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quarta-feira, 4 de abril de 2018

A história da Igreja será necessariamente uma imitação da história de Cristo


“Acabo de ler um artigo de meu bom amigo Gladstone Chaves de Melo, que andou a correr terras de Europa em missão diplomática e agora se acha em Lisboa como adido cultural. O autor do artigo intitulado “Depois de procelosa tempestade” conta o que viu e ouviu nas missas e nos meios católicos que visitou, e concluiu com palavras de Camões que
Depois de procelosa tempestade,
Noturna sombra e sibiliante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de porto e salvamento;
Aparta o sol a negra escuridade
Removendo o temor ao pensamento.
Gladstone Chaves de Melo conclui que as tolices já se desgastaram e que já se vê por toda a parte o que Guerra Junqueiro chamaria “um rosicler d’aurora”. Ora, a mim me parece, tranqüila e objetivamente, que nosso colaborador se engana, talvez pelo fato de ter corrido muitos lugares e por dar excessivo valor ao que viu por onde passou, como viajante, como estranho, para não dizer como turista. Nós outros que ficamos imóveis pudemos apreciar melhor o agigantado volume de estupidez que invade a América Latina vindo de Roma e de toda a cristandade, e a mim me parece que, para tais ponderações, vale mais a leitura repousada do que as locomoções.
Há certa semelhança entre o que diz Gladstone e o que diz Maritain em Le Paysan de la Garonne (p. 79), onde afirma que este erro de hoje é menos perigoso que o primeiro (o maniqueísmo larvado (?)) e que “terá duração menos longa… porque, quando a tolice se excede no meio cristão, é preciso que ela se dissolva depressa, ou que se destaque decididamente da Igreja”.
Parece-me mais sensato pensar que quanto maior for a onda de sottise maior será a devastação, e mais difícil será a recuperação. Descambando na ladeira dos reformismos acelerados, os eclesiásticos se entregam à lei da matéria, e à famosa lei da entropia crescente a que tantas vezes já aludi e que se exprime pela improbabilidade extrema de passar a matéria do estado menos diferenciado para o mais diferenciado e organizado.
É claro que se desgastam com certa rapidez os erros e as fantasias feitos com o sangue de nosso Salvador; mas é claríssimo que logo terá substituta a asneira encalhada por falta de freguesia; porque a calamidade básica permanece. E qual é essa calamidade básica? Salta aos olhos que é a ausência de autoridade, e até a complacência que em seus diversos escalões a hierarquia manifesta pelos heréticos, pelos atrevidos, pelos propagandistas de uma nova religião. Aqui no Brasil um Boff é festejado por bispos e cardeais. Na América Latina ensinam-se descaradamente o marxismo e o socialismo, e são bispos e arcebispos que promovem tal revolução. Em Saragoza, os padres que tiveram a ingênua idéia de se unirem para um integral apoio à tradição e ao Papa não receberam do Papa o menor sinal de agrado, e só encontraram nas amaldiçoadas conferências episcopais a mais agressiva oposição. Na Igreja e na Civilização alastram-se os erros mais funestos. As casas religiosas se desagregam, as vocações desaparecem, e nos seminários ainda existentes o que se ensina já não é o cristianismo, é outra religião que usa o nome de Jesus Cristo que ainda tem mercado. Onde estão os sinais de “serena claridade”, onde a brisa amena, onde o “rosicler d’aurora”?
Além disso ponderemos uma coisa que escapou aos dois otimistas, Gladstone e Maritain, esperançosos ambos na passagem rápida da tempestade de asneiras e na volta à normalidade. Ponderemos a irreversibilidade das demolições, das degradações, dos desmoronamentos individuais e coletivos. Como se processará, por exemplo, a recuperação do Colégio Sacré Coeur destruído e vendido? Como se recuperarão as religiosas que rolaram até a prostituição? E como se deterão os efeitos dos erros entregues à lei da matéria e da inércia?
Por mim, e diante de Deus o digo com a maior convicção, não me parece acertada nem generosa essa pregação em que o pregador tão evidentemente se engana a si mesmo para depois poder enganar os outros. Não creio que nossa santa religião se nutra da mentira vital de Ibsen, ou da filosofia da autotapeação.
A verdade incontornável é a do processo de alargamento da conspiração mundial contra a Igreja de Cristo, promovida com o apoio de seus levitas que não abandonam oportunidade tão propícia para os profissionais do sensacionalismo e do escândalo.
Que figuras quereriam os otimistas que a Igreja imitasse? Que itinerário esperariam que ela copiasse? O dos negociantes prósperos? O dos generais vitoriosos?
A história da Igreja será necessariamente uma imitação da história de Cristo. Teve sua infância obscura, teve o massacre dos inocentes, teve um período de construção e consolidação da doutrina da Salvação. Teve durante mil anos o domingo de Ramos. Entrou depois em quatro séculos de Gethsemani. E agora terá não sei quantos milênios de flagelação.
Estamos no começo do segundo mistério doloroso. O Corpo Místico de Cristo é insultado, chicoteado, cuspido. E a mais bela das casas expõe aos viandantes um deplorável aspecto de desolação e ruína. Virão depois os milênios da coroa de espinhos, os milênios do caminho da cruz e os milênios da crucificação. O que não é admissível – mas foi longamente admitido por equívoco – é a confortável e rotineira instalação da Igreja no Mundo. E o que também não é admissível é que a promessa de que não prevalecerão as portas do Inferno se aplique aos Suíços do Vaticano, aos paramentos e à cor das meias dos prelados. Entre as notas essenciais da Igreja sabemos que sua santa visibilidade foi desde o início concebida por Deus, mas também sabemos que a Igreja não é visível em todas as suas partes, nem é sempre visível em todos os momentos naquelas partes em que se concentra o fulgor de sua visibilidade.
Preparemo-nos, sem ilusões, sem apegos, e sem medo, ao dia do grande eclipse. Não nos enganemos, não nos iludamos, não nos esquivemos: a idéia de uma restauração a breve prazo nos compele à fantasmagoria grotesca que certamente Gladstone e Maritain não subscreveriam. Eu vejo uma procissão de arrependidos, de frades descasados, de filhos de padres involuídos ao útero e ao nada, vejo milhões de lúmens se restaurarem, e vejo, num paroxismo de esperanças drogadas, uma abadessa a criticar severamente os ensaios da “grande reverence” que as noviças deveriam fazer no claustro cada vez que cruzassem com a abadessa. Não estou com nenhuma vontade de rir. Por vários motivos tudo hoje me inclina mais depressa à lágrima, mas não posso deixar de achar engraçado esse otimismo que tanto subestima a energia nuclear da burrice humana hoje aplicada com zelo às coisas santas.
Amigos, unamo-nos, agarremo-nos à cruz de Nosso Senhor, à Igreja essencial, ao cerne, ao Corpo Místico, e às cinco chagas de Cristo. Com toda a força de nossa Esperança repilamos as esperanças enganosas e esperemos no cerne da Igreja, in medio Ecclesiae, o verdadeiro despontar da aurora de um Novo Mundo.
E resistamos fortes na fé, como tantas vezes nos disse o mesmo amigo distante Gladstone Chaves de Melo.”
(Gustavo Corção, Um Otimismo Descabido)

segunda-feira, 6 de março de 2017

Gustavo Corção: Antigamente calavam-se...


“Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: "Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?"
Ia responder-lhe com ênfase: "Era!" Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: "Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. A burrice não é novidade, é antiqüíssima. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem mal feita a pintura.
— Mas, calavam-se, disse eu.
E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera...
— Pois é! CALAAAVAM-SE!!!
Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu heróis dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu "explicador" de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.
Recomeçava eu a explicar certo problema quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:
— Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.
Na outra ponta do fio meu amigo de hoje explodiu:
— Que gênio! QUE GÊNIO!!
Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo "mutação" surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo "um mundo em mutação".
Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenômeno e por conseguinte transmissível?
— "Receio muito", gemeu a voz de meu amigo, "você não leu os jornais da semana passada?"
— O quê? — perguntei com a aflição já engatilhada.
— A descoberta do capim!
Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. Meu amigo não me explicou que se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man, de Chesterton, ou do Homo postconciliarius. Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos.
* * *
Estas reflexões amaríssimas, como diria o "agregado" de Machado de Assis, vieram-me hoje ao espírito depois da leitura de La Documentation Catholique, e principalmente depois da casual leitura de um volume encontrado entre outros livros de vinte anos atrás: O personalismo, de Emmanuel Mounier.
Nunca lera nada desse personagem que fundou a revista Esprit e que fez escola. Abri a página 42 da tradução editada pela Livraria Duas Cidades e li: "O homem é um ser natural". Detenho-me nesta proposição seguida desta outra: "Será somente um ser natural?" E depois: "Será, inteiramente, um joguete da natureza?" Ora, é fácil de ver que nenhuma dessas proposições têm sentido, e nenhuma conexão se percebe entre elas. Ou então, se o leitor quiser ser mais exato, diremos que todo aquele fraseado joga com a polivalência te termos equívocos pretendendo com essa confusão transmitir ao desavisado adepto do "personalismo" um sentimento de profundidade ou de rara acuidade. O que quer dizer "um ser natural"? Dotado de natureza própria todos os seres o são, desde o átomo de hidrogênio até Deus. Tenho diante dos olhos o dorso de um livro de Garrigou-Lagrange: Dieu, son existance et sa nature. Logo, Deus é um ser natural. Se por natural se entende tudo o que pertence ao Universo criado, todos os seres, exceto o Incriado, serão seres naturais: a água, um gato, São Miguel Arcanjo. Se o termo natural se contrapõe a artificial, todos nós sabemos que um homem não é montado como um rádio de pilha, ou como uma máquina de costura. Logo, é um ser natural. Mas não se entende por que razão foi preciso fundar Esprit, lançar o progressismo, atirar-se nos braços do comunismo, comprometer Jacques Maritain, excitar tanta gente em torno de tão óbvia proposição.
Emmanuel Mounier já morreu coberto de glória há mais de dez anos. Podemos tranqüilamente dizer que era burro, apesar de tudo o que foi escrito em francês a seu respeito, como já podemos dizer tranqüilamente que Teilhard de Chardin era meio tantã. Dentro de cinqüenta anos ninguém mais saberá em que consistiu o "personalismo" de Mounier, ou o "phenomène humain" de Teilhard de Chardin. Essas obras foram o consolo e a volúpia de muitos leitores que, não entendendo nada do que liam, ao menos se aliviavam com este pensamento balsâmico: todos os livros são escritos para ninguém entender. E assim os idiotas do mundo tiveram um decênio ou dois de júbilo.
Passarão esses autores, mas se é verdadeira a descoberta das propriedades do capim, muitos novos autores surgirão a perguntar "se o homem é um ser natural". Já se ouve o tropel... Mas — quem sabe — talvez o próprio capim, entre suas virtudes estudadas em Estocolmo ou Copenhague, entre duas Pornôs, traga uma espécie de calmante que nos devolva o genial tipo clássico do burro que se conhecia e que não fundava revistas católicas nem rasgava novos horizontes para a Igreja.”

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Gustavo Corção: A vocação da mulher

“No meu tempo de rapaz houve uma época em que, cansado de estudar as crateras da lua e os anéis de Saturno, passei a interessar-me pela avicultura. E, como sempre misturei às coisas mais práticas um pouco de teoria, comecei por munir-me de um tratado. Ora, esse tratado que então adquiri, começava por essas inacreditáveis palavras: ‘A galinha e as aves domésticas em geral tanto podem ser cuidadas por um homem como por uma mulher’.
Naquele tempo o autor do tratado pareceu-me doido. Assentei comigo mesmo que o era, e que não oferecia grande segurança nos finos problemas de alimentação, do choco e da gosma, um livro que começava com tão colossal quão inútil distinção. Deixei o livro, e poucos meses depois deixei os ovos.
Hoje, entretanto, não sei por que misterioso trabalho da memória, voltou-me aquela primeira frase do avicultor e de repente, descobri-lhe a sabedoria que me escapara na mocidade. Ou então, usando da relatividade, eu diria que o deslocamento de tempo, a modificação das idéias e costumes, acabaram por transformar em sábio o que naquele tempo era insano.
Senão, vejamos. Dizia aquele autor que a galinha pode ser cuidada por um homem ou por uma mulher. Ora, quem diz isto, é porque sabe, e deixa subentendido, que há outras coisas outras atividades, em que não é indiferente o sexo. Ainda mais, o que parece hoje digno de nota naquele texto é o ar, digamos assim, de surpresa, de quase admiração com que o autor reconhece a existência de um gênero de atividade em que a mulher e o homem possam se desempenhar com igual proficiência. Em outras palavras, o que ele dizia lá no tratado de avicultura, podia ser formulado assim: «A mulher e o homem são terrivelmente diferentes; mas apesar disto podem ambos cuidar de galinhas».
É claro que a sabedoria que existe naquele texto, ou que eu porventura lhe empreste, está toda contida na primeira parte da proposição: a mulher e o homem são de fato diferentes. Ambos podem fazer certas coisas, como por exemplo criar galinhas, mas vou agora mais longe que aquele sutil avicultor, e começo a pensar que, mesmo nessa simples atividade, o homem e a mulher não terão o mesmo estilo em avicultura. Ao contrário, na menor das coisas que façam, ficará a marca dos dedos que a fizeram, e como a diferença do sexo vai até a ponta dos dedos, resulta que ficará na coisa cuidada a marca de quem cuidou, homem ou mulher.
O ponto onde quero chegar, com essas considerações que roçam pelo delírio, é o seguinte: devemos acentuar a diferença, ao menos como tática de argumentação, porque um dos vícios de nosso tempo consiste precisamente em procurar a simplificação da uniformidade. A desordem de nosso tempo consiste em tender para o amálgama, para o informe, para a massa, para a sociedade sem classe, para um mundo sem limites, para uma vida sem regras, para uma humanidade sem discriminações.
Ao contrário disto, a sociedade que desejamos construir é uma sociedade ricamente diferenciada, e nitidamente hierarquizada. Só é possível pintar um belo quadro porque o vermelho é diferente do azul; só é possível tocar uma bela música porque há certa consonância nos acordes de quinta e certa dissonância nos acordes de sétima. E só é possível uma bela e boa sociedade de homens se as diferenças de natureza forem levadas até suas últimas conseqüências: quando se admitir, por exemplo, no unânime consenso que a mulher e o homem são diferentes.
A tendência moderna é de atenuar as diferenças. Imaginem o que seria de nós se, por exemplo, os bombeiros hidráulicos resolvessem tornar-se, o mais possível, semelhantes aos avicultores; ou reciprocamente, se os avicultores tentassem trazer para os galinheiros a técnica da solda e do desentupimento. É claro que ao cabo de poucos meses não teríamos nem ovos nem água. Uma sociedade humana não pode dispensar o bombeiro hidráulico, nem o avicultor. Uma sociedade humana, passavelmente organizada, não pode sequer tolerar a idéia de que um cano de chumbo e um ovo sejam aproximadamente a mesma coisa.
Há circunstâncias muito especiais em que todas as pessoas de uma certa comunidade são chamadas a tarefas semelhantes. Nessas circunstâncias triunfa uma certa uniformidade. Trata-se, por exemplo, de um incêndio generalizado? Todos devem acorrer com mangueiras, extintores, areia. Trata-se agora de uma devastadora epidemia? Todos devem trazer sua contribuição de emergência para debelar o flagelo. Trata-se enfim de uma guerra? Todos devem oferecer seus préstimos para a mais breve e decisiva vitória.
Quanto mais nítido e mais próximo é o fim, mais homogênea se torna a necessária contribuição de todos. Mas mesmo nesses casos de fins próximos e nítidos, mesmo na fome, na peste e na guerra, a cooperação verdadeiramente eficaz tem o cunho de organicidade que se constitui pela unidade na diversidade. O concerto dos atos humanos só tem verdadeira ordem e harmonia quando realiza a união de coisas diversas. Vejam na guerra como é bom que existam homens com aptidões diferentes. Vejam no incêndio que os bombeiros, apesar dos uniformes, não são uniformes. Seus gestos, suas atitudes, seus instrumentos, variam tanto como se ali estivessem representando um feérico e harmonioso bailado do fogo. Vejam também na peste que os homens se dividem, tratando estes dos vivos enquanto aqueles cuidam dos mortos.
Ora, o funcionamento normal de uma sociedade, que inscreve todas as vidas e todos os problemas de todas as vidas, é mil vezes mais complexo do que o incêndio, a peste e a guerra, a normalidade é mais rica e mais difícil do que a anormalidade; e o problema social, nas mais intrincadas situações, deve ser tratado com os métodos, os resguardos, as atenções, a harmonia que a normalidade exige. Por isso, mais do que nas situações anômalas, o problema social dos tumultuosos tempos de paz devem ser conduzidos dentro do concerto das aptidões diferentes. E, quanto mais infantil for a criança, e quanto mais mulheril a mulher, e quanto mais varonil o homem, tanto melhor realizaremos em cada situação concreta a ordem, cambiante mas verdadeira, que é o fundamento da felicidade dos povos. O bem, a perfeição da sociedade, está na infantilidade da infância, na feminilidade da mulher, na masculinidade do homem.
O concurso que as mulheres têm trazido ultimamente, lamento dizê-lo, tem mais a marca da uniformidade do que o cunho autêntico da organicidade. Elas vieram ao nosso encontro. A última guerra viu mãos femininas nos tornos mecânicos e no controle dos aviões de bombardeio. E essa situação ainda continua. Elas vieram ao nosso encontro, mas o seu concurso tem sido apenas numérico, quantitativo, mecânico. Vieram ao nosso encontro como pessoas, como braços, como cabeças, mas não vieram como mulheres. O coro das vozes engrossou, mas não se tornou mais harmonioso. O conjunto de gestos se multiplicou, mas não se tornou mais ordenado. Vieram ao nosso encontro para fazer as mesmas coisas. Com os mesmos gestos.
E, se vieram fazer o que nós fazemos, é forçoso convir que se declararam derrotadas naquilo que as diferencia de nós. Se adotaram os nossos gestos, forçoso é convir que uma tal capitulação não merece, senão à custa de uma ginástica verbal, o nome de emancipação. Lembro aqui uma passagem de Chesterton em que ele dizia que o tigre pode emancipar-se das barras da jaula, mas não pode emancipar-se das barras da sua pele tigrina.
O mundo, com essa contribuição da mulher, arrisca-se ao mais terrível dos cataclismas: a ficar reforçado na quantidade, e mutilado na qualidade. Imaginem que pobre música seria aquela em que as flautas andassem constantemente uma oitava acima dos fagotes a lhes imitar todos os contornos melódicos. Seria justo falar na grande emancipação das flautas?
Pois o que eu quero dizer é que a famosa emancipação da mulher é qualquer coisa como andar sempre uma oitava acima de nossos timbres masculinos. Dizem as nossas mesmas frases, mas em falsete.”

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quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Igreja é dona da verdade

“Muitas vezes vemos estampada em revistas da revolução dita “progressista” esta sentença: “A Igreja não é dona da verdade”, com a qual, quem a enuncia demonstra uma secreta vergonha de pertencer a uma Igreja de vinte séculos que ainda acredita em coisas que o mundo moderno julga inacreditáveis; ou então pensa estar fazendo um gesto de apreciável humildade quando reconhece as manchas e as rugas de tão antiga instituição. Outros sentimentos ainda menos nobres poderão ditar a mesma sentença. Cardeais, arcebispos, bispos, padres e leigos dizem “que a Igreja não é dona da verdade” dentro de uma faixa de intenções que se estende do simples respeito humano até o repúdio apóstata.
Ninguém, evidentemente, jamais pretendeu ou pretenderá atribuir à Igreja a posse das verdades astronômicas, ginecológicas, paleontológicas, econômicas e sociológicas. Aliás são justamente os ditos “progressistas” ou “novos bispos” que desembaraçosamente sentenciam sobre esses vários assuntos, e outros mais, em que possuem o que o professor Gudin costuma chamar de “ignorância especializada”. Mas esses personagens, ainda que não tenham apostatado, não são a Igreja: são o que Maritain chamou “son personnel”.
Há, porém, um registro em que é preciso dizer que a Igreja Esposa de Cristo, a Igreja-Igreja, única depositária do Sangue de Cristo (nos sacramentos) e das palavras de Deus (na Sagrada Doutrina da Salvação), é guardiã e distribuidora, Mãe e Mestra de todas as verdades que concernem à Salvação e à união com Deus. Nesse registro, que os homens costumam usar para ostentar uma pseudo-sabedoria que foge de qualquer absoluto, nesse sentido nós podemos e devemos dizer que a Esposa de Cristo, em comunhão de bens com o Esposo, é dona da verdade que liberta e que salva.
O que não se pode dizer é que a Igreja seja a causa primeira e autora dos artigos de Fé. Não se pode dizer, por exemplo: “Creio na ressurreição da carne porque a Santa Madre Igreja ensina”. A maneira acertada é esta outra: “Creio na ressurreição da carne PORQUE DEUS REVELOU e porque a Santa Madre Igreja ensina”. No primeiro porquê está a razão, o objeto formal da Fé: a Revelação de Deus; no segundo porquê está o condicionamento (conditio sine qua non) de nossa adesão, porque Deus, no plano da Redenção, não quis confiar a cada um diretamente o dado revelado, mas preferiu confiá-lo à Mãe e Virgem: mãe que distribuirá e o ensinará; virgem que não tocará, que não será espessura, obstáculos, nem destruidora da mínima parcela do tesouro que guarda e distribui. Nesse sentido pode-se dizer energicamente com Santo Tomás, que nada e ninguém traz qualquer adição ou restrição ao dado revelado, nem os doutores, nem os anjos, nem a Igreja — “nihil aliquid quam Veritas Prima”. (II, II, 1.1).
Mas na pauta das circunstâncias concretas do plano de Deus, para nós, “quod nos”, não é somente errôneo negar que a Igreja não é dona da Verdade, é ímpio, é malícia contra a fé que devemos ter na santidade, sem mancha e sem ruga da Igreja de Cristo. Os chamados “progressistas” inverteram os termos da questão abordada magistralmente por Maritain na primeira parte de seu livro “De L’Église du Christ”. Os “progressistas” flagelam desembaraçosamente a Pessoa da Igreja, mas não admitem que lhes pisem os purpurados calos do personnel, que são para eles mais sagrados do que as cinco adoráveis chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
É preciso dizer por cima dos telhados, aos gritos, com cólera ou com dor, que nós não precisamos dos conselhos e da colaboração dos protestantes para decidir a feição de nosso culto de adoração, isto é, para observar e apartear o que temos de mais íntimo na vida da Igreja. Esta falsa modéstia, esta falsa humildade, este falso ecumenismo é que clamam aos céus e a nós nos ferem em nossa honra e no nosso amor.”
(Gustavo Corção, A Igreja É Dona da Verdade)

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

As “sociétés de pensée” e a revolução francesa


"Ninguém até hoje analisou melhor do que Augustin Cochin esse processo de esvaziamento que se operou na ação capilar das “sociétés de pensée” do século XVIII que, para os historiadores superficiais, continua a deter o campeonato do verniz.
“É no declínio do reino de Luís XV que o fenômeno se difunde na França. O Grande Oriente se constitui em 1773. As sociedades secretas e ordens diversas, Escoceses, Iluminados, Swedenborgeanos, Martinistas, Egípcios, Amigos Reunidos, disputam adeptos e correspondentes. Vê-se, enfim, de 1769 a 1780 saírem da terra centenas de pequenas sociedades semidescobertas, autônomas em princípio, como as lojas, mas agindo em comum, como também as lojas, constituídas à semelhança delas e animadas pelo mesmo espírito “patriota” e “filósofo”, que escondia mil objetivos políticos semelhantes sob pretexto oficial de ciência, beneficência ou divertimento. (...) O reino dos salões da maledicência espirituosa e elegante passou. Começa agora o das sociedades do livre-pensamento.” [Augustin Cochin, La Révolution et la Libre-Pensée, Plon, 1924, pág. XXIX (introduction)]
E adiante Cochin nos apresenta com incisiva configuração o objeto, ou melhor, o não-objeto dessas academias:
“Elas não são apenas agência de notícias, mas sociedades de encorajamento ao patriotismo, tribunais de espírito público. Para atingir esse fim, criam uma república ideal à margem e à imagem da verdadeira, tendo sua constituição, seus magistrados, seu povo, suas honras e suas lutas. Ali se estudam os mesmos problemas políticos, econômicos etc. Ali se trata de agricultura, de arte, de moral, de direito. Debatem-se as questões do dia, julgam-se os homens eminentes. Em resumo, esse pequeno Estado é a imagem exata do grande, com uma só diferença: não é grande, não é real.
Seus cidadãos não têm nem interesse direto, nem responsabilidade engajada nos negócios de que falam. Seus decretos não passam de desejos, ou votos, suas lutas são meras conversações, seus trabalhos são jogos. Nesta cidade das nuvens, faz-se a moral longe da ação, a política longe dos negócios: é a cidade do pensamento.” [Ibid., pág. XXX]
Augustin Cochin grifa o termo pensée que, melhor do que a tradução portuguesa, exprime o vazio desse processo mental em que a inteligência se libera – se podemos empregar esse verbo ainda carregado de certa nobreza para exprimir tão degradante capitulação – do conhecimento real ou da reflexão, para comprazer-se numa efervescência verbal que mal recobre a indigência do espírito que à exigente procura da verdade e do bem prefere essa liberdade que relativiza tudo exceto seu próprio vazio. O liberalismo, que na Inglaterra, com Locke, começa numa depravação do conhecimento que todavia ainda se apega à experiência e ao conhecimento, no país que tem a vocação da inteligência haveria de começar e de se estender ainda mais baixo, desprendido da própria experiência e reduzido ao livre jogo de opinião, à doxia que não faz questão de ser ortho nem hetero, coroado ou paramentado este pouco ou quase nada com o termo mágico: pensée, libre-pensée.
“Há aí um fato geral que é preciso estudar em si mesmo se quisermos compreender os efeitos no início da Revolução. Todas essas Sociedades têm o mesmo caráter: são Sociedades igualitárias de forma, e filosóficas de objeto, o que hoje chamaríamos Sociedades de livre-pensamento. Formavam o arcabouço material da “república das letras” e deram à “filosofia” uma consistência, um vigor, um império sobre a opinião sem exemplo até então.
Com efeito, embora ideal, o novo Estado, a “república das letras” ganhou, entre 1760 e a Revolução, uma prodigiosa extensão. (...) Ora, não está aí um fato capital, e desprezado demais, do fim do século XVIII?
Este estado de coisas, a própria existência das Sociedades de Pensamento, da casta de opinião que nelas se desenvolvia, das condições especiais em que punham os autores e o público, teve efeitos muito graves sobre o movimento das idéias: porque impunha de início, e sem apelo, aos autores e ao público, o ponto de vista “intelectual”, irreal.
Nunca talvez a corrente geral das idéias, da literatura, esteve tão afastada das realidades, do contato com as coisas, como nesse fim de século. Basta mencionar filósofos políticos como Rousseau e Mably, historiador como Raynal, economistas como Turgot, Gocernay e a escola do laisser-faire, homens de letras como La Harpe, Marmontel e Diderot.
É assim que nasce o filosofismo. A prática da libre-pensée tem graves conseqüências, desde logo, para começar, na ordem intelectual. Os privilegiados esquecem seus princípios; nós poderíamos citar, do mesmo modo, o cientista a esquecer-se da experiência e o religioso a esquecer-se da fé. O fato da experiência, o dogma religioso, tais são com efeito as duas ordens de fato impostas brutalmente de fora à nossa inteligência, e dispostas a deter o impulso da “filosofia”, ou, como se diz hoje, do pensamento livre. A “filosofia” (ou livre-pensamento) derrubará estes entraves à liberdade: a experiência, a tradição, a Fé.” [Ibid., pág. XXXIII]
Sem pretendermos reduzir a este veio todo o sistema fluvial de causas históricas, podemos talvez afiançar que Augustin Cochin, no que se refere à preparação da Revolução Francesa, dá-nos a fortíssima impressão de estar acertando nos pontos mais feridos e doloridos de uma civilização em processo de niilização. E eu diria que é en creux que se prepara a Revolução. Os “horríveis trabalhadores” vistos por Rimbaud, numa espécie de retrovisor, não erigem, cavam. São os “escavadores do nada” vistos por Bloy. E a maior impostura da História, a ser ultrapassada pelo comunismo, não é uma explosão – é antes uma implosão.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O milagre da Idade Média


“Através da confusão da decadência do Império Romano desenha-se uma linha histórica marcada pela era patrística, que culmina com Agostinho, e das ruínas do mundo antigo começa a firmar-se a mais extraordinária e misteriosa experiência histórica: a Cristandade ou Civilização Cristã. Esta idade, ou statio da humanidade, realizada por mais de um milênio no ocidente cristão, se alguém quer admirá-la pelo que ela tem de mais admirável, terá de começar por aquilo mesmo de que ela é acusada pelo trepidante e insensato espírito moderno: terá de começar por admirar sua feição realmente estacionária.
Há na vida comum dos povos o mesmo paradoxo que se observa na vida dos corpos. À primeira vista, e às vezes nas últimas vistas dos espíritos fracos, a vida parece ser antes de tudo um movimento, um crescimento e até uma evolução; é preciso aprofundar o estudo para descobrir que o ser vivo, antes de tudo e principalmente, quer permanecer. Toda a intensa atividade do ser vivo converge para o interesse central que é a mantença de uma forma. Assim também mediríamos a mais profunda e intensa vitalidade de um momento histórico por sua profunda e intensa imobilidade. Enquanto os séculos triviais, ou subservientes ao tempo, têm empenho de passar, como se passar fosse seu ofício próprio, a Civilização Cristã da Idade Média pareceu querer estacionar, não como as civilizações adormecidas ou hibernadas, mas como uma experiência única que mais pareceu querer eternizar-se, pareceu querer rejeitar a História, como se todos os feitos de mais de mil anos tivessem o objetivo de deixar multi-luminosamente abertas até o fim do mundo as rosáceas das catedrais feitas de uma composição impressionista e indelével de pedra e luz.
As trevas da Idade Média – disse o judeu Gustave Cohen – são realmente as trevas de nossa ignorância; e creio que Egon Friedel, outro judeu, disse por outras palavras a mesma coisa.
Rompe-se o equilíbrio no seu esplendor. O século XIII, o maior dos séculos, abre-se para o tormentoso e enlouquecido século XIV. E depois do sombrio corredor de loucuras, luxúrias e flagelações, começa a “via modernorum” pelos dois portões engalanados da Renascença e da Reforma.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma imagem para a "Nova Igreja" dos progressistas


“Como os aviões a jato, o “progressista” só se move “para frente”, isto é, na direção a que ele dá todas as eufemísticas denominações, à custa da retro-rejeição de sua própria substância. Não me custa muito imaginar a “Nova Igreja” dos progressistas numa vistosa e engalanada aeronave que se dirige para o sonhado Novo Mundo, com uma propulsão que vem da vigorosa evacuação de sua carga. Joga para trás o latim e graças a esse jato avança alguns quilômetros; repele vigorosamente o gregoriano, e avança outros tantos quilômetros; evacua vigorosamente as imagens, as batinas, as tonsuras, os sinais sagrados: novo avanço; num jato cada vez mais forte se deslastra do missal, do breviário, do celibato sacerdotal; acelerando o motor de retro-rejeições, joga fora os dogmas, os mandamentos e as bem-aventuranças. E assim, varando a estratosfera, como um bólido incandescente, a aeronave chegará um dia a Marte ou Vênus, onde os habitantes, estupefatos, verão que a enorme e coruscante aeronave não traz coisa nenhuma a ninguém: chega vazia, traz o vácuo absoluto e absolutamente ecumênico.”
(Gustavo Corção, O Século do Nada)