma liberdade de expressão absolutista: liberdade sem responsabilidade; liberdade para prejudicar, injuriar, caluniar, ofender e blasfemar; liberdade para semear o ódio e estender a mentira às massas cretinizadas; liberdade para condicionar os espíritos e incliná-los ao mal. Os que defendem essa “liberdade de expressão” como direito ilimitado são os mesmos que também defendem uma “liberdade de consciência” entendida não como liberdade para escolher moralmente e agir com retidão, mas como liberdade para escolher as idéias mais perversas, as paixões mais torpes e as ambições mais egoístas e pô-las em prática, pretendendo ademais que o Estado garanta sua realização. Não nos deixemos enganar: os que defendem a liberdade para publicar caricaturas blasfemas estão defendendo uma liberdade destrutiva que só leva à decadência e ao niilismo.
O pensamento cristão nos ensina que a liberdade não é um fim em si mesma, mas um meio para alcançar a verdade. Se à palavra liberdade não se acrescenta um “para quê”, transforma-se em uma palavra sem sentido, uma palavra asquerosamente ambígua que pode amparar as maiores aberrações. Como dizia Castellani, “a liberdade não é um movimento, mas um poder mover-se; e no poder mover-se o que importa é o para onde, o para quê.” Não pode haver uma liberdade para ofender, para provocar ódios, para instigar baixas paixões; não pode haver liberdade para ultrajar a fé do próximo e blasfemar contra Deus. Os cristãos se distinguem porque rezam uma oração na qual se pede: “Santificado seja vosso Nome”. Os fanáticos da liberdade de expressão querem que esse Nome seja eliminado, aviltado e escarnecido, para maior honra de sua religião democrática. Não lhes dêem atenção: quer vistam-se com paletó e gravata, quer com batina e solidéu, estão enganando-os, querem transformá-los em massa cretinizada.”
(Juan Manuel de Prada, Liberdad de Expresión)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie Hebdo

“Durante os últimos dias, temos ouvido qualificarem os periodistas vilmente assassinados do pasquim Charlie Hebdo de “mártires da liberdade de expressão”. Também temos assistido a um movimento de solidariedade póstuma com os assassinados, mediante proclamações inassumíveis do tipo: “Eu sou Charlie Hebdo”. E, chegados ao cúmulo do dislate, temos ouvido defenderem um pretenso “direito à blasfêmia”, inclusive em meios católicos. Sirva este artigo para dar voz aos que não se identificam com esse acúmulo de disparates filhos da debilidade mental.
Por volta de setembro de 2006, Bento XVI pronunciou um grandioso discurso em Ratisbona que provocou a ira dos maometanos fanáticos e a censura aleivosa e covarde da maioria dos líderes e meios de comunicação ocidentais. Aquele espetáculo de vileza infinita era facilmente explicável: pois em seu discurso, Bento XVI, além de condenar as formas de fé patológica que tratam de impor-se com a violência, condenava também o laicismo, essa expressão demente da razão que pretende confinar a fé no subjetivo, transformando o âmbito público em um mercado onde a fé pode ser ultrajada e escarnecida até o paroxismo, como expressão da sacrossanta liberdade de expressão. Essa razão demente é a que levou a civilização ocidental à decadência e promoveu os antivalores mais pestilentes, desde o multiculturalismo à pansexualidade, passando logicamente pela aberração sacrílega; essa razão demente é a que defende o pasquim Charlie Hebdo, que, além de publicar sátiras provocadoras e gratuitamente ofensivas contra os muçulmanos, publicou em reiteradas ocasiões caricaturas aberrantes que blasfemam contra Deus, começando por uma capa que mostrava as três pessoas da Santíssima Trindade sodomizando-se entre si. Escrevia Will Durant que uma civilização não é conquistada de fora até que não se tenha destruído a si mesma por dentro; e o desenho sacrílego ou gratuitamente ofensivo que publicava o pasquim Charlie Hebdo, como os antivalores pestilentes que defende, são a melhor expressão dessa deriva autodestrutiva.
Devemos condenar esse vil assassinato; devemos rezar pela salvação da alma desses periodistas que em vida contribuíram para aviltar a alma de seus compatriotas; devemos exigir que as feras que os assassinaram sejam castigadas como merecem; devemos exigir que a patologia religiosa que inspira essas feras seja erradicada da Europa. Mas, ao mesmo tempo, devemos recordar que as religiões fundam as civilizações, que por sua vez morrem quando apostatam da religião que as fundou; e também que o laicismo é um delírio da razão que só logrará que o islamismo erija seu culto ímpio sobre os escombros da civilização cristã. Aconteceu no norte da África no século VII; e acontecerá na Europa do século XXI, por pouco que continuemos defendendo aberrações como as que alardeia o pasquim Charlie Hebdo. Nenhuma pessoa que conserve uma migalha de sentido comum, assim como um mínimo temor a Deus, pode mostrar-se solidária com tais aberrações, que nos têm conduzido ao abismo.
E não esqueçamos que o Governo francês – como tantos outros governos ocidentais –, que amparava a publicação de tais aberrações, é o mesmo que tem financiado em diversos países (e em especial na Líbia) os islamitas que têm massacrado a milhares de cristãos, muito menos pranteados que os periodistas do pasquim Charlie Hebdo. Pode parecer ilógico, mas é irrepreensivelmente lógico: é a lógica do mal na qual o Ocidente tem-se instalado, enquanto espera a chegada dos bárbaros.”
(Juan Manuel de Prada, Yo No Soy Charlie Hebdo)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

El Greco

"Tem sua graça (embora seja graça sinistra) que uma época tão adversa a tudo que El Greco amou e desejou, creu e celebrou em seus quadros o comemore nestes dias; mas é a nossa uma época tão embotada e agônica, tão petulante e plena de disparates, que se crê capaz de desentranhar (de esvaziar as entranhas e o sentido) todo o bom, belo e formoso que nos legou nosso passado; e também certa de que o bom, belo e formoso, desentranhado de seu sentido, poderá incorporar-se à bagunça de banalidades com que apunhalamos nosso espírito. Mas a pintura de El Greco é um cavalo de Tróia demasiado indigesto, inclusive para o cinismo contemporâneo; e, com um pouco de sorte, até é possível que estas comemorações do quarto centenário da morte de El Greco sirvam para enterrar um pouco mais o cadáver apodrecido e fétido de nossa época.
Sendo completamente sinceros, a época que agora vivemos começou, precisamente, com a morte de El Greco, que foi o último representante de uma idade intermediária situada, como um sol entre precipícios, entre as idades clássica e moderna. Embora lhe tenha cabido viver na época dos humanistas que – em termos apocalípticos – inauguraram a igreja de Sardes, El Greco foi o último (e numantino!) filho da igreja de Tiatira, um fruto prazerosamente tardio daqueles mil anos que se estenderam primaveralmente com Santo Agostinho e que haviam de adquirir sua madureza mais alta com Santo Tomás. El Greco é, em essência, um pintor medieval que se rebela contra os ouropéis e rebuliços pagãos do Renascimento, contra essa esplêndida pompa do humanismo que escondia entre as dobras do vestido a peste bubônica da Reforma e que, ao final, iria envenenar a arte – sempre com a desculpa da imitação dos mestres – com a hipertrofia da casca e o esvaziamento do fundo e da substância. Em meio a uma arte complacente e suntuosa, barriguda e sedentária, que encontra na cúpula sua forma predileta, El Greco opõe sua arte faminta de Deus, ávida de Deus, arte magra, espigada e barbaramente gótica para os voluptuosos espíritos renascentistas, arte ascensional que olha sempre para o céu, como uma delgada torre de vigia que perfura com olhos absortos a alta noite.
El Greco, talvez porque procede do império bizantino, é a herança mais pura da Idade Média. Muito embora em seu estilo possamos rastrear as influências de Ticiano ou Miguel Ângelo, nas profundezas de sua personalidade artística El Greco tem mais a ver com Giotto que com qualquer de seus contemporâneos (com a única exceção, talvez, de Tintoretto). Só que, enquanto Giotto pôde desfrutar do esplendor da Cristandade, El Greco só pôde recordar com pena sua ausência, visualizando-o com os olhos da alma, enquanto os olhos de seu corpo tinham que pousar, turvados de lágrimas, em um mundo pantanoso que não era o seu; um mundo em decomposição que todavia guardava fragmentos do mundo antigo e matinal que gerou a arte de Giotto, mas que já se entregava à putrescência de um mundo novo e tenebroso, sem que nem mesmo Felipe II pudesse fazer algo para evitá-lo. A derrota da Invencível Armada poderia ser o símbolo desta dobradiça entre duas épocas que a El Greco coube viver, náufrago em um mar de ansiedades, mais consciente que ninguém de que estava assistindo ao enterro do mundo que ele desejava. Outro em seu lugar ter-se-ia declarado vencido, mas El Greco quis fazer de sua derrota uma aventura sublime.
Aquele grego bizantino, fugitivo de Creta por medo dos turcos, aprendiz de pintor em Veneza e Roma, aceitou que seu mundo havia sido enterrado; mas, como era homem de fé, sabia que depois do enterro vem a ressurreição da carne. E assim sua pintura, enterrada com o mundo que o humanismo havia assassinado, ressuscitou metamorfoseada em pintura gloriosa que, como os bem-aventurados, viaja até uma morada superior. Já se disse que El Greco é pintor de almas; mas muito mais exatamente poderíamos dizer que é pintor de corpos gloriosos, pintor de criaturas libertadas dos cuidados, tentações e pecados de nossa caminhada mortal, traspassadas de luz, porque estão – em cada veia e artéria, em cada víscera secreta, em cada volta e revolta dos intestinos, em cada célula – plenas de Deus, pletóricas de Deus, diáfanas e dispostas a penetrar até mais além das nuvens, "perspícuas e perspicazes", segundo a descrição a que Marsilio Ficino aventura-se dos ressuscitados.
As figuras e paisagens que preenchem os quadros de El Greco não foram copiadas da natureza, como faziam os pintores coetâneos, subjugados pelo magistério dos clássicos, mas são destilação dos resíduos que a contemplação da natureza deixou em sua alma. Deste modo, El Greco consegue captar o que a maioria de seus coetâneos, cegos para a vida da alma, nem sequer suspeitam: compreende que a natureza humana não está limitada a suas formas visíveis, e que a missão da arte não é outra senão restituir ao homem sua integridade plena, devolvendo-lhe a fé de sua união com o alto, que só se pode ver através dos olhos do espírito. Liberta-se então El Greco da tirania limitadora do desenho, da disciplina imitativa dos grandes mestres que em sua juventude veneziana e romana a ponto haviam estado de desgraçar seu gênio, e se entrega a fazer a pintura que irremediavelmente estava chamado a fazer, uma pintura que se nutre do apetite de céu da alma castelhana, ao qual por aqueles mesmos anos davam expressão mística Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Poder-se-ia afirmar que as figuras dos quadros de El Greco são expressão pictórica das mesmas ânsias de Deus que encontramos nos escritos de Santa Teresa e São João: nesses corpos gloriosos que irradiam sua própria luz, que emanam luz de si mesmos, em suas mãos exangues, em suas pernas trêmulas e brancas como asas de anjos, há uma vocação ascensional, um parentesco com a eternidade, uma consciência dolorida de sua anterior pertença ao mundo que só admite uma explicação mística. Nesses corpos gloriosos de El Greco, desnudos e inocentes como os de nossos primeiros pais antes de comerem do fruto proibido (ou vestidos em vão, pois não há tecido que possa cobrir sua carne refulgente), nessa carne espiritualizada, transubstanciada, eucarística, ao mesmo tempo criança e anciã, torturada e incólume, impulsionada por uma energia ofuscante até a casa acesa que é seu último destino, está a nostalgia que só o pincel de El Greco pôde ressuscitar, como prefiguração da glória parusíaca.
Por isso as figuras de El Greco se esticam pujantes até seu destino celeste; por isso parecem fazer pouco caso da dor; por isso respiram um ar mais alto e mais puro que El Greco pôde chegar a pressentir respirando o ar de Toledo, a cidade onde o céu convida a voar e os relâmpagos das tormentas são rasgões teológicos que deixam entrever o rosto terrível e benévolo de Deus. Tal como ocorre nos quadros de El Greco.”
(Juan Manuel de Prada, El Greco)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Evolucionismo e teologia

“Sempre admirei as pessoas que dedicam sua vida à busca da verdade, tenham ou não tenham fé; e sempre me pareceram odiosas as pessoas que, para trapacear com o mundo, renunciam a buscar a verdade. Alguns desses trapaceiros encontrei debatendo sobre a tese darwiniana do evolucionismo e os dogmas teológicos do cristianismo; em seguida, quando você os confronta com essa espinhosa questão, saltam logo com réplicas: “Não há conflito algum entre evolucionismo e cristianismo”. E, certamente, não teria por que haver se ambos fossem certos, porque a ciência e a fé têm o mesmo fim, que é a descoberta da verdade, embora os procedimentos sejam diferentes (o método empírico na ciência, a Revelação na fé). Mas a crua verdade é que a tese de Darwin e o dogma cristão colidem frontalmente. Isso é algo que todos os evolucionistas ateus ou agnósticos com os quais conversei entendem com clareza (no que, pelo menos, demonstram probidade intelectual), mas que os evolucionistas crentes preferem ignorar, em um exercício flagrante de desonestidade intelectual. Darei aqui, apenas esboçadas, algumas dessas conclusões insuperáveis:
1) Segundo o dogma cristão, a Criação foi perfeita no começo e a morte apareceu como conseqüência do pecado. Porém, uma coisa é afirmar que a perfeição originária da Criação foi logo corrompida pelo pecado, que torna inevitável a luta pela existência, e outra completamente distinta... afirmar que essa luta pela existência havia sido o método escolhido por Deus para levar a cabo a perfeição da Criação originária! O cientista evolucionista Jacques Monod afirmou certa vez: “A seleção natural é o meio mais cego e cruel de desenvolver novas espécies. A luta pela existência e a eliminação dos mais fracos é um processo horrível... Surpreende-me que um cristão queira defender a idéia de que este é o processo que Deus estabeleceu para realizar a evolução”. Com efeito, é inconcebível segundo a fé cristã imaginar um mundo anterior à queda do homem onde a vida na terra fosse regida pela seleção natural. Contudo, parece evidente que a seleção natural, segundo as teses darwinianas, foi a lei que regeu a evolução das espécies desde que apareceu a vida na terra, e não só desde a queda do homem, que necessariamente teve de ser (segundo essas mesmas teses) muito posterior. É impressionante que um cientista ateu como Monod repare nesse paradoxo enquanto todos os cientistas crentes o evitam.
2) Mas se a lei da seleção natural pressupõe um Deus cruel, muito mais cruel todavia é tentarmos conciliar o dogma do pecado original com as teses evolucionistas. Na verdade, tal dogma só é assuntível desde uma concepção monogenista da espécie humana, pois o pecado original é uno em origem e se transmite por geração, ao modo de uma enfermidade hereditária. Porém, a lei de seleção natural exige aceitar o poligenismo: muitos, infinitos casais de hominídeos progressivamente evoluídos que, ao longo dos séculos, vão se transformando até se transformarem em seres humanos plenos. Aceitar que todo esse formigueiro de casais pecou seria como defender um funesto determinismo e negar a liberdade humana; ou, pior ainda, aceitar que um Deus maquiavélico os criou sem liberdade para resistirem ao pecado. Se não foi um o casal originário, para que batizar as crianças? E, ainda mais, se não há pecado original, que sentido tem a Redenção de Cristo? H. G. Wells, em sua História Universal, escreve sem rodeios: “Se todos os animais e o homem se desenvolveram mediante evolução, se não houve primeiros pais, nem Éden, nem Caim, todo o edifício do Cristianismo, a história do primeiro pecado e a razão de sua expiação caem como um castelo de cartas”. E o jornalista ateu G. Richard Bozarth o diz de forma ainda mais brutal: “O evolucionismo destrói por completo a razão pela qual a vida terrena de Cristo havia sido supostamente necessária. Demoli Adão e Eva e o pecado original e, entre os escombros, encontrareis os lamentáveis despojos do Filho de Deus”.
Em Monod, em Wells e até em Bozarth posso descobrir certa probidade intelectual. Não me parece assim nos trapaceiros que pretendem que não há conflito algum entre o evolucionismo e a fé cristã.”
(Juan Manuel de Prada, Evolucionismo y Teologia)

sábado, 18 de outubro de 2014

A sociedade moderna é incapaz de uma verdadeira metanóia

“Em uma passagem do Evangelho de São João, é-nos relatada a bela conversa noturna que Nicodemos mantém com Jesus: ‘Como pode alguém nascer, sendo já velho?’ pergunta Nicodemos. ‘Acaso se pode entrar outra vez no seio da mãe e voltar a nascer?’ E Jesus lhe responde que, com efeito, qualquer homem, não importa quão velho seja, pode voltar a nascer do Espírito. Trata-se de uma das passagens mais inspiradoras do Evangelho, porque nos fala da possibilidade de renovarmo-nos de forma profunda e radical, ressuscitando sobre as cinzas do homem velho. Também é uma das passagens mais definidoras da esperança pregada por Jesus: converter-se é ‘voltar a nascer’; e, uma vez abraçados a essa vida nova, ninguém nos vai pedir contas da vida antiga que decidimos deixar para trás. Não importa o que tenhamos sido, não importa o que no passado tenhamos feito ou deixado de fazer, mas o que fazemos aqui e agora, o que somos a partir deste instante; porque a vida humana está constantemente aberta a um renascimento. Essa é uma idéia de uma grande beleza que ao homem moderno custa aceitar, talvez porque previamente se endeusou: e quem é incapaz de reconhecer seus erros não pode conceber que tais erros possam chegar a apagar-se, sem deixar hipotecas, uma vez que os tenhamos renegado. É deveras esclarecedor comprovar como, em nossa época, muita gente que errou trata de ocultar desesperadamente seu erro; e, quando já não pode fazer nada para continuar ocultando-o, sua vida desmorona por completo: entre as personalidades públicas, tais erros não reconhecidos costumam acabar com carreiras promissoras ou com a condenação ao ostracismo de quem antes havia desfrutado do aplauso do mundo; na vida cotidiana, os consultórios de psiquiatras estão apinhados de pessoas incapazes de reconhecer plenamente o mal que fizeram e de aceitar os efeitos benéficos do perdão.
Mas em que consiste esse voltar a nascer de que se fala nessa passagem evangélica? À conversão os gregos chamavam (e assim aparece designada com freqüência nos textos neotestamentários) metanóia, que significa ‘mudança de mente’, uma mudança radical em nosso modo de pensar e de agir, um encontro com a verdade não só como conhecimento teórico, mas como transformação radical da vida inteira. Naturalmente, tal metanóia não se pode conseguir sem renegar nossos antigos erros. Mas renegar o erro exige coragem, humildade e fortaleza: coragem para julgar em consciência nossa própria vida; humildade para reconhecer o mal que temos causado; e fortaleza para não sucumbir à tentação de voltar a causá-lo. Humildade, coragem e fortaleza, só as pode oferecer a contrição, que é como se chama, ou se chamava, a dor espiritual que nasce de reconhecer o erro e chegar a odiá-lo, com o propósito de não o repetir jamais. Certamente, ainda que detestemos os erros que cometemos, podemos voltar a incorrer neles (já se sabe que o homem é o único animal que tropeça na mesma pedra); mas sem essa dor não pode haver autêntica metanóia. Para abrir-se a uma vida nova, primeiramente deve-se ter valor para odiar a antiga; e renegar os hábitos passados, às vezes inveterados, é talvez o desafio máximo que uma pessoa pode enfrentar.
A necessidade de uma metanóia radical é talvez a mais nobre aspiração de toda pessoa que ainda não tenha extraviado por completo a noção de sua humanidade; mas é também uma obrigação coletiva. Em uma época como a presente, na qual as sociedades afundam por todas as partes, é preciso mudar os costumes e a inteligência das classes governantes, melhorando a fundação das coisas à luz de princípios novos. Mas às sociedades de hoje em dia ocorre o mesmo que ao homem contemporâneo: são incapazes de reconhecer os erros cometidos, e em conseqüência não podem obter os efeitos benéficos do perdão. Essa incapacidade as mantém prisioneiras do mal, incapazes de renegá-lo; isso se percebe muito claramente, por exemplo, nos desejos que todos temos de superar a chamada ‘crise econômica’ que nos atinge... sem renegar os erros que nos levaram a ela; e querendo, além disso, continuar vivendo como fazíamos antes de padecê-la. Essa incapacidade para a verdadeira metanóia, para um voltar a nascer, é conseqüência do endeusamento do homem que se nega a reconhecer sua culpa, que disfarça o mal com a máscara do bem e que, ao fim, se afoga no mal que se tornou seu habitat natural.”
(Juan Manuel de Prada, Volver a Nascer)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Usura

“Enquanto a economia foi considerada uma ‘ciência moral’ (e, diga-se desde já, não pode ser outra coisa, pois depende das decisões dos homens), uma das questões mais debatidas pelo pensamento econômico foi a usura. No entanto, quando os moralistas foram expulsos do pensamento econômico, deixou-se de escrever e pensar sobre ela. Mas quer se diga ou se oculte, o certo é que a usura se encontra no coração do sistema capitalista (na verdade, é a gangrena de seu coração); e também na raiz de todas as desordens econômicas e morais de que hoje padecemos.
Se olharmos para trás (algo que o homem contemporâneo tanto detesta, para não ter que se arrepender de seus erros), comprovaremos que a usura esteve sempre proibida. “Não darás a teu irmão dinheiro a juros, nem lhe exigirás mais grãos que os que lhe houveres dado”, lemos no Levítico. E no Evangelho de São Lucas, Jesus proclama: “Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei o bem, e emprestai, sem nada esperardes”. Aristóteles considerava execrável “o tráfico de dinheiro, que tira lucro da moeda”; e o direito civil da Idade Média o declarou delito. Em sua encíclica Vix pervenit, Bento XIV condenava o pecado da usura, que se comete “quando se faz um empréstimo de dinheiro e, com base unicamente no empréstimo, o mutuante exige do mutuário mais do que lhe havia emprestado”; e no entanto Leão XIII, em Rerum novarum, se referia, em um sentido mais genérico, à “usura devoradora... um demônio condenado pela Igreja mas de todos os modos praticado de modo enganador por homens avarentos”. A condenação da usura foi unânime até a ruptura da Cristandade ocasionada pela Reforma, quando os príncipes protestantes começaram a introduzir legislações que, sob o pretexto de favorecer o comércio e o sistema bancário, confundiam o lucro legítimo com a usura. Desde então, a usura se tornou o ‘pão nosso de cada dia’, também no âmbito católico, ou pseudocatólico.
Na linguagem corrente, por usura entendemos a ‘cobrança de um juro excessivo pelo empréstimo de um capital’. Mas antes de começar a fixar qual é o juro excessivo e qual o juro lícito que se pode cobrar pelo empréstimo de um capital devemos reparar na questão que costuma passar despercebida. E é que a usura se sustenta sobre uma aporia, consistente em aceitar que o dinheiro pode se reproduzir com a mera ajuda do tempo; e que, passado um certo tempo, quem emprestou, por exemplo, cem moedas, pode reclamar cento e dez, independente do uso que se tenha dado a essas moedas. Mas o certo é que o dinheiro é um bem consumível que não se reproduz, pelo que, como assinalava Aristóteles, os juros se tornam um modo de aquisição contrário à natureza e, portanto, devem ser reprovados.
No entanto, do mesmo modo que afirmamos que o dinheiro em si mesmo não pode se reproduzir, não é menos certo que, mediante nosso trabalho, o dinheiro pode gerar um benefício. Pensemos, por exemplo, no proprietário de um terreno que pede um empréstimo para montar um sistema de irrigação que lhe permite multiplicar por três os frutos que esse terreno lhe proporciona. Seria plenamente justo que quem emprestou o dinheiro que permitiu ao proprietário triplicar suas colheitas demande um juro; porque o que faz que um juro seja ou não legítimo não tem a ver com que seja mais ou menos alto, mas com o fato de que o capital emprestado serviu para gerar um benefício. A participação do mutuante na riqueza gerada por seu empréstimo não pode considerar-se usura; usura consiste em crer que o mero empréstimo de dinheiro dá direito a juro. Usura é a cobrança de juros sobre um empréstimo improdutivo, ou de juros superiores ao incremento de riqueza gerado por um empréstimo produtivo.
Pois nossa época se nega a estabelecer uma distinção entre empréstimos improdutivos e produtivos; e impõe a cobrança de um juro como fruto do dinheiro emprestado, independentemente de seu uso. Assim, não só escolheu o dinheiro como padrão e medida de todas as coisas, como afirma que pode se multiplicar por um passe de mágica, desligado dos bens que representa e sem intervenção do trabalho humano. Só que essa multiplicação, enquanto enriquece ilimitadamente alguns, é conseguida ao custo do empobrecimento também ilimitado de outros. Isso é o que está acontecendo em nossos dias: por isso, enquanto a propaganda nos apedreja os ouvidos repetindo que já saímos da crise e que a Espanha volta a “gerar riqueza”, você procura nos bolsos e descobre que estão cada vez mais vazios.”
(Juan Manuel de Prada, Usura)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Mago ou pastor

“‘Procura ser pastor, se não és mago’, escreveu Eugenio d’Ors, recordando-nos que somente a simplicidade e a sabedoria (que não são antitéticas, mas complementares) permitem uma vida nobre. A única vida ignóbil é a do ignorante letrado – a vida própria de nossa época – que enquanto cega as fontes da autêntica sabedoria exalta a soberba humana com uma pletora de conhecimentos de segunda mão em cuja digestão a inteligência está ausente; e ainda se atreve a se considerar culta esta época ignóbil. Mas ser culto é o pior que pode ocorrer a um homem que aspire a uma vida nobre, que só encontrará sendo mago ou sendo pastor.”
(Juan Manuel de Prada, El Dia Más Hermoso)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os graus do farisaísmo

“Alguns de meus amigos se afastaram da prática religiosa, ou até renegaram a Igreja “institucional”, porque descobriram em muitos católicos uma inconseqüência fatal entre a fé que garantem professar e as obras pelas quais, segundo reza o Evangelho, devem se distinguir os verdadeiros discípulos de Jesus. Este mal do farisaísmo introduzido no coração da Igreja é sem dúvida o mais grave dos que corrompem a fé, e o mais difícil obstáculo para a evangelização: não foi à toa que Jesus fez de sua luta contra o farisaísmo um empenho pessoal constante (não há pecado que receba mais condenações e execrações em sua pregação); e não foi à toa que seus detratores mais inflamados, que acabaram por levá-lo à Cruz, foram os fariseus maquinadores, que não suportavam sua denúncia implacável e acérrima: raça de víboras, sepulcros caiados, et cetera.
O farisaísmo é a causa principal da apostasia generalizada que aflige a Igreja; a esta causa endógena se juntam, certamente, outras muitas exógenas que, entretanto, desabariam como um castelo de cartas se a pessoa inclinada a desertar da fé descobrisse, entre os que se supõe não terem desertado, uma autêntica comunidade de fé e vida, uma congruência natural entre o que dizemos e o que fazemos. Certamente não devemos confundir as inevitáveis debilidades da natureza humana, conseqüência de nossa condição pecadora, com o farisaísmo, que é antes o contrário: pois o fariseu costuma ser pessoa soberba e de coração endurecido que se crê invulnerável às emboscadas do pecado que afligem o restante de nós mortais; e das alturas de sua presunção constrói uma religiosidade de pura fachada, uma espécie de fé dessecada, esclerosada, que acaba se transformando em impostura.
Leonardo Castellani, que nunca se cansou de denunciar o farisaísmo, estabeleceu em sua grandiosa obra Os Papéis de Benjamin Benavides uma gradação deste mal corruptor sumamente ilustrativa: 1) A religião se torna meramente exterior e ostentadora; 2) A religião se torna profissão e ofício; 3) A religião se torna instrumento de ganância, de honras, poder ou dinheiro; 4) A religião se torna passivamente dura, insensível, descarnada; 5) A religião se torna hipocrisia, e o 'santo' hipócrita começa a desprezar e odiar os que têm religião verdadeira; 6) O coração de pedra se torna cruel, ativamente duro; e 7) O falso crente persegue os verdadeiros crentes com fúria cega, com fanatismo implacável. Nesta gradação, Castellani distingue entre os três primeiros degraus, que são os mais tristemente habituais, e os quatro últimos, que qualifica com razão de diabólicos.
Do farisaísmo de 'primeira velocidade' todos temos experiência cotidiana: é a religião convertida em fachada e espalhafato, o sal que perde o sabor, o 'profissionalismo da religião' como dizia Thibon: é um mal que prospera sobretudo em circunstâncias nas quais a fé obtém um reconhecimento social; e onde, toda vez que uma multidão de não-crentes impõe certos gestos externos de afetada religiosidade ou rotineiro clericalismo, alguns sabidos aproveitam para tirar vantagem e fazer negócio. Em épocas como a nossa, nas quais a religião deixa de ter o reconhecimento social de antanho, este farisaísmo de 'primeira velocidade' tende a desaparecer, embora conserve seu raio de ação de portas adentro; por sua vez, o farisaísmo de 'segunda velocidade' é mais terrivel e odioso, desenvolve-se com uma pujança voraz e procura as estruturas de poder da Igreja, chegando às vezes, inclusive, aos postos de comando.
Já não tem nada a ver com a hipocrisia untuosa, com a afetação bajuladora, com a ambiçãozinha ou intriguinha clericalóide (embora, desde logo, as inclua), mas chafurda na perfídia e no crime, na perseguição inquisitorial ao justo e na traição à verdadeira fé, da qual o fariseu se apresenta paradoxalmente como cumpridor mais zeloso. Da atividade destes fariseus de segunda velocidade não temos uma experiência cotidiana visível, pois se desenvolvem em lugares onde a fé se torna burocracia e negociação; mas os efeitos de sua atividade contaminam toda a obra da Igreja. E, quando alguém se encontra com um destes fariseus, embora sua fé seja forte como um carvalho, treme como um frágil junco. É a prova mais dura que podemos enfrentar.”
(Juan Manuel de Prada, La Prueba más Dura)

sábado, 9 de junho de 2012

A estratégia da Nova Ordem Mundial

“O profeta Daniel, em sua visão sobre a consumação dos tempos, contempla uma besta com dez chifres, que representam uma multidão de reis; e depois narra como, dentre esses dez chifres, nasce outro “chifre pequeno” que, falando com grande arrogância, vence ou submete os demais reis e lidera com poder irrestrito uma grande confederação de nações que “destruirá os santos e pretenderá mudar os tempos e a lei”. Recordando talvez aquela profecia de Daniel, afirmava Donoso Cortés: “No mundo antigo a tirania foi feroz e esmagadora; e no entanto essa tirania estava limitada fisicamente, porque os estados eram pequenos e as relações universais impossíveis em todo lugar. Hoje, senhores, os caminhos estão preparados para um tirano gigantesco, colossal, universal, imenso... Já não há resistências nem físicas, nem morais (...), porque todos os ânimos estão divididos, e todos os patriotismos estão mortos”. Rumo à entronização desse “tirano gigantesco” vamos caminhando inexoravelmente; pouco a pouco descobrimos que sua índole não é política, mas econômica, tal como Pio IX vislumbrara profeticamente em sua encíclica Quadragesimo Anno: “Um domínio exercido da maneira mais tirânica por aqueles que, tendo em suas mãos o dinheiro e controlando-o, apoderam-se das finanças e assenhoreiam-se do crédito; e por essa razão dir-se-ia que administram o sangue do qual vive toda a economia e têm em suas mãos como que a alma da mesma, de tal modo que ninguém pode sequer respirar contra sua vontade.” Tal dominação, “horrendamente dura, cruel, atroz”, após alcançar a hegemonia econômica – prossegue Pio IX - “engajar-se-á em rude combate para se apropriar do poder público, para poder abusar de sua influência e autoridade nos conflitos econômicos”, trazendo consigo “a queda do prestígio do estado, que deveria ocupar o elevado posto de reitor e supremo árbitro das coisas e se faz, pelo contrário, escravo, entregue e vendido à paixão e às ambições humanas”.
Aquilo que viram Daniel, Donoso Cortés e Pio IX, dentre outros homens clarividentes, já se está formando diante de nossos narizes: uma Nova Ordem Mundial tirânica que se impõe sem resistências físicas ou morais; e que – oh, mistério da iniqüidade! - aparece aos olhos atônitos das massas idiotizadas como a única salvação possível diante das catástrofes que ela mesma originou, em seu apetite insaciável de poder. Sua estratégia salta aos olhos: disseminação do pânico, mediante mecanismos especulativos, entre os estados debilitados, que acabam entregando sua soberania para converterem-se em lacaios obedientes da Nova Ordem Mundial e aceitam submeter seus súditos às mais árduas privações, sob a ameaça de uma debandada dos investidores que sustêm a dívida hipertrofiada de tais estados. E assim, um após o outro, sucumbem os reis da terra diante da pujança desse novo tirano de poder irrestrito, enquanto as massas idiotizadas aceitam, assustadinhas, todo tipo de “mudanças estruturais”; ou, dito em bom português: aumento dos impostos e redução dos salários. Mas isso é apenas o princípio: as arrogâncias desse novo tirano só fizeram começar; acabarão sendo sangrentas.
Só nos resta o consolo de saber que seu domínio será breve, como sempre ocorre com os tiranos envaidecidos do próprio poder. Mas, enquanto reinar, ele devorará e triturará quem se colocar em seu caminho, com o beneplácito subserviente dos reis da terra.”
(Juan Manuel de Prada, Nuevo Orden Mundial)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Liberdade religiosa

“Para condenar os atos de hostilidade à fé católica, costuma-se alegar ingenuamente que constituem “atentados à liberdade religiosa”; quando na verdade são a conseqüência natural da “liberdade religiosa”, tal como se configura nas declarações de direitos humanos. A própria Igreja adotou a linguagem característica de tais declarações quando consagrou que a liberdade religiosa é “inerente à dignidade da pessoa”; expressão barulhenta que nasce da confusão entre livre arbítrio e liberdade de ação. A “dignidade inerente à pessoa” baseia-se em seu livre arbítrio; mas de modo algum em sua liberdade de ação, a menos que tal liberdade a leve a aceitar a verdade e o bem. A “liberdade religiosa” é liberdade de ação que pode levar a pessoa a seguir qualquer seita destrutiva ou idoleto grotesco; ou seja, empurrá-la à indignidade mais sórdida e subumana. Como afirmava Leão XIII em sua encíclica Immortale Dei: “A liberdade, como elemento que aperfeiçoa o homem, deve aplicar-se exclusivamente à verdade e ao bem. Ora, a essência da verdade e do bem não pode mudar ao capricho do homem, mas é sempre a mesma e não menos imutável que a natureza mesma das coisas. Se a inteligência adere a opiniões falsas, se a vontade escolhe o mal e a ele se apega, nem a inteligência nem a vontade alcançam sua perfeição; pelo contrário, decaem de sua dignidade natural e se corrompem. Não é, pois, permitido dar a lume e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar essa licença sob a tutela e a proteção das leis”.
A “liberdade religiosa” consagra exatamente o contrário: quer dizer, concede a tutela das leis a todo tipo de crenças, sejam boas, más ou neutras, de tal modo que todas valham o mesmo; ou seja, nada. E lá onde todas as religiões toleradas nada valem, é natural que a ordem temporal queira erigir-se a si mesma como religião única, usurpando os atributos divinos e exigindo adoração. Isso é o que se oculta por trás da afirmação de “liberdade religiosa” contida nas declarações de direitos humanos: visto que todas as religiões não valem um centavo, a única religião valiosa é a que se postula em tais declarações; e toda religião que ouse contrariar seu desígnio se converterá ipso facto em uma religião contrária à “dignidade humana”. Isso é o que está acontecendo hoje com a religião católica.
As declarações de direitos humanos nasceram escondidas atrás de uma vaga ética cristã que as fazia aparentemente compatíveis com a doutrina da Igreja. Mas aquela “compatibilidade” era um chamariz; desde que tais declarações foram formuladas até hoje, os direitos humanos foram mil vezes redefinidos e reinterpretados, como inevitavelmente acontece quando se afirma que a verdade e o bem podem mudar à vontade. Diante dessa visão dos direitos humanos como religião inatacável de conveniência em constante metamorfose, eleva-se a velha religião católica, ou seus escombros; e a “liberdade religiosa” se revolta contra ela, por considerá-la – com razão! – um obstáculo a sua hegemonia. Os atos de difamação e hostilidade contra a fé católica só farão crescer no futuro, apoiados na “liberdade religiosa”, como ocorre sempre que a inteligência adere a opiniões falsas, como ocorre sempre que a vontade escolhe o mal e a ele se apega.”
(Juan Manuel de Prada, Libertad Religiosa)

sábado, 24 de abril de 2010

A metamorfose da esquerda após a queda do muro de Berlim


“Juan Pablo Colmenarejo: Acredita que esse dia (há 20 anos) determina o fim do século XX?
Juan Manuel de Prada: Bom, há quem associe essa data ao dia da queda do muro de Berlim, também há os que a situam no dia dos atentados do 11 de Setembro. Creio que a data de que falas é, de qualquer forma, digna de constituir um marco na evolução interna do Ocidente; uma evolução que, ao contrário das teses otimistas que proliferam nestes dias, é muito mais sombria do que geralmente se pensa.
JPC: Mas…não foi esse o dia do triunfo da liberdade?
Juan Manuel de Prada: Sim, sem dúvida que foi o triunfo da “liberdade”…O que sucede é que a “liberdade” é, em si mesma, um movimento, e o que conta num movimento é o “para onde”. Pode ser que o movimento tenha um norte ou que esteja desnorteado, pode ser que seja um movimento pequeno ou gigantesco, pode ser que a direção que tome seja para “a frente” ou para “trás”…Na liberdade não é tão relevante a questão de “ser livre” como a de “ser livre para quê”. Eu acredito que a “liberdade” que veio depois da queda do muro de Berlim, a destes últimos 20 anos, foi uma liberdade destrutiva. A minha opinião é que “os logros” dela podem ver-se hoje: liberdade para retirar crucifixos, liberdade para destruir todo o tipo de vínculos humanos (começando pela família), liberdade para abortar sem restrições, liberdade para acabar com a transmissão harmoniosa baseada na Tradição, liberdade para experimentar em embriões…, definitivamente liberdade para nos destruirmos. Creio que a obsessão pela liberdade que exteriorizam alguns não é mais do que a marca distintiva dos fracos.
JPC: Caiu o muro, mas caiu junto com ele o fascínio da esquerda ocidental pelos regimes do “socialismo real”?
Juan Manuel de Prada: Na realidade parece que a esquerda havia iniciado um processo de metamorfose 20 anos antes, especialmente visível no Maio de 68. Evidentemente há então um momento em que a esquerda se dá conta de que os regimes comunistas eram eminentemente repressores da natureza humana, pelo que provocava nas suas vítimas uma reação que se traduzia num “apetite” de liberdade. Mas essa liberdade adquire em Maio de 1968 umas conotações muito concretas: rebelião contra o Sistema, “apoteose sexual”, em suma, um intento de romper e transvalorar as normas. É nesse clima que a esquerda realiza esse processo de mutação, por um lado inteligentíssimo, no qual toma consciência de que, se queria levar a cabo o seu processo de “engenharia social” (pois a esquerda teve desde as suas origens um claro propósito de “transformar” a sociedade), o que devia fazer não era reprimir a liberdade, mas exaltá-la ao máximo até deificá-la. Assim, a liberdade converte-se num ídolo ao qual todos devemos adoração. E é nesse processo de “regeneração” que está a chave para compreender que, depois da queda do muro de Berlim, a esquerda está perfeitamente apetrechada e disposta a lançar a sua nova ofensiva, que é precisamente a de que estamos a padecer hoje em dia e à qual a direita não tardou em aderir. Dessa maneira, essa exaltação destrutiva da liberdade está a conduzir-nos a um novo modelo de tirania muito pior que as tiranias comunistas, e tudo por uma simples razão: debaixo dos regimes repressores, o homem está consciente de que lhe estão a retirar algo que lhe pertence por natureza, que é a sua liberdade. Em troca, nas novas tiranias essa bulimia de “liberdade” faz com que o homem fique “anestesiado” perante os abusos do poder.
JPC: Uns meses antes da queda do muro, o então presidente da RDA, Erich Honecker, foi tornado Doutor Honoris Causa pela Universidade Complutense de Madrid e foi quando declarou que “o muro permanecerá de pé cem anos mais”, sendo que caiu seis meses depois…É como se os “progressistas” espanhóis tivessem estado sempre muito atentos a este tipo de “homenagens”, não lhe parece?
Juan Manuel de Prada: Não devemos esquecer que há pouco tempo também se ofereceu esse galardão a Santiago Carrillo, que ainda simboliza a sobrevivência deste tipo de ideologias. Por outro lado, atualmente a “Matriz Progressista” compraz-se em abraçar com alvoroço Hugo Chávez, outro personagem que representa o “pôr em dia” do socialismo real. Ao fim e ao cabo, toda ideologia necessita de construir a sua própria mitologia. É certo que hoje a esquerda européia renega estes regimes porque os considera obsoletos e anacrônicos, mas isso é assim porque, por sua vez, descobriu que a “ordem liberal”, isto é, o sistema político baseado na economia capitalista, é infinitamente mais eficaz para realizar o seu projeto de “engenharia social”. Neste sentido, resulta muito fácil compatibilizar a veneração a essa mitologia passada com a construção de uma “sociedade nova” sustentada pelos regimes social-democratas atuais. Por isso creio que não devemos enganar-nos, a frase pronunciada pelo presidente da RDA cumpriu-se: ele sabia que “o muro” iria sobreviver cem anos mais, precisamente porque também sabia que a esquerda havia preparado esta metamorfose.”
(Juan Manuel de Prada, em entrevista à rádio espanhola Cose)

http://ofogodavontade.wordpress.com/2010/04/11/a-metamorfose-da-esquerda-depois-da-queda-do-muro-de-berlim/

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A matriz progressista da nova tirania


““E como se pode falar de 'nova tirania', quando nunca antes os homens desfrutaram de tanta liberdade e de tantos direitos?”, poderia perguntar-se um leitor desavisado. As tiranias clássicas se distinguiam, de fato, por reprimir a liberdade e negar os direitos; e os homens tinham consciência de tal usurpação, porque, despojados de algo que lhes pertencia por natureza, sentiam-se rebaixados. Esta nova tirania a que nos referimos, ao contrário, tem exaltado o homem até a adoração, dando-lhe a oportunidade de transformar seus interesses e desejos em liberdades e direitos, que já não são inerentes a sua natureza, senão “concessões graciosas” de um poder que as consagra legalmente. E assim, transformado em criança que contempla como seus caprichos são maximizados e satisfeitos, o homem de nosso tempo é mais refém do que nunca dessas instâncias de poder que lhe garantem o gozo de uma liberdade onímoda e direitos em contínua expansão. Ao homem submetido às tiranias clássicas ficava pelo menos o consolo de saber-se oprimido por um poder que violentava sua natureza; o homem submetido a esta nova tirania, ao contrário, não tem outro consolo que a proteção do poder que o elevou a um altar de adoração.
E assim, o homem elevado ao altar de adoração se transforma, sem sequer se dar conta, em um instrumento nas mãos desse poder que dele cuida com minucioso esmero, como as formigas cuidam dos pulgões que depois ordenham. E em troca dessas “concessões graciosas” que o poder lhe dispensa, o homem acata a visão hegemônica do mundo que o poder lhe impõe, transformando-o em objeto de engenharia social. Essa visão hegemônica – que na verdade não passa de uma miragem, uma grande ilusão ou trompe-l'oeil que os homens aceitam gregariamente – nós a denominamos aqui de “Matriz progressista”. Quem se atreve a questionar tal trompe-l'oeil é imediatamente anatematizado como um réprobo ou um blasfemo; ou seja, como um inimigo da adoração do homem. Essa Matriz progressista, usada pela esquerda, também foi assimilada pela direita, que renunciou a fazer guerra a seu adversário lá onde esta guerra resultaria eficaz e dinâmica, ou seja, no âmbito dos princípios; e, em sua capitulação, limita-se a introduzir variações insignificantes no funcionamento dessa grande máquina que é a Matriz progressista, sem atrever-se a inutilizar suas engrenagens, que é o mesmo que arar sem bois.
A Matriz progressista tornou-se, assim, uma espécie de fé messiânica: instaurou uma nova ordem, impôs paradigmas culturais inatacáveis, estabeleceu uma nova antropologia que, prometendo ao homem a liberação final, só lhe reserva seu futuro suicídio. E, contra essa nova ordem semi-religiosa, somente se mantém de pé a ordem religiosa, que restitui ao homem sua verdadeira natureza e propõe uma visão de mundo correta que ataca os fundamentos do trompe-l'oeil sobre o qual se assenta a nova tirania, dissolvendo suas falsificações. Uma visão que a nova tirania combate com denodo; pois, de fato, essa ordem religiosa é a única fortaleza que resta a derrubar, para que seu triunfo seja completo. O laicismo descontrolado acusa a Igreja de imiscuir-se na política, citando a seu favor aquela passagem evangélica que costumam brandir aqueles que nunca lêem o Evangelho: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Mas que pertence a César? As coisas temporais, as realidades terrenas; mas certamente não os princípios de ordem moral que surgem da própria natureza humana, não os fundamentos éticos da ordem temporal. A nova tirania, tão zelosa de expandir as “liberdades” de seus súditos, nega à Igreja a liberdade de julgar a moralidade das ações temporais, pois sabe que tal juízo incorpora uma radical subversão do trompe-l'oeil sobre o qual se assenta a nova tirania. Deseja uma igreja farisaica e corrompida que renuncie a restituir ao homem sua verdadeira natureza e acate o “mistério da iniqüidade”, que é a adoração do homem; deseja, enfim, uma igreja de joelhos diante de César, transformada nessa “grande prostituta que fornica com os reis da terra” de que nos fala o Apocalipse.
E essa é a grande batalha que hoje se trava no Ocidente, disfarçada mui habilmente de “batalha ideológica” pela nova tirania. Mas se fosse realmente uma “batalha ideológica”, a nova tirania não a contemplaria como uma subversão; pois a ideologia é precisamente o caldo de cultura que favorece seu domínio, instaurando uma “demogresca”, uma luta “democrática” de todos contra todos, que transforma os homens em crianças petulantes que lutam por suas “liberdades” e “direitos”, como os construtores de Babel lutavam, em meio à confusão, para erigir uma torre que alcançasse o céu. A batalha que hoje se trava não é de índole ideológica, mas antropológica, pois o que procura é restituir aos homens sua verdadeira natureza, permitindo-lhes sair da confusão babélica fomentada pela ideologia, até alcançar o caminho que conduz aos princípios originários. Se tiver sucesso – se a Matriz for desativada – os homens descobrirão que não precisam construir torres que cheguem ao céu, pela simples razão de que o céu já está dentro deles, ainda que a nova tirania tente arrebatá-lo.”
(Juan Manuel de Prada, La Nueva Tiranía. El Sentido Común frente al Mátrix Progre)